Vivemos tempos estranhos. De águas turbulentas. Tantas incertezas e decisões bizarras no ar, tanta desinformação, e com tantos desafios gigantescos sérios a cavalgar.

(Eu sei, a foto não é realmente sub… mas considerando a turbulência desta água, não demora pro barco afundar. Só depende da habilidade de quem está guiando este barco – nós.)

Águas turbulentas

Agora isso.

Eu deveria estar triste com esta notícia. Mas do fundo do meu coração, acho que a gente não pode perder o foco no futuro nem a esperança. Não temos tempo para pessimismo, muito menos para desânimo. Temos que usar este momento como o que ele é: mais um obstáculo. E se unir e tentar tomar atitudes locais que façam a diferença. É hora de mostrar a força do efeito formiguinha – que já é um formigueiro cheio de ramificações e ideias interessantes. É hora de passar por cima deste obstáculo e continuar na corrida (maratona?) por um futuro mais saudável para as próximas gerações. Nada de derrotismo, o negócio é bola pra frente que ainda tem jogo rolando.

Vamos lá?

Tudo de futuro melhor sempre.

Postado em 02/06/2017 por em Sexta Sub

Antes de ir pro Vietnã, coincidentemente assisti a um programa na BBC sobre os melhores cafés “escondidos” de Hanoi. Neste programa, foi mencionado o egg coffee (café com ovo! na xícara!), uma preparação do tradicional café vietnamita bem peculiar, que chamava a atenção pela raridade: só um café em Hanoi fazia – e o sucesso era absoluto.

Egg coffee

Egg coffee: uma xícara para enlouquecer os amantes de café.

Cafeinômana que sou, meus olhos brilharam ao ouvir tal informação: um novo tipo de café! E anotei imediatamente na minha lista de viagem ao Vietnã: tomar um egg coffee.

No programa de TV, eles não deixavam claro onde ficava este café, mas nada que uma pesquisa básica no google não resolvesse: Café Pho Co, na Hang Gai st., pertinho de uma rotatória enorme na beira do lago Hoan Kiem, no centro nevrálgico de Hanoi. Mas aí fui prestar atenção em como chegar neste café, e a aventura começa aí: a entrada pro café fica dentro de uma lavanderia/loja de roupas, e você facilmente passa batido sem perceber. Um verdadeiro egg coffee hunt. 😀

Assim que cheguei em Hanoi comecei minha busca pelo egg coffee. Subi e desci a Hang Gai algumas vezes, até que vi a placa minguada do Café Pho Co, facilmente imperceptível com tantas placas ao redor. A entrada era mesmo pela loja de roupas, e você segue num beco estreito até um pátio interno, onde fica o caixa para fazer o pedido. Detalhe: você não pode esquecer de fazer o pedido aqui, pois as mesas do café ficam no 3º e 4º andar, e não tem ninguém para pegar os pedidos lá em cima. Delícias do Vietnã…

Subida para o terraço.

O ambiente do café é Vietnã na veia, muito legal. Parece saído de um filme. As escadas estreitas, com um pequeno templinho budista no segundo andar, super zen. No terceiro andar, algumas mesas voltadas para o pátio com plantas, e no quarto andar (o último), mais mesas, desta vez com uma pequena vista para o lago.

A garçonete anda pra cima e pra baixo levando os pedidos feitos lá embaixo para os clientes nos andares de cima – haja exercício. Sentamos numa mesa no quarto andar, para tomar o famoso café com ovo.

E que café! Delicioso! Super-cremoso. Jamais imaginei que a mistura de café com ovo fosse ficar tão gostosa. É quase uma gemada, mas como o gosto do café vietnamita é bem diferente do nosso, a mistura fica com um quê mais exótico. US$2,00 muito bem empregados.

Gostei tanto, que antes de ir embora de Hanoi voltei para tomar outro. Só de escrever este post, já fiquei com vontade de voltar lá.

O templinho no segundo andar.

E aconselho aos amigos: não saia de Hanoi sem provar o egg coffee.

Tudo de bom sempre.

Listas. Aquela coletânea que amamos odiar ou odiamos amar, a ordem dos fatores não altera o produto que é: vamos pitacar sobre.

E todo ano, o Dr. Beach, um expert (de verdade!) em praias, lista suas praias prediletas dos EUA – e o faz de uma maneira bastante científica até, afinal ele é um professor-pesquisador de Regiões Costeiras da Universidade Internacional da Flórida. Em geral, em sua lista anual aparece pelo menos uma praia do Havaí, uma honraria que o turismo do estado agradece e divulga.

Costumo comentar aqui no blog sobre a praia havaiana citada nesta lista do Dr. Beach – ano passado foi Hanauma Bay, e em 2013 foi Waimanalo, por exemplo. Ambas em Oahu.

A lista de melhores praias de 2017 by Dr. Beach saiu na semana passada e nela constam na lista duas praias havaianas: Kapalua Beach, em Maui (2º lugar) e Hapuna Beach, na Big Island (8º lugar). merecidas, pois são lindas mesmo. Mas, para a brincadeira ficar interessante, eis meus pitacos sobre elas. Já aviso de antemão: concordo com Kapalua, discordo de Hapuna – sim, sou #malla. 😀

Kapalua Bay Beach fica na costa oeste de Maui, uma das costas mais incríveis do Havaí. Neste lado da ilha, estão outras praias sensacionais como Napili e Kahakuloa. A praia de Kapalua é rodeada por condomínios de temporada e ali perto, fica o Ritz Carlton, um dos melhores hotéis de Maui. Kapalua Bay é uma opção menos óbvia de praia naquela costa, ótimo lugar para fazer um snorkel ou realmente relaxar e esquecer da vida. A praia é mesmo das mais lindas de Maui e só é acessível depois de uma caminhadinha pela trilha que beira a costa – talvez esta seja a cereja no topo desta praia para não ficar muvucada.

Praia do Ritz, ao lado de Kapalua.

Dica malla: vá para ver o pôr-do-sol no Merriman’s, que fica no canto esquerdo de Kapalua Bay e tem um dos melhores happy hours do estado.

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Hapuna Beach

Hapuna Beach é uma praia de areia branca-amarelada na Big Island – e isso em si já é uma raridade. Talvez este seja motivo para que Hapuna entre nesta lista num honroso oitavo lugar.

Veja bem, a Big Island tem inúmeras praias, mas ou elas têm areia de cores incomuns, como Punaluu ou Papakolea, ou as praias são pedregosas, como em Kealakekua – ou não há extensão decente de praia, como em Honaunau, ou pior ainda, a praia tem tanto pedaço de coral que não dá nem pra esticar uma canga direito, como a praia do Hilton Waikoloa Village na costa de Kohala. Com tanta praia diferente, claro que uma praia “normal” com cara de praia de foto de instagram, com areia clara e mar azul, vai se destacar, mesmo que não seja uma brastemp.

A grande questão é: quem vai a Big Island quer mais é pra aproveitar o mar (mergulhar, snorkelar, surfar, etc.) ou fazer atividades terrestres (ver o vulcão, as cachoeiras, tomar bons cafés, etc.). Não acho que a Big Island seja uma ilha para se esticar na areia e tomar sol – é uma ilha exatamente para explorar esse monte de praia diferente, muitas que você não verá igual em lugar nenhum do planeta.

Mas, se você quer se esticar na areia, principalmente do lado de Kona, sobram: Hapuna, Mauna Kea Beach e Mauna Lani, todas ao norte de Kona, em Waikoloa. E dentre elas, Hapuna é a maior. Ou seja. Não é maravilhoooosa, mas é uma praia bonita, digamos assim. E ótima pra tomar sol e esquecer da vida – no conceito de praia mais tradicional que temos.

Vale lembrar que Hapuna agora tem um sistema de cobrança do estacionamento – US$5,00 por veículo. A praia costuma lotar aos fins de semana, portanto chegue cedo. Em geral é uma praia mansinha, mas de vez em quando o swell bate – e aí ela pode ficar bem perigosa.

Mas, o melhor de tudo mesmo: venha ao Havaí, veja o máximo de praias possíveis e decida você mesmo por suas melhores. Quem topa esta ideia? 😉

Tudo de pitaco em lista sempre.

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  • Eis minhas listas de melhores praias do Havaí: em 2009 e em 2014 – daqui a pouco preciso atualizar de novo minha listinha também… 😀 

Nos últimos dias, tem acontecido um fenômeno natural incomum em todo o Havaí: a super-maré alta, ou king tide em inglês. Na super-maré alta, o mar chega a ficar bem acima de sua altura normal indicada na tábua de marés. Isto pode causar problemas nas regiões costeiras, como inundações de ruas, diminuição da areia das praias e erosão. O fenômeno ocorre em praticamente todos os oceanos do planeta.

E por que tal evento de repente começou a gerar tanto buzz no Havaí (e pelo Pacífico) em 2017?

Primeiro, porque este king tide do verão de 2017 está previsto para ser o maior em 100 anos de registro das marés, com a maré alta em impressionantes 70 cm (quase um metro!). Este valor é inédito no Havaí, e nunca registrado tão elevado desde que se começou a medir a altura das marés no estado. Uma conjunção de fatores permite a subida tão drástica da maré nesta primavera/verão, e especificamente no king tide de ontem, contribuíram um swell relativamente grande, que trouxe ondas de até 10 pés para a costa sul das ilhas, e uma maré lunar (lua nova começando a crescente…) alta incomum – além do aumento do nível do mar que já ocorre no mundo, claro.

Segundo, porque se as previsões mais conservadoras das mudanças climáticas se concretizarem, a maré que vemos hoje no king tide passará a ser a maré normal. É como se estivéssemos presenciando o primeiro sinal prático do futuro que nos espera, de como será nossa região costeira com o aumento do nível do mar.

O hotel Outrigger Reef, que é pé na areia, tinha virado pé na água. Fizeram uma trincheira de areia para tentar segurar o mar de chegar na escada de seu restaurante, mas como podem ver na foto, não estava sendo muito efetiva.

Terceiro, porque um dos lugares mais afetados pela king tide de 2017 será Waikiki – a praia número 1 do turismo havaiano. Já comentei antes que as previsões para Waikiki em tempos de mudanças climáticas não são muito otimistas, principalmente dada a sua importância econômica para o estado. Esta king tide de 2017 pode ser o primeiro alerta para os hotéis e restaurantes de beira de praia da região para realmente começarem a pensar em medidas sérias de mitigação dos problemas que vêm aí – perceber quais áreas da propriedade/costa estão mais vulneráveis e trabalhar nelas prioritariamente.

Um pedaço do calçadão de Waikiki, antes…

Waikiki desapareceu

…e depois.

Por estas razões, os cientistas havaianos estão estudando com muita atenção e carinho as king tides deste verão – e pedem a ajuda colaborativa dos cidadãos e turistas que estiverem por aqui para registrarem o impacto desta super-maré alta pelas ilhas e subirem para o site deste projeto de citizen science. O projeto, liderado pelo Sea Grant da Universidade do Havaí, tem apoio de diversas ONGs, incluindo a Surfride Foundation.

Claro, fui lá participar – e tirei umas fotos deste dia peculiar em que a praia de Waikiki desapareceu.

Waikiki desapareceu

Uma Malla em Waikiki observando a super-maré. Esta passarela fica pelo menos 50cm acima do nível médio do mar, e normalmente está seca (ou semi-seca, molhada só dos splashs).

A questão é: até quando a super-maré alta será apenas peculiar – e quando passará a ser a norma? A resposta depende de diversos fatores a que os cientistas têm se debruçado diaria e avidamente calculando, analisando cada peça desse quebra-cabeças climático.

E enquanto a resposta não chega, o jeito é se preparar: coletar mais dados que tornem as previsões mais robustas e específicas, observar e entender os fatores geradores e a interação entre eles, e principalmente pensar em estratégias eficientes para lidar com o mar ali, batendo na sua porta – e entrando sem pedir licença.

A água do mar entrou na laguna do Hilton (à esquerda na foto).

Tudo de mar sempre.

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  • O primeiro impacto já é “cultural”, digamos assim: por causa do king tide, o Hilton Hawaiian Village ontem cancelou a tradicional queima de fogos de sexta-feira à noite. Afinal, o mar invadiu a área de onde eles soltam os fogos. Ok, é apenas um show cancelado. Mas para quem vive aqui, não deixa de dar a sensação de algo estranho no ar…

  • Enquanto o mar bate literalmente na porta dos hotéis da beira-mar e deixa este feeling de “alguma coisa está fora da ordem”, as pessoas continuam ouvindo música de ukulele e tomando seus maitais nos bares, como se nada acontecesse. E fazendo compras. Me fez lembrar aquela cena do Titanic dos violinos… República de Waikiki, né? Um mundo à parte dentro do Havaí…

A Grande Barreira de Corais Australiana, patrimônio natural da humanidade pela UNESCO desde 1981, pede socorro. Vítima de temperaturas oceânicas cada vez mais elevadas por conta das mudanças climáticas, de uma temporada de El Niño massacrante em 2016, de resíduos orgânicos costeiros em demasia, teve ano passado uma área significativa de seus corais morta e mais um tantão de quilômetros danificados.

SOS Grande Barreira de Corais

Challenger Reef, na área norte da barreira de corais, a mais afetada pelo evento de bleaching de 2016. Esta foto dos corais saudáveis é de 1997.

A Austrália tinha um plano de proteção e recuperação a longo prazo deste patrimônio natural único que temos no planeta, com objetivos a serem alcançados até 2050. Entretanto, ontem, 33 anos antes do prazo, os conselheiros do governo australiano afirmaram que este plano a longo prazo já não é mais possível.

A Grande Barreira de Corais agoniza. Sua saúde anda abalada – e o prognóstico não é dos melhores. Tenta resistir a tantos ataques e ameaças cruzando seu caminho. Testa sua resiliência como pode. Tenta resistir às mudanças climáticas – mas talvez uma parcela dos danos já sejam irreversíveis. O nível de acidificação dos mares, a temperatura que não deixa as algas simbiontes coexistirem com seus corais hospedeiros, a poluição, o excesso de turismo – e um governo federal que, ainda hoje, não tem um plano de mitigação das mudanças climáticas decente, e não vê razão (!!!!!!!!!) para parar de investir em carvão como matriz energética.

A Grande Barreira de Corais grita, a seu modo, por SOS.

Mas, no mundo atual tão conturbado, são tantos gritos de SOS que ouvimos todos os dias, que os da Grande Barreira de Corais ecoam como que num vácuo, zumbido de fundo em ouvidos ocupados com outros problemas.

A Grande Barreira de Corais, o maior sistema de corais da Terra, com recifes de até 600.ooo anos, passará a ser listada pela UNESCO como “patrimônio natural em perigo”. O que isso significa? Que haverá maior pressão da UNESCO e mundial em cima da Austrália para fazer algo para salvá-la, ou pelo menos, diminuir o prejuízo.

Mas fazer o quê, se já ultrapassamos há tempos o limite de 350 ppm de CO2 na atmosfera, e estamos hoje a inacreditáveis 409.98 ppm de CO2 – and counting? E com os combustíveis fósseis ainda reinando na nossa rotina diária?

Eu ainda tenho esperança que um dia mais pessoas ouçam o grito ensurdecedor dos corais. A tempo. E que possam vê-los como nas fotos deste post: saudáveis.

Corais de Heron Island, na parte sul da barreira de corais.

Um futuro melhor para os corais sempre: meu desejo do fundo de um coração apertado.

No verão do ano passado, visitei a cidade de Gotemburgo na Suécia (Gothenburg em inglês, ou Göteborg, em sueco). Confesso que a cidade não constava na minha lista de viagens ou locais que sonho conhecer – visitá-la foi uma destas serendipidades que a vida nos oferece de vez em quando e que que a gente abraça com curiosidade.

André fora convidado para dar uma palestra num congresso científico na cidade e eu resolvi aproveitar indo junto de férias. Meu sogro também se juntou nessa “balada escandinava”, andando pra cima e pra baixo pela cidade. Antes de viajar, achei poucas informações sobre a cidade que me interessaram – e então decidi que o roteiro seria mais folgado.

Deixo aqui no blog um roteiro de 5 dias que não segue exatamente a ordem que fiz quando estive em Gotemburgo – rearranjei alguns detalhes para ficar mais eficiente e relax. Cinco dias, em minha opinião, é mais que suficiente para conhecer e aproveitar Gotemburgo com calma. Mas se você tem menos dias na cidade, talvez um condensadão deste roteiro funcione (juntar os dias 2 e 4, por exemplo). Enfim, possibilidades à vontade. Se você como eu um dia cair de para-quedas nesta cidade cool da Suécia e estiver no clima de o-que vier-é-lucro… este é o seu roteiro. 🙂

Informações Básicas

Temperatura: Gotemburgo fica na costa oeste da Suécia, numa latitude um pouco abaixo de Estocolmo. Como fui nos primeiros dias do verão no final de junho, os dias eram longuíssimos – o solstício de verão tinha sido uma semana antes. Praticamente nunca escurecia; à noite o que acontecia era um twilight apenas e o céu nunca ficava pretão. Apesar desta ser considerada a época mais quente/ensolarada do ano, estava ainda friozinho à tardinha para meus padrões tropicais (sou muito friorenta!) e usei bastante cachecol e meia 3/4 de lã. Choveu bastante. A temperatura média era em torno de 16ºC, mas ao meio-dia o calor era ok. O problema é o vento: Gothenburg está na costa e venta bastante principalmente à beira do canal principal da cidade.

Aeroporto: Gotemburgo é bem servida de vôos das principais cidades européias, e a SAS é a empresa aérea sueca de maior importância. O aeroporto internacional de Landvetter fica a uns 40 minutos da cidade e é super-ajeitadinho, apesar de pequeno. Na nossa volta para casa íamos sair num vôo de manhã cedinho, e decidimos dormir uma noite no Landvetter Airport Hotel, a menos de 200m do aeroporto – menos de 5 minutos de caminhada até o balcão de check-in do aeroporto, muito fácil. O hotel é super-conveniente, muito bom e começa a servir café da manhã às 4:30am, para aqueles que, como nós, voariam cedo. O café, aliás, é nota 10, estilo sueco, cheio de peixes defumados, geléias e pães maravilhosos.

Ferry nosso de cada dia…

Acomodações: Na cidade de Gothenburg, nós ficamos em 2 hotéis, ambos fora do centro, do outro lado do rio Göta: passamos uma noite no Quality Hotel 11, em Eriksberg, e depois 4 noites no Radisson Blu Riverside, em Lindholmen, dentro do Science Park da Universidade de Chalmers. O Quality Hotel 11 é simples e eficiente, só achei meio fora de mão. Já o Radisson Blu Riverside me encantou pela temática científica e pela localização ao lado do lindíssimo Kuggen. Meu sogro ficou no Radisson Blu Scandinavia, e também achou um ótimo hotel – cuja localização era bem mais central e conveniente. Nos três hotéis, o café da manhã estava incluso, super-farto, em estilo sueco.

Transporte público: Nós literalmente andamos por Gotemburgo, porque o clima do verão permitia, e pegamos o mínimo possível de bonde, ferry ou ônibus. No geral, achei a cidade facílima de se caminhar, e um mapa como o do escritório de turismo é suficiente para que você faça bom proveito da cidade à pé. Mas para quem não quiser encarar quilômetros de caminhada, a cidade oferece o City Card, que além de transporte, dá direito à entrada gratuita em diversos museus e atrações da cidade, ou passes de 3 ou 7 dias, compráveis em qualquer loja Pressbyrån (a maior rede de conveniência da cidade).

Fika: O que eu mais curti na Suécia foi descobrir sua culinária, super-diferente e rica. E exercer o direito de fika, uma das tradições suecas mais deliciosas. Basicamente, é uma “hora do cafezinho” versão escandinava, uma parada no meio do dia para comer um docinho, apreciar um café gostoso enquanto se bate um papo com os amigos de forma descontraída. Um momento de socialização, que alguns acreditam ser o responsável pela eficiência sueca. Não saia de Gotemburgo sem pelo menos uma vez sentar num café para uma fika porque é nesse momento que os suecos se revelam mais interativos e sorridentes.

5 dias em Gotemburgo

Prepara um drip coffee para a fika, por favor, moço! <3 #MelhorCafé

(Para uma cafeinômana latina como eu, a pausa da fika só me fez cair de encantos imediatos pela cidade e minha estadia se tornou uma grande e contínua fikação. 😛 )

Dia 1 – Beira-rio

Começamos a manhã andando pela beira do rio Göta em Eriksberg. No passado, o bairro tinha um grande estaleiro, que faliu na década de 70 – mas deixou para trás um grande guindaste com o nome do bairro, que hoje é marca registrada da região. Eriksberg hoje é residencial moderna e o calçadão é super-delicioso, com alguns cafés para sentar e passar o tempo entre as inúmeras marinas. No dia em que andamos ali, como era início do verão, diversas famílias passeavam com crianças e bebês.

Num dos píers está estacionada uma réplica do veleiro Götheborg, um dos maiores veleiros de madeira do mundo e que cruzou os mares nórdicos no século XVIII. Há visitas guiadas para ver o navio por dentro – nós não fizemos porque os horários são bem restritos, mas fiquei com bastante vontade…

O que mais me encantou pelas ruas de Eriksberg, na verdade, foi descobrir diversas hortas comunitárias e perceber o quanto as construções suecas estão pensando em sustentabilidade e economia verde em seus detalhes – a quantidade de telhados “verdes”  e carregadores para carro elétrico que vi foi incrível.

Uma das muitas hortas comunitárias de Gotemburgo. <3

A caminhada terminou em Lindholmen, no campus da Chalmers University. Ali está o Kuggen, e uma série de prédios de arquitetura moderna inspiradora. Dentro do Science Park, dá pra dar uma olhada nas pequenas exposições de trabalhos científicos suecos e se inspirar. Há poucas opções de almoço nesta área e as mais interessantes são os food trucks. Entretanto, basta atravessar o rio de ferry e descer na estação Stenpiren, entre os bairros de Inom Vallgraven (o centro da cidade) e Nordstaden, para estar perto de diversos restaurantes, padarias e cafés deliciosos na Västra Hamngatan (gatan = rua), como a Brogyllen, que oferece na fika um cinammon roll dos sonhos além de diversos sanduíches e quiches tradicionais. Outra sugestão caso tenha tempo é descer do ferry na estação Lilla Bommen, só para dar uma espiada rápida no barco Viking que fica ancorado ali.

À tarde, nós ficamos pela região de Inom Vallgraven, que é lotada de lojas e cafés. Andamos pela beira do canal de Stora Hamn, onde fica o imponente prédio do Museu de Gotemburgo (Stadsmuseet). A caminhada até a praça do Brunnsparken é extremamente agradável; passamos pela praça Gustaf Adolf, onde uma estátua marca e celebra este que foi o fundador da cidade. Tudo estava florido, as pessoas animadas nas ruas. Tomamos um sorvete delicioso num quiosque da praça e visitamos o escritório de informação turística da Ostrahamng.

À tardinha (com sol em pino ainda!), nos direcionamos para o super-trendy Norda Bar, que fica dentro do Clarion Hotel Post. Este bar é famoso por seu mixologista bartender Dosa Ivanov, escolhido em 2015 como o “melhor bartender do mundo” – é, eu sei, esses títulos são extremamente parciais. Mas fato é que Dosa estava lá quando fui. Troquei umas palavras rápidas com o sorridente bartender e mais admirei a facilidade e paixão com que prepara seus drinks. Tomei seu signature drink, o Grand Horizon (receita aqui), e foi realmente maravilhoso. Ficamos para jantar no Norda, que oferece um cardápio eclético razoável a um preço mais salgado que bacalhau norueguês.

Dosa Ivanov, o melhor bartender do mundo, em ação no bar do Clarion Hotel Post.

Dia 2 – Visita a museus

Depois de um primeiro dia light, o segundo dia em Gotemburgo seria dedicado a muitas caminhadas. A idéia era explorar as ruas da cidade à pé, sentindo a vibe do lugar. Entretanto, o tempo estava meio nublado/garoa e a cautela falou mais alto: tomamos o rumo dos museus, se possível à pé.

Curto muito futebol, então saindo de Brunnsparken, nós ~tínhamos~ que seguir pela Slussgatan até o clássico estádio de futebol Ullevi, onde em 1958 entrou em campo pela primeira vez no time brasileiro um jogador chamado Pelé, no jogo Brasil x União Soviética (ganhamos de 2×0, gols de Vavá) pela Copa do Mundo de 1958 – Copa esta que o Brasil ganhou, by the way. Hoje o estádio mantém o look vintage da Copa de 1958 e na frente de seu ginásio, uma pequena estátua do jogador sueco Gunnar Gren, o ídolo sueco da mesma Copa. Gren nasceu em Gotemburgo, portanto a homenagem no Ullevi é mais que compreensível.

Do estádio continuamos andando pela Park Gatan, a rua que margeia o parque, explorando o bairro de Heden. O bairro tem ruas mais largas, e em poucas quadras a gente chegou na Götaplatsen, o quadrilátero/praça da Berzeliigatan (rua Berzelius) formado pelo Museu de Arte de Gotemburgo, a Biblioteca da Cidade,  o Centro de Arte Contemporânea e o Teatro Nacional de Gotemburgo. Como chovia um pouco, entramos no Museu de Arte para apreciar – o que terminou sendo uma decisão excepcional. Separe pelo menos uma hora para mergulhar na arte sueca.

Já era hora do almoço e paramos ali perto no minúsculo e stylish Viktors Café (na Geijersgatan) para comer uns sanduíches/salada. O café deles, por sinal, é excelente, e merece uma parada de fika também.

Não sei por quê, mas gostei tanto da entrada do Universeum… #SharkFeelings

Como o tempo não colaborava, andamos pela Södra Vägen até o Universeum, o Centro de Ciência e História Natural da cidade de Gothenburg. Era verão e o Universeum estava lotado de crianças – o museu é totalmente voltado para elas. Gostei muito de ver como eles organizaram a parte da floresta tropical – é um ótimo exercício fazê-la completa, cheia de escadas e rampas. A parte Water’s Way, que mostra o trajeto da água no mundo e na cidade, também é uma forma interessante de integrar a ideia de conservação de água à toda a exibição. O Aquário dentro do Universeum também é decente e eficiente, sem grandes destaques – tinham alguns tubarões para tirar um sorriso desta malla.

(Atrás do Universeum fica o Liseberg Park, um parque de diversões estilo antigo Playcenter de SP. Não fui nele, mas me pareceu outro passeio ótimo para famílias. #FicaAOpção)

Ao lado do Universeum, fica o Museu da Cultura Mundial, que foi sem dúvida meu predileto na cidade. O museu é formado por diversas galerias, com artes de todos os estilos vindas dos mais variados cantos do planeta. É uma celebração das culturas do mundo mesmo e no dia em que fomos havia uma exposição fotográfica chamada “Afghan Tales” com imagens de um Afeganistão que nunca vemos nos noticiários – me encantei com as fotos de um dos parques nacionais do país. O prédio do museu também é um show à parte, com um vão central enorme perfeito para relaxar depois de tanta caminhada.

Degustação de defumados, queijos e patês suecos no Smaka. Absurdamente delicioso.

À noite, queríamos provar culinária sueca de verdade. Tanto no hotel em que estávamos quanto no escritório de turismo nos sugeriram o restaurante Smaka. No início, desconfiei de tanta “indicação”, mas resolvemos encarar mesmo assim. Ainda bem que fomos… porque foi a melhor refeição que tivemos em Gothenburg! Comida autêntica sueca, com vários peixes e frutos do mar salgados e defumados, ovas, patês e afins, num preço extremamente razoável. Neste jantar, estávamos em 4 pessoas e absolutamente tudo que pedimos estava gostoso. Não deixe de provar as almôndegas suecas, sensacionais.

Dia 3 – Marstrand

Gotemburgo é uma das mais importantes cidade portuárias da Suécia e tradicionalmente comercial, devido principalmente à sua geografia – uma área de wetland cortada por um rio que deságua num arquipélago na costa, cujas ilhotas protegem o wetland dos grandes swells do Mar do Norte. Hoje, este arquipélago é destino certo de verão para os moradores locais – e os turistas incautos que a visitam. Há diversas opções de day trips para conhecer algumas destas ilhas, e você pode ir usando o City Pass, que inclui o transporte de ferry. Minha sugestão: não tente fazer pinga-pinga, escolha uma ilha e aproveite-a com calma.

Nós optamos, entretanto, por fazer um mini-cruzeiro para Marstrand, um vilarejo fofíssimo considerado o coração do arquipélago – e que os suecos consideram uma “cidade” desde 1200 (mas com menos de 1500 habitantes, veja bem…). Marstrand está mais ao norte da costa oeste e o trajeto de Gothenburg até lá leva cerca de 1h e meia, saindo da estação Lindholmen. No barco, além das explicações dos guias, um bar com snacks e serviço de buffet para almoço ou janta (no trajeto da volta, apenas).

A principal atividade em Marstrand é velejar – sua marina nunca congela, mesmo no inverno. Logo na chegada, vimos na marina inúmeros veleiros e windsurfs de todos os modelos e estilos, se preparando para alguma competição. Além de velejar, Marstrand também tem o Carlsten, um forte construído pelo Rei Carl X da Suécia para proteger a costa sueca dos inúmeros ataques dos vizinhos nórdicos, e que vale muito a pena ser visitado. A caminhada pelo forte é muito agradável, e depois de apreciá-lo, sobrou ainda bastante tempo para se perder pelas ruazinhas do vilarejo, sentir um pouco da vibe sueca ilhéu temperada. A cidade tem um ar bucólico delicioso e dá uma preguiça gostosa na gente…

E claro, em Marstrand fizemos mais uma fika básica, antes de encararmos o trajeto de volta.

Dia 4 – Mercados, Haga e Vasa

Acordamos cedo para chegar no Feskekôrka na hora de sua abertura ao público, às 8 da manhã. Feskekôrka em sueco significa “Igreja do peixe”, e é o mercado sueco de peixes e frutos do mar. Quando viajo, curto muito visitar mercados, então o Feskekôrka era praticamente obrigatório no roteiro. O prédio é inspirado em capelas neogóticas e sem pilares internos. Apesar de pequeno, o Feskekôrka oferece uma variedade e qualidade incrível de produtos do mar Báltico. Para quem curte, aqui é o lugar para provar um salmão fresco.

Do Feskekôrka, partimos andando para explorar o histórico distrito de Haga, famoso por seus cafés de fika e lojinhas de arte, souvenir e antiguidades. Claro, mal chegamos no Haga e sentamos para uma fika ~básica na En Deli Haga, um café vegetariano/vegan na rua principal do bairro, a Haga Nygatan. O Haga deve ser explorado à pé, com calma, admirando os predinhos de madeira super-bem preservados que no passsado eram residências de trabalhadores braçais e que hoje se tornaram point cool da cidade.

Ainda em Haga, subimos até o Skansen Kronan, uma fortificação do século XVII que fica em cima de um morro com uma vista ótima da cidade e seus guindastes. A fortificação foi construída para se proteger dos dinamarqueses, que costumavam invadir a cidade no passado. Hoje, a área é um parque e usado para eventos privados. A subida cansa um pouquinho, mas num dia nublado de verão é agradável.

Skansen Kronan.

De Haga, seguimos para o bairro de Vasastan, onde ficam a Igreja de Vasa, construção neoromana no meio de uma praça, o campus principal da Universidade de Gotemburgo no Parque de Vasa, e o Röhsska Museum – o Museu da Moda e Design. A Suécia em geral tem excelentes designers contemporâneos, portanto o museu é uma boa oportunidade de ver uma seleção dos nomes mais famosos locais e internacionais. Vasastan é também o bairro da gastronomia, e o estrelado do Michelin Koka, de culinária da costa oeste sueca, fica aqui.

Caviar de colherada.

Vazamos do Vasastan pelo Avenyn até o Kungsparken, beirando um canal que te deixa no Stora Saluhallen, o Mercado Municipal de Gotemburgo. Dentro do mercado, todo tipo de defumados, queijos, caviares e doces escandinavos que você pode imaginar. Muitas frutinhas também. O mercado fecha às 18:00, e nós estávamos ali umas 16:00, portanto um ótimo momento e lugar para… mais uma fika. 😛 #Fikação

O que não falta nesta região perto do Saluhallen são restaurantes, clubs e cafés, principalmente perto da    noitinha, tínhamos combinado de ir a um pub. Apesar da distância, encaramos a caminhada até o Ölrepubliken para o happy hour. O bar tem mais de 30 variedades de cervejas on tap, mais um monte em garrafas, várias produzidas localmente, e um menu de alimentação razoável. Provei a que os colegas suecos sugeriram, uma IPA da cervejaria local Beerbliotek (“a library of beers” de acordo com seu website) – muito gostosa.

Dia 5 – Jardim Botânico

Dediquei o último dia inteiro em Gotemburgo a um passeio “florido”: a visita ao Jardim Botânico de Gotemburgo. Este jardim botânico é um dos maiores da Europa, com mais de 16.000 espécies de plantas vindas de todos os cantos do planeta. Sua localização é um pouco afastada da cidade (nós pegamos 2 bondes para chegar lá), mas não deixe que isso te desanime: vale muito a pena passar o dia neste parque lindo, que já foi considerado o parque mais bonito da Suécia!

Um dos prédios do complexo do Jardim Botânico.

Como o Jardim Botânico é enorme e está num terreno em aclive, prepare-se para subir – vagarosamente, mas subida. Há diversas trilhas possíveis para se explorar o local, e o mapa que eles oferecem é excelente para escolher “a sua trilha”. Na semana em que fomos, havia umas instalações artísticas no meio das plantas em alguns pontos do parque, para te atiçar a curiosidade. Curti.

A maioria das pessoas que visita o Jardim Botânico leva algo para fazer um piquenique – são tantos recantos fofíssimos e agradáveis para se sentar na grama que esta é realmente a melhor opção. O local é um convite a uma fika especial com os amigos – vi um chá de panela acontecendo na seção de plantas do deserto, com a noiva vestida de vaquinha (!?!?!?!). Mas, para quem não quer piquenique, a única opção é o café/restaurante AnyDay, pertinho da entrada principal do Jardim.

Chá de panela/piquenique sueco no Jardim Botânico de Gotemburgo.

Passei o dia inteiro no Jardim Botânico – e não vi tudo.

Era meu último dia na cidade, e o saldo era de que Gotemburgo foi uma agradabilíssima surpresa. A cidade me deixou com esse cheiro de flor selvagem do Jardim Botânico na memória – e do café quente da fika no coração.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais por Gotemburgo:

  • Pros amantes de cafés, o Gothenburg.Coffee lista e resenha vários deles pela cidade. E para brunches, esta outra lista também é espetacular. Ou esta. (Haja fika…)
  • O melhor recurso para visitar a cidade é seu site oficial de turismo. Poucas vezes, vi um site ser tão eficiente.
  • Um passeio que ficou na minha vontade foi a visita a Tanum, um sítio arqueológico considerado patrimônio mundial da UNESCO. Ali, vários resquícios da Era do Bronze Nórdica e uma série de pinturas rupestres e petroglifos super-bem-preservados podem ser visitados. Tanum fica ao norte de Gotemburgo, e fica a 2h de ônibus expresso – é um passeio de um dia inteiro. Quem sabe, da próxima vez que for à Suécia… sonhar não custa nada. 🙂

Gustaf Adolf, o fundador de Gotemburgo.


Booking.com

 

Hoje é o Dia das Espécies Ameaçadas de Extinção, e deixo aqui na Sexta Sub uma foto de uma espécie criticamente ameaçada que tive a imensa felicidade de encontrar pelo mundo (mais especificamente na Flórida): a garoupa gigante do Atlântico (Epinephelus itajara). Simplesmente demais!

Dia das Espécies Ameaçadas de Extinção

Meu sincero desejo para hoje: que um dia todas as espécies não sejam mais criticamente ameaçadas, que elas se recuperem e que possam colorir de biodiversidade o nosso planetinha azul tão lindo por muitos milênios a vir! #SonharNãoCustaNada

Tudo de bom sempre.

P.S.: Dado o momento atual no Brasil e nos EUA, uma das espécies atualmente mais criticamente ameaçadas de extinção parece ser a do Politicus honestus… 

“Black hole sun

Won’t you come

And wash away the rain…”

No meio de uma noite de insônia, a notícia no NYTimes: o roqueiro Chris Cornell, cantor do Audioslave, Soundgarden e Temple of Dog, estava morto. 52 anos, muito jovem ainda. Imediatamente, me bateu uma tristeza enorme, seguida da vontade de ouvir suas músicas non-stop – Chris Cornell era um dos meus favoritos, sua voz poderosa e encantadora de uma vibração poética única e trilha sonora de tantos momentos importantes da minha vida.

Fui em seu show em 13 de dezembro de 2007, em São Paulo, evento registrado em um P.S. neste blog. Foi um show marcante, emocionante pela forma como sua voz reverberava e penetrava em nossos corações e cabeças. Aqui, um dos momentos mais incríveis deste show, quando ele canta “Hunger Strike” – estava lá na plateia, cantando junto, admirando um artista sensacional, num momento de catarse inesquecível.

Em homenagem a este artista que tanto admiro, deixo aqui um flood de vídeos, em gratidão a sua existência.

Primeiro, uma versão achada no youtube de um acústico em que Chris Cornell canta “Black Hole Sun”, minha música favorita dele – este vídeo é especial porque você realmente foca na amplitude da voz dele.

E outro vídeo, em que ele é convidado a cantar ao vivo “Crawling” de outra banda que adoro, o Linkin Park. Quando ele entra cantando os versos abaixo… é de arrepiar!

“Discomfort, endlessly has pulled itself upon me
Distracting, reacting
Against my will I stand beside my own reflection
It’s haunting how I can’t seem

To find myself again
My walls are closing in
(Without a sense of confidence I’m convinced
That there’s just too much pressure to take)
I’ve felt this way before
So insecure”

E esta longa entrevista em que ele comenta do início da cena grunge em Seattle – uma cena que ainda reverberava quando esta humilde fã andou pelas ruas da cidade.

R.I.P. Chris Cornell. Obrigada por todos os sons. 🙁

Postado em 18/05/2017 por em Música

SapiensSão raras as vezes em que um livro não me anima. Afinal, sou da turma über-otimista que acredita que sempre existe algo novo a se aprender, mesmo nas mais toscas pataquadas. Mas, preciso dizer, “Sapiens – A Brief History of Humankind” (“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”) , de Yuval Noah Harari, bateu recordes: foram muitos parágrafos instigantes, tantos que fiquei impressionada. Não houve sequer uma página de leitura em que uma idéia ou reflexão não tenha me deixado meio introspectiva, inundada por ondas de serotonina ou dopamina. A toda hora, a sensação de insights ou conexões inusitadas (óbvias, mas até então não feitas) na história dão ao livro uma cadência rara de se ter hoje em dia.

O mais interessante de tudo: não é uma história desconhecida. Afinal, o que é contado neste livro sensacional é a nossa história, a história da humanidade, que aprendemos desde cedo em aulas de ciências, história e geografia. Num formato de saga, estando todos envolvidos de alguma forma em todos os capítulos desta história. No entanto, o constante questionamento da visão clássica debate com a pesquisa feita por Harari para o livro, e termina trazendo ideias inovadoras muito instigantes para a mesa deste debate humanitário. E preciso confessar: em tempos de hecatombe climática, hipotetizar que talvez sejamos as últimas gerações de Homo sapiens me deixou um pouco mais tranquila. #VaiEntender

O ritmo, entretanto, que Harari põe ao livro me deixou em certos momentos incomodada. Achei frenético demais, overwhelming, passando por diversos pontos de maneira bem en passant e enviezada para que consiga fazer seu argumento colar – e cola, não precisa de muito, ora pois. Mal você reflete sobre um parágrafo e já tem um outro parágrafo te puxando pela camisa e dizendo: “venha me decifrar também”. Uma hora, a brincadeira de esfinge começa a cansar o leitor, infelizmente.

Como bióloga, vi esta superficialidade em diversos momentos relacionados à genética ou bioquímica, um foco destorcido ou uma martelação exagerada de certas ideias sem a profundidade necessária e sem o devido cuidado. Entretanto, ao mesmo tempo que o ritmo frenético me deixou incomodada, admito que a aparente superficialidade que ele gera como necessária – afinal, só a tentativa de explicar e refletir “profundamente” em algumas centenas de páginas toda a história da humanidade, dos Neanderthais ao futuro robótico, passando por história das comunidades e conceito das religiões, dos impérios, da agricultura, da evolução, da felicidade e todos os meandros e filosofices que isso trouxe e traz, já é um desafio que poucos encarariam. Fico feliz que Harari tenha o feito e compartilhado com a gente este resumão complexo e fascinante… da história da gente.

E mais: que no caminho da construção deste resumão, como bom escritor, Harari deixou espaço para diversos questionamentos fundamentais sobre o nosso próprio viver, nossa espécie e os caminhos do futuro que vem aí. Este instigar constante foi definitivamente minha parte favorita da leitura.

É um livro para se ler com a mente o mais aberta possível, despida de qualquer pré-conceito, seja positivo ou negativo – porque a ideia é jogar as ideias ali, e te fazer repensar a existência completa da espécie humana sapiens. Por exemplo, muitas das resenhas que li sobre o livro refletem mais os pré-conceitos de quem as escreve do que as intenções de Harari – e este meu post não foge desta regra.

Mas, no mundo polarizado de hoje, este exercício intelectual de introspecção e auto-reflexão despreconceituada sobre nossa teia biológica, social, emocional e global se faz muito necessário, e eleva, em minha opinião, o livro à categoria de must-read para os membros desta espécie dominadora e cheia de contradições. Encare esta viagem humanística e niilista sem medo; o aprendizado vale a pena.

Tudo de bom sempre.

“Sinais de Lisboa”, azulejos de Cecília de Sousa feita em 1988.

Museu do AzulejoQuando comento com as pessoas que estive em Lisboa e não vi o céu azul, muitas pessoas se espantam – aparentemente Lisboa é famosa por seus dias ensolarados. Mas, além da gripe horrorosa que me acometia, a chuva não parou em meus 4 dias pela capital, de modo que tive que priorizar visitas a lugares fechados, com pouca caminhada pelas ruas da cidade.

O Oceanário era um lugar na minha lista de pontos a visitar com chuva ou com sol, mas a minha ida ao Museu Nacional do Azulejo, realizada apenas porque chovia canivetes em uma das minhas tardes na capital portuguesa e este museu era relativamente perto de onde eu estava hospedada em Santa Apolónia, foi uma dessas serendipidades de viagem. E uma deliciosa surpresa.

Como o nome diz, o Museu do Azulejo é dedicado à arte de pintar em cerâmica para revestimento de paredes que os portugueses completamente dominaram no mundo – e ainda dominam. O prédio em si onde ele está instalado já é uma jóia: de arquitetura colonial clássica portuguesa, era o antigo convento da Madre de Deus – andar por seus corredores me lembrou demais diversas construções equivalentes no Brasil. Em 1980, depois de negociações com o governo, se tornou o Museu que hoje existe.

Um dos padrões azulejeiros do Oceanário de Lisboa.

O poeta-fingidor em azulejo. Pintura de azulejo feita por Júlio Pomar para revestir a estação Alto dos Moinhos, em Lisboa.

Mas o que realmente me impressionou no Museu foi aprender sobre a dimensão da arte azulejeira em Portugal. Azulejos de todas as formas, estilos e tamanhos, dos mais intricados aos mais simples, dos mais coloridos aos mais sombrios. E principalmente, percebi que a arte azulejeira, longe de estar morrendo, se mantém firme e forte na cultura portuguesa – a seção de azulejos modernos foi a que mais me impressionou, pra ser sincera.

O Museu faz um trabalho excelente em mostrar seus azulejos de maneira didática, com uma certa temporalidade mas não demais – há espaço também para azulejos holandeses, flamengos, etc. E além dos azulejos em si, há também peças de decoração e faiança na coleção.

Comecei a visita pelos azulejos mais antigos, aqueles tradicionais pintados em azul – e aqui, lembrar dos azulejos portugueses que vemos pelo Brasil também é inevitável. Há ainda uma capela/igreja dentro do Museu, com painéis de azulejo e afrescos muito bonitos, e que me lembrou em quase tudo o interior das igrejas mais famosas brasileiras.

A ala moderna dos azulejos.

Portugal é um país conhecido por seu bucolismo e melancolia. Não sei dizer se foi porque chovia horrores, ou se os corredores imensos daquele ex-convento me impressionaram, ou se ver azulejos de alguma forma me remete a locais bucólicos do Brasil, mas o fato é que na parte do museu com as peças mais antigas, senti uma certa melancolia no ar. Toda aquela arte azulejeira, tão bela e rebuscada, me transportou para uma era de colonialismo que, hoje sabemos, não foi das mais felizes para todos os brasileiros. Enfim, a carga histórica existente em minha cabeça e atachada às peças  ali mostradas era muito pesada para ser ignorada.

Mas aí começamos a entrar na modernidade. A impressão que tive foi de que a decadência portuguesa como nação navegadora trouxe um repensar artístico, que se revelou no design do azulejo tradicional – associado à todo o movimento modernista da mesma época, claro. As peças de azulejo modernas são provocantes, trazem um frescor ou uma crítica ao ambiente em suas linhas e entrelinhas desenhadas.

A visita termina na sala em que está exposição um painel enorme feito em azulejos, que retrata a cidade de Lisboa no ano de 1755. Este painel é realmente o ápice da arte azulejeira portuguesa, e sua exposição como grand finale torna o entendimento da arte azulejeira mais contundente ainda – afinal, saímos de azulejos modernos para esta volta ao passado; fica a sugestão de que o passado está ali como inspiração para o novo, o ousado, que vem por aí.

Na saída do museu, pausa para um café – ou um suco de laranja de verdade (coisa rara onde moro nos EUA) com um cálice de vinho verde, enquanto espera a chuva dar uma amenizada. A cafeteria de decoração azulejada rústica, numa tarde chuvosa, foi um convite perfeito à abraçar a melancolia portuguesa, principalmente quando ela vêm embalada para presente em forma de azulejo.

Na cafeteria, azulejos temáticos. (Fora estes assentos com cara de salaminho…)

Amei o museu e recomendo muito a todos que forem à Lisboa, gastar umas horinhas de visita a essa jóia do país – e que exalta tanta conexão com nossa própria história de país.

A grande vista panorâmica de Lisboa antes do terremoto de 1755. Produzido no início do século XVIII, é uma das grandes expressões desta arte portuguesa.

Tudo de bom sempre.

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Para visitar o Museu do Azulejo: 

  • O Museu Nacional do Azulejo fica na Rua da Madre de Deus, 4, 1900-312 Lisboa. Os ônibus 718, 742, 794 e 759 para em frente ao museu.
  • O Museu fica aberto de terça a domingo, das 10:00 às 18:00. O ingresso custa 5 euros, e tem estudantes e pessoas acima de 65 anos têm desconto de 50%.
  • Minha visita ao museu foi de aproximadamente 2 horas – acho que é tempo mais que suficiente para ver tudo, se você é um calouro desta arte azulejeira. 
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