Outubro chegou. Eeeeeeee!!!!!

Não escondo de ninguém: outubro é o meu mês favorito no Havaí. Morando aqui, quando este mês começa, parece que a gente sente que o ar das ilhas muda. Eu sei, tecnicamente não muda – continua 78% nitrogênio, 21% O2, 0.04% CO2 etc. Mas o astral geral, o clima de animação… parece brotar neste mês para energizar o inverno inteiro.

Olá! Che-guei!!

Outubro traz uma aura de animação e ansiedade positiva muito boa. Animação porque é em outubro que, em geral, ocorre a primeira avistagem de baleia jubarte nas ilhas –  o sinal de que a deliciosa temporada das baleias está começando. Ansiedade porque já estamos nas etapas finais do campeonato mundial de surfe e o tabuleiro começa a se definir para a “Arena Pipeline” em dezembro. Em outubro, alguns surfistas semi-profissionais que ainda não estão no circuito e os amadores começam a chegar, já para se preparar para outros campeonatos paralelos que ocorrem quando o swell chega.

Olha a onda em Waimea Bay!!

Aliás, o swell… ah, o swell de inverno! Também começa a subir em outubro. É em geral em outubro que ocorre o primeiro swell da temporada, já com ondas grandes para aquecer a galera. Depois de um verão de ondas moderadas no sul da ilha, o primeiro swell é o que tira as ferrugens da moçada. É contagiante estar na praia vendo a alegria da galera se jogando em mais de 12 pés de onda depois de meses só na marolinha.

Outubro mês favorito

Turma do Avatar no Halloween em Waikiki.

Para coroar este mês delicioso, ainda tem no último dia o Halloween. Que é imperdível em Honolulu ou em Lahaina, onde rolam mega-bagunças nas ruas, com todo mundo fantasiado e risadaria total com a criatividade da galera. Pensa bem: na maior parte dos EUA, outubro já faz frio, e as festas de Halloween terminam sendo boa parte indoors – mas não no Havaí, onde a amena temperatura permite que se fique na rua o quanto quiser…

E de quebra, outubro é o mês mais barato para se visitar o Havaí. É considerado um “shoulder month”, como o pessoal do turismo diz aqui, quando há menos turistas pelas ilhas. Por não ter nenhum feriado japonês e ser um mês escolar sem respiro para os americanos, termina sendo um mês em que as pessoas vêm menos visitar – o que é uma ótima notícia para quem quer fugir de (muita) muvuca – ainda tem bastante gente, mas é um pouco menos que a média, digamos assim.

Baleias, surfe, lugares (um pouco) mais vazios, bagunça de rua e preços mais justos. Nem precisa de mais nada para outubro ser perfeito, né não?

Tudo de bom sempre.

Esta foi uma semana cheia de atividades, de ups and downs, com ótimas notícias e alguns deslizes. Mas, parece que tudo convergirá para um mesmo ponto – e tomara que não seja um buraco, né…

Ups and downs

Stay tuned.

Um ótimo fim de semana a todos e tudo de bom sempre.

Postado em 29/09/2017 por em Sexta Sub

Ontem foi Museum Day, o evento nacional americano em que diversos museus abrem gratuitamente ao público. Neste ano, escolhemos visitar em celebrção da data o Museu Estadual de Arte Havaiana – em inglês, Hawaii State Art Museum. Este museu é normalmente gratuito, portanto o Museum Day apenas nos impulsionou a visitá-lo. 🙂

Foi minha primeira vez neste museu, e confesso que por aqui não se fala muito dele, então não fazia muita ideia do que ia encontrar. Sabia que era um museu de arte contemporânea – e estando ainda empolgada com as artes que vi na Documenta mês passado, me empolguei para ver qual a contribuição do Havaí para a “conversa” contemporânea.

Pois o Hawaii State Art Museum é um museu pequeno e aconchegante, simpática pérola num prédio antigo ao lado do Palácio do Governo Estadual, em pleno downtown Honolulu. Logo na entrada, uma fonte d’água de origem marroquina, presente do Rei do Marrocos ao governo havaiano em 2012.

Hawaii State Art Museum

Fonte marroquina.

O Hawaii State Art Museum fica no segundo andar do prédio, e estavam abertas à visitação duas galerias: uma de exposição permanente e outra temporária. Ambas com obras contemporâneas de artistas havaianos ou de outros estados e países que se mudaram para o Havaí – o fundamental em todas as obras de arte era a clara temática “Havaí” que unia todas as peças e obras.

Na exposição permanente “Accession” ficam as obras recém-adquiridas pelo museu. O Havaí tem uma lei de 1967 que obriga todas as obras e renovações em prédios estaduais a separar 1% do orçamento para a aquisição de obras de arte, que são expostas em prédios e espaços públicos. Esta lei gera constante movimento no mercado artístico no estado e nesta galeria ficam expostas algumas das últimas aquisições com dinheiro público. Ou seja, o acervo está sempre sendo renovado.

O leiomano feito de prancha à mostra na parede vermelha ficou simplesmente incrível!

Das obras que vi nesta galeria, a que mais me interessou foi “Evolution – 7’0 Lei o Mano” de Scott Fitzel, que era basicamente uma representação do leiomano, uma arma de guerra dos havaianos feita com dentes de tubarão e madeira, e que o artista reproduziu utilizando uma prancha de surfe – que pode ser surfada. A obra fala tão alto sobre a cultura havaiana que não tem como passar desapercebida.

“Coral #3” e “Coral #7”

Outra obra que me encantou foram “Coral #3” e “Coral #7”, da artista havaiana Chenta Laury, feitos em lã no formato exato de uma visão macro de corais que habitam as ilhas havaianas. Por ser algo relacionado ao ecossistema marinho daqui, achei interessante.

Na segunda galeria, onde ficam as exposições temporárias, estava ocorrendo uma exibição chamada “Hawaii: Change & Continuity”. Esta exibição caminha através da arte com os temas diversos característicos da cultura havaiana atual, os desafios para o futuro e como mantê-los atrelados ao rico passado histórico do estado. As obras contemporâneas incluíam pinturas, fotografias, esculturas e instalações, todas de artistas do Havaí.

“Oil Tanker Sunset #4” – ao observador desatento, apenas a “estranheza” de dois sóis no horizonte.

Nesta parte do Hawaii State Art Museum, as obras que mais me impactou foi a fotografia de Alison Beste, “Oil Tanker Sunset #4”. A artista faz uma alusão às fotos chavões paradisíacas de pôr-do-sol que vemos por aqui (e da qual o estado tanto se vangloria), só que fotografa em longa exposição navios petroleiros ao horizonte, que trazem combustível ao estado. Por causa da longa exposição, os navios terminam parecendo a luz do sol ao horizonte. A energia do sol reposta pela energia do combustível fóssil – paraíso articificial? Uma denúncia e tanto, numa obra simples, direta e impactante que questiona as fontes energéticas de hoje – e o que queremos para o futuro.

“Flow to the Sea”

Outra obra que curti foi “Flow to the Sea”, uma pintura de Louis Pohl que mostra a lava caindo no mar vista do oceano – de um passeio de barco, por exemplo. A obra é simples, mas achei de uma frieza contraditória à realidade do calor da lava.

A coleção do Hawaii State Art Museum é muito bacaninha, e foi uma ótima surpresa. O jardim das esculturas estava fechado para reforma e terei que voltar para vê-lo, mas no geral ficamos aproximadamente uma hora no museu. O museu ainda tem um café agradável e um gift shop.

Com seu foco 100% no Havaí, é uma ótima pedida para quem se interessa por arte contemporânea e quer ver a quantas anda a produção local. E boa oportunidade de visita rápida para quem estiver pelo centro de Honolulu e quiser matar um tempo. #FicaDica

Desenho “Diamond Head from the Duckponds”, de Luquiens (1921)

Tudo de bom sempre.

O dia amanhecera completamente branco. As brumas eram tão fortes e grossas naquela manhã de julho em Swakopmund (Namíbia) que da janela do hotel em que estava mal conseguia enxergar a calçada do outro lado da rua, quiçá o oceano Atlântico ali em frente. Tentei relativizar o problema filosofando besteiras: talvez estar nas nuvens era uma forma da Namíbia se esconder um pouco, para me atiçar a voltar a ela um dia (nem precisava, porque já queria voltar antes mesmo de sair de lá, né…).

Diz que tem dunas e oceano além dessa bruma… 😀

Imagem do GoogleMaps.

De modo que tomamos nosso café da manhã cedo, fechamos nossa conta no hotel e nos dirigimos ao aeroporto de Walvis Bay. De Swakopmund a Walvis Bay, 35 km de uma estrada asfaltada margeada de um lado pelo Atlântico e de outro pelas dunas tão lindas e inspiradoras, parte fundamental do meu sonho de visitar a Namíbia. Tanto o oceano quanto as dunas eram, entretanto, impossíveis de serem vistas no meio do nevoeiro sem fim na manhã daquele sábado. Suspirei melancolicamente.

Chegamos ao aeroporto de Walvis Bay, deixamos a chave do carro alugado num drop-off box da locadora e nos dirigimos para o check-in com a Air Namibia. Nosso vôo sairia às 9:55am, rumo à Cidade do Cabo, na África do Sul. Meu receio estava para se concretizar: eu não daria meu tchau final às dunas namibianas da janelinha do avião. Planejei tanto este vôo para ver estas dunas pela última vez e – parecia naquele momento – que o plano tinha furado.

Como o céu estava no momento do embarque. :O

Mas eu já havia também sido alertada – e passado – por tal nevoeiro nos dias anteriores na cidade. As manhãs de inverno em Swakopmund e Walvis Bay sempre amanhecem com fog, por causa da direção do vento de ar quente do deserto da Namíbia que se encontra com a brisa fresca do Oceano Atlântico durante o amanhecer. (Esta monografia em pdf comenta mais tecnicamente sobre o fenômeno meteorológico que ocorre ali.) E, à medida que a temperatura à beira-mar esquenta, o fog vai desaparecendo. Então, era só esperar a manhã avançar, com a temperatura esquentando, para o céu ficar limpo – lógica científica.

De modo que, às 8:30 da manhã, com a pista ainda envolta em brumas, quando o alto-falante avisou que o vôo atrasaria por pelo menos uma hora, minha reação foi a oposta da maioria dos outros passageiros: alívio. Ainda restava uma esperança.

A ciência meteorológica não me desapontou. Às 11:00 da manhã, quando finalmente começamos a embarcar, o céu estava de brigadeiro, azul e sem nenhuma nuvem sequer. E eu poderia dar um tchau apropriado às dunas de Swakopmund.

A vista do deserto começa, assim que levantamos vôo.

O avião era um jato pequeno com capacidade para 36 passageiros. Sentei na última janela à esquerda, enquanto André sentou em outra mais a frente, à direita. E voamos.

As dunas que chegam no oceano Atlântico, da janela do lado direito do avião.

No que agora passou a ser o vôo de avião mais lindo da minha vida. Porque a paisagem que brota fica rosa-alaranjada – e todos os tons e subtons variantes que você possa imaginar, num surrealismo geológico que é pura emoção e poesia aos olhos. Inesquecível.

A borda do mar de dunas é bem delimitada pelos depósitos rochosos ricos em ferro. Tudo é deserto.

Sobrevoamos o pedaço sul do deserto da Namíbia, parte do Parque Nacional Namib-Naukluft, em toda sua extensão de mais de 1000 quilômetros, rumo a África do Sul. A costa da Namíbia, por ser praticamente toda ela parque nacional, é das mais bem preservadas e intocadas do planeta, onde a natureza ainda é a força dominante.

Vôo rosa e carvão

Mar de dunas.

O deserto de 55 milhões de anos, o mais antigo do mundo, com suas dunas laranjas, vermelhas e rosas da longa oxidação do ferro presente em seu solo. Vistas do alto,  pelo vidro da janela do avião, as dunas parecem rosadas – e sabemos que algumas delas de perto também o são.

As “avenidas” de dunas.

O incrível e surreal Sossusvlei do alto… #morri

Vendo a magnitude do deserto de cima a gente também entende vários conceitos que os guias de turismo tentam te passar nos passeios: as “avenidas” que as dunas formam, o veio de rio seco que é o Sossusvlei, as montanhas “macias” da região sul com sua cor de carvão, aos poucos sendo “soterradas” pelo mar de dunas. Que lugar especial…

Quando vi o Sossusvlei, lágrimas escorreram. Este ponto tão especial da Namíbia passando pelos meus olhos grudados na janelinha. Toda aquela região alaranjada-rosada e sonhada, que espiei tantas vezes no Google Maps e que, com a iluminação do sol pelo vidro do avião, tranformara-se nesse tom rosa tão mais delicado. Vi o Deadvlei, onde me emocionara há alguns dias, assim como o Hiddenvlei, ambos pontos brancos de sal naquele mar de cor de rosa e carvão. Das vistas mais impressionantes que já tive na vida, de um dos pedaços mais lindos e espetaculares do mundo.

Hiddenvlei e Deadvlei – e outros vleis… <3

As dobras do terreno… as montanhas erodidas… de uma poesia geológica imbatível. <3

Parecia brincadeira, mas bastou o avião cruzar o rio Orange, na fronteira com a África do Sul, para as nuvens reaparecerem e cobrirem a paisagem.

Rio Orange, divisa da Namíbia com a África do Sul.

O dia amanhecera branco e iria terminar branco, em outra cidade de outro país – chovia em Cape Town quando lá aterrisamos. O espetáculo que o vôo sobre o deserto da Namíbia proporcionou acabara e a realidade assumira o comando: a viagem dos meus sonhos chegava ao fim. Mas não sem deixar uma profunda marca cor de rosa no meu coração viajante.

Ah, Namíbia! Ainda te verei de novo…

Tudo de bom sempre.

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P.S.1: Todas as fotos deste post foram tiradas com meu celular.

P.S.2: Meu vôo favorito de antes ainda faz meus olhos brilharem também só de imaginar sua imensidão azul… É muito vôo bonito nesse mundão sem porteira, gente! <3

Um dos fenômenos meteorológicos mais bizarros – e raros – que ocorreu durante a catastrófica passagem do furacão Irma pelo Caribe na última semana aconteceu nas Bahamas e na baía de Tampa, na Flórida: o mar “secou”.

Mais: ao secar rapidamente, expôs vários animais aquáticos às intempéries terrestres, incluindo aí dois peixes-bois-da-Flórida (ou manatis). As fotos da matéria linkada são inacreditáveis de tão surreal que é a cena.

Peixes-bois no furacão Irma

O fenômeno do mar “seco” foi detalhado neste artigo da meteorologista Angela Fritz para o Washington Post, que achava que durante sua vida profissional jamais presenciaria tal evento, que existia apenas no âmbito teórico. Pois eis que não só aconteceu, como apareceu pelos 4 cantos das mídias sociais.

Cientificamente, para o mar ser drenado, é necessário que os ventos de um furacão sejam absurdamente fortes – como foi o caso do Irma. Além de sua força, a direção do vento no local “sugado” importa também. Os ventos ultra-fortes são então capazes de “puxar” a água de uma parte inteira do oceano – no caso, na costa das Bahamas e na baía de Tampa. Mas a água não desaparece nem evapora; ela tende a se acumular na região central do furacão, e pode ser despejada com força em outra área do furacão.

Todo esse movimento de água em larga escala pode acontecer abruptamente durante a passagem do furacão – e a água volta com força em poucos minutos assim que o mesmo passa. Por isso, as autoridades locais estavam pedindo às pessoas que não se adentrassem pelo novo platô formado. O grupo que salvou os manatis se arriscou no resgate; ainda bem que foram bem-sucedidos.

Irma foi uma tragédia catastrófica, de proporções inacreditáveis. Como tal, trouxe o ensinamento de um fenômeno novo neste mar de mudanças climáticas que vivemos.

E fica mminha mensagem de tudo de força aos que batalharão nos próximos meses e anos pela recuperação das áreas atingidas.

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P.S.: O furacão Irma foi tão intenso que arremessou um golfinho para a areia da praia em Marco Island, onde fez seu landfall. 🙁

P.S.2: O texto definitivo desta semana sobre a vida no Antropoceno vem, claro, de Naomi Klein – e vai na direção oposta desse monte de água, comentando sobre os incêndios e a fumaça crônica que apavorou (e apavora ainda) diversas partes do mundo durante este esturricante verão de 2017.

Estou para comentar sobre este fato já há algum tempo, mas só nesta semana finalmente sentei para escrevê-lo aqui. Em novembro do ano passado, uma das minhas cidadezinhas pequenas favoritas no mundo foi destruída por um terremoto de 7.8 na escala Richter, um dos mais devastadores e complexos já registrados pelos cientistas, que levantou até 8 metros de altura algumas áreas da ilha sul e aproximou a mesma 5 metros da ilha Norte. Kaikoura, na ilha sul da Nova Zelândia, é dos lugares mais incríveis que conheço por conta de sua riqueza de fauna marinha. Ponto de parada de várias espécies de baleias, de golfinhos, leões marinhos e focas, Kaikoura ainda oferece um ar interiorano que cativa o visitante em uma paisagem fenomenal, esprimida que está entre o mar e as montanhas geladas. Além disso, suas peculiaridades geológicas deixam a região ainda mais intrigante para quem curte geologia. Eu amo Kaikoura, então sou suspeitíssima para falar, porque para mim uma viagem pela ilha sul sem incluir Kaikoura é praticamente um pecado de roteiro.

Riacho de Ohau desaguando no mar.

E, dentre os lugares mais sensacionais que estive em Kaikoura, está o Ohau Stream (Riacho de Ohau). Este pequeno recanto está localizado na beira da rodovia estadual 1, ao norte de Kaikoura, que margeia o oceano. O riacho de Ohau é pequeno, mas ao final de uma pequena caminhada, vemos uma cachoeira bem bonita, a Ohau Waterfall.

A grande curiosidade deste lugar é que, durante os meses de fevereiro a agosto, os filhotes de New Zealand fur seal (Arctocephalus forsteri, ou lobo-marinho-da-Nova-Zelândia) que normalmente caçam no mar, sobem o riacho até a cachoeira para brincar. É um comportamento fascinante, único no mundo, em que os animaizinhos começam a aprender a viver em sociedade – e se divertem um bocado no caminho pela floresta. É das visões mais fofas que se pode imaginar na Terra: uma cachoeira linda, com uma floresta verdinha ao redor, cheia de filhotes de fur seals pulando e brincando e nadando e jogando água pra tudo quanto é lado. #MuitoAmor

De modo que, quando comecei a ver fotos do terremoto ainda em novembro/2016 e percebi a  devastação completa que ocorreu exatamente na região do Ohau Point, meu coração se despedaçou completamente. O epicentro do terremoto foi praticamente ali, a poucos quilômetros de distância. A rodovia estadual 1 era só deslizamento atrás de deslizamento, e um deles aconteceu justamente na colônia de fur seals. Era possível que tivéssemos perdido este comportamento animal único por causa de um evento natural. Tristeza. E uma das grandes questões que ficou depois do terremoto era se os fur seals voltariam à cachoeira.

De acordo com reportagem que li na época, a trilha que levava até a cachoeira estava destruída, mas o riacho ficara intacto. E não muitos animais mortos, por incrível que pareça. Porque novembro é a época em que os bebês estão aprendendo a comer em alto-mar, e provavelmente muitos estavam longe da costa no momento do terremoto. Em dezembro do mesmo ano, foi reportado que os fur seals estavam bem, e alguns já no riacho. Ou seja, o comportamento não foi completamente perdido. A rodovia 1 que leva à esta colônia ainda está fechada por conta dos deslizamentos, sem data para ser reaberta – mas os animaizinhos sobreviventes podem ir e vir do riacho sem problemas. (Este post do The Secret Life of Seals explica direitinho as previsões possíveis para esta população de fur seals depois do terremoto.)

De modo que os animais estão inacessíveis. Se a estrada reabrir, não deixe de incluir a visita ao Ohau Point e separar um tempo especial para ver estes animais. Eu gostaria de encontrá-los de novo – e reviver a delícia que é vê-los se divertir tão cheios de energia infantil nas águas do Ohau Stream. Sonhar não custa.

Lobo-marinho de Kaikoura

E, enquanto eles estão lá, curtindo sem os humanos, fica minha celebração na Sexta Sub destes sobreviventes do terremoto de Kaikoura fofíssimos. 🙂

Tudo de bom sempre.

No final de agosto passei 3 dias na cidade de Kassel, na Alemanha, para visitar a documenta 14, exposição de arte contemporânea que ocorre de 5 em 5 anos e que vai até dia 17 de setembro deste ano. Esta foi minha segunda vez na documenta – fui em 1997, na documenta X – e estava muito animada de rever a cidade e o clima de arte que a ronda durante a documenta.

A documenta é uma das maiores exposições de arte contemporânea da atualidade e as obras ali expostas ficam espalhadas pela cidade, em diversos museus, galerias e prédios – e muitas ficam pelas ruas mesmo. Neste ano, senti uma tendência muito mais forte à arte com mensagem político-social; se em 1997 muitas obras carregavam um quê introspectivo claro e ousado, este ano sem dúvida a arte como ferramenta para a discussão e reflexão política e social mais abrangente foi  predominante. Um bom eco do momento que vivemos no mundo, de instabilidade política geral.

A Friedrichsplatz, praça principal de Kassel, durante a Documenta 14.

É uma delícia estar em Kassel durante a documenta, porque a cidade respira e exala arte pelas esquinas e parques. Não tem como não se empolgar quando a contemporaneidade se integra à cidade, e você se depara com peças admiráveis que te fazem pensar diferente. É um alento a este coração malla, que acredita profundamente que a gente precisa da arte mais do que nunca neste momento tenso da história.

Durante os dias em Kassel, me hospedei no Tryp by Windham perto da estação de trem central – que também tinha obras de arte da documenta. A localização do hotel facilitou a ida/vinda de trem para Frankfurt-am-Main, cidade grande mais próxima dali, e valeu a pena por me permitir ir à pé para os locais de exposição que achei mais interessantes, como o Museu Friedricianum, o Neue Galerie, o Documenta Halle e o Neue Neue Galerie. Dos 35 pontos de exposição em Kassel, visitei 21 nos 2 dias inteiros de andanças pela cidade que fiz – e fiquei mais que satisfeita, pois vi muita arte interessante e desafiadora.

Não sou uma expert em arte ou curadoria; a arte me atinge como espectadora. E é nesse papel que deixo aqui no blog para meu arquivo pessoal algumas das ideias que a documenta 14 me suscitou, reflexões que brotaram, e as obras que mais curti/me impactaram.

A Crise dos Refugiados

A Europa, incluindo Alemanha, está mergulhada numa crise sem precedentes por conta da quantidade enorme de refugiados que vêm aportando em suas fronteiras costeiras, vindos de áreas de conflito ou de perturbação ambiental extrema no norte da África e no Oriente Médio. Para mim, este foi o tema mais presente da documenta 14, que trouxe luz especial a esta crise humanitária da atualidade, com um número incrível de obras para incomodar o espectador.

Das diversas obras que abordaram este tema, as que mais me impactaram foram:

  • “36º 45’N – 021º 56′”, do grego de Kalamata Dimitris Tzamouranis. A pintura em tela parecia nao ter nada de especial, mas quando a gente chega perto e vê o realismo com que ele retrata o mar violento, sugerindo em minha interpretação o que os refugiados encaram ao atravessar para a Grécia… é perfeita. Os detalhes da pintura são assustadoramente impressionantes e foi minha obra favorita de toda a documenta. (Adoro marinhas, né… tem isso também.)

Documenta de Kassel

  • “Biinjyia’iing Onji (From inside)”, da canadense Rebecca Belmore, que “montou” uma barraca em mármore nos jardins do Grimmwelt Museum que a meu ver sublinha a natureza permanente dos refugiados que chegam na Europa. A escultura é de uma força incrível, pois o mármore gelado ainda sugere a frieza com que se lida com esta crise hoje.

  • “Fluchtzieleuropahavarieschallkörper”, do mexicano Guillermo Galindo, que basicamente criou instrumentos musicais novos com materiais deixados para trás pelos imigrantes ilegais que cruzam a fronteira do México com os EUA pelo deserto. O fato de você poder tocar e criar música a partir de um material tão simbólico é de uma delicadeza tocante. Estava no Documenta Halle.

  • “When we were exhaling images”, do iraquiano Hiwa K., uma instalação que estava no jardim do Friedrichsplatz ao lado do Documenta Halle, feita com manilhas amarelas de amianto empilhadas. Cada manilha era um cômodo de uma casa. A instalação foi feita em conjunto com os alunos de design de uma escola de arte em Kassel, e praticamente jogava na nossa cara as condições subhumanas de vida a que os refugiados estão expostos em sua jornada por segurança.

  • Além destas obras, outra obra que comentava sobre os conflitos no Oriente Médio me deixou com um nó na garganta. “Nassib’s Bakery”, da artista libanesa Mounira Al Sohl, era a representação fiel da padaria de Nassib em Beirute, no Líbano, na década de 80, que foi bombardeada por ser “famosa” na cidade em meio à guerra. Toda a instalação da padaria – que era especializada em za’atar pizza – estava montada em um dos Glass Pavillions da documenta. Acompanhava uma exposição dos desenhos feitos pela artista de refugiados atuais, em transição por Atenas ou Kassel, feitas em lápis e papel amarelo de rascunho, chamada “I strongly believe in our right to be frivolous”. Mensagem mais clara não há.

A Ascensão da Extrema Direita

De uma certa forma, uma reação à crise de refugiados – e em minha opinião uma resposta clara à superpopulação do planeta (mas isso é papo pra outro post…). De qualquer forma, a documenta trouxe obras quase de cunho histórico: para relembrar os horrores de uma guerra e do holocausto, repudiar o nazismo, a xenofobia e tentar celebrar a diversidade.

“View from above”

Quem me conhece, sabe que eu não sou fã de vídeo. Interessantemente, duas vídeo-obras que trouxeram esta temática e me fizeram pensar bastante estavam neste formato: uma do Hiwa K (again…), “View from above”, que acompanhava uma maquete da cidade filmada – basicamente Kassel depois dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, e que estava pertinentemente no Stadt Museum ao lado da sala do museu que conta os momentos pré e pós-guerra; e “77sqm_9:26min”, um vídeo estilo CSI descrevendo a contra-investigação do assassinato de um imigrante do Oriente Médio por neonazistas em Kassel, que expõe todo o racismo (ainda) do sistema judicial alemão. O assassinato ocorreu a poucos metros de distância do local da exposição deste vídeo na Neue Neue Galerie, e os fatos ali narrados trucam a objetividade germânica na investigação. O vídeo pode ser assistido online aqui.

Outro fato que ocorreu é que, ao me deparar com a obra “Real Nazis” de Piotr Uklanski na Neue Galerie, não consegui me segurar: chorei de revolta. Porque, ao escancarar a dimensão do problema, me deu um embrulho no estômago gigante. Arte que incomodou mesmo.

A situação da Grécia

Uma das inovações da documenta 14 foi estar sediada em duas cidades: Kassel e Atenas, na Grécia. A documenta de Atenas terminou antes da de Kassel, mas a duplicidade e/ou complementariedade das obras e de muitos artistas trouxe pro palco alemão uma discussão necessária sobre a Grécia, sua crise política e econômica na zona do euro, sua localização estratégica como ponto de entrada para os refugiados da crise mencionada acima, aliadas à carga importantíssima histórica para nossa cultura. Todas estas questões contemporâneas transformaram a Grécia num ponto nevrálgico para a Europa – e nada mais lógico que trazê-la para o forefront da arte contemporânea também, para as reflexões e quem sabe mais proximidade.

Documenta de Kassel

Muitos artistas gregos tiveram destaque especial na documenta em Kassel, enquanto outros se inspiraram na Grécia para suas obras, como foi o caso da argentina Marta Minujín, que construiu em meio a Friedrichsplatz a instalação “The Parthenon of Books”. O efeito visual desta obra era sensacional, parecia de longe uma imagem chuviscada de TV fora do ar. A estrutura era toda construída com livros que em algum momento da história foram proibidos de circularem, e os livros serão distribuídos no último dia da documenta 14. Simplesmente incrível andar por dentro deste Partenon!

(O mais legal é que ao lado do Partenon de Livros estava o cabeçalho-instalação Beingsafeisscary” do turco Banu Cennetoglu, que trocou a inscrição do Friedricianum para uma que refletia nossos medos dos tempos atuais…)

Aludindo à estruturas gregas, tinha ainda o “Acropolis Redux”, feito pelo artista sul-africano Kendell Geers. A obra estava no Friedricianum e era composta de um monte de arame farpado fazendo uma estrutura de Acropólis. Será que o ápice da arquitetura de uma civilização chegou a uma fronteira?

Mudanças climáticas

Cito aqui apenas para mencionar que foi uma das grandes ausências da documenta em questão de tema. Pouquíssimas obras comentavam/tocavam neste assunto tão necessário. Talvez porque já tenha sido esgotado em outras eras, ou porque a crise dos refugiados abocanhou esta (e já é uma consequência da mesma).

Mas confesso que fiquei um pouco decepcionada. Esperava muito mais instalações, vídeos ou o que seja envolvendo clima. Talvez o artista Pope.L esteja certo e “Green people are a recent invention”

(Pope.L, aliás, foi o artista cujas obras no total mais curti. Seu “Whispering Campaign” espalhado em diversos pontos da cidade me faziam dar sorrisos a cada vez que os achava – como durante meu almoço de gnocchis na L’Osteria, em plena Königsplatz.)

A documenta que me fez sorrir

Nem só de reflexão política-social vive a documenta. Muitas das obras me deixaram com um sorriso no rosto por pura arte estética, arte pela arte, pela sacada original, pela contemplação sem expectativas ou pelo sentimento otimista que trazia, de um futuro melhor ainda possível. Meu lado poliana sempre agradece estes momentos.

Dentre as obras que me deram alento de otimismo, destaco os quadros coloridérrimos do americano Stanley Whitney. Em meio a tantos tons de cinza ou pastéis, sem dúvida um sopro de vida colorida no Documenta Halle.

Outra obra “fofa” foi a da artista turca Nevin Aladag, “Jali”. Uma parede de cerâmica decorada vazada típica da Índia. A parede que mostra mas separa de uma forma esteticamente elegante. Não me preocupei se a obra tinha algum significado maior; a meus olhos, valeu bastante por ser pura e simplesmente agradável.

“The End”, do grego Nikos Alexious, me capturou pelo teor lúdico. Era uma animação digital super-colorida em mosaicos, que estava sendo projetada no chão logo na entrada do Friedricianum. (Me lembrou a animação do teamLab na Bienal de Honolulu.) Trocentas selfies com a cobertura colorida que a animação proporcionava. Foi muito legal ver as pessoas literalmente se jogando no chão para a arte!

Outro destaque incrível foram os quadros abstratos do alemão Olaf Holzapfel, feitos com canudo e compensado. As diferenças de tons que ele conseguiu com os canudos e o efeito final quase cinético me ganharam imediatamente. As obras dele estavam no Bellevue, numa sala dedicada.

E, para finalizar, uma reflexão sobre a moda e a ilusão que temos de ser “diferentes”. A fotografia histórico-arquivista do holandês Hans Eijkelboom em “Photo Notes 1992-2017” mostra exatamente o quanto somos iguais nesta busca pela diferença – ou o quanto somos diferentes mesmo sendo “iguais”. Ele fotografou em períodos de 1-4 horas pessoas randômicas andando em algum lugar do planeta com roupas similares – por 25 anos. (Um dos períodos foi na Avenida Paulista, fotografando motoboys – é impressionante como no resultado final ficam todos parecidos.) Uma experimentação simples e que gera muuuuito #FoodForThought.

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É isso. Depois de me afogar em arte contemporânea, voltei para Frankfurt com a alma lavada. Quando fui na primeira documenta em 1997, jamais imaginava um dia voltar – só posso me sentir muito grata por ter tido a oportunidade desta experiência insana de deliciosa por duas vezes. No trem, vendo a paisagem passar, escrevi este post, já saudosa da documenta 14. 🙂

Tudo de arte sempre.

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Se2017

Hoje é o Dia do Biólogo e para celebrar a data vou contar aqui minha última aventura nesta profissão querida que abracei. Estive em meados de agosto viajando pela Europa e o motivo principal desta viagem foi para participar do Selenium 2017 – o congresso que ocorre de 4 em 4 anos (como a Copa do Mundo!) sobre selênio, este micronutriente tão complexo e necessário para nossa saúde que é o foco principal da minha pesquisa biomédica há quase 2 décadas. O congresso foi em Estocolmo, na Suécia, e tive a oportunidade de apresentar um poster e um seminário de 15 minutos sobre meu trabalho. (Para saber mais especificamente sobre meu envolvimento com o selênio, leia estes posts.)

A história de Berzelius contada na Aula Medica, a sala de seminários do prêmio Nobel.

Um dos highlights deste congresso foi o fato de que se comemorou os 200 anos da descoberta do selênio pelo químico sueco Jacob Berzelius – e por isso a escolha do local do congresso foi indiscutível. Berzelius trabalhou no Karolinska Institutet em Estocolmo, onde nosso congresso de selênio aconteceu. Ele também descobriu outros elementos químicos, como o tório, e em geral é celebrado como um dos maiores químicos que já passaram por este planeta.

Estátua de Berzelius no Berzelii Park em Estocolmo.

E, é claro, por conta deste currículo invejável, é uma das figuras mais celebradas da história da Suécia – em Estocolmo, visitei o Berzelii Park, cuja atração central é a estátua em homenagem a Berzelius.

Aula Medica Nobel

As palestras mais importantes do congresso foram realizadas no Aula Medica, o prédio onde todos os anos também são proferidas as palestras científicas de quem recebe o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina – você pode assistir a todas elas no site do Nobel. À parte a emoção de estar em uma sala tão importante para a ciência mundial, também me encantei com o prédio do Aula Medica, obra arquitetonicamente espetacular de Gert Wingård. Não cansei de fotografar o prédio, por dentro e por fora. De cada ângulo, uma novidade. (E me lembrou um pouco as bandeirinhas do Volpi, que amo. <3 )

 

Aula Medica.

Na escadaria do Aula Medica ficava passando um vídeo psicodélico. Inspirador?

Durante o Congresso, nós selenólogos (como chamamos amigavelmente quem pesquisa selênio) fizemos uma excursão até Gripsholm, na região de Solna, nos arredores de Estocolmo. É neste local onde se encontra o prédio específico em que Berzelius descobriu o selênio em 1817. Que é praticamente um galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de produção de ácido acético para formação de álcool – usado para fazer aquavita, a bebida predileta dos vikings escandinavos.

Berzelius

Nesta pequena casinha branca funcionava em 1817 o laboratório em que Berzelius trabalhava, e onde ele descobriu o selênio. #MuitoAmor

Foi divertido presenciar o momento em que um bando de selenólogos se deparou frente a frente com o galpão do Berzelius, fazendo uma farra sem fim. Parecíamos um bando de crianças na Disney, tirando milhares de selfies e com sorrisos maiores que o universo químico.

Castelo de Gripsholm.

(Parênteses: Gripsholm também é famosa pelo Castelo Real de Gripsholm, uma construção lindinha que fica à beira do lago Mälaren e ainda à disposição do rei sueco para uso a seu belprazer – embora haja um museu ali dentro aberto aos plebeus. Do lado de fora do castelo, ficam duas pedras rúnicas, registros arqueológicos dos antigos vikings, que eram sua forma cultural de celebrar alguém que morreu.)

Pedra rúnica de Gripsholm.

O banquete do congresso foi outro highlight destes dias na Suécia. Oferecido pela Prefeitura de Estocolmo, aconteceu no Golden Room do prédio da Prefeitura, o mesmo salão onde os agraciados com o Prêmio Nobel passam a noite dançando após o banquete oficial do Prêmio todo dezembro – ou seja, é o salão da festa.

Prefeitura de Estocolmo.

Salão Azul, onde acontece o banquete do Prêmio Nobel. (Tem uma historinha bonitinha de porque o salão, que é vermelho, chama-se azul.)

Golden Hall, onde ocorre a dança do Prêmio Nobel, e onde foi nosso banquete.

A sensação de estar ali naquela sala por onde passaram tantas sumidades e mentes brilhantes que admirei ou admiro em momentos descontraídos foi de inenarrável felicidade e muita gratidão por tamanha honraria. (Sem falar que a comida sueca foi de primeiríssima qualidade pro meu paladar, cheia de beterrabas, queijos e conservas temperadas com endro, que adoro.)

Apresentando seminário de selênio.

Para este congresso, apresentei um poster e um seminário. Ambos foram bem recebidos, com perguntas pertinentes e sugestões extremamente interessantes. Apesar de um pouco nervosa na apresentação oral (foi a primeira da manhã, e eu quase cheguei atrasada porque não ouvi o alarme), saí de ambas as apresentações com ótimas ideias para os próximos passos – e este é sem dúvida um dos objetivos de um congresso científico, te abrir os horizontes com ideias novas de colegas gabaritados para discutir o assunto.

Também sou destas pessoas que para se concentrar em ciência precisam de alguma conexão com a arte – então decidi da maneira mais malla possível que neste congresso meu “tema de fundo” seria Mondrian, que amo tanto e de linhas tão simplificadas. Dado que meu trabalho tem um tanto de abstrato e requer que eu chegue num bottom line ultra-simplificado, achei que as linhas claras de Mondrian representavam bem os desafios da minha pesquisa (Momento viagem #NaMaionese). Tanto meu poster quanto meu seminário tiveram designs inspirados na obra do pintor holandês, e fui elogiada pela escolha pelos pesquisadores europeus. Um deles falou: todo mundo precisa de arte a todo momento, é bom sermos lembrados disso durante um congresso. (Esse era definitivamente do meu time…)

Mas não foi só esta arte que rolou. Na noite de abertura do congresso, um grupo de neurocientistas do Karolinska Institutet montaram uma apresentação de avant-garde chamada “Probing the mind of Berzelius”, em que basicamente o texto do artigo original de 1817 do Berzelius foi “lido” em ondas de EEG do cérebro de um dos músicos, o francês Samon Takahashi. (Mais detalhes deste experimento musical aqui.) A maioria do pessoal do congresso não entendeu/ não curtiu. Eu particularmente adorei – mas sou suspeita, porque curto música experimental à beça e avant-garde é um estilo para “incomodar” os limites estabelecidos mesmo.

Campus do Karolinska Institutet no verão.

O congresso aconteceu por 5 dias, todos de muita discussão e diversão em Estocolmo. Afinal, um congresso científico nunca é apenas para falar de ciência – ele engloba network, conhecer novos pesquisadores e suas ideias inovadoras, e rever os amigos cientistas de outros cantos do mundo que falam nossa mesma língua científica, que entendem os jargões e os percalços que passamos. É criar um senso de (micro)comunidade em cima de um assunto tãotãotão especializado.

E que venha o próximo congresso de selênio daqui a 4 anos – no Havaí. 😉

Tudo de bom Sempre.

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Quarta-feira dia 30 de agosto foi o Dia Internacional do Tubarão-baleia, e como esta espécie é uma das minhas favoritas de tubarão, deixo aqui a lembrança nesta Sexta Sub para vocês, deste animal lindo, enorme e extremamente dócil que habita os mares do mundo.

Este aí debaixo, vimos perto de Isla Mujeres, no México, em 2010. Momento inesquecível da minha vida explorando os recantos do mar. <3

Tubarão-baleia

Tudo de sub sempre.

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