O dia amanhecera completamente branco. As brumas eram tão fortes e grossas naquela manhã de julho em Swakopmund (Namíbia) que da janela do hotel em que estava mal conseguia enxergar a calçada do outro lado da rua, quiçá o oceano Atlântico ali em frente. Tentei relativizar o problema filosofando besteiras: talvez estar nas nuvens era uma forma da Namíbia se esconder um pouco, para me atiçar a voltar a ela um dia (nem precisava, porque já queria voltar antes mesmo de sair de lá, né…).

Diz que tem dunas e oceano além dessa bruma… 😀

Imagem do GoogleMaps.

De modo que tomamos nosso café da manhã cedo, fechamos nossa conta no hotel e nos dirigimos ao aeroporto de Walvis Bay. De Swakopmund a Walvis Bay, 35 km de uma estrada asfaltada margeada de um lado pelo Atlântico e de outro pelas dunas tão lindas e inspiradoras, parte fundamental do meu sonho de visitar a Namíbia. Tanto o oceano quanto as dunas eram, entretanto, impossíveis de serem vistas no meio do nevoeiro sem fim na manhã daquele sábado. Suspirei melancolicamente.

Chegamos ao aeroporto de Walvis Bay, deixamos a chave do carro alugado num drop-off box da locadora e nos dirigimos para o check-in com a Air Namibia. Nosso vôo sairia às 9:55am, rumo à Cidade do Cabo, na África do Sul. Meu receio estava para se concretizar: eu não daria meu tchau final às dunas namibianas da janelinha do avião. Planejei tanto este vôo para ver estas dunas pela última vez e – parecia naquele momento – que o plano tinha furado.

Como o céu estava no momento do embarque. :O

Mas eu já havia também sido alertada – e passado – por tal nevoeiro nos dias anteriores na cidade. As manhãs de inverno em Swakopmund e Walvis Bay sempre amanhecem com fog, por causa da direção do vento de ar quente do deserto da Namíbia que se encontra com a brisa fresca do Oceano Atlântico durante o amanhecer. (Esta monografia em pdf comenta mais tecnicamente sobre o fenômeno meteorológico que ocorre ali.) E, à medida que a temperatura à beira-mar esquenta, o fog vai desaparecendo. Então, era só esperar a manhã avançar, com a temperatura esquentando, para o céu ficar limpo – lógica científica.

De modo que, às 8:30 da manhã, com a pista ainda envolta em brumas, quando o alto-falante avisou que o vôo atrasaria por pelo menos uma hora, minha reação foi a oposta da maioria dos outros passageiros: alívio. Ainda restava uma esperança.

A ciência meteorológica não me desapontou. Às 11:00 da manhã, quando finalmente começamos a embarcar, o céu estava de brigadeiro, azul e sem nenhuma nuvem sequer. E eu poderia dar um tchau apropriado às dunas de Swakopmund.

A vista do deserto começa, assim que levantamos vôo.

O avião era um jato pequeno com capacidade para 36 passageiros. Sentei na última janela à esquerda, enquanto André sentou em outra mais a frente, à direita. E voamos.

As dunas que chegam no oceano Atlântico, da janela do lado direito do avião.

No que agora passou a ser o vôo de avião mais lindo da minha vida. Porque a paisagem que brota fica rosa-alaranjada – e todos os tons e subtons variantes que você possa imaginar, num surrealismo geológico que é pura emoção e poesia aos olhos. Inesquecível.

A borda do mar de dunas é bem delimitada pelos depósitos rochosos ricos em ferro. Tudo é deserto.

Sobrevoamos o pedaço sul do deserto da Namíbia, parte do Parque Nacional Namib-Naukluft, em toda sua extensão de mais de 1000 quilômetros, rumo a África do Sul. A costa da Namíbia, por ser praticamente toda ela parque nacional, é das mais bem preservadas e intocadas do planeta, onde a natureza ainda é a força dominante.

Vôo rosa e carvão

Mar de dunas.

O deserto de 55 milhões de anos, o mais antigo do mundo, com suas dunas laranjas, vermelhas e rosas da longa oxidação do ferro presente em seu solo. Vistas do alto,  pelo vidro da janela do avião, as dunas parecem rosadas – e sabemos que algumas delas de perto também o são.

As “avenidas” de dunas.

O incrível e surreal Sossusvlei do alto… #morri

Vendo a magnitude do deserto de cima a gente também entende vários conceitos que os guias de turismo tentam te passar nos passeios: as “avenidas” que as dunas formam, o veio de rio seco que é o Sossusvlei, as montanhas “macias” da região sul com sua cor de carvão, aos poucos sendo “soterradas” pelo mar de dunas. Que lugar especial…

Quando vi o Sossusvlei, lágrimas escorreram. Este ponto tão especial da Namíbia passando pelos meus olhos grudados na janelinha. Toda aquela região alaranjada-rosada e sonhada, que espiei tantas vezes no Google Maps e que, com a iluminação do sol pelo vidro do avião, tranformara-se nesse tom rosa tão mais delicado. Vi o Deadvlei, onde me emocionara há alguns dias, assim como o Hiddenvlei, ambos pontos brancos de sal naquele mar de cor de rosa e carvão. Das vistas mais impressionantes que já tive na vida, de um dos pedaços mais lindos e espetaculares do mundo.

Hiddenvlei e Deadvlei – e outros vleis… <3

As dobras do terreno… as montanhas erodidas… de uma poesia geológica imbatível. <3

Parecia brincadeira, mas bastou o avião cruzar o rio Orange, na fronteira com a África do Sul, para as nuvens reaparecerem e cobrirem a paisagem.

Rio Orange, divisa da Namíbia com a África do Sul.

O dia amanhecera branco e iria terminar branco, em outra cidade de outro país – chovia em Cape Town quando lá aterrisamos. O espetáculo que o vôo sobre o deserto da Namíbia proporcionou acabara e a realidade assumira o comando: a viagem dos meus sonhos chegava ao fim. Mas não sem deixar uma profunda marca cor de rosa no meu coração viajante.

Ah, Namíbia! Ainda te verei de novo…

Tudo de bom sempre.

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P.S.1: Todas as fotos deste post foram tiradas com meu celular.

P.S.2: Meu vôo favorito de antes ainda faz meus olhos brilharem também só de imaginar sua imensidão azul… É muito vôo bonito nesse mundão sem porteira, gente! <3

Um dos fenômenos meteorológicos mais bizarros – e raros – que ocorreu durante a catastrófica passagem do furacão Irma pelo Caribe na última semana aconteceu nas Bahamas e na baía de Tampa, na Flórida: o mar “secou”.

Mais: ao secar rapidamente, expôs vários animais aquáticos às intempéries terrestres, incluindo aí dois peixes-bois-da-Flórida (ou manatis). As fotos da matéria linkada são inacreditáveis de tão surreal que é a cena.

Peixes-bois no furacão Irma

O fenômeno do mar “seco” foi detalhado neste artigo da meteorologista Angela Fritz para o Washington Post, que achava que durante sua vida profissional jamais presenciaria tal evento, que existia apenas no âmbito teórico. Pois eis que não só aconteceu, como apareceu pelos 4 cantos das mídias sociais.

Cientificamente, para o mar ser drenado, é necessário que os ventos de um furacão sejam absurdamente fortes – como foi o caso do Irma. Além de sua força, a direção do vento no local “sugado” importa também. Os ventos ultra-fortes são então capazes de “puxar” a água de uma parte inteira do oceano – no caso, na costa das Bahamas e na baía de Tampa. Mas a água não desaparece nem evapora; ela tende a se acumular na região central do furacão, e pode ser despejada com força em outra área do furacão.

Todo esse movimento de água em larga escala pode acontecer abruptamente durante a passagem do furacão – e a água volta com força em poucos minutos assim que o mesmo passa. Por isso, as autoridades locais estavam pedindo às pessoas que não se adentrassem pelo novo platô formado. O grupo que salvou os manatis se arriscou no resgate; ainda bem que foram bem-sucedidos.

Irma foi uma tragédia catastrófica, de proporções inacreditáveis. Como tal, trouxe o ensinamento de um fenômeno novo neste mar de mudanças climáticas que vivemos.

E fica mminha mensagem de tudo de força aos que batalharão nos próximos meses e anos pela recuperação das áreas atingidas.

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P.S.: O furacão Irma foi tão intenso que arremessou um golfinho para a areia da praia em Marco Island, onde fez seu landfall. 🙁

P.S.2: O texto definitivo desta semana sobre a vida no Antropoceno vem, claro, de Naomi Klein – e vai na direção oposta desse monte de água, comentando sobre os incêndios e a fumaça crônica que apavorou (e apavora ainda) diversas partes do mundo durante este esturricante verão de 2017.

Estou para comentar sobre este fato já há algum tempo, mas só nesta semana finalmente sentei para escrevê-lo aqui. Em novembro do ano passado, uma das minhas cidadezinhas pequenas favoritas no mundo foi destruída por um terremoto de 7.8 na escala Richter, um dos mais devastadores e complexos já registrados pelos cientistas, que levantou até 8 metros de altura algumas áreas da ilha sul e aproximou a mesma 5 metros da ilha Norte. Kaikoura, na ilha sul da Nova Zelândia, é dos lugares mais incríveis que conheço por conta de sua riqueza de fauna marinha. Ponto de parada de várias espécies de baleias, de golfinhos, leões marinhos e focas, Kaikoura ainda oferece um ar interiorano que cativa o visitante em uma paisagem fenomenal, esprimida que está entre o mar e as montanhas geladas. Além disso, suas peculiaridades geológicas deixam a região ainda mais intrigante para quem curte geologia. Eu amo Kaikoura, então sou suspeitíssima para falar, porque para mim uma viagem pela ilha sul sem incluir Kaikoura é praticamente um pecado de roteiro.

Riacho de Ohau desaguando no mar.

E, dentre os lugares mais sensacionais que estive em Kaikoura, está o Ohau Stream (Riacho de Ohau). Este pequeno recanto está localizado na beira da rodovia estadual 1, ao norte de Kaikoura, que margeia o oceano. O riacho de Ohau é pequeno, mas ao final de uma pequena caminhada, vemos uma cachoeira bem bonita, a Ohau Waterfall.

A grande curiosidade deste lugar é que, durante os meses de fevereiro a agosto, os filhotes de New Zealand fur seal (Arctocephalus forsteri, ou lobo-marinho-da-Nova-Zelândia) que normalmente caçam no mar, sobem o riacho até a cachoeira para brincar. É um comportamento fascinante, único no mundo, em que os animaizinhos começam a aprender a viver em sociedade – e se divertem um bocado no caminho pela floresta. É das visões mais fofas que se pode imaginar na Terra: uma cachoeira linda, com uma floresta verdinha ao redor, cheia de filhotes de fur seals pulando e brincando e nadando e jogando água pra tudo quanto é lado. #MuitoAmor

De modo que, quando comecei a ver fotos do terremoto ainda em novembro/2016 e percebi a  devastação completa que ocorreu exatamente na região do Ohau Point, meu coração se despedaçou completamente. O epicentro do terremoto foi praticamente ali, a poucos quilômetros de distância. A rodovia estadual 1 era só deslizamento atrás de deslizamento, e um deles aconteceu justamente na colônia de fur seals. Era possível que tivéssemos perdido este comportamento animal único por causa de um evento natural. Tristeza. E uma das grandes questões que ficou depois do terremoto era se os fur seals voltariam à cachoeira.

De acordo com reportagem que li na época, a trilha que levava até a cachoeira estava destruída, mas o riacho ficara intacto. E não muitos animais mortos, por incrível que pareça. Porque novembro é a época em que os bebês estão aprendendo a comer em alto-mar, e provavelmente muitos estavam longe da costa no momento do terremoto. Em dezembro do mesmo ano, foi reportado que os fur seals estavam bem, e alguns já no riacho. Ou seja, o comportamento não foi completamente perdido. A rodovia 1 que leva à esta colônia ainda está fechada por conta dos deslizamentos, sem data para ser reaberta – mas os animaizinhos sobreviventes podem ir e vir do riacho sem problemas. (Este post do The Secret Life of Seals explica direitinho as previsões possíveis para esta população de fur seals depois do terremoto.)

De modo que os animais estão inacessíveis. Se a estrada reabrir, não deixe de incluir a visita ao Ohau Point e separar um tempo especial para ver estes animais. Eu gostaria de encontrá-los de novo – e reviver a delícia que é vê-los se divertir tão cheios de energia infantil nas águas do Ohau Stream. Sonhar não custa.

Lobo-marinho de Kaikoura

E, enquanto eles estão lá, curtindo sem os humanos, fica minha celebração na Sexta Sub destes sobreviventes do terremoto de Kaikoura fofíssimos. 🙂

Tudo de bom sempre.

No final de agosto passei 3 dias na cidade de Kassel, na Alemanha, para visitar a documenta 14, exposição de arte contemporânea que ocorre de 5 em 5 anos e que vai até dia 17 de setembro deste ano. Esta foi minha segunda vez na documenta – fui em 1997, na documenta X – e estava muito animada de rever a cidade e o clima de arte que a ronda durante a documenta.

A documenta é uma das maiores exposições de arte contemporânea da atualidade e as obras ali expostas ficam espalhadas pela cidade, em diversos museus, galerias e prédios – e muitas ficam pelas ruas mesmo. Neste ano, senti uma tendência muito mais forte à arte com mensagem político-social; se em 1997 muitas obras carregavam um quê introspectivo claro e ousado, este ano sem dúvida a arte como ferramenta para a discussão e reflexão política e social mais abrangente foi  predominante. Um bom eco do momento que vivemos no mundo, de instabilidade política geral.

A Friedrichsplatz, praça principal de Kassel, durante a Documenta 14.

É uma delícia estar em Kassel durante a documenta, porque a cidade respira e exala arte pelas esquinas e parques. Não tem como não se empolgar quando a contemporaneidade se integra à cidade, e você se depara com peças admiráveis que te fazem pensar diferente. É um alento a este coração malla, que acredita profundamente que a gente precisa da arte mais do que nunca neste momento tenso da história.

Durante os dias em Kassel, me hospedei no Tryp by Windham perto da estação de trem central – que também tinha obras de arte da documenta. A localização do hotel facilitou a ida/vinda de trem para Frankfurt-am-Main, cidade grande mais próxima dali, e valeu a pena por me permitir ir à pé para os locais de exposição que achei mais interessantes, como o Museu Friedricianum, o Neue Galerie, o Documenta Halle e o Neue Neue Galerie. Dos 35 pontos de exposição em Kassel, visitei 21 nos 2 dias inteiros de andanças pela cidade que fiz – e fiquei mais que satisfeita, pois vi muita arte interessante e desafiadora.

Não sou uma expert em arte ou curadoria; a arte me atinge como espectadora. E é nesse papel que deixo aqui no blog para meu arquivo pessoal algumas das ideias que a documenta 14 me suscitou, reflexões que brotaram, e as obras que mais curti/me impactaram.

A Crise dos Refugiados

A Europa, incluindo Alemanha, está mergulhada numa crise sem precedentes por conta da quantidade enorme de refugiados que vêm aportando em suas fronteiras costeiras, vindos de áreas de conflito ou de perturbação ambiental extrema no norte da África e no Oriente Médio. Para mim, este foi o tema mais presente da documenta 14, que trouxe luz especial a esta crise humanitária da atualidade, com um número incrível de obras para incomodar o espectador.

Das diversas obras que abordaram este tema, as que mais me impactaram foram:

  • “36º 45’N – 021º 56′”, do grego de Kalamata Dimitris Tzamouranis. A pintura em tela parecia nao ter nada de especial, mas quando a gente chega perto e vê o realismo com que ele retrata o mar violento, sugerindo em minha interpretação o que os refugiados encaram ao atravessar para a Grécia… é perfeita. Os detalhes da pintura são assustadoramente impressionantes e foi minha obra favorita de toda a documenta. (Adoro marinhas, né… tem isso também.)

Documenta de Kassel

  • “Biinjyia’iing Onji (From inside)”, da canadense Rebecca Belmore, que “montou” uma barraca em mármore nos jardins do Grimmwelt Museum que a meu ver sublinha a natureza permanente dos refugiados que chegam na Europa. A escultura é de uma força incrível, pois o mármore gelado ainda sugere a frieza com que se lida com esta crise hoje.

  • “Fluchtzieleuropahavarieschallkörper”, do mexicano Guillermo Galindo, que basicamente criou instrumentos musicais novos com materiais deixados para trás pelos imigrantes ilegais que cruzam a fronteira do México com os EUA pelo deserto. O fato de você poder tocar e criar música a partir de um material tão simbólico é de uma delicadeza tocante. Estava no Documenta Halle.

  • “When we were exhaling images”, do iraquiano Hiwa K., uma instalação que estava no jardim do Friedrichsplatz ao lado do Documenta Halle, feita com manilhas amarelas de amianto empilhadas. Cada manilha era um cômodo de uma casa. A instalação foi feita em conjunto com os alunos de design de uma escola de arte em Kassel, e praticamente jogava na nossa cara as condições subhumanas de vida a que os refugiados estão expostos em sua jornada por segurança.

  • Além destas obras, outra obra que comentava sobre os conflitos no Oriente Médio me deixou com um nó na garganta. “Nassib’s Bakery”, da artista libanesa Mounira Al Sohl, era a representação fiel da padaria de Nassib em Beirute, no Líbano, na década de 80, que foi bombardeada por ser “famosa” na cidade em meio à guerra. Toda a instalação da padaria – que era especializada em za’atar pizza – estava montada em um dos Glass Pavillions da documenta. Acompanhava uma exposição dos desenhos feitos pela artista de refugiados atuais, em transição por Atenas ou Kassel, feitas em lápis e papel amarelo de rascunho, chamada “I strongly believe in our right to be frivolous”. Mensagem mais clara não há.

A Ascensão da Extrema Direita

De uma certa forma, uma reação à crise de refugiados – e em minha opinião uma resposta clara à superpopulação do planeta (mas isso é papo pra outro post…). De qualquer forma, a documenta trouxe obras quase de cunho histórico: para relembrar os horrores de uma guerra e do holocausto, repudiar o nazismo, a xenofobia e tentar celebrar a diversidade.

“View from above”

Quem me conhece, sabe que eu não sou fã de vídeo. Interessantemente, duas vídeo-obras que trouxeram esta temática e me fizeram pensar bastante estavam neste formato: uma do Hiwa K (again…), “View from above”, que acompanhava uma maquete da cidade filmada – basicamente Kassel depois dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, e que estava pertinentemente no Stadt Museum ao lado da sala do museu que conta os momentos pré e pós-guerra; e “77sqm_9:26min”, um vídeo estilo CSI descrevendo a contra-investigação do assassinato de um imigrante do Oriente Médio por neonazistas em Kassel, que expõe todo o racismo (ainda) do sistema judicial alemão. O assassinato ocorreu a poucos metros de distância do local da exposição deste vídeo na Neue Neue Galerie, e os fatos ali narrados trucam a objetividade germânica na investigação. O vídeo pode ser assistido online aqui.

Outro fato que ocorreu é que, ao me deparar com a obra “Real Nazis” de Piotr Uklanski na Neue Galerie, não consegui me segurar: chorei de revolta. Porque, ao escancarar a dimensão do problema, me deu um embrulho no estômago gigante. Arte que incomodou mesmo.

A situação da Grécia

Uma das inovações da documenta 14 foi estar sediada em duas cidades: Kassel e Atenas, na Grécia. A documenta de Atenas terminou antes da de Kassel, mas a duplicidade e/ou complementariedade das obras e de muitos artistas trouxe pro palco alemão uma discussão necessária sobre a Grécia, sua crise política e econômica na zona do euro, sua localização estratégica como ponto de entrada para os refugiados da crise mencionada acima, aliadas à carga importantíssima histórica para nossa cultura. Todas estas questões contemporâneas transformaram a Grécia num ponto nevrálgico para a Europa – e nada mais lógico que trazê-la para o forefront da arte contemporânea também, para as reflexões e quem sabe mais proximidade.

Documenta de Kassel

Muitos artistas gregos tiveram destaque especial na documenta em Kassel, enquanto outros se inspiraram na Grécia para suas obras, como foi o caso da argentina Marta Minujín, que construiu em meio a Friedrichsplatz a instalação The Parthenon of Books”. O efeito visual desta obra era sensacional, parecia de longe uma imagem chuviscada de TV fora do ar. A estrutura era toda construída com livros que em algum momento da história foram proibidos de circularem, e os livros serão distribuídos no último dia da documenta 14. Simplesmente incrível andar por dentro deste Partenon!

(O mais legal é que ao lado do Partenon de Livros estava o cabeçalho-instalação “Beingsafeisscary” do turco Banu Cennetoglu, que trocou a inscrição do Friedricianum para uma que refletia nossos medos dos tempos atuais…)

Aludindo à estruturas gregas, tinha ainda o “Acropolis Redux”, feito pelo artista sul-africano Kendell Geers. A obra estava no Friedricianum e era composta de um monte de arame farpado fazendo uma estrutura de Acropólis. Será que o ápice da arquitetura de uma civilização chegou a uma fronteira?

Mudanças climáticas

Cito aqui apenas para mencionar que foi uma das grandes ausências da documenta em questão de tema. Pouquíssimas obras comentavam/tocavam neste assunto tão necessário. Talvez porque já tenha sido esgotado em outras eras, ou porque a crise dos refugiados abocanhou esta (e já é uma consequência da mesma).

Mas confesso que fiquei um pouco decepcionada. Esperava muito mais instalações, vídeos ou o que seja envolvendo clima. Talvez o artista Pope.L esteja certo e “Green people are a recent invention”

(Pope.L, aliás, foi o artista cujas obras no total mais curti. Seu “Whispering Campaign” espalhado em diversos pontos da cidade me faziam dar sorrisos a cada vez que os achava – como durante meu almoço de gnocchis na L’Osteria, em plena Königsplatz.)

A documenta que me fez sorrir

Nem só de reflexão política-social vive a documenta. Muitas das obras me deixaram com um sorriso no rosto por pura arte estética, arte pela arte, pela sacada original, pela contemplação sem expectativas ou pelo sentimento otimista que trazia, de um futuro melhor ainda possível. Meu lado poliana sempre agradece estes momentos.

Dentre as obras que me deram alento de otimismo, destaco os quadros coloridérrimos do americano Stanley Whitney. Em meio a tantos tons de cinza ou pastéis, sem dúvida um sopro de vida colorida no Documenta Halle.

Outra obra “fofa” foi a da artista turca Nevin Aladag, “Jali”. Uma parede de cerâmica decorada vazada típica da Índia. A parede que mostra mas separa de uma forma esteticamente elegante. Não me preocupei se a obra tinha algum significado maior; a meus olhos, valeu bastante por ser pura e simplesmente agradável.

“The End”, do grego Nikos Alexious, me capturou pelo teor lúdico. Era uma animação digital super-colorida em mosaicos, que estava sendo projetada no chão logo na entrada do Friedricianum. (Me lembrou a animação do teamLab na Bienal de Honolulu.) Trocentas selfies com a cobertura colorida que a animação proporcionava. Foi muito legal ver as pessoas literalmente se jogando no chão para a arte!

Outro destaque incrível foram os quadros abstratos do alemão Olaf Holzapfel, feitos com canudo e compensado. As diferenças de tons que ele conseguiu com os canudos e o efeito final quase cinético me ganharam imediatamente. As obras dele estavam no Bellevue, numa sala dedicada.

E, para finalizar, uma reflexão sobre a moda e a ilusão que temos de ser “diferentes”. A fotografia histórico-arquivista do holandês Hans Eijkelboom em “Photo Notes 1992-2017” mostra exatamente o quanto somos iguais nesta busca pela diferença – ou o quanto somos diferentes mesmo sendo “iguais”. Ele fotografou em períodos de 1-4 horas pessoas randômicas andando em algum lugar do planeta com roupas similares – por 25 anos. (Um dos períodos foi na Avenida Paulista, fotografando motoboys – é impressionante como no resultado final ficam todos parecidos.) Uma experimentação simples e que gera muuuuito #FoodForThought.

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É isso. Depois de me afogar em arte contemporânea, voltei para Frankfurt com a alma lavada. Quando fui na primeira documenta em 1997, jamais imaginava um dia voltar – só posso me sentir muito grata por ter tido a oportunidade desta experiência insana de deliciosa por duas vezes. No trem, vendo a paisagem passar, escrevi este post, já saudosa da documenta 14. 🙂

Tudo de arte sempre.

Se2017

Hoje é o Dia do Biólogo e para celebrar a data vou contar aqui minha última aventura nesta profissão querida que abracei. Estive em meados de agosto viajando pela Europa e o motivo principal desta viagem foi para participar do Selenium 2017 – o congresso que ocorre de 4 em 4 anos (como a Copa do Mundo!) sobre selênio, este micronutriente tão complexo e necessário para nossa saúde que é o foco principal da minha pesquisa biomédica há quase 2 décadas. O congresso foi em Estocolmo, na Suécia, e tive a oportunidade de apresentar um poster e um seminário de 15 minutos sobre meu trabalho. (Para saber mais especificamente sobre meu envolvimento com o selênio, leia estes posts.)

A história de Berzelius contada na Aula Medica, a sala de seminários do prêmio Nobel.

Um dos highlights deste congresso foi o fato de que se comemorou os 200 anos da descoberta do selênio pelo químico sueco Jacob Berzelius – e por isso a escolha do local do congresso foi indiscutível. Berzelius trabalhou no Karolinska Institutet em Estocolmo, onde nosso congresso de selênio aconteceu. Ele também descobriu outros elementos químicos, como o tório, e em geral é celebrado como um dos maiores químicos que já passaram por este planeta.

Estátua de Berzelius no Berzelii Park em Estocolmo.

E, é claro, por conta deste currículo invejável, é uma das figuras mais celebradas da história da Suécia – em Estocolmo, visitei o Berzelii Park, cuja atração central é a estátua em homenagem a Berzelius.

Aula Medica Nobel

As palestras mais importantes do congresso foram realizadas no Aula Medica, o prédio onde todos os anos também são proferidas as palestras científicas de quem recebe o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina – você pode assistir a todas elas no site do Nobel. À parte a emoção de estar em uma sala tão importante para a ciência mundial, também me encantei com o prédio do Aula Medica, obra arquitetonicamente espetacular de Gert Wingård. Não cansei de fotografar o prédio, por dentro e por fora. De cada ângulo, uma novidade. (E me lembrou um pouco as bandeirinhas do Volpi, que amo. <3 )

 

Aula Medica.

Na escadaria do Aula Medica ficava passando um vídeo psicodélico. Inspirador?

Durante o Congresso, nós selenólogos (como chamamos amigavelmente quem pesquisa selênio) fizemos uma excursão até Gripsholm, na região de Solna, nos arredores de Estocolmo. É neste local onde se encontra o prédio específico em que Berzelius descobriu o selênio em 1817. Que é praticamente um galpão, onde antigamente funcionava uma fábrica de produção de ácido acético para formação de álcool – usado para fazer aquavita, a bebida predileta dos vikings escandinavos.

Berzelius

Nesta pequena casinha branca funcionava em 1817 o laboratório em que Berzelius trabalhava, e onde ele descobriu o selênio. #MuitoAmor

Foi divertido presenciar o momento em que um bando de selenólogos se deparou frente a frente com o galpão do Berzelius, fazendo uma farra sem fim. Parecíamos um bando de crianças na Disney, tirando milhares de selfies e com sorrisos maiores que o universo químico.

Castelo de Gripsholm.

(Parênteses: Gripsholm também é famosa pelo Castelo Real de Gripsholm, uma construção lindinha que fica à beira do lago Mälaren e ainda à disposição do rei sueco para uso a seu belprazer – embora haja um museu ali dentro aberto aos plebeus. Do lado de fora do castelo, ficam duas pedras rúnicas, registros arqueológicos dos antigos vikings, que eram sua forma cultural de celebrar alguém que morreu.)

Pedra rúnica de Gripsholm.

O banquete do congresso foi outro highlight destes dias na Suécia. Oferecido pela Prefeitura de Estocolmo, aconteceu no Golden Room do prédio da Prefeitura, o mesmo salão onde os agraciados com o Prêmio Nobel passam a noite dançando após o banquete oficial do Prêmio todo dezembro – ou seja, é o salão da festa.

Prefeitura de Estocolmo.

Salão Azul, onde acontece o banquete do Prêmio Nobel. (Tem uma historinha bonitinha de porque o salão, que é vermelho, chama-se azul.)

Golden Hall, onde ocorre a dança do Prêmio Nobel, e onde foi nosso banquete.

A sensação de estar ali naquela sala por onde passaram tantas sumidades e mentes brilhantes que admirei ou admiro em momentos descontraídos foi de inenarrável felicidade e muita gratidão por tamanha honraria. (Sem falar que a comida sueca foi de primeiríssima qualidade pro meu paladar, cheia de beterrabas, queijos e conservas temperadas com endro, que adoro.)

Apresentando seminário de selênio.

Para este congresso, apresentei um poster e um seminário. Ambos foram bem recebidos, com perguntas pertinentes e sugestões extremamente interessantes. Apesar de um pouco nervosa na apresentação oral (foi a primeira da manhã, e eu quase cheguei atrasada porque não ouvi o alarme), saí de ambas as apresentações com ótimas ideias para os próximos passos – e este é sem dúvida um dos objetivos de um congresso científico, te abrir os horizontes com ideias novas de colegas gabaritados para discutir o assunto.

Também sou destas pessoas que para se concentrar em ciência precisam de alguma conexão com a arte – então decidi da maneira mais malla possível que neste congresso meu “tema de fundo” seria Mondrian, que amo tanto e de linhas tão simplificadas. Dado que meu trabalho tem um tanto de abstrato e requer que eu chegue num bottom line ultra-simplificado, achei que as linhas claras de Mondrian representavam bem os desafios da minha pesquisa (Momento viagem #NaMaionese). Tanto meu poster quanto meu seminário tiveram designs inspirados na obra do pintor holandês, e fui elogiada pela escolha pelos pesquisadores europeus. Um deles falou: todo mundo precisa de arte a todo momento, é bom sermos lembrados disso durante um congresso. (Esse era definitivamente do meu time…)

Mas não foi só esta arte que rolou. Na noite de abertura do congresso, um grupo de neurocientistas do Karolinska Institutet montaram uma apresentação de avant-garde chamada “Probing the mind of Berzelius”, em que basicamente o texto do artigo original de 1817 do Berzelius foi “lido” em ondas de EEG do cérebro de um dos músicos, o francês Samon Takahashi. (Mais detalhes deste experimento musical aqui.) A maioria do pessoal do congresso não entendeu/ não curtiu. Eu particularmente adorei – mas sou suspeita, porque curto música experimental à beça e avant-garde é um estilo para “incomodar” os limites estabelecidos mesmo.

Campus do Karolinska Institutet no verão.

O congresso aconteceu por 5 dias, todos de muita discussão e diversão em Estocolmo. Afinal, um congresso científico nunca é apenas para falar de ciência – ele engloba network, conhecer novos pesquisadores e suas ideias inovadoras, e rever os amigos cientistas de outros cantos do mundo que falam nossa mesma língua científica, que entendem os jargões e os percalços que passamos. É criar um senso de (micro)comunidade em cima de um assunto tãotãotão especializado.

E que venha o próximo congresso de selênio daqui a 4 anos – no Havaí. 😉

Tudo de bom Sempre.

Quarta-feira dia 30 de agosto foi o Dia Internacional do Tubarão-baleia, e como esta espécie é uma das minhas favoritas de tubarão, deixo aqui a lembrança nesta Sexta Sub para vocês, deste animal lindo, enorme e extremamente dócil que habita os mares do mundo.

Este aí debaixo, vimos perto de Isla Mujeres, no México, em 2010. Momento inesquecível da minha vida explorando os recantos do mar. <3

Tubarão-baleia

Tudo de sub sempre.

A foto da Sexta Sub desta semana é só para lembrarmos de uma lei natural que funciona também para a vida: os dois (ou mais) lados de tudo e todos. Perspectiva, sempre. Uma pessoa nunca é unidimensional – ela ganha rótulos, mas há mais por trás deste rótulo do que sequer podemos imaginar. Uma ação nunca é tomada apenas por uma causa – há sempre análises adicionais possíveis.

Parece uma coisa tão básica, mas às vezes a gente esquece dessa lei tão básica da vida, né?

Perspectiva

Na foto, o espinho da estrela coroa-de-espinhos que nos machuca e destrói os corais serve de proteção aos peixes-cardeais (Siphamia fuscolineata). A tristeza de um pode ser o bem-estar e a segurança do outro. Nunca sabemos.

Fica a filosofice malla do dia.

Tudo de sub sempre.

Postado em 25/08/2017 por em Sexta Sub

É uma sensação muito peculiar quando a gente está nadando no mar e de repente aparece uma sombra como esta abaixo.

Sombra de baleia

Mesmo láááá de longe, a sombra ainda é enorme. Vem tranquilamente, ciente dos obstáculos pelo caminho azul que percorre. Quando ela se aproxima, te mostra a real proporção da nossa pequeneza perante essa gigante.

Baleia franca (Eubalaena australis). A menos de 100 metros da arrebentação da onda na Costa Selvagem (Wild Coast) da África do Sul, nadando vagarosamente – para padrões de baleia, porque ainda assim era praticamente impossível acompanhá-la nadando. Este é um comportamento comum, de se aproximar da costa devagar, e razão pela qual a espécie quase foi extinta – muito fácil de ser capturada.

A costa leste da África do Sul é um dos hotspots para se ver a espécie no mundo, entre junho e outubro, quando migram das águas gélidas da Antárctica para águas mais amenas ao norte. Mas… as baleias desta espécie também visitam o Brasil, na mesma época, no litoral de Santa Catarina. (Nós vimos perto Imbituba e da praia do Rosa.)

Felizmente, hoje, os números das populações de baleia franca melhoraram bastante e a espécie está fora do risco de extinção – mas ainda assim, protegida por várias leis internacionais. O que permite que cada vez mais a gente possa ter surpresas destas ao nadar no mar.

Tudo de baleia sempre.

Meu amigo queridíssimo Nash tem um espírito aventureiro-mochileiro, e adora fazer trilhas desafiadoras. Fez recentemente as trilhas de Ka’aha e Pepeiao dentro do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí na Big Island. Foram 3 dias de caminhada em área remota. Abriu um blog só pra registrar as aventuras desta trilha. E generosamente me deixou fazer uma tradução livre para o português, compartilhando seu post-guia detalhadinho desta ~jornada. Aos aventureiros de plantão que estão a fim de encarar um hike no meio dos campos de lava em completo isolamento… enjoy!

**Todas as fotos deste post foram gentilmente cedidas pelo Nash. 🙂

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Na trilha de Pepeiao

Flor de ohia do lado de fora da Cabana Pepeiao ao entardecer.

Resumão

Caminhamos por: Trilha do Ka’u Desert do ponto cênico de Hilina Pali até a Pepeiao Cabin; trilha de Ka’aha da Pepeiao Cabin até Ka’aha; trilha de Ka’aha até a volta ao Hilina Pali.

Onde dormir: Pepeiao Cabin por uma noite; Abrigo Ka’aha na outra noite.

Distância percorrida: ~14,4 milhas ou 23.2 km.

Prós: Trilha vazia na maior parte do tempo, não cruzei com ninguém no caminho até a subida da volta ao Hilina Pali. Os dois pontos de acampamento estão com novas privadas de compostagem. Paisagens lindas. A praia em Ka’aha.

Contras: Milhões de formigas-fogo em Pepeiao, e muitas baratas no abrigo de Ka’aha. Água potável com um cheiro estranho na Pepeiao Cabin. O calor é extremo da Pepeiao Cabin até Ka’aha quanto na subida da volta, de Kaaha até o Hilina Pali Lookout.

Faria de novo? Provavelmente não. Ticada da minha lista de desejos!

Mapa da trilha de Pepeiao. À esquerda, a vista geral do parque Nacional dos Vulcões do Havaí. O quadrado vermelho está ampliado no mapa à direita. Tirado do ©Google Maps.

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A ideia

A primeira vez que ouvi falar das trilhas remotas do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí foi pela minha amiga Susie. As histórias dela sobre o camping em Halape e Keahou me animaram a me aventurar fora dos meus pontos usuais de acampamento e explorar a encosta sul do Mauna Loa. Depois de pesquisar sobre os vários pontos remotos de camping na costa do Parque dos Vulcões, logo concluí que ninguém estaria interessado em embarcar comigo nesta aventura. Estórias de escorpiões, formigas-fogo, baratas, centopéias e calor extremo eram os desafios que encontrei em diversos blogs sobre a trilha, apesar dos mais recentes serem de 2010 ou antes. Desanimariam a maior parte dos aventureiros comuns a se adentrarem nestas áreas remotas do Parque. Entretanto, com apenas 5 semanas de férias entre a formatura e o início da minha residência médica, decidi que tentaria tirar da minha lista de desejos pelo menos alguns pontos de acampamento destas trilhas remotas.

Logística

Algumas das dificuldades logísticas que tive:

  • Achar alguém que me acompanhasse que tivesse tempo livre ou dinheiro suficiente para esta empreitada.
  • Achar alguém em boa forma física para carregar uma mochila de ~20kg por milhas e milhas de campos de lava.
  • Assegurar a autorização para mochilar pelo Parque por 3 dias, já que de acordo com o site do Parque, você só pode pagar pela autorização com UM dia de antecedência antes de começar a caminhar pela área remota. Levando em consideração que a gente teria que voar de Oahu para a Big Island só para assegurar a autorização (e talvez não consegui-la), isto poderia ser um problema.

Depois de convidar um monte de amigos, no final apenas uma alma corajosa se animou a me acompanhar nesta aventura: Maxine. Com alguém para me acompanhar, comecei então a encarar a logística: comprar as passagens aéreas, reservar o carro alugado, achar uma acomodação para ficar, e fazer uma lista de itens necessários para a aventura. Uma vez que esta logística estivesse finalizada, só sobraria esperar até a hora do vôo de Honolulu para Hilo.

Compra da Autorização de Camping

Cheguei um dia antes da Maxine na Big Island, para dirigir até o escritório de trilhas remotas (Backcountry) do Parque dos Vulcões e comprar a autorização. O super-prestativo ranger Greg foi muito atencioso, e me passou uma série de updates das quantidades de água potável durante a trilha, status dos banheiros e da trilha em si para cada um dos pontos de pernoite. Infelizmente, como ele me explicou, o sistema de coleta de água de um dos pontos, em Halape, estava quebrado, portanto sem opção de água potável naquele ponto, o que impediria a gente de pernoitar lá. Depois de um pouco de discussão, terminei reservando uma noite na Pepeiao Cabin, seguida de uma noite no abrigo de Ka’aha, e terceira e quarta noites em Keahou, já que Halape não era mais uma opção. Baseado no título deste post, vocês podem concluir que nós não chegamos a Keahou, e explicarei adiante por que não.

Um update muito importante do ranger Greg foi de que o Parque está reestruturando seu sistema de compra de autorização para acampar, mudando tudo para um sistema online. Eu já havia percebido a seguinte nota no site do Parque sobre compra de autorização:

“Autorizações devem ser obtidas com não mais que 24 horas de antecedência no escritório de Backcountry, aberto diariamente das 8:00-16:00h. Taxas de autorização podem ser pagas pessoalmente no escritório em cartão de crédito, cheque pessoal americano, dinheiro exato (não damos troco!), ou online pelo link pay.gov. Pagamentos feitos pelo pay.gov requerem a aquisição adiantada de um número de protocolo, feita através de ligação telefônica ou email para o escritório de Backcountry. Você entrará este número de protocolo no site do pay.gov na hora de comprar a autorização.”

De acordo com Greg, as autorizações podem ser compradas com até UMA SEMANA de antecedência do início da sua caminhada pelo Parque, na seguinte sequência: 1) ligar para o escritório (+1-808-985-6178); 2) pegar um número de protocolo para autorização de trilha diretamente com ele, ranger; 3) pagamento da autorização (US$10,00) na compra online; e 4) ligar de volta para o escritório confirmando o recebimento do pagamento. Esta opção teria me economizado ir com um dia de antecedência para Hilo. Enfim.

Dia 1 – De Hilina Pali até Pepeiao Cabin (7,7 km)

Primeira impressão da Cabana Pepeiao vista da trilha que corta o deserto de Ka’u.

Antes de começarmos a caminhada no Hilina Pali.

Na manhã seguinte peguei a Maxine no aeroporto internacional de Hilo, fizemos nosso ritual pré-caminhada com um brunch reforçado no Hawaiian Style Cafe, e seguimos para o Parque Nacional dos Vulcões para começar a caminhada. Paramos o carro no estacionamento do ponto cênico Hilina Pali e começamos a andar até a Pepeiao Cabin, por um pedaço da trilha desértica de Ka’u: 7,7 km, descendo 183 m de elevação, estimativa de 2 horas de descida de acordo com o ranger. Greg havia nos avisado que a trilha NÃO estava em boas condições de manutenção, e ele estava certo; apesar de alguns momentos de “Onde está a marcação da trilha?”, conseguimos chegar na Pepeiao Cabin em exatamente 2 horas.

Início da trilha. Estacionamos o carro aqui enquanto fazíamos a caminhada.

Como dito por outros blogs que achei online, a cabana era “rústica”, com duas camas de campanha cobertas por uma fina prancha de madeira e um tecido cobrindo as molas. Também havia uma mesa para preparar comida, uma estante de livros com o caderno de visitas da cabana, um extintor de incêndio, alguns livros randômicos deixados por visitantes anteriores, um chapéu e uma vassoura. A cabana tinha 5 janelas de vidro sem tela, sendo que 4 delas ainda abriam bem, além de uma porta de madeira que fechava direitinho. Apesar das janelas e porta funcionais, os infinitos buracos no telhado e nas paredes da cabana tornavam praticamente impossível que se impedisse que insetos e roedores entrassem na cabana. Depois de abrir a janela para arejar, nós varremos o chão, limpamos e rearranjamos as camas de campanha, de modo que nossa barraca pudesse caber dentro da cabana, caso ninguém mais aparecesse até o fim do dia. Fomos então explorar a área, achamos os (aparentemente) novos vasos sanitários de compostagem, e comemos boa parte dos muitos quilos de lichia que nos foi dado pelos Hamiltons.

Assim que a noite chegou, estava claro que ninguém apareceria por ali mais, então nós montamos nossa barraca REI 2 Man Dome dentro da cabana, o que ajudaria na proteção caso chovesse, já que os buracos do teto de metal com certeza não protegeriam. Usamos um pequeno fogão de propano para ferver água e dividir uma refeição desidratada da Blue Mountain de strogonof de carne, e comemos mais lichia de sobremesa. No geral, a noite na cabana foi um pouco fria, apesar de ser maio (primavera), e nenhum grande problema apareceu durante a noite.

PRÓS DE PEPEIAO

  • Um tanque de 10.000 galões de água coletada da chuva, que estava bem cheio;
  • 2 horas de caminhada relativamente fácil;
  • Ponto de acampamento escondido, sem ninguém ao redor;
  • Ter uma cabana para montar a barraca dentro da mesma (caso ninguém aparecesse);
  • Novos vasos sanitários de compostagem.

Cabana Pepeiao.

CONTRAS DE PEPEIAO

  • A água do galão de coleta da chuva tinha um cheiro péssimo, de esgoto, mas era potável;
  •  A torneira estava entupida, porque tinha muita terra dentro do encanamento, o que, de acordo com o ranger Greg, explicava porque apenas um filete de água saia;
  • Toneladas de formigas-fogo por todos os lados ao redor da cabana, algumas dentro da cabana, e elas começavam a subir em qualquer coisa que aparecesse por ali;
  • Vimos UM camundongo que não deu problema durante a noite.

Banheiro de compostagem na Cabana Pepeiao.

Sistema de coleta de água da chuva na Cabana Pepeiao.

Tanque de coleta de água.

Cama de campanha da Cabana Pepeiao.

Estante de livros com coisas randômicas dentro da cabana.

 

 

Vista lateral da janela da Cabana Pepeiao com os diversos buracos no teto de zinco.

Muitas ohias ao redor da cabana.

Dia 2 – Da Pepeiao Cabin até Ka’aha (9,7 km)

Cabana Pepeiao está em algum lugar no topo desta imagem para o lado direito. A trilha desce por este caminho da lava. A vista do mar acompanha esta trilha pela costa até Ka’aha.

De acordo com o site do Parque Nacional dos Vulcões, a caminhada da Pepeiao Cabin até Ka’aha, chamada trilha de Ka’aha, é de 9,7km, em descida de 512m de altitude, com estimativa de 3 horas para ser feita. Nós começamos a caminhada às 9:00 depois de dar acordarmos com calma, limparmos tudo e dar uma espiada nos arredores da cabana. Descendo pelo lado sul do Hilina Pali na direção do oceano, a vista é muito bonita. De novo, a trilha per se é sem muitos atrativos além da chavão busca pela sua marcação. Chegamos mais ou menos às 10:00 da manhã perto da costa, quando o calor extremo começou a incomodar, e nós dois nos sentimos gratos por estarmos com chapéus, camisetas de manga comprida e calça. Chegamos em Ka’aha em 2 horas e 45 minutos, menos que o tempo estimado, e de novo ficamos felizes de não encontrar ninguém no acampamento. Depois de almoçarmos, bebemos mais água e fomos explorar a costa numa caminhada curta de 10 minutos do abrigo de Ka’aha. Embora nós dois tivéssemos roupas de praia para Keahou, o fato de não haver fonte de água doce ali e os muitos quilômetros de trilha que separavam a gente da água doce no abrigo fez com que decidimos não nadar em Ka’aha. Durante a caminhada pela costa, nós vimos muitos peixes nas piscininhas, além de lixo marinho acima da marca da maré, e curtimos o visual daquela costa.

Vista da Trilha de Ka’aha nesta direção à medida que descemos da Cabana Pepeiao em direção à costa.

Um dos melhores ahu que encontramos pelo caminho.

Como é a maior parte da trilha de Ka’aha.

Fomos recebidos por um arco de lava na costa onde a trilha começa a rumar para a costa de Ka’aha.

Muito lixo de deriva na praia de Ka’aha.

A areia preta na prainha em Ka’aha.

Olhando para trás de Ka’aha, a partir da prainha.

Depois de explorarmos a praia, fomos verificar as possibilidades de banheiro do abrigo: o mais próximo (e mais antigo) não tinha porta, o que o tornava inutilizável. O segundo era depois de uma escadaria e parecia relativamente novo. Infelizmente, não havia nenhum tipo de material absorvente de cheiro nos banheiros, exceto um bizarro saco plástico lotade de tampões. O abrigo de Ka’aha também parecia novo, com varios pregos para pendurar coisas para secar, uma mesa para cozinhar no canto direito, e uma caixa com o caderno de visitas do acampamento.

Abrigo de Ka’aha só com nossa barraca já que ninguém mais apareceu para acampar ali.

Tanque de coleta de água no abrigo de Ka’aha.

Banheiro antigo de compostagem sem porta.

O novo banheiro de compostagem, muito melhor.

Esperamos até de tardinha antes de montarmos nossa barraca no abrigo, sem necessidade de ajeitar o abrigo de chuva, já que ninguém mais apareceu no acampamento. Já estávamos a 24h sem ver ninguém, e um dos motivos pelo qual decidimos fazer esta caminhada na área remota do Parque dos Vulcões, e felizmente nenhum dos abrigos tinha outra pessoa. Nosso segundo jantar foi outra refeição desidratada Blue Mountain de macarrão apimentado, e sobremesa foram balas. Embora eu esperasse tirar algumas fotos em longa exposição das estrelas ao longo da costa, a noite ficou nublada e não deu pra ver as estrelas. Assim que o sol se pôs, o que era até então um agradável dia de caminhada para a gente se tornou um pesadelo para Maxine, pois inúmeras baratas começaram a aparecer pelos buracos da parede do abrigo e ao redor da nossa barraca. Eu não sabia que Maxine tinha fobia de baratas, e a quantidade gigantesca delas ali estragaram a noite em Ka’aha. Para mim, eu dormi tranquilamente como sempre faço em viagens de acampamento.

PRÓS DO ABRIGO DE KA’AHA

  • Um tanque de 10.000 galões de água coletada da chuva, relativamente novo, e sem cheiro ruim, assim como uma torneira desentupida;
  • Abrigo e banheiro relativamente novos;
  • De acordo com o caderno de visitas, um excelente ponto de pesca na praia da Pedra Preta logo em frente do abrigo.

CONTRAS DO ABRIGO DE KA’AHA

  • Nenhum material para absorver o cheiro no banheiro;
  • Banheiro antigo sem porta;
  • Toneladas de baratas no abrigo.

Vista da trilha de Ka’aha perto da costa.

MUITAS conchas de opihi [um gastrópode havaiano] perto da área de acampamento. Razão provável para a imensa quantidade de baratas ali.

Vista do abrigo de Ka’aha na direção de Halape ao amanhecer.

O Dilema & A Caminhada de Volta ao Hilina Pali

Baseado na autorização de trilha que comprei, naquele momento nós precisávamos caminhar 12,4 km até Kaehou para as próximas duas noites de acampamento. Depois de muita discussão sobre a quantidade de insetos nos dois acampamentos por onde passamos e sobre a subida de 15,6 km de Keahou de volta ao nosso carro no Hilina Pali, decidimos voltar pelo caminho que já tínhamos percorrido até o carro. Chegamos à conclusão que uma próxima viagem para Halape/Keahou seria mais indicada no futuro, quando o sistema de coleta de água de Halape estivesse instalado e funcionando.

Embora a gente tenha planejado subir de volta pela encosta do Hilina Pali, não imaginávamos o quão difícil seria…

Baseado em nosso mapa, o caminho de volta de Ka’aha até o carro no Hilina Pali seria de 6,1 km subindo do nível do mar até 690 metros de altitude, levando aproximadamente 2 horas (de acordo com o mapa de descida). Sinceramente, esta subida nos massacrou. Não sei se foi a falta de resistência física, ou as nossas mochilas pesadas ainda cheias de comida para mais duas noites, as diversas vezes em que perdemos a marcação da trilha, ou a subida tão íngreme. No final, levamos 2h e 25 minutos para subir de volta até o cume do Hilina Pali. A trilha foi marcada pela falta de marcações da costa até a base do Hilina, e de lá seguimos as indicações para o cume. Nós nos perdemos na subida e terminamos passando uns bons 10 minutos escalando o morro, numa situação nada ideal, mas no final conseguimos reencontrar a trilha, felizmente. Também encontramos os primeiros andarilhos enquanto subíamos, um casal que nos informou que faltavam cerca de 2/3 do nosso caminho pra cima (nós pensávamos que estávamos mais alto?!?!). O único problema na subida foi uma cãibra na coxa esquerda que me deixou mancando. No geral, uma subida extremamente extenuante que nos deixou super-aliviados ao chegarmos ao topo, no ponto cênico do Hilina Pali, onde pudemos finalmente tirar nossas mochilas das costas, beber mais água que estava no carro e relaxar.

De alguma forma andamos todo o terreno mostrado nesta foto, do distante final do Hilina Pali até a parte debaixo da Cabana Pepeiao, pela costa de Ka’aha no canto esquerdo, e subindo de novo pelo Hilina Pali.

Trilha de Ka’aha vista da Pepeiao Cabin à distância.

A marcação da trilha está escondida em algum lugar desta foto…

Subida brutal.

Olha a inclinação…

Olhando do ponto cênico do Hilina Pali para o que agora sabemos ser Ka’aha à distância. É incrível que daqui a gente não consegue ver nada do enorme platô de lava que percorremos nestes dias.

Foto de fim de trilha depois de termos sobrevivido à subida brutal da encosta do Hilina Pali.

No exato momento da publicação desta Sexta Sub, estarei em trânsito em algum ponto do hemisfério norte, rumo a mais um destino novo em minha listinha. É uma viagem a trabalho, para o congresso Selenium 2017 – que tem a melhor URL ever para selenonerds como eu. Apresentarei um poster. Depois  esticarei por uma semaninha para visitar amigos queridos.

Descobertas

Como este é um congresso extremamente importante para a minha área de estudo, serão novas descobertas. Estou animadíssima pela oportunidade de aprendizado enorme que se aproxima. Como perguntadeira profissional, esta saudável inquietude do conhecimento científico é dos sentimentos mais gratificantes que a gente tem durante a carreira profissional. É como se me fosse dada uma lanterna, para que eu investigasse melhor as questões a que me proponho.

Todo esse palavreado pra dizer que: estou empolgada.

Que venha Estocolmo! (E sem nenhuma síndrome prisioneira, por favor…)

Tudo de bom Sempre.

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