No verão do ano passado, visitei a cidade de Gotemburgo na Suécia (Gothenburg em inglês, ou Göteborg, em sueco). Confesso que a cidade não constava na minha lista de viagens ou locais que sonho conhecer – visitá-la foi uma destas serendipidades que a vida nos oferece de vez em quando, e que que a gente abraça com curiosidade.

André fora convidado para dar uma palestra num congresso científico na cidade, e eu resolvi aproveitar e ir junto de férias. Meu sogro também se juntou nessa “balada escandinava”, andando pra cima e pra baixo pela cidade. Antes de viajar, achei poucas informações sobre a cidade que me interessaram – e então decidi que o roteiro seria mais folgado.

Deixo aqui no blog um roteiro de 5 dias que não segue exatamente a ordem que fiz quando estive em Gotemburgo – rearranjei alguns detalhes para ficar mais eficiente e relax. Cinco dias, em minha opinião, é mais que suficiente para conhecer e aproveitar Gotemburgo com calma. Mas se você tem menos dias na cidade, talvez um condensadão deste roteiro funcione (juntar os dias 2 e 4, por exemplo). Enfim, possibilidades à vontade. Se você como eu um dia cair de para-quedas nesta cidade cool da Suécia e estiver no clima de o-que vier-é-lucro… este é o seu roteiro. 🙂

Informações Básicas

Temperatura: Gotemburgo fica na costa oeste da Suécia, numa latitude um pouco abaixo de Estocolmo. Como fui nos primeiros dias do verão no final de junho, os dias eram longuíssimos – o solstício de verão tinha sido uma semana antes. Praticamente nunca escurecia; à noite o que acontecia era um twilight apenas e o céu nunca ficava pretão. Apesar desta ser considerada a época mais quente/ensolarada do ano, estava ainda friozinho à tardinha para meus padrões tropicais (sou muito friorenta!), e usei bastante cachecol e meia 3/4 de lã. Choveu bastante. A temperatura média era em torno de 16ºC, mas ao meio-dia o calor era ok. O problema é o vento: Gothenburg está na costa, e venta bastante principalmente à beira do canal principal da cidade.

Aeroporto: Gotemburgo é bem servida de vôos das principais cidades européias, e a SAS é a empresa aérea sueca de maior importância. O aeroporto internacional de Landvetter fica a uns 40 minutos da cidade, e é super-ajeitadinho apesar de pequeno. Na nossa volta para casa íamos sair num vôo de manhã cedinho, e decidimos dormir uma noite no Landvetter Airport Hotel, a menos de 200m do aeroporto – menos de 5 minutos de caminhada até o balcão de check-in do aeroporto, muito fácil. O hotel é super-conveniente, muito bom e começa a servir café da manhã às 4:30am, para aqueles que, como nós, voariam cedo. O café, aliás, é nota 10, estilo sueco, cheio de peixes defumados, geléias e pães maravilhosos.

Ferry nosso de cada dia…

Acomodações: Na cidade de Gothenburg, nós ficamos em 2 hotéis, ambos fora do centro, do outro lado do rio Göta: passamos uma noite no Quality Hotel 11, em Eriksberg, e depois 4 noites no Radisson Blu Riverside, em Lindholmen, dentro do Science Park da Universidade de Chalmers. O Quality Hotel 11 é simples e eficiente, só achei meio fora de mão. Já o Radisson Blu Riverside me encantou pela temática científica e pela localização ao lado do lindíssimo Kuggen. Meu sogro ficou no Radisson Blu Scandinavia, e também achou um ótimo hotel – cuja localização era bem mais central e conveniente. Nos três hotéis, o café da manhã estava incluso, e super-farto, em estilo sueco.

Transporte público: Nós literalmente andamos por Gotemburgo, porque o clima do verão permitia, e pegamos o mínimo possível de bonde, ferry ou ônibus. No geral, achei a cidade facílima de se caminhar, e um mapa como o do escritório de turismo é suficiente para que você faça bom proveito da cidade à pé. Mas para quem não quiser encarar quilômetros de caminhada, a cidade oferece o City Card, que além de transporte, dá direito à entrada gratuita em diversos museus e atrações da cidade, ou passes de 3 ou 7 dias, compráveis em qualquer loja Pressbyrån (a maior rede de conveniência da cidade).

Fika: O que eu mais curti na Suécia foi descobrir sua culinária, super-diferente e rica. E exercer o direito de fika, uma das tradições suecas mais deliciosas. Basicamente, é uma “hora do cafezinho” versão escandinava, uma parada no meio do dia para comer um docinho, apreciar um café gostoso enquanto se bate um papo com os amigos de forma descontraída. Um momento de socialização, que alguns acreditam ser o responsável pela eficiência sueca. Não saia de Gotemburgo sem pelo menos uma vez sentar num café para uma fika porque é nesse momento que os suecos se revelam mais sorridentes.

5 dias em Gotemburgo

Prepara um drip coffee para a fika, por favor, moço! <3 #MelhorCafé

(Para uma cafeinômana latina como eu, a pausa da fika só me fez cair de encantos imediatos pela cidade e minha estadia se tornou uma grande e contínua fikação. 😛 )

Dia 1 – Beira-rio

Começamos a manhã andando pela beira do rio Göta em Eriksberg. No passado, o bairro tinha um grande estaleiro, que faliu na década de 70 – mas deixou para trás um grande guindaste com o nome do bairro, que hoje é marca registrada da região. Eriksberg hoje é residencial moderna, e o calçadão é super-delicioso, com alguns cafés para sentar e passar o tempo entre as inúmeras marinas. No dia em que andamos ali, como era início do verão, diversas famílias passeavam com crianças e bebês.

Num dos píers está estacionada uma réplica do veleiro Götheborg, um dos maiores veleiros de madeira do mundo e que cruzou os mares nórdicos no século XVIII. Há visitas guiadas para ver o navio por dentro – nós não fizemos porque os horários são bem restritos, mas fiquei com bastante vontade…

O que mais me encantou pelas ruas de Eriksberg, na verdade, foi descobrir diversas hortas comunitárias e perceber o quanto as construções suecas estão pensando em sustentabilidade e economia verde em seus detalhes – a quantidade de telhados “verdes”  e carregadores para carro elétrico que vi foi incrível.

Uma das muitas hortas comunitárias de Gotemburgo. <3

A caminhada terminou em Lindholmen, no campus da Chalmers University. Ali está o Kuggen, e uma série de prédios de arquitetura moderna inspiradora. Dentro do Science Park, dá pra dar uma olhada nas pequenas exposições de trabalhos científicos suecos e se inspirar. Há poucas opções de almoço nesta área, e as mais interessantes são os food trucks. Entretanto, basta atravessar o rio de ferry e descer na estação Stenpiren, entre os bairros de Inom Vallgraven (o centro da cidade) e Nordstaden, para estar perto de diversos restaurantes, padarias e cafés deliciosos na Västra Hamngatan (gatan = rua), como a Brogyllen, que oferece na fika um cinammon roll dos sonhos além de diversos sanduíches e quiches tradicionais. Outra sugestão caso tenha tempo é descer do ferry na estação Lilla Bommen, só para dar uma espiada rápida no barco Viking que fica ancorado ali.

À tarde, nós ficamos pela região de Inom Vallgraven, que é lotada de lojas e cafés. Andamos pela beira do canal de Stora Hamn, onde fica o imponente prédio do Museu de Gotemburgo (Stadsmuseet). A caminhada até a praça do Brunnsparken é extremamente agradável; passamos pela praça Gustaf Adolf, onde uma estátua marca e celebra este que foi o fundador da cidade. Tudo estava florido, as pessoas animadas nas ruas. Tomamos um sorvete delicioso num quiosque da praça e visitamos o escritório de informação turística da Ostrahamng.

À tardinha (com sol em pino ainda!), nos direcionamos para o super-trendy Norda Bar, que fica dentro do Clarion Hotel Post. Este bar é famoso por seu mixologista bartender Dosa Ivanov, escolhido em 2015 o “melhor bartender do mundo” – é, eu sei, esses títulos são extremamente parciais. Mas fato é que Dosa estava lá quando fui. Troquei umas palavras rápidas com o sorridente bartender e mais admirei a facilidade e paixão com que prepara seus drinks. Tomei seu signature drink, o Grand Horizon (receita aqui), e foi realmente maravilhoso. Ficamos para jantar no Norda, que oferece um cardápio eclético razoável a um preço mais salgado que bacalhau norueguês.

Dosa Ivanov, o melhor bartender do mundo, em ação no bar do Clarion Hotel Post.

Dia 2 – Visita a museus

Depois de um primeiro dia light, o segundo dia em Gotemburgo seria dedicado a muitas caminhadas. A idéia era explorar as ruas da cidade à pé, sentindo a vibe do lugar. Entretanto, o tempo estava meio nublado/garoa e a cautela falou mais alto: tomamos o rumo dos museus, se possível à pé.

Curto muito futebol, então saindo de Brunnsparken, nós ~tínhamos~ que seguir pela Slussgatan até o clássico estádio de futebol Ullevi, onde em 1958 entrou em campo pela primeira vez no time brasileiro um jogador chamado Pelé, no jogo Brasil x União Soviética (ganhamos de 2×0, gols de Vavá) pela Copa do Mundo de 1958 – Copa esta que o Brasil ganhou, by the way. Hoje o estádio mantém o look vintage da Copa de 1958, e na frente de seu ginásio, uma pequena estátua do jogador sueco Gunnar Gren, o ídolo sueco da mesma Copa. Gren nasceu em Gotemburgo, portanto a homenagem no Ullevi é mais que compreensível.

Do estádio continuamos andando pela Park Gatan, a rua que margeia o parque, explorando o bairro de Heden. O bairro tem ruas mais largas, e em poucas quadras a gente chegou na Götaplatsen, o quadrilátero/praça da Berzeliigatan (rua Berzelius) formado pelo Museu de Arte de Gotemburgo, a Biblioteca da Cidade,  o Centro de Arte Contemporânea e o Teatro Nacional de Gotemburgo. Como chovia um pouco, entramos no Museu de Arte para apreciar – o que terminou sendo uma decisão excepcional. Separe pelo menos uma hora para mergulhar na arte sueca.

Já era hora do almoço e paramos ali perto no minúsculo e stylish Viktors Café (na Geijersgatan) para comer uns sanduíches/salada. O café deles, por sinal, é excelente, e merece uma parada de fika também.

Não sei por quê, mas gostei tanto da entrada do Universeum… #SharkFeelings

Como o tempo não colaborava, andamos pela Södra Vägen até o Universeum, o Centro de Ciência e História Natural da cidade de Gothenburg. Era verão e o Universeum estava lotado de crianças – o museu é totalmente voltado para elas. Gostei muito de ver como eles organizaram a parte da floresta tropical – é um ótimo exercício fazê-la completa, cheia de escadas e rampas. A parte Water’s Way, que mostra o trajeto da água no mundo e na cidade, também é uma forma interessante de integrar a ideia de conservação de água à toda a exibição. O Aquário dentro do Universeum também é decente e eficiente, sem grandes destaques – tinham alguns tubarões para tirar um sorriso desta malla.

(Atrás do Universeum fica o Liseberg Park, um parque de diversões estilo antigo Playcenter de SP. Não fui nele, mas me pareceu outro passeio ótimo para famílias. #FicaAOpção)

Ao lado do Universeum, fica o Museu da Cultura Mundial, que foi sem dúvida meu predileto na cidade. O museu é formado por diversas galerias, com artes de todos os estilos vindas dos mais diversos cantos do planeta. É uma celebração das culturas do mundo mesmo, e no dia em que fomos havia uma exposição fotográfica chamada “Afghan Tales” com imagens de um Afeganistão que nunca vemos nos noticiários – me encantei com as fotos de um dos parques nacionais do país. O prédio do museu também é um show à parte, com um vão central enorme perfeito para relaxar depois de tanta caminhada.

Degustação de defumados, queijos e patês suecos no Smaka. Absurdamente delicioso.

À noite, queríamos provar culinária sueca de verdade. Tanto no hotel em que estávamos quanto no escritório de turismo nos sugeriram o restaurante Smaka. No início, desconfiei de tanta “indicação”, mas resolvemos encarar mesmo assim. Ainda bem que fomos… porque foi a melhor refeição que tivemos em Gothenburg! Comida autêntica sueca, com vários peixes e frutos do mar salgados e defumados, ovas, patês e afins, num preço extremamente razoável. Neste jantar, estávamos em 4 pessoas, e absolutamente tudo que pedimos estava gostoso. Não deixe de provar as almôndegas suecas, sensacionais.

Dia 3 – Marstrand

Gotemburgo é uma das mais importantes cidade portuárias da Suécia e tradicionalmente comercial, devido principalmente à sua geografia – uma área de wetland cortada por um rio que deságua num arquipélago na costa, cujas ilhotas protegem o wetland dos grandes swells do Mar do Norte. Hoje, este arquipélago é destino certo de verão para os moradores locais – e os turistas incautos que a visitam. Há diversas opções de day trips para conhecer algumas destas ilhas, e você pode ir usando o City Pass, que inclui o transporte de ferry. Minha sugestão: não tente fazer pinga-pinga, escolha uma ilha e aproveite-a com calma.

Nós optamos, entretanto, por fazer um mini-cruzeiro para Marstrand, um vilarejo fofíssimo considerado o coração do arquipélago – e que os suecos consideram uma “cidade” desde 1200 (mas com menos de 1500 habitantes, veja bem…). Marstrand está mais ao norte da costa oeste e o trajeto de Gothenburg até lá leva cerca de 1h e meia, saindo da estação Lindholmen. No barco, além das explicações dos guias, um bar com snacks serviço de buffet para almoço ou janta (no trajeto da volta, apenas).

A principal atividade em Marstrand é velejar – sua marina nunca congela, mesmo no inverno. Logo na chegada, vimos na marina inúmeros veleiros e windsurfs de todos os modelos e estilos, se preparando para alguma competição. Além de velejar, Marstrand também tem o Carlsten, um forte construído pelo Rei Carl X da Suécia para proteger a costa sueca dos inúmeros ataques dos vizinhos nórdicos, e que vale muito a pena ser visitado. A caminhada pelo forte é muito agradável, e depois de apreciá-lo, sobrou ainda bastante tempo para se perder pelas ruazinhas do vilarejo, sentir um pouco da vibe sueca ilhéu temperada. A cidade tem um ar bucólico delicioso e dá uma preguiça gostosa na gente…

E claro, em Marstrand fizemos mais uma fika básica, antes de encararmos o trajeto de volta.

Dia 4 – Mercados, Haga e Vasa

Acordamos cedo para chegar no Feskekôrka na hora de sua abertura ao público, às 8 da manhã. Feskekôrka em sueco significa “Igreja do peixe”, e é o mercado sueco de peixes e frutos do mar. Quando viajo, curto muito visitar mercados, então o Feskekôrka era praticamente obrigatório no roteiro. O prédio é inspirado em capelas neogóticas e sem pilares internos. Apesar de pequeno, o Feskekôrka oferece uma variedade e qualidade incrível de produtos bálticos do mar. Para quem curte, aqui é o lugar para provar um salmão fresco.

Do Feskekôrka, partimos andando para explorar o histórico distrito de Haga, famoso por seus cafés de fika e lojinhas de arte, souvenir e antiguidades. Claro, mal chegamos no Haga e sentamos para uma fika ~básica na En Deli Haga, um café vegetariano/vegan na rua principal do bairro, a Haga Nygatan. O Haga deve ser explorado à pé, com calma, admirando os predinhos de madeira super-bem preservados que no passsado eram residências de trabalhadores braçais, e que hoje se tornaram point cool da cidade.

Ainda em Haga, subimos até o Skansen Kronan, uma fortificação do século XVII que fica em cima de um morro com uma vista ótima da cidade e seus guindastes. A fortificação foi construída para se proteger dos dinamarqueses, que costumavam invadir a cidade no passado. Hoje, a área é um parque e usado para eventos privados. A subida cansa um pouquinho, mas num dia nublado de verão é agradável.

Skansen Kronan.

De Haga, seguimos para o bairro de Vasastan, onde ficam a Igreja de Vasa, construção neoromana no meio de uma praça, o campus principal da Universidade de Gotemburgo no Parque de Vasa, e o Röhsska Museum – o Museu da Moda e Design. A Suécia em geral tem excelentes designers contemporâneos, portanto o museu é uma boa oportunidade de ver uma seleção dos nomes mais famosos locais e internacionais. Vasastan é também o bairro da gastronomia, e o estrelado do Michelin Koka, de culinária da costa oeste sueca, fica aqui.

Caviar de colherada.

Vazamos do Vasastan pelo Avenyn até o Kungsparken, beirando um canal que te deixa no Stora Saluhallen, o Mercado Municipal de Gotemburgo. Dentro do mercado, todo tipo de defumados, queijos, caviares e doces escandinavos que você pode imaginar. Muitas frutinhas também. O mercado fecha às 18:00, e nós estávamos ali umas 16:00, portanto um ótimo momento e lugar para… mais uma fika. 😛 #Fikação

O que não falta nesta região perto do Saluhallen são restaurantes, clubs e cafés, principalmente perto da    noitinha, tínhamos combinado de ir a um pub. Apesar da distância, encaramos a caminhada até o Ölrepubliken para o happy hour. O bar tem mais de 30 variedades de cervejas on tap, mais um monte em garrafas, várias produzidas localmente, e um menu de alimentação razoável. Provei a que os colegas suecos sugeriram, uma IPA da cervejaria local Beerbliotek (“a library of beers” de acordo com seu website) – muito gostosa.

Dia 5 – Jardim Botânico

Dediquei o último dia inteiro em Gotemburgo a um passeio “florido”: a visita ao Jardim Botânico de Gotemburgo. Este jardim botânico é um dos maiores da Europa, com mais de 16.000 espécies de plantas vindas de todos os cantos do planeta. Sua localização é um pouco afastada da cidade (nós pegamos 2 bondes para chegar lá), mas não deixe que isso te desanime: vale muito a pena passar o dia neste parque lindo, que já foi considerado o parque mais bonito da Suécia!

Um dos prédios do complexo do Jardim Botânico.

Como o Jardim Botânico é enorme e está num terreno em aclive, prepare-se para subir – vagarosamente, mas subida. Há diversas trilhas possíveis para se explorar o local, e o mapa que eles oferecem é excelente para escolher “a sua trilha”. Na semana em que fomos, havia umas instalações artísticas no meio das plantas em alguns pontos do parque, para te atiçar a curiosidade. Curti.

A maioria das pessoas que visita o Jardim Botânico leva algo para fazer um piquenique – são tantos recantos fofíssimos e agradáveis para se sentar na grama que esta é realmente a melhor opção. O local é um convite a uma fika especial com os amigos – vi um chá de panela acontecendo na seção de plantas do deserto, com a noiva vestida de vaquinha (!?!?!?!). Mas, para quem não quer piquenique, a única opção é o café/restaurante AnyDay, pertinho da entrada principal do Jardim.

Chá de panela/piquenique sueco no Jardim Botânico de Gotemburgo.

Passei o dia inteiro no Jardim Botânico – e não vi tudo.

Era meu último dia na cidade, e o saldo era de que Gotemburgo foi uma agradabilíssima surpresa. A cidade me deixou com esse cheiro de flor selvagem do Jardim Botânico na memória – e de café quente da fika no coração.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais por Gotemburgo:

  • Pros amantes de cafés, o Gothenburg.Coffee lista e resenha vários deles pela cidade. E para brunches, esta outra lista também é espetacular. Ou esta. (Haja fika…)
  • O melhor recurso para visitar a cidade é seu site oficial de turismo. Poucas vezes, vi um site ser tão eficiente.
  • Um passeio que ficou na minha vontade foi a visita a Tanum, um sítio arqueológico considerado patrimônio mundial da UNESCO. Ali, vários resquícios da Era do Bronze Nórdica e uma série de pinturas rupestres e petroglifos super-bem-preservados podem ser visitados. Tanum fica ao norte de Gotemburgo, e fica a 2h de ônibus expresso – é um passeio de um dia inteiro. Quem sabe, da próxima vez que for à Suécia… sonhar não custa nada. 🙂

Gustaf Adolf, o fundador de Gotemburgo. 


Booking.com

 

Hoje é o Dia das Espécies Ameaçadas de Extinção, e deixo aqui na Sexta Sub uma foto de uma espécie criticamente ameaçada que tive a imensa felicidade de encontrar pelo mundo (mais especificamente na Flórida): a garoupa gigante do Atlântico (Epinephelus itajara). Simplesmente demais!

Dia das Espécies Ameaçadas de Extinção

Meu sincero desejo para hoje: que um dia todas as espécies não sejam mais criticamente ameaçadas, que elas se recuperem e que possam colorir de biodiversidade o nosso planetinha azul tão lindo por muitos milênios a vir! #SonharNãoCustaNada

Tudo de bom sempre.

P.S.: Dado o momento atual no Brasil e nos EUA, uma das espécies atualmente mais criticamente ameaçadas de extinção parece ser a do Politicus honestus… 

“Black hole sun

Won’t you come

And wash away the rain…”

No meio de uma noite de insônia, a notícia no NYTimes: o roqueiro Chris Cornell, cantor do Audioslave, Soundgarden e Temple of Dog, estava morto. 52 anos, muito jovem ainda. Imediatamente, me bateu uma tristeza enorme, seguida da vontade de ouvir suas músicas non-stop – Chris Cornell era um dos meus favoritos, sua voz poderosa e encantadora de uma vibração poética única e trilha sonora de tantos momentos importantes da minha vida.

Fui em seu show em 13 de dezembro de 2007, em São Paulo, evento registrado em um P.S. neste blog. Foi um show marcante, emocionante pela forma como sua voz reverberava e penetrava em nossos corações e cabeças. Aqui, um dos momentos mais incríveis deste show, quando ele canta “Hunger Strike” – estava lá na plateia, cantando junto, admirando um artista sensacional, num momento de catarse inesquecível.

Em homenagem a este artista que tanto admiro, deixo aqui um flood de vídeos, em gratidão a sua existência.

Primeiro, uma versão achada no youtube de um acústico em que Chris Cornell canta “Black Hole Sun”, minha música favorita dele – este vídeo é especial porque você realmente foca na amplitude da voz dele.

E outro vídeo, em que ele é convidado a cantar ao vivo “Crawling” de outra banda que adoro, o Linkin Park. Quando ele entra cantando os versos abaixo… é de arrepiar!

“Discomfort, endlessly has pulled itself upon me
Distracting, reacting
Against my will I stand beside my own reflection
It’s haunting how I can’t seem

To find myself again
My walls are closing in
(Without a sense of confidence I’m convinced
That there’s just too much pressure to take)
I’ve felt this way before
So insecure”

E esta longa entrevista em que ele comenta do início da cena grunge em Seattle – uma cena que ainda reverberava quando esta humilde fã andou pelas ruas da cidade.

R.I.P. Chris Cornell. Obrigada por todos os sons. 🙁

Postado em 18/05/2017 por em Música

SapiensSão raras as vezes em que um livro não me anima. Afinal, sou da turma über-otimista que acredita que sempre existe algo novo a se aprender, mesmo nas mais toscas pataquadas. Mas, preciso dizer, “Sapiens – A Brief History of Humankind” (“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”) , de Yuval Noah Harari, bateu recordes: foram muitos parágrafos instigantes, tantos que fiquei impressionada. Não houve sequer uma página de leitura em que uma idéia ou reflexão não tenha me deixado meio introspectiva, inundada por ondas de serotonina ou dopamina. A toda hora, a sensação de insights ou conexões inusitadas (óbvias, mas até então não feitas) na história dão ao livro uma cadência rara de se ter hoje em dia.

O mais interessante de tudo: não é uma história desconhecida. Afinal, o que é contado neste livro sensacional é a nossa história, a história da humanidade, que aprendemos desde cedo em aulas de ciências, história e geografia. Num formato de saga, estando todos envolvidos de alguma forma em todos os capítulos desta história. No entanto, o constante questionamento da visão clássica debate com a pesquisa feita por Harari para o livro, e termina trazendo ideias inovadoras muito instigantes para a mesa deste debate humanitário. E preciso confessar: em tempos de hecatombe climática, hipotetizar que talvez sejamos as últimas gerações de Homo sapiens me deixou um pouco mais tranquila. #VaiEntender

O ritmo, entretanto, que Harari põe ao livro me deixou em certos momentos incomodada. Achei frenético demais, overwhelming, passando por diversos pontos de maneira bem en passant e enviezada para que consiga fazer seu argumento colar – e cola, não precisa de muito, ora pois. Mal você reflete sobre um parágrafo e já tem um outro parágrafo te puxando pela camisa e dizendo: “venha me decifrar também”. Uma hora, a brincadeira de esfinge começa a cansar o leitor, infelizmente.

Como bióloga, vi esta superficialidade em diversos momentos relacionados à genética ou bioquímica, um foco destorcido ou uma martelação exagerada de certas ideias sem a profundidade necessária e sem o devido cuidado. Entretanto, ao mesmo tempo que o ritmo frenético me deixou incomodada, admito que a aparente superficialidade que ele gera como necessária – afinal, só a tentativa de explicar e refletir “profundamente” em algumas centenas de páginas toda a história da humanidade, dos Neanderthais ao futuro robótico, passando por história das comunidades e conceito das religiões, dos impérios, da agricultura, da evolução, da felicidade e todos os meandros e filosofices que isso trouxe e traz, já é um desafio que poucos encarariam. Fico feliz que Harari tenha o feito e compartilhado com a gente este resumão complexo e fascinante… da história da gente.

E mais: que no caminho da construção deste resumão, como bom escritor, Harari deixou espaço para diversos questionamentos fundamentais sobre o nosso próprio viver, nossa espécie e os caminhos do futuro que vem aí. Este instigar constante foi definitivamente minha parte favorita da leitura.

É um livro para se ler com a mente o mais aberta possível, despida de qualquer pré-conceito, seja positivo ou negativo – porque a ideia é jogar as ideias ali, e te fazer repensar a existência completa da espécie humana sapiens. Por exemplo, muitas das resenhas que li sobre o livro refletem mais os pré-conceitos de quem as escreve do que as intenções de Harari – e este meu post não foge desta regra.

Mas, no mundo polarizado de hoje, este exercício intelectual de introspecção e auto-reflexão despreconceituada sobre nossa teia biológica, social, emocional e global se faz muito necessário, e eleva, em minha opinião, o livro à categoria de must-read para os membros desta espécie dominadora e cheia de contradições. Encare esta viagem humanística e niilista sem medo; o aprendizado vale a pena.

Tudo de bom sempre.

“Sinais de Lisboa”, azulejos de Cecília de Sousa feita em 1988.

Museu do AzulejoQuando comento com as pessoas que estive em Lisboa e não vi o céu azul, muitas pessoas se espantam – aparentemente Lisboa é famosa por seus dias ensolarados. Mas, além da gripe horrorosa que me acometia, a chuva não parou em meus 4 dias pela capital, de modo que tive que priorizar visitas a lugares fechados, com pouca caminhada pelas ruas da cidade.

O Oceanário era um lugar na minha lista de pontos a visitar com chuva ou com sol, mas a minha ida ao Museu Nacional do Azulejo, realizada apenas porque chovia canivetes em uma das minhas tardes na capital portuguesa e este museu era relativamente perto de onde eu estava hospedada em Santa Apolónia, foi uma dessas serendipidades de viagem. E uma deliciosa surpresa.

Como o nome diz, o Museu do Azulejo é dedicado à arte de pintar em cerâmica para revestimento de paredes que os portugueses completamente dominaram no mundo – e ainda dominam. O prédio em si onde ele está instalado já é uma jóia: de arquitetura colonial clássica portuguesa, era o antigo convento da Madre de Deus – andar por seus corredores me lembrou demais diversas construções equivalentes no Brasil. Em 1980, depois de negociações com o governo, se tornou o Museu que hoje existe.

Um dos padrões azulejeiros do Oceanário de Lisboa.

O poeta-fingidor em azulejo. Pintura de azulejo feita por Júlio Pomar para revestir a estação Alto dos Moinhos, em Lisboa.

Mas o que realmente me impressionou no Museu foi aprender sobre a dimensão da arte azulejeira em Portugal. Azulejos de todas as formas, estilos e tamanhos, dos mais intricados aos mais simples, dos mais coloridos aos mais sombrios. E principalmente, percebi que a arte azulejeira, longe de estar morrendo, se mantém firme e forte na cultura portuguesa – a seção de azulejos modernos foi a que mais me impressionou, pra ser sincera.

O Museu faz um trabalho excelente em mostrar seus azulejos de maneira didática, com uma certa temporalidade mas não demais – há espaço também para azulejos holandeses, flamengos, etc. E além dos azulejos em si, há também peças de decoração e faiança na coleção.

Comecei a visita pelos azulejos mais antigos, aqueles tradicionais pintados em azul – e aqui, lembrar dos azulejos portugueses que vemos pelo Brasil também é inevitável. Há ainda uma capela/igreja dentro do Museu, com painéis de azulejo e afrescos muito bonitos, e que me lembrou em quase tudo o interior das igrejas mais famosas brasileiras.

A ala moderna dos azulejos.

Portugal é um país conhecido por seu bucolismo e melancolia. Não sei dizer se foi porque chovia horrores, ou se os corredores imensos daquele ex-convento me impressionaram, ou se ver azulejos de alguma forma me remete a locais bucólicos do Brasil, mas o fato é que na parte do museu com as peças mais antigas, senti uma certa melancolia no ar. Toda aquela arte azulejeira, tão bela e rebuscada, me transportou para uma era de colonialismo que, hoje sabemos, não foi das mais felizes para todos os brasileiros. Enfim, a carga histórica existente em minha cabeça e atachada às peças  ali mostradas era muito pesada para ser ignorada.

Mas aí começamos a entrar na modernidade. A impressão que tive foi de que a decadência portuguesa como nação navegadora trouxe um repensar artístico, que se revelou no design do azulejo tradicional – associado à todo o movimento modernista da mesma época, claro. As peças de azulejo modernas são provocantes, trazem um frescor ou uma crítica ao ambiente em suas linhas e entrelinhas desenhadas.

A visita termina na sala em que está exposição um painel enorme feito em azulejos, que retrata a cidade de Lisboa no ano de 1755. Este painel é realmente o ápice da arte azulejeira portuguesa, e sua exposição como grand finale torna o entendimento da arte azulejeira mais contundente ainda – afinal, saímos de azulejos modernos para esta volta ao passado; fica a sugestão de que o passado está ali como inspiração para o novo, o ousado, que vem por aí.

Na saída do museu, pausa para um café – ou um suco de laranja de verdade (coisa rara onde moro nos EUA) com um cálice de vinho verde, enquanto espera a chuva dar uma amenizada. A cafeteria de decoração azulejada rústica, numa tarde chuvosa, foi um convite perfeito à abraçar a melancolia portuguesa, principalmente quando ela vêm embalada para presente em forma de azulejo.

Na cafeteria, azulejos temáticos. (Fora estes assentos com cara de salaminho…)

Amei o museu e recomendo muito a todos que forem à Lisboa, gastar umas horinhas de visita a essa jóia do país – e que exalta tanta conexão com nossa própria história de país.

A grande vista panorâmica de Lisboa antes do terremoto de 1755. Produzido no início do século XVIII, é uma das grandes expressões desta arte portuguesa.

Tudo de bom sempre.

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Para visitar o Museu do Azulejo: 

  • O Museu Nacional do Azulejo fica na Rua da Madre de Deus, 4, 1900-312 Lisboa. Os ônibus 718, 742, 794 e 759 para em frente ao museu.
  • O Museu fica aberto de terça a domingo, das 10:00 às 18:00. O ingresso custa 5 euros, e tem estudantes e pessoas acima de 65 anos têm desconto de 50%.
  • Minha visita ao museu foi de aproximadamente 2 horas – acho que é tempo mais que suficiente para ver tudo, se você é um calouro desta arte azulejeira. 

Nesta semana em que relembrei minha viagem tão especial àquela que considero a ilha mais bonita do mundo, a Île des Pins, deixo na Sexta Sub um pouco da fauna subaquática que nos fez suspirar neste que é possivelmente um dos points mais surreais e incríveis de snorkel do planeta: o Aquário Natural da baía D’Oro.

Vejam se não é para se deslumbrar com os corais e paisagens submersas desse lugar…

Aquário Natural

Se vale a pena ir visitar este Aquário Natural? Correndo. Pra ontem. Antes que as mudanças climáticas comprometam irreversivelmente a saúde de mais esta maravilha do mundo.

Tudo de mar sempre.

 

Aquário de MilãoQuando estive em Milão em 2013, tive uma tarde livre para andar pela cidade com minha amiga Alline e sua fofíssima filha. Milão é conhecida por sua atitude fashion, sua arquitetura belíssima e seus museus sensacionais, mundialmente famosos. Mas foi enquanto andávamos pelo Parque Sempione que a Alline sugeriu a visita ao Aquário de Milão, uma estrutura meio esquecida nesta cidade de superlativas construções.

E eu curto visitar aquários. Principalmente para aprender sobre a perspectiva educativa de cada um deles, o quanto se empenham e se dedicam à conservação, e os programas que oferecem além da visita (voluntariado, atividades para crianças etc.). Milão não é uma cidade praiana, portanto também imagino que manter um aquário ali funcionando deve gerar um desafio extra à prefeitura, e muitas vezes as respostas a estas adversidades falam bastante sobre uma cidade e sua filosofia com os habitantes dela.

Escultura representando coral-dedo.

O Acquario Civico Milano é o terceiro mais antigo da Europa, inaugurado em 1906. Portanto, há uma importância histórica de sua presença ali, num recanto do parque. De longe seu prédio não impressiona tanto. Mas quando a gente chega perto e percebe os detalhes da arquitetura, aí começa a admiração: o Aquário tem diversos pontos de arte com temática marinha. No jardim do Aquário, as esculturas modernas todas aludem a corais, peixes e afins. O jardim, aliás, é uma ótima área para as crianças se divertirem e perfeito para uma respirada das caminhadas do dia.

Gárgula de polvo! <3

No dia em que fomos, o Aquário estava bem vazio – era fim de tarde num dia de semana no início de outono, e fazia um friozinho razoável. A entrada custa 5 euros, e se você chegar na última meia hora, é gratuita – se bem me lembro, foi exatamente o que fizemos.

Aquário de Milão

Há dois principais focos de exibição do Aquário: o túnel arredondado no maior tanque, onde ficam os peixes grandes (tubarões, raias etc.) e os peixes de água doce – dado que Milão está no interior, faz sentido. Há pinceladas em diferentes ecossistemas costeiros tropicais do mundo, com comentários específicos sobre a Itália. Entretanto, eu confesso que esperava um Aquário um pouco maior – acho que em menos de meia hora conseguimos ver todas as exibições que estavam ali. Mas vale pelo descanso: o arco formado pelo túnel funciona como um portal para a dimensão dos peixes em exibição no resto da estrutura, onde você pode sentar e apreciar com calma os animais. É interessante.

Meus dois centavos: acho que a cidade poderia se esmerar mais para cuidar dele. É nítido a quem visita que o Aquário tem importância terciária na estratégia de turismo da cidade. Usá-lo como instrumento educativo, o que possivelmente também atrairia mais turistas, principalmente os que viajam com crianças e ficam enfadados de tanta igreja e museu e loja de griffe – o Aquário serviria como um break mais interessante destas atividades.

Uma das esculturas de peixe do jardim do Aquário.

Por ser uma visita fácil e rápida de se fazer, recomendo ir, nem que seja para descansar olhando os peixes. Não precisa de mais de uma hora para ver tudo no Aquário. E o prédio com seus detalhes marinhos é fofo, vale pelo menos dar um alô pro deus romano Netuno, que fica nos recepcionando na porta de entrada.

Tudo de bom sempre.

Já se vão alguns anos em que estive por dois dias na Île des Pins – Ilha dos Pinheiros em português, ou Isle of Pines em inglês ou ainda Kunié na língua kanak local (gosto de usar o nome em francês; torna-a mais poética e saudosa ainda). Mas, apesar da passagem do tempo, a ilha não me saiu da cabeça. Por um motivo simples: das tantas ilhas que já visitei na vida (e não foram poucas, dada minha islomania), esta é a que achei a mais linda dentre todas as ilhas do mundo.

Claro, esta é uma escolha extremamente pessoal. Resultado talvez do impacto da chegada, sobrevoando um mar azul como nunca vi antes; talvez por tê-la conhecido no meu aniversário; ou talvez ainda seja a discrepância da paisagem, mistura de mar tropical do sul do Pacífico com pinheiros/araucárias que mais parecem temperados. Não sei explicar, mas a Île des Pins me pegou de jeito pelo coração, e nunca mais me largou. Sonho em lá voltar, e espero que um dia este sonho se realize.

Mapa da Nova Caledônia, tirado do site oficial de turismo do país.

Tirado do ©GoogleMaps.

A Île des Pins é uma pequena ilha ao sul da Grand Terre, ilha principal da Nova Caledônia, um protetorado francês que já é por si só uma pequena jóia do Pacífico sul. E dentro desta jóia, a Île des Pins é um diamante em estado bruto, desconhecida e esquecida pela maioria – menos por quem a visita.

O vôo até lá já foi um espetáculo, prelúdio do que nos esperava na ilha. Saímos do aeroporto doméstico de Magenta em Noumea ao meio-dia, num vôo da Air Calédonie, sobrevoando um pedacinho da costa do níquel e a barreira de recifes de corais que forma a maior laguna do mundo, patrimônio da humanidade por sua biodiversidade estupenda.

À medida que o vôo vai se distanciando da Grand Terre, começam a pincelar ilhotas douradas, com suas minúsculas praias de água azul cristalina. São inúmeras, a maioria delas desabitada – e me pego sonhando em uma viagem de barco que vá parando por cada uma delas…

Quando o avião começa a descer, começamos a ver os famosos “pinheiros” que dão nome à ilha – e a visão dos mesmos é estonteante, contrastando com o azul lindo do mar ensolarado.

Estes pinheiros – na verdade, a maioria de uma espécie de araucária endêmica da Nova Caledônia, a Araucaria columnaris – eram, para mim, a atração principal da ilha. Ao longe, lembram padrões de um sismógrafo, ziguezagueando por toda a costa. Mas as araucárias não anunciam um terremoto, e sim a discrepância surreal e lindíssima desta paisagem tropical única, principalmente quando se misturam aos tradicionais coqueiros.

Depois de aterrisar na Île des Pins, entretanto, as araucárias passam a ser um pano de fundo para o que realmente encanta: as praias incríveis da ilha. Cada uma mais linda que a outra, mansas e de água quentinha, com corais e vida marinha incríveis e uma pacatez relax que contagia. Île des Pins é o melhor lugar para esquecer dos problemas da vida moderna.

Uma Malla na Île des Pins.

A ilha tem 3 estradas principais, e saímos do aeroporto em direção ao Aquário Natural, considerado em qualquer guia um dos pontos mais lindos da ilha. Entretanto, a maré estava alta, e depois de investigar o caminho pelo braço de mar que se forma, decidimos nos encaminhar para um rolê pela costa.

Estátua de St. Maurice cercada por totens kuniés, em Vao.

Pegamos a estrada para Vao, vilarejo ao sul conhecido por sua igrejinha e pela estátua de St. Maurice à beira-mar, entre diversos totens kuniés. No passado remoto, na Île des Pins havia diversas tribos indígenas, todas de origem kanak (melanésia).

Já no século XIX, virou uma colônia penal francesa que recebia criminosos da França, aos moldes do que o império britânico fez com Austrália e Nova Zelândia. Algumas estruturas históricas desta época nefasta da colonização ainda são vistas, como a prisão e o cemitério em Mo, onde a maior parte das tumbas não têm nome – eram considerados a escória da sociedade francesa, afinal, sem direitos a nada. Mas em Vao, a lembrança deste passado não se destaca, e o que predomina é o bucolismo da igrejinha central.

Baía de Kanumera.

De Vao, continuamos pela rodovia litorânea até a baía de Kanumera, um dos pontos cênicos da região. Em Kanumera, é possível fazer um snorkel relax, rodeado de rochedos incríveis, que são sagrados na cultura local kanak – portanto, é proibido subir neles. Paramos ali para snorkelar e curtir a praia.

Praia de Kuto, onde fica o hotel Kou Bugny.

Depois de um tempo na água, continuamos pela estrada de árvores até a baía de Kuto, outra baía idílica – já havia perdido a conta de tantas baías e reentrâncias paradisíacas havia visto naquela tarde.

Estrada para Kuto.

Era meu aniversário, e para comemorar, decidimos por um champanhe à beira-mar no bar do hotel Kou Bugny, o único desta região da ilha. O sol se pondo, a calma e a paz das marolinhas do oceano, com crianças e pássaros brincando na praia e… ah! Me dá uma paz de espírito imensa, só de lembrar esta cena.

Praia onde acampamos.

Seguindo os conselhos da minha amiga que morava na Nova Caledônia, íamos acampar em uma das muitas praias desertas da ilha. A escolhida foi uma prainha próxima à baía de Kanumera, onde montamos nossa barraca e passamos a noite estrelada de verão. A área era um suposto camping – há inúmeros na Nova Caledônia, eles aparentemente adoram acampar.

De manhã, o nascer do sol da praia foi outro espetáculo dourado de que me lembro como se fosse hoje.

Aquário Natural.

Em nosso segundo dia na Île des Pins, o objetivo era fazer o snorkel no Aquário Natural. Desmontamos nosso acampamento e nos encaminhamos para a baía D’Oro de novo. Desta vez, com a maré baixa, era possível deixar o carro no início da trilha e chegar à pé tranquilamente até o Aquário. A caminhada não é longa, mas a paisagem estonteante gritava na minha cabeça: “parece um rio da costa oeste americana – mas você está numa ilha melanésia do sul do Pacífico com peixinhos coloridos!”. Até hoje, este paradoxo tropical-temperado ainda é o que torna a Île des Pins tão especial para mim.

Ao chegar na mini-prainha do Aquário, André foi logo para a água, começar sua exploração subaquática. Eu não conseguia parar de fotografar – a cada segundo, um pedaço da paisagem parecia ser mais incrível.  Nenhum barulho humano – apenas o som do vento e das marolinhas que a pequena corrente trazia. Depois de um tempo embasbacada, me toquei que ~precisava~ também aproveitar os corais dali, e caí na água. E… gente, o paraíso mesmo está embaixo d’água.

O nome Aquário Natural já diz tudo, mas não custa reforçar: inúmeros peixes tropicais coloridos, entre enormes cabeços de coral, muitas ostras e anêmonas, e vimos até uma cobra-do-mar. A riqueza da biodiversidade daquele ponto do mapa é estupenda. O Aquário é protegido das ondas por um complexo de rochedos, que fazem a água do mar entrar por um tortuoso caminho que desemboca no Aquário, praticamente um piscinão de água salgada. E que piscinão…

Depois de algumas horas nadando no Aquário Natural, era hora de voltar, pois a maré aos poucos enchia. Uma dor no coração imensa me arremeteu – e mal saí do Aquário e só conseguia pensar: “Quero voltar aqui um dia”. Aproveitamos que estávamos por D’Oro para andar um pouco pela praia desta baía, onde fica o luxuoso hotel Méridien. Na praia, uma pirogue, canoa tradicional kanak – um pouco mais à frente, na baía de Upi, há passeios em que os visitantes podem navegar nestas canoas, inclusive.

Île des Pins

A praia do Méridien.

Na volta da Baía D’Oro, em direção já ao aeroporto, paramos na Gruta D’Oumagne ou Gruta da Rainha Hortênsia. Uma pequena caminhada na matinha cheia de samambaias leva da estrada até a entrada da gruta, lugar onde a rainha da tribo local Ouatchia, Kaoua Véndegou, se escondia por meses durante os conflitos entre sua tribo e outras da ilha. Kaoua adotou o nome Hortênsia em homenagem à Napoleão, e foi a primeira pessoa de sua tribo a falar francês – o que provavelmente ajudou muito nas negociações políticas da época. Dentro da gruta, água e a escuridão, pincelada por estalactites e muita umidade. É um passeio super-rápido, e dali rumamos para o aeroporto.

Gruta D’Oumagne.

Era hora de dar tchau para a Île des Pins. 🙁

Em diversos momentos daqueles dois dias, me peguei pensando em quão grata eu era por viver e ter a oportunidade de conhecer este verdadeiro paraíso terrestre. E me prometi: um dia voltarei. Para aproveitar a Île des Pins do jeito que ele merece: sem hora pra acabar, deixando a cabeça se esvaziar. De preferência, debaixo de uma araucária à beira-mar.

Tudo de bom sempre.

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Vale lembrar:

  • A Île des Pins é um destino de luxo e isolamento para japoneses e australianos, e os preços acompanham esta tendência. Vá preparado, com dinheiro vivo – raros estabelecimentos aceitavam cartão na época em que fomos. Aos fins de semana, a ilha lota com o pessoal da própria Nova Caledônia, que vai curtir e acampar por lá.
  • As opções de acomodação tradicional na Île des Pins são limitadas, e lotam logo. Como acampar é muito comum na Nova Caledônia inteira, os mais aventureiros podem encarar esta opção – campings pelas estradas não faltam, há uma certa estrutura para a atividade, já que é a opção mais comum entre os locais da Nova Caledônia para viajar.
  • Opções de alimentação também são limitadas. Há bons restaurantes nos principais hotéis, mas com horários bem restritos. Nós paramos num mercadinho em Vao ou em outro vilarejo e compramos algo para lanchinhos e piquenique à beira-mar. Funcionou bem.

Uma velha pirogue.



Booking.com

Assim:

Como não fotografar um coral

A foto foi tirada nas Filipinas, minutos antes do dive master ir lá dar uns puxões de orelha neste mergulhador coreano por praticamente se ~deitar~ em cima do coral. Nem precisa dizer o quanto eu e André ficamos furiosos embaixo d’água vendo essa cena de teatro de horrores biológicos, né…

#FicaDicaEterna: JAMAIS se debrucem num coral. Ele parece pedra, mas não é – é um organismo vivo. Afinal, ninguém gosta de ser pisado ou esmagado. Nem mesmo o coral.

Tudo de coral sempre.

Primeiro de maio nos EUA é May Day – nosso dia do trabalho. E no Havaí, a sonoridade do May Day logo o transformou em… Lei Day, ou seja o Dia Do Lei.

Dia do Lei

Lei do Kamehameha.

Leis são os colares de flores tipicamente havaianos, com os quais as pessoas celebram tudo nas ilhas. Quando um visitante chega no aeroporto ou faz aniversário? Recebe um lei. Formou-se na faculdade? Colares de flores no pescoço. Dia da secretária? Lei para ela. É morador e vai embora do Havaí? Vamos dar tchau com um lei. Dia do Rei Kamehameha? Coloquem metros e metros de colares na estátua! SEMPRE há uma razão para se dar um lei para uma pessoa – e se for uma pessoa querida, mais ainda.

O que é uma lindeza, diga-se de passagem. No aeroporto, então, receber uma pessoa querida com um colar de flores é praticamente dizer: você chegou no paraíso, agora é descansar a mente e abraçar o espírito local. O lei também é uma forma de uma pessoa dizer à outra:  eu tenho carinho por você, consideração, e desejo o melhor sempre na sa vida. O cheiro intoxicante da flor ao redor do pescoço, os estilos variados e intricadamente delicados, o gesto de carinho e afeto pelo outro. Os leis transbordam aloha.

Muitos leis para celebrar quando virei Doutora. 🙂

Eu particularmente a-do-ro receber leis. Meus favoritos são os leis de flor de gengibre e os de pluméria (ou jasmim), por causa do aroma delicioso que exalam. Mas os leis masculinos feitos com sementes de kukui ou com folhas de taro também são super-elegantes. Os de sementes e conchas duram mais, e os mais intricados destes leis são oferecidos em momentos especiais. Para o cabelo, faz-se o haku lei, que é uma tiara de flores, muito usado pelas noivas em casamentos. O maile lei é feito com folhas, se usa aberto, e em geral apenas em ocasiões muito especiais (casamento, homenagens solenes, etc.). No passado, o lei da família real havaiana era especial, feito com flores e penas de aves das ilhas – aves estas que hoje estão ameaçadas de extinção, portanto esta matéria-prima foi substituída.

Lei de recepção no aeroporto para a amiga que veio nos visitar.

Diz a “lei” que um lei precisa ser dado a outra pessoa, não vale comprar e se autocolocar. No Chinatown, há diversas lojinhas pequenas de fazedoras de leis, que costumam ser super-elaborados. Nos supermercados, os leis são mais “pasteurizados” – mas não menos lindos e cheirosos. Para manter a produção de tanto lei por dia no Havaí, há várias fazendas de flores, espalhadas por todas as ilhas.

A efemeridade do lei também é parte da tradição: feito de flores naturais, um lei não dura muito. Alguns dias, no máximo, se você depois de usá-lo, guardá-lo na geladeira em um saco plástico umedecido. Mas mesmo assim, depois de um tempo, o cheiro desaparece e as pétalas começam a cair. Para lembrar a todos que tudo na vida passa… e que a aloha do oferecimento deve ser renovada, a cada nova vitória no nosso dia-a-dia. 🙂

Tudo de leis sempre.

Fazenda de jasmins para confecção de leis, em Molokai.

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Um pouco mais de lei…

P.S.: Em 2005, eu contei aqui no blog por que só mulheres podem fazer leis.

P.S.2: A maior parte dos resorts do Havaí oferece também aulas para aprender a fazer lei. Tente aparecer em pelo menos uma – a aula te deixa leve e cheia de aloha.

Aula de fazer lei num resort.

 

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