Acabei de chegar da sessão de encerramento do Hawaii International Film Festival – Spring 2017*, cujos filmes projetados foram o curta-metragem “Reefs at Risk” e o longa “Chasing Coral”. Ambos com a temática “recifes de corais”. Como apaixonada pelos corais do mundo, ambos impactaram-me muito, e ainda estou com os olhos vermelhos de tanto chorar depois de assisti-los. Tentarei expôr minhas impressões de ambos, extremamente passionais e pessoais.

Comecemos com o curta.

A delicada fragilidade dos corais.

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“Reefs at Risk” é um projeto cinematográfico caseiro incrível de mãe e filha havaianas sobre o problema do composto químico oxibenzona, presente na maioria dos filtros solares e maquiagens. A oxibenzona é um análogo do estrogênio (um endocrine disruptor), e quando dissolvido na água do mar, afeta a saúde dos corais, diminuindo sua resistência a temperaturas e sua capacidade reprodutiva. (Além dos riscos a longo prazo que não sabemos causar em humanos…)

O filme descorre sobre o quanto de oxibenzona entra na água diariamente em Waikiki, uma praia super-turística do Havaí, e na maior parte das praias do estado, já que praticamente todos usam filtro solar. Também comenta o quanto o filtro solar em spray é pior que o creme, e de todas as iniciativas para se banir completamente a venda de produtos que contenham oxibenzona no estado, com o intuito final de evitar danos ao ecossistema dos corais. Ao final da apresentação, as duas produtoras comentaram sobre alternativas ao uso de oxibenzona e distribuíram algumas amostras de filtros solares que não possuem o produto.

Lição maior: ao invés de filtro solar, use uma camiseta e boné. Pela saúde dos corais.

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Chasing Coral“Chasing Coral” é um documentário sobre o futuro deprimente dos recifes de corais do planeta. Do mesmo diretor de “Chasing Ice”, Jeff Orlowski, tem o mesmo estilo e linha de roteiro: uma equipe de fotógrafos/ambientalistas que criam e adaptam uma máquina fotográfica em time-lapse para registrar o processo de branqueamento dos corais de diferentes regiões do planeta. Como em Chasing Ice, o primeiro experimento não funciona – a câmera dá pau. Mas depois, o grupo consegue filmar o time-lapse – e a mensagem do filme é de cortar o coração. (Chorei de soluçar.)

Chasing Ice, o filme anterior, já tinha me deixado de coração na mão. Mas era sobre geleiras e áreas nevadas, um ambiente por si bastante “exótico” para mim. Chorei porque a mensagem era clara e cristalina: naquele ambiente tão distante o quanto nós, em qualquer lugar do planeta, o afetamos.

O problema de Chasing Coral é diametralmente oposto… porque os recifes de corais são sem dúvida um dos meus lugares favoritos no mundo, onde encontro a minha paz interior. Tenho  uma conexão tão grande com eles que não dá nem pra explicar direito, é coisa de paixão mesmo, de amor incondicional. Por esse sentimento tão intenso e próximo, mal o filme começou e a perspectiva do que se anunciava ficou clara, eu já estava chorando. De soluçar. (E estou chorando escrevendo isso. #Manteiga)

Esta foto é de 2012. Tem uma cena no filme neste exato coral em Samoa Americana, o Airport Reef. Só que no filme… #sentaechora

Por mais que o filme tente manter uma linha de bom humor e um pouco de esperança, com um figuraça coral nerd até divertido, a mensagem que o conduz e que deixa reverberar na nossa cabeça é tão trágica, tão profundamente triste e deprimente, que não tem como sair do cinema sem uma sensação de falta de esperança total na humanidade. Para mim, uma otimista de carteirinha, isto talvez seja o aspecto que mais me consumiu: a constatação de que não há mais jeito, praticamente, de salvar os recifes de corais do mundo. A que ponto chegamos como (des)humanidade.

Estamos nos últimos segundos para salvar este ecossistema. O filme diz que, a manter-se o estado atual das emissões de CO2, em 30 anos poderemos ter um mundo sem recifes de corais. 30 ANOS. 30 freaking years. É um nada! É praticamente agora; é o seu filho ou filha que nasceu nos últimos anos não podendo ver mais corais em seu ambiente natural na vida adulta. Vocês têm noção do quanto isso é estarrecedor para este planeta – e para a nossa saúde geral?

Admirando os corais (à época, saudáveis) da Nova Caledônia. Foto de 2011.

Me deu uma dor no coração também ao ver que locais onde estivemos há pouco tempo, como Heron Island e Nova Caledônia, cujos corais me emocionaram e me cativaram tanto, estão praticamente esperando para morrer em breve, na próxima onda global de temperatura alta do mar – tivemos 2 eventos de aquecimento dramático num intervalo de 5 anos e a terceira onda já está em andamento. Nestas ondas de aquecimento, os corais morrem por asfixia e desnutrição: primeiro a temperatura da água do mar sobe e expulsa do coral as algas microscópicas simbiontes e fotossintetizantes que o alimentam; aí o coral branqueia e fica como se fosse uma rocha exposta, até que é coberto por outras algas, estas macroscópicas e que o sufocam para sempre.

Corais de espécies que estão no planeta há mais tempo que nós e todos os mamíferos, aves e répteis; espécies extremamente complexas e cujo entendimento atual é parcial, que ainda têm tanto a nos ensinar. A elas em sua maioria avassaladora, um epitáfio já está escrito.

Os corais de Kaneohe, no Havaí. Foto de 2010.

Chasing Coral tem um adicional maior de proximidade e intensidade para mim: a conexão enorme com o Havaí, minha escolhida casa. Os testes das câmeras subaquáticas do filme foram feitos na Baía de Kaneohe, o congresso onde foi anunciado o resultado final do time-lapse dos corais foi aqui em Honolulu, as cenas de coral no microscópio são as mesmas que já vi com os meus olhos naquele mesmo microscópio ao vivo e a muitas cores. E o filme torna-se finalmente próximo mesmo quando você vê na tela alguns conhecidos nossos aqui do Havaí, pessoas com quem você já esteve em festas e seminários. Ou quando um dos responsáveis pelas filmagens sub é um amigo nosso de outras expedições – por corais do mundo, claro. Ou quando na platéia assistindo estão vários conhecidos e amigos que lutam diariamente pelos recifes de corais, cada um a sua maneira, cada um na sua urgência.

Um pequeno cabeço de coral-dedo saudável em Heron Island, na Grande Barreira Australiana. Foto de 2015.

Com todos esses aspectos que gritam tão alto no âmago do meu ser, tão absurdamente pessoais, fica difícil que eu faça uma análise objetiva e racional do quanto Chasing Coral é fundamental, must-see do ano, quiçá do século – e se for possível enviar umas cópias também para Washington…

Tudo que posso dizer é: assista. E se emocione. E mergulhe nele. E repasse, e recomende aos amigos a assistir. E faça a sua parte: diminua o consumo de tudo, principalmente de combustíveis fósseis.

Com o mais profundo desejo (quase utópico) de tudo de corais lindos e saudáveis, sempre.

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Para mergulhar mais nos corais:

*Da série “Só no Havaí”: onde mais no mundo um festival de cinema internacional, cheio de filmes-bambambam-de-terror-zombie-diretor-estrelado-uórever, tem numa de suas mais importantes noites a exibição de um documentário ambientalista desse nível. <3 I love this place…

**De acordo com a produtora do filme, o mesmo estará em breve no Netflix. E ficará por um período gratuito a todos, mesmo os que não têm conta no netflix. Afinal, o objetivo é espalhar esta informação ao máximo. Já falei que recomendo a todos, né…

***Meu conselho viajante a todos os amigos, mesmo aos que não curtem tanto o mar: vá o mais rápido possível ver corais pelo mundo. Em qualquer lugar tropical. Para eternizar em sua memória de humanidade essa beleza que expira.

****Em 2008, eu dei a louca aqui no blog e publiquei obsessivamente por uma semana posts só sobre recifes de corais. Foi a “Semana do Coral”. Deixo abaixo o link dos posts da época, para quem quiser conhecer um pouco mais do meu ecossistema favorito do planeta:

Semana de Recifes de Corais 2008

Os corais de Bikini

Procurando (e encontrando) Nemo

Mar de cores

O trabalho no recife

Sherman’s Lagoon

 

Quando falamos sobre visitar museus na Europa, a lista de opções sensacionais é infindável. Especialmente na Itália, onde a história está a cada esquina do país te dando um tapinha nas costas, e as obras de arte são praticamente lugar-comum. (Que a Patricia não me ouça nesta heresia…) Entretanto, era um pequeno museu no norte da Itália que fazia parte dos meus sonhos museísticos na Europa: o Messner Mountain Museum (MMM).

Vista de Bolzano do Messner Mountain Museum.

O Messner Mountain Museum celebra todas as montanhas do mundo, em tudo que se pode imaginar relacionado a elas: as culturas que elas fazem florescer, os desafios de escalada das mesmas, a geologia das montanhas, a arte que brota inspirada nelas, o relacionamento homem-montanha que tanto fascina e amedronta. Para os que têm a febre do Everest, este é um museu 100% must-go.

Mas este museu não é um museu apenas – há seis filiais dele pelos Alpes, cada uma dedicada a um aspecto do tema “montanha”. Fomos no MMM matriz, o primeiro a ser inaugurado, localizado na parte sul do Tirol, em Firmiano – praticamente ao lado de Bolzano, perto da fronteira com a Áustria. Para chegar até este, claro, uma pequena escalada: o museu fica num castelo no alto de um morro. Este castelo foi anteriormente a casa de Reinhold Messner, o alpinista (e arquiteto!) mais fantástico que o mundo já viu, fundador do Messner Mountain Museum. Você vai de carro até um ponto da montanha e depois precisa enfrentar a subida à pé. Afinal, a experiência da montanha que o museu proporciona começa ali.

Entrada do Messner Mountain Museum, em Firmian.

Era uma manhã ensolarada no dia da nossa visita. Depois de passar o portão principal do castelo, damos de cara com um jardim lindo – e em aclive -, cheio de instalações, esculturas modernas e relíquias sobre a temática montanha. Estas obras são, em sua maioria, parte da coleção pessoal de Messner, angariadas ao longo da vida escalando os picos do mundo.

Messner Mountain Museum

Pinturas retratando Sir Edmund Hillary e Tenzing Norgay.

A partir do jardim, a visita – ou melhor, subida – pelo museu pode tomar diversos rumos. Há uma torre cheia de artefatos da cultura tirolesa e nepalesa, em salas cheias de ohm. Pode-se também ir na direção do anfiteatro, que, depois de uma escadaria de ferro, chega numa galeria com diversos quadros e mementos de expedições ao Himalaia e um pouco da história das escaladas históricas da região. Duas grandes pinturas são as estrelas deste ambiente: uma de Sir Edmund Hillary e outra de Tenzing Norgay, os dois primeiros alpinistas a chegarem ao cume do Everest. Sendo Messner quem é, claro que há bastante crítica e reflexão em diversas mensagens sobre o atual estado do turismo montanhista, particularmente no Everest, e o quanto o alpinismo atual diverge do purismo que Messner prega. Food for thought em alta escalada.

À medida que andamos pela galeria, estamos subindo vagarosamente pela propriedade, vendo encostas pedregosas e “penhascos” que dão a sensação de uma escalada. Até que chega-se a um ponto onde podemos andar pela muralha do castelo, lá no topo. Esta subida, devagar e sempre, faz todo sentido com a filosofia de vida alpinista de Messner, e o layout do museu tenta passar esta ideia para o visitante: devagar e sempre se chega lá. Um passo atrás do outro.

Aos poucos descemos da muralha por uma série de escadas e estamos de volta ao jardim central. O museu é pequeno, mas incrivelmente gracioso. Para mim, subir cada degrau daquele castelo foi uma pequena aventura de emoções pela vida e paixão do alpinista incrível que Messner é. O Messner Mountain Museum foi acima das minhas expectativas (que eram mais altas que o Annapurna…) e eu recomendo muito a visita a ele para quem estiver pela região. Quem sabe você também não se inspira pelo amor que Messner dedica às montanhas do mundo…

Só não é recomendável para quem tem medo de altura. 😉

Tudo de bom sempre.

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Para escalar mais:

  • Em minha opinião, a mais engraçada biografia já escrita ever sobre uma pessoa é a do Messner, escrita pelo Badass of the Week. Já li e reli trocentas vezes, mas ainda dou gargalhadas altas lendo. Simplesmente perfeita!
  •  Além de escalar os maiores picos do mundo sem oxigênio, solo e sem ajudas tecnológicas, Messner também foi a primeira pessoa a cruzar a Antárctica e a Groenlândia sozinho à pé, sem ajuda de nenhum sled ou snowmobile. E a primeira pessoa a atravessar sozinha o deserto de Gobi. Messner é realmente um fenômeno dos desafios homem x natureza, num patamar muito acima dos demais reles mortais… Acho que um dos museus Messner deveria ser dedicado à vida e carreira dele, sinceramente. 
  • O MMM de Firmiano fecha de novembro a março. Durante o resto do ano, fecha às quintas-feiras. Caso você seja realmente um aficionado por montanhas e tenha tempo pela Europa, dá pra comprar um passe, que te dá direito a entrar nos 6 museus Messner. Custa 35 euros e é válido por um ano.

    Detalhe em um dos degraus do castelo em Firmian.

Adoro listas e rankings e todas essas besteiradas que animam e relaxam um pouco a nossa mente cansada das preocupações reais do dia-a-dia. E acho que, se um dia este blog de viagens pessoais e na maionese tivesse que ser cotado/listado em algum serviço de AirBnBlog, ele seria (ou teria?) pelo menos três estrelas, vocês não acham? 😀

#SextaDaPiadinhaMarinha

Ranking três estrelas

E olha as três estrelas do blog aí, passando por cima do coral! 😀

(A da frente parece até que está se posicionando pra fugir da foto… tímida?)

Tudo estrelado sempre.

Postado em 07/04/2017 por em Sexta Sub

Não sou muito chegada a vending machines. Ainda gosto do mundo analógico de entrar em uma loja para comprar algo e interagir com/olhar no olho de uma pessoa. Mas entendo que as máquinas facilitam e agilizam muito os tempos modernos. E confesso que algumas destas máquinas me chamam a atenção pela luminosidade – aquela coisa de “por que não pensaram nisso antes?”. Enfim, fato é que na Itália eu já tinha me encantado pela máquina de leite em Riva Del Garda, e no Japão pela automatização do restaurante.

Então que na minha visita à Itália ano passado, esbarramos na máquina de água gasosa. Estava numa esquina da praça central de Stienta, província de Rovigo. A máquina é basicamente um bebedouro na praça central da cidade, onde você coloca sua garrafa de água e enche, a módicos 5 centavos de euro por litro, com água gasosa – frizzante, na língua local.

Achei sensacional. Fazia um calor do Saara no dia em que estávamos ali, e nada mais refrescante que uma água geladinha naquele momento – e com gás, que eu adoro. Enquanto meu sogro procurava do outro lado da praça pelo Comune, fui alucinadamente na direção da máquina.

Mas – surpresa! – não tinha moedas, só cédulas. Foi aí que a hospitalidade local se fez presente: uma senhora simpática me viu desapontada na frente da máquina e me emprestou umas moedinhas de euro para que eu enchesse minha garrafa de água frizzante. (Deveria ter gravado a conversa no meu tosquíssimo e quase não-existente italiano, mas acho que a parte do “no moneta” ela entendeu bem.)

Máquina de água gasosa

Com a garrafa de água gasosa cheia, fui passear por Stienta, que é uma daquelas cidades pequenininhas da Itália, cheia de peculiaridades. A praça central estava em reforma. A igreja principal, danificada por um dos terremotos dos últimos anos, também estava em reforma.

Achamos o prédio do Comune, e depois de uma curta manhã por ali, seguimos viagem. E Stienta… virou uma memória gasosa na nossa jornada.

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Posto de vinhoEm 2013 quando estive na Itália para visitar os amigos, fui apresentada a outra máquina sensacional: o “posto de vinho”. Funciona como um posto de gasolina, onde uma bomba enche seu galão predileto com vinho vermelho, pago por litro. O vinho desta bomba é considerado “vinho para cozinhar”, de qualidade inferior; mas estamos na Itália, né, e o vinho para cozinhar deles é na realidade de qualidade excepcional.

Por razões óbvio-etílicas, já não me lembro entretanto onde exatamente fica este posto de vinho – e nem se quem me levou lá foi o Flavio ou o Allan… Vou ter que pedir ajuda aos respectivos universitários italianos. 😛

E, para a próxima viagem por aquelas bandas, já fico aqui imaginando qual será a próxima máquina surpresa. 😀

Tudo de automatização sempre.

Mural dos artistas Risk e Sonny Boy.

Quando cheguei em Honolulu pela primeira vez em 2002, o bairro de Kaka’ako era praticamente inexistente. Quer dizer, ele existia, mas era formado apenas por galpões de estoque de lojas e outros empreendimentos comerciais. Uma área industrial, quase uma extensão do porto no meio da cidade. A meio caminho entre Waikiki, o bairro do turismo, e o downtown Honolulu, o Kaka’ako era então sumariamente ignorado – apenas um local de passagem e olhe lá, entre a Ala Moana Boulevard e a Kapiolani Ave.

Isso mudou – e muito. De uns 10 anos para cá, a cidade construiu um plano de revitalização do Kaka’ako, baseado nas ideias urbanísticas de retomada da cidade para as pessoas. Hoje, diversos condomínios e áreas agradáveis de caminhada estão se consolidando na região, com outros tantos projetos de construção começando a aparecer. Com isso, o Kaka’ako se tornou um dos bairros mais cobiçados pelos hipsters e artistas locais, com restaurantes e bares ótimos surgindo a cada dia.

Mural pintado pelos artistas de Melbourne Wonderlust e Rone.

Este mural chama-se “Hapa” e é permanente, na Ward Ave. Feito pelo artista local Kamea Hadar, em homenagem ao filho ilustre do estado, ex-Presidente Obama. Hapa é a palavra havaiana para pessoa de origem étnica misturada, diversa. Passo por este mural todos os dias indo pro trabalho. Dá uma saudade…

Apesar dos preços astronômicos do mercado imobiliário ali, a cidade tem tentado evitar a gentrificação, com propostas interessantes como obrigar os condomínios de luxo a terem algumas unidades em preços camaradas, vender apenas para residentes do Havaí com uma faixa de salário baixa ou mediana (para evitar compra imobiliária por estrangeiros apenas para investimento, o que descaracterizaria a comunidade), ou um prédio inteiro com apartamentos para artistas de low-income.

Mural dos artistas Patch Whiskey e Ghostbeard.

(Óbvio que ainda há muitos desafios, principalmente relacionados à gentrificação, mas pelo menos a gente percebe que a cidade e a prefeitura têm trabalhado para tentar solucionar os problemas que aparecem…)

Mural pintado pela artista Tara McPherson.

Esta visão da importância da arte na formação do bairro e a intenção de manter o Kaka’ako com este crowd é o que hoje chama mais a atenção. Iniciativas como o Pow! Wow! tornaram o Kaka’ako um ímã de arte urbana, grafite e street art. E a cada ano o bairro ressurge com uma nova cara – pinturas vem e vão, mensagens políticas, filosofices e afins são modificadas pelos murais, e a atmosfera criativa vai se espalhando pela cidade.

Paredes, muros e telhados populados descaradamente por obras divertidas, reflexivas, desafiadoras, transformando o Kaka’ako num dos bairros mais coloridos e interessantes de se andar em Honolulu. É uma sensação deliciosa em si andar a esmo pelo bairro, e de repente você vira a esquina, entra num beco e – bum! – um mural sensacional na sua cara. Além disso, uma geração de artistas de rua locais vem se fortificando, com seu portfólio e talento à vista por quem se aventura pelas calçadas do bairro.

Mural do artista 1010.

Não é uma novidade em termos de urbanismo ter áreas assim – várias outras cidades do mundo, como NY, San Francisco, Melbourne, etc. têm uma cultura de grafite e urban art fortíssima, que já faz parte do circuito de turismo das mesmas. E a moçada de Honolulu, uma capital essencialmente turística, também decidiu deixar sua marca pela cidade, e transformá-la em mais uma atração imperdível do Havaí.

Mural pintado pelo artista Mr. Jago.

Deixo aqui espalhado neste post algumas das minhas peças de arte urbana e grafite preferidas do Kaka’ako – quase um ~vintage~ fotolog. O nome do artista por trás dos murais está na legenda – infelizmente nem todas as autorias consegui achar . (Por alguma razão ~inexplicável~, sempre acho as mais legais as que envolvem… tubarões. 😀 )

Mural do artista Kai Kailukukui.

Quem me segue no instagram provavelmente já viu muitas delas, porque quando eu tomo um destes “sustos criativos” numa rua do bairro, geralmente posto por lá.  Algumas destas pinturas/obras já desapareceram – como falei acima, o caráter volátil da “exposição” é parte do conceito do bairro, de galeria a céu aberto, para que outros artistas também ganhem seu lugar ao sol.

Kaka'ako

Esse mural era incrível, porque era feito em tricô! Existiu como tapume de uma obra. Infelizmente, não sei o nome do artista responsável.

Enjoy!

Até a caixinha do jornal virou tela…

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Fora do bairro de Kaka’ako, mas ainda em Honolulu como parte do Pow! Wow!, dois outros murais interessantíssimos.

Mural feito pelo artista Apex, numa parede do bairro de Chinatown.

Mural do artista D’Face, na avenida Dillingham (bairro de Iwilei).

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Para andar mais pelo Kaka’ako:

  • um tour de – bicicleta? pedalinho urbano? caravana? – que vai pelas ruas do bairro explicando alguns dos murais mais badalados, oferecido pela Paradise Pedals.
  • Este artigo do Daily Herald conta um pouco do início da mudança do Kaka’ako de bairro esquecido a hotspot artístico da cidade.
  • Mais murais do bairro você pode ver no site da Pow! Wow! Hawaii.

Caiu-me em mãos esta semana um artigo de divulgação publicado pela Universidade do Havaí sobre a intrusão de água salgada nos lençóis de água doce do solo em Waikiki, em decorrência da elevação dos níveis dos mares (com um vídeo acompanhando). Muito como está acontecendo em Miami, Waikiki também está extremamente vulnerável a esse processo.

Waikiki em tempos de elevação dos mares

(Na realidade o estudo analisa toda a cidade de Honolulu, mas Waikiki é o bairro mais turístico do Havaí, ou seja, o que movimenta a economia do estado. Portanto, muitas das perdas avaliadas são em sua maioria decorrentes do prejuízo com o turismo, calculado em torno de $5 bilhões de dólares só em imóveis.)

(Imagem da projeção do bairro com um metro de elevação dos mares retirada da animação linkada abaixo.)

Interessantemente, no ano passado assisti a uma palestra de um dos autores deste artigo, o Dr. Chip Fletcher. Ele é o líder do grupo de Geologia Costeira da Universidade do Havaí, e na ocasião a palestra era direcionada aos membros do Hawaii Tourism Authority, a Secretaria de Turismo do estado. Na palestra, Chip mostrou uma animação do Oahu South Shore (dá pra ver só o pedaço de Waikiki neste link) e de como será toda a região costeira da ilha de Oahu caso o mar se eleve apenas 1 metro – veja bem, esse já é muito próximo do valor de elevação que teremos [link em pdf], por conta do CO2 que já está na atmosfera e por conta de que este mesmo CO2 não para de subir – ou seja, estamos fazendo muito pouco (pra não dizer praticamente nada) para mitigar as emissões no momento. A palestra deixava cristalino a todos da platéia que a costa de Waikiki será muito diferente daqui a algumas décadas. Portanto, o estado do Havaí, e particularmente os que dependem do turismo nesta região, precisa começar urgentemente a pensar e executar projetos de mitigação criativos.

(Parênteses: Um dos comentários que mais me impressionou durante a palestra foi a dúvida de um gerente de hotel em Waikiki, que queria saber o que Chip sugeria para os hotéis da beira-mar a partir destas previsões. Chip foi bem direto: comecem a pensar em perder o primeiro andar de sua propriedade. Transfiram o lobby de entrada para o segundo andar dos prédios. O.O )

(Parênteses 2: Um outro senhor perguntou sobre a ideia de se explorar Waikiki como Veneza (!!!), com canais, etc. Chip Fletcher logo descartou esta ideia por causa da profundidade – temos ruas, não canais. A inundação das ruas não será funda o suficiente para permitir esse tipo de viagem na maionese.)

Dá para imaginar o ~climão~ no auditório quando ele terminou a palestra, né? Porque aquela mensagem chocante desceu mais entalado que ovo podre entre os stakeholders que vivem do turismo e que estavam ali, basicamente ouvindo que o futuro deles estará no sal – literalmente. Que eles perderão muito com a elevação dos mares.

Mas veja bem: o artigo que li semana passada falava que já ocorre intrusão de água salgada em Waikiki – os poucos milímetros de elevação dos mares que já tivemos neste século foram suficientes para contaminar algumas áreas de água doce. O que definitivamente não é uma boa notícia. Ainda de acordo com o artigo, construir quebra-mar não é uma alternativa viável.

Quebra-mar não vai segurar a onda de Waikiki.

E o que fazer então? A realidade é que ainda não temos a resposta – e não haverá uma resposta única para todos os casos. Em Waikiki, assim como em Miami, a mitigação ao aumento do nível do mar e ao desaparecimento da costa do jeito que ela é hoje dependerão de condições específicas para cada caso, cada construção, cada empreitada. A única certeza é de esta mitigação necessitará ser em conjunto: governo, propriedade privada, órgãos de turismo e comunidade. Para que soluções menos danosas e mais efetivas sejam as que prevaleçam.

Um desafio inacreditavelmente enorme. Minha sugestão a quem visita o Havaí? Aproveite a praia de Waikiki – enquanto ela ainda existe do jeito que é. Porque o futuro parece que será uma verdadeira caixinha de surpresas desagradáveis.

Tudo de mar sempre.

Eu não sei quem inventa essas coisas de datas para tudo, mas o fato é que hoje é dia de apreciação ao manati, também conhecido como peixe-boi. Então para celebrar a data aqui no blog, eu fui reler e relembrar da visita que fizemos a Crystal River, na Flórida, para vermos os peixes-bois – um passeio turístico de vida selvagem bem regulamentado e que recomendo imensamente aos que curtem esse tipo de atividade e interação. (Ou aos que estão cansados da Disney ali do ladinho…)

Um viva ao fofíssimo peixe-boi em seu dia! 🙂

Dia de apreciação ao peixe-boi

Como não amar essa carinha?

Tudo de bom sempre.

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-Agora, eu queria mesmo era ter visto essa cena ano passado… mais de 500 peixes-boi juntos! :O

Postado em 29/03/2017 por em Animais, EUA

Lembram do comentário da Silvia que deu origem ao post explicativo dos vôos para se chegar ao Havaí?

“Pretendemos ficar uns 16 dias no Hawaii – acha que dá para fazer as 4 ilhas Maui, Oahu, Kauai e Big Island ? Minha pergunta é: qual a sequência das ilhas que você aconselha ? Existe a possibilidade de chegar via Los Angeles por uma ilha e sair por outra? Super-obrigada!”

Como podem perceber, o comentário tinha duas questões. Tentarei agora responder à segunda questão que a Silvia levantou: qual a sequência de ilhas aconselhada para uma visita ao Havaí?

Há diversas possibilidades, claro. Em termos de logística, vai depender dos vôos que você conseguir, que determinam a ilha de início e o fim da sua viagem. À parte os vôos, escolher a melhor sequência de ilhas a ser visitada vai do gosto do freguês viajante. Vou deixar algumas sugestões que considero mais interessantes.

(ATENÇÃO: Estou considerando apenas as 4 principais ilhas de visitação turística. As ilhas Lanai e Molokai, por causa da complicação logística para se chegar nelas, estão fora deste planejamento de sequência geral.)

Sugestão 1: A Rota do Cruzeiro Semanal

Oahu -> Maui -> Big Island -> Kauai -> Oahu

Todos os sábados, o navio “Pride of America”, da Norwegian Cruise Line, atraca em Honolulu pela manhã, e sai no finzinho da tarde – é o dia em que termina um cruzeiro e começa outro. Este cruzeiro é semanal, e oferece um “gostinho” de Havaí para seus clientes, que conhecem um pouco das 4 principais ilhas havaianas: Oahu, Maui, Big Island e Kauai (já comentei aqui antes sobre ele). Saindo de Honolulu, o navio vai para Kahului, em Maui, e fica 2 dias ali; depois segue para Hilo, na Big Island, por um dia; circula pelo lado sul da ilha onde há o vulcão ativo Kilauea, chega no porto de Kona, ainda na Big Island, onde fica mais um dia; e depois vai para Nawiliwili, no Kauai, onde fica 2 dias. De lá, volta pra Honolulu.

Esta sequência de visitação não tem como falhar, porque vê todo o Havaí em uma semana. Entretanto, fazer este cruzeiro te dá apenas um aperitivo de Hawaii, porque cada ilha oferece mil e um passeios possíveis, e o pouco tempo em cada ilha não permite que você faça muitos passeios – você terá que fazer uma escolha e se satisfazer com isso. Particularmente, acho que funciona para dois tipos de viajantes: aqueles que querem apenas ticar um lugar da sua bucket list, e para aqueles que querem uma visão geral do Havaí e depois voltarem com calma (e tempo) para a ilha que mais gostaram ou se identificaram.

Sugestão 2: A Sequência Geológica (e Geográfica)

Kauai -> Oahu -> Maui -> Big Island

Como sou cientista, esta é a minha sequência favorita de visitação do Havaí, porque te leva a apreciar (e se encantar com!) a formação geológica das ilhas. Para quem curte geologia, é uma aula ao vivo – portanto, uma sequência bem educativa para crianças maiores.

O Havaí foi (está sendo?) formado por um hotspot vulcânico no meio da placa tectônica do Pacífico. Esta placa está se movendo consistentemente (51 km por milhão de anos) sobre o hotspot no sentido noroeste, em direção ao Japão. Se você olhar no mapa-múndi, verá que as ilhas havaianas formam uma diagonal apontando para o noroeste – fruto do movimento da placa tectônica à medida que cada ilha foi formada. O hotspot está neste momento formando uma ilha que ainda não emergiu do oceano, Loihi, ao sul da Big Island.

Mapa e esquema das ilhas tirados deste site.

Se a Big Island está mais próxima do hotspot no momento, isto significa que o Kauai é a ilha mais velha do arquipélago – por ser a mais distante do hostpot. Esta “velhice” geológica do Kauai é claramente visível na sua exuberante paisagem, com os penhascos super-altos e bem cortados da Na Pali Coast, e a erosão do cânion de Waimea. Afinal, são 5 milhões de anos de muita atividade de vento e mares para recortar o terreno… Na sequência de visita geológica, você começa pela ilha mais velha – o Kauai – e termina na ilha que ainda está se formando – a Big Island.

Erosão à vista, no cânion de Waimea, no Kauai.

Da velhice do Kauai, você vai para geologicamente adulta Oahu, que tem 2,7-3,5 milhões de anos. Ainda com penhascos pontiagudos nas cadeias montanhosas de Waianae e do Ko’olau, mas já não tão íngremes quanto os do Kauai.

Montanhas Ko’olau, em Oahu.

De Oahu você vai para a “adolescente” Maui (~1,3 milhão de anos), que em tudo lembra um adolescente mesmo, naquela eterna dicotomia entre a vida (geológica) adulta ou ainda criança. Em termos de geologia é incrível: Maui tem de um lado uma cadeia montanhosa com cara de adulta, o West Maui onde fica o ‘Iao Valley, e de outro lado, já o perfil “rampão” de uma montanha nova (750 mil anos), o vulcão Haleakala – e no meio um mega-platô conectando as duas partes da ilha. Maui é a ilha onde a paisagem reflete mais claramente o processo de formação geológica do Havaí.

Um vale no West Maui.

Daí de Maui você vai para a ilha-bebê do Havaí, a Big Island – que é tão bebê que ainda está se formando. Na Big Island, os dois vulcões são considerados ativos, o “rampão” é super-evidente no terreno e a lava está ali, depositando nova terra a cada segundo do dia. É a geologia ao vivo e a cores, acontecendo na sua cara. E entendendo a geologia havaiana, você pode ter uma visão muito mais interessante de toda a sua visita.

O “rampão” do vulcão Mauna Loa, com pouquíssimos sinais de erosão.

(Dá pra fazer esta sequência no sentido oposto: da ilha mais nova para a mais velha. Particularmente, acho que tira um pouco da “surpresa” de ver a ilha se formando na Big Island… Mas ainda assim vale a pena.)

Big Island: ainda em formação contínua. Todo dia cresce um pouco…

Sugestão 3: Seguindo a Galera

Oahu -> Maui -> Big Island -> Kauai

Dependendo da vibe da sua visita ao Havaí, talvez você queira começar entre a ilha mais populosa e lotada (Oahu – quase 1 milhão de habitantes) e ir aos poucos se “desintoxicando” de pessoas, chegando até a ilha menos cheia (Kauai – pouco mais de 65.000 habitantes). Ou o contrário: começar suas férias na ilha mais “deserta” e aos poucos reintroduzir “pessoas” na sua paisagem pessoal de descanso. Portanto, essa sequência de ilhas depende realmente da sua vibe de férias.

Praia cheia: em Oahu tem.

Um dado interessante: Maui na realidade tem menos habitantes que a Big Island. Entretanto, a Big Island por ser enorme tem uma densidade populacional ~4 vezes menor que Maui, o que te dá a sensação de menos gente. Por isso, sugiro a sequência acima, considerando a densidade populacional das ilhas, não apenas o valor absoluto de habitantes.

Acho que a sequência de viagem da ilha mais populosa para a menos populosa funciona bem para quem quer descanso. Você pode terminar suas férias desestressado, numa praia deserta, e recarregado de energias para encarar a volta para casa. Como, entretanto, a maioria dos vôos saem de Honolulu, é muito provável que você neste caso saia da vibe “ilha deserta” do Kauai, e leve um choque ao voltar para Honolulu.

Kauai das trilhas e praias desertas – e muitas inacessíveis.

Viajar da ilha menos populosa para a mais populosa termina sendo a preferida de quem quer aproveitar uns diazinhos em Oahu antes de voltar para casa, principalmente para compras.

Sugestão 4: Beleza é Fundamental

A pergunta mais difícil que as pessoas fazem para mim neste blog é: qual é a ilha havaiana mais bonita?

Conceito de beleza é algo extremamente pessoal, e o que eu acho lindíssimo, pode ser marromeno para alguém – ou o contrário, algo que a pessoa acha fenomenalmente belo, eu considero okzinho. E acima de tudo, beleza também tem uma carga emocional individual: às vezes o que se acha belo é o que te deixou mais feliz, nem tanto o que é objetivamente belo (se é que dá pra ser objetivo na atribuição de beleza… divago.)

Então evito muito sugerir uma escolha de sequência de ilhas por beleza. Em todas as ilhas havaianas há praias lindas, montanhas, platôs, cachoeiras, paisagens exuberantes, atividades culturais e aventureiras. E cada uma tem sua intrínseca beleza.

Ah, o Kauai… [suspiros mil] 

Por exemplo, eu amo o Kauai por motivos que não têm só a ver com sua beleza – é uma ilha emocionalmente intensa para mim. Mas tirando o Kauai, sou apaixonada por todas as demais ilhas havaianas igualmente, porque cada uma mostra um lado belo diferente. E beleza é fundamental, em todos os seus matizes e personalidades.

Conhecer todas as ilhas, para fazer a sua sequência pessoal baseada na beleza delas talvez seja a melhor alternativa neste caso. 🙂

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Tudo de Havaí sempre.

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Turbulência da ÁguaNa quarta-feira passada foi o Dia Mundial da Água, uma data em que, na atual conjuntura do planeta aquecido, é mais que necessária. Infelizmente, não temos muito a comemorar. Afinal, as previsões são muita turbulência: as mudanças climáticas vão bagunçar – ou melhor, já bagunçam – todo o ciclo da água na Terra. Várias regiões sofrerão com mais secas, enquanto outros locais terão chuvas e enchentes mais intensas. Sofrerão, não: já sofrem.

Afinal, estamos presenciando pelo mundo o resultado turbulento e cruel de secas prolongadas: conflitos na Síria, na Somália, no Quênia, no Iêmen, entre outros. Fora os conflitos “em potencial”, como a ameaça à economia do delta do Rio Mekong, o sustento diário de milhões de pessoas no Vietnã, ou à produção de alimentos de Bangladesh, que ameaça a vizinha Índia.

(Eis um artigo do PNAS que discute a relação perigosa entre mais seca e mais conflito, principalmente em regiões pouco desenvolvidas do mundo. Sugiro a leitura.)

Quando eu era criança, ouvia sempre meu pai comentando nas rodas de bate-papo que “no futuro, as guerras seriam por água”. Não sei de onde ele tirou essa idéia, mas lembro claramente de ser uma constante quando a gente discutia qualquer conflito. Na época, achava aquela previsão assustadora – afinal, ainda não sabia que no passado histórico já se tinha brigado muito por água…

E não é que, pra nosso desespero, esse futuro borderline mad max que meu pai comentava chegou?

Água, sempre.

Uma Malla em frente ao Kuggen.

Visitei a Suécia pela primeira vez no verão do ano passado, em 2016. Mais especificamente, passei 5 dias em Gotemburgo (ou Gothenburg, em inglês, ou Göteborg, em sueco). Era início do verão, os dias eram intermináveis – não anoitecia completamente, sempre ficava um lusco-fusco. Uma delícia circadiana.

Mas a Suécia sempre esteve na minha lista de viagem por outro motivo: o país tem um histórico de ações pró-ambientais e de sustentabilidade inacreditáveis. E, antes de viajar, quando comecei a ler sobre os projetos de sustentabilidade suecos, particularmente em Gotemburgo, logo esbarrei nesse prédio: o Kuggen.

Bastou eu achar a primeira foto do prédio online para que ele imediatamente passasse a ser meu interesse número 1 em Gotemburgo por outro motivo, bem mais frívolo que sua sustentabilidade: seu colorido alegre daqueles que te fazem sorrir imediatamente. Foi amor ao primeiro GoogleImage.

(E me apaixonei mais ainda quando descobri que ficaria hospedada no Radisson Blu, a praticamente um quarteirão dali – durante minha estadia em Gothenburg, passava diariamente em frente do Kuggen para admirá-lo… aaaahhhh!!!)

Mas, muito além das cores, o Kuggen é acima de tudo um dos exemplos mais incríveis de arquitetura da sustentabilidade da atualidade. Projetado pelos arquitetos Gert Wingårdh, Jonas Edblad, Charlotte Erdegard & Danuta Nielsen, de uma firma de arquitetura local de Gotemburgo, o prédio circular foi inaugurado em 2011, e se inspirou numa roda dentada – dessas existentes no mecanismo de máquinas; uma inspiração extremamente rígida para um prédio tão fluido de ideias. Talvez incorporar o conceito de fluidez rígida tenha sido proposital…?

Em termos de sustentabilidade, além do feijão-com-arroz de reciclagem, menos consumo de água, etc. o Kuggen tem um consumo de energia anual ínfimo para seu tamanho, de 55 kWh/m2, incluindo aí o funcionamento de todo o aparato mecânico e do único elevador. Tal eficiência energética é fruto de um design inovador focado na constante adaptação, tanto à luz quando ao aquecimento do prédio – estamos na Suécia, cujos invernos são quase-polares. A circularidade do prédio aliado às suas janelas triangulares permitem a entrada de luz natural na medida certa a qualquer hora do dia. A presença de um aparato fotovoltaico “pendurado” no exterior do último andar do prédio (visto na foto acima) que circula por seu perímetro de acordo com a posição do sol é a cereja do bolo dessa delícia ecoconsciente.

O design do Kuggen também não deixa de ser interessante em outros pontos arquitetônicos: o prédio cresce em circunferência à medida que sobe, como se fosse um bolo às avessas – o oposto dos prédios tradicionais, que costumam ter uma base maior e um topo mais fino. Suas paredes externas são todas de cerâmica terracota, projetadas para durar mais de 4000 anos.

Nos dias em que estive em Gotemburgo, a parte interna do Kuggen estava sendo reformada, para acomodar no futuro uma biblioteca para os estudantes da universidade local. Antes da reforma, o prédio tinha escritórios, onde funcionava parte da administração da universidade. Cheguei a entrar no primeiro andar do prédio para apreciar, mas com a obra, não pude subir – e eu queria mesmo era ir até o último andar. Ficou pra próxima. 🙂

NA VIZINHANÇA DO KUGGEN: CUCKOO’S NEST BAR

Kuggen

O Kuggen fica localizado no Science Park da Chalmers University of Technology. Logo que a gente desembarca da estação de ferry boat Lindsholmspiren, já vemos o prédio, meio que escondidinho – mas não menos chamativo – ali no meio dos demais. Mas ele está longe de ser a única atração naquela região da cidade, embora seja sem dúvida a mais interessante. Porque o Lindsholmen é uma área de ciência (!!!!) da cidade! Como não se apaixonar por uma cidade assim?

vibe do local gira ao redor de ciência e tecnologia, garantia de vários momentos #cataploft enquanto andava por ali. Dentre tanta coisa interessante minha favorita foi o Cuckoo’s Nest Bar, localizado dentro do hotel em que ficamos, foi eleito o “melhor bar de hotel da Europa” em 2014. A inspiração? Tudo científico, do menu à decoração ao balcão do bar ao papo dos bartenders. Um dos painéis decorativos aludia ao fato de que fica em Gothenburg um dos grupos mais importantes do mundo de pesquisa sobre grafeno, uma forma cristalina do carbono de fácil manuseio e mil e uma aplicações. Plmdd, quantos lugares no planeta contam com uma pesquisa acadêmica desse nível como destaque na decoração de um bar? Garanto não serem muitas… Absolutamente fantástico.

Aliás, a “decoração” do balcão do bar merece atenção especial: era uma equação gigantesca – e diz a lenda que se você resolve a equação, ganha um drink cientificamente aprovado. 😛

E, claro, o menu do bar/restaurante também tem inspiração científico-tecnológica, para delírio desta cientista malla que vos escreve.

(Amei o “sweet conclusions”! <3 )

O Cuckoo’s Nest é tipo de bar que, se eu morasse em Gotemburgo, seria frequentadora assídua. Ou pelo menos chamaria os amigos matemáticos para me ajudar a resolver a equação do bar… 😛

Tudo de cientificamente bom sempre.

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