Assim:

Como não fotografar um coral

A foto foi tirada nas Filipinas, minutos antes do dive master ir lá dar uns puxões de orelha neste mergulhador coreano por praticamente se ~deitar~ em cima do coral. Nem precisa dizer o quanto eu e André ficamos furiosos embaixo d’água vendo essa cena de teatro de horrores biológicos, né…

#FicaDicaEterna: JAMAIS se debrucem num coral. Ele parece pedra, mas não é – é um organismo vivo. Afinal, ninguém gosta de ser pisado ou esmagado. Nem mesmo o coral.

Tudo de coral sempre.

Primeiro de maio nos EUA é May Day – nosso dia do trabalho. E no Havaí, a sonoridade do May Day logo o transformou em… Lei Day, ou seja o Dia Do Lei.

Dia do Lei

Lei do Kamehameha.

Leis são os colares de flores tipicamente havaianos, com os quais as pessoas celebram tudo nas ilhas. Quando um visitante chega no aeroporto ou faz aniversário? Recebe um lei. Formou-se na faculdade? Colares de flores no pescoço. Dia da secretária? Lei para ela. É morador e vai embora do Havaí? Vamos dar tchau com um lei. Dia do Rei Kamehameha? Coloquem metros e metros de colares na estátua! SEMPRE há uma razão para se dar um lei para uma pessoa – e se for uma pessoa querida, mais ainda.

O que é uma lindeza, diga-se de passagem. No aeroporto, então, receber uma pessoa querida com um colar de flores é praticamente dizer: você chegou no paraíso, agora é descansar a mente e abraçar o espírito local. O lei também é uma forma de uma pessoa dizer à outra:  eu tenho carinho por você, consideração, e desejo o melhor sempre na sa vida. O cheiro intoxicante da flor ao redor do pescoço, os estilos variados e intricadamente delicados, o gesto de carinho e afeto pelo outro. Os leis transbordam aloha.

Muitos leis para celebrar quando virei Doutora. 🙂

Eu particularmente a-do-ro receber leis. Meus favoritos são os leis de flor de gengibre e os de pluméria (ou jasmim), por causa do aroma delicioso que exalam. Mas os leis masculinos feitos com sementes de kukui ou com folhas de taro também são super-elegantes. Os de sementes e conchas duram mais, e os mais intricados destes leis são oferecidos em momentos especiais. Para o cabelo, faz-se o haku lei, que é uma tiara de flores, muito usado pelas noivas em casamentos. O maile lei é feito com folhas, se usa aberto, e em geral apenas em ocasiões muito especiais (casamento, homenagens solenes, etc.). No passado, o lei da família real havaiana era especial, feito com flores e penas de aves das ilhas – aves estas que hoje estão ameaçadas de extinção, portanto esta matéria-prima foi substituída.

Lei de recepção no aeroporto para a amiga que veio nos visitar.

Diz a “lei” que um lei precisa ser dado a outra pessoa, não vale comprar e se autocolocar. No Chinatown, há diversas lojinhas pequenas de fazedoras de leis, que costumam ser super-elaborados. Nos supermercados, os leis são mais “pasteurizados” – mas não menos lindos e cheirosos. Para manter a produção de tanto lei por dia no Havaí, há várias fazendas de flores, espalhadas por todas as ilhas.

A efemeridade do lei também é parte da tradição: feito de flores naturais, um lei não dura muito. Alguns dias, no máximo, se você depois de usá-lo, guardá-lo na geladeira em um saco plástico umedecido. Mas mesmo assim, depois de um tempo, o cheiro desaparece e as pétalas começam a cair. Para lembrar a todos que tudo na vida passa… e que a aloha do oferecimento deve ser renovada, a cada nova vitória no nosso dia-a-dia. 🙂

Tudo de leis sempre.

Fazenda de jasmins para confecção de leis, em Molokai.

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Um pouco mais de lei…

P.S.: Em 2005, eu contei aqui no blog por que só mulheres podem fazer leis.

P.S.2: A maior parte dos resorts do Havaí oferece também aulas para aprender a fazer lei. Tente aparecer em pelo menos uma – a aula te deixa leve e cheia de aloha.

Aula de fazer lei num resort.

 

DekalogNeste último sábado, embarquei numa viagem cinematográfica que nunca tinha tentado na vida: assisti aos filmes de 1989 que compõem o decálogo do diretor polonês Krzysztof Kieslowski – o chamado Dekalog. A atividade foi organizada pelo Honolulu Museum of Art, que planejou a projeção sequencial dos 10 filmes por 12 horas seguidas, começando ao meio-dia e terminando à meia-noite – e com intervalos de meia hora a cada 2 filmes, recheados de café e cookies. Uma maratona kieslowskiana, sem dúvida.

E valeu MUITO a pena esta experiência. A começar que eu nunca tinha ficado num cinema por tanto tempo. Porque não sou muito fã, por exemplo, de maratonas de seriados; esse negócio de ficar grudado por um longo tempo no mesmo estilo, seja de enredo, cinematografia ou atuação, meio que me cansa. Então achei que lá pelo 7º filme eu já estaria totalmente de saco cheio de ver filme – ledo engano. Os filmes que compõem o Dekalog são tão excepcionais, tão obras-primas, que quando acabou o 10º filme, minha vontade era pedir pra recomeçar tudo do início. 😀

O que me animou muito a encarar esta maratona foi ler as críticas pela internet – com o empurrãozinho extra do cinéfilo-mor Chico Fireman no twitter. Em todos os fóruns e sites, só elogios, notas 10 e muitas vezes a colocação de “projeto supremo da história do cinema”. E agora, depois de 10 filmes assistidos, posso cair na mesmice de todos e repetir: sim, é uma das maiores obras-primas da história do cinema.

Embora, interessantemente, ele não tenha sido feito para o cinema. Cada episódio era um seriado de TV – e até nisso Kieslowski foi um quê avançado para o seu tempo. Quando hoje se discute na Academia Cinematográfica Americana se documentários divididos em episódios podem ser categorizados como filme ou não, Kieslowski há tempos o fez e sem parecer se preocupar com os rótulos que suas obras teriam.

Cada filme do Dekalog corresponde a um dos 10 Mandamentos de Moisés. Mas, é claro, na versão de Kieslowski, há diversos twists and turns, e principalmente não há julgamento nem religiosidade nem espaço para maniqueísmo ou política – há a percepção, o fato, o subtexto, o humano, mas a balança moral e ética não pende pra um dos lados, fica permanentemente nesse estado incrível de tensão suspensa e solitária. Até no mais extremo dos mandamentos, o 5º – “Não matarás”, a versão Kieslowskiana deixa espaço para reflexões em ambos os lados, onde talvez a punição seja ambivalente.

Cada história do Dekalog é independente, mas todas são amarradas por alguns detalhes, como se passarem todos ao redor de um condomínio em Varsóvia, ou o personagem sem nome ou fala que aparece em momentos cruciais, como a observar e apontar a moralidade dos personagens – ele é o primeiro a aparecer no primeiro filme, e sempre olha profundamente seu interlocutor. Seria ele a nossa consciência? Típica deixa de Kieslowski.

A maioria dos 10 filmes são obras-primas singulares. Pelo roteiro fabuloso, pela cinematografia incrível, pela construção dos personagens, pela atuação dos atores, pela direção impecável – tudo no Dekalog leva um toque de Midas. No Dekalog: Oito (“Não darás falso testemunho contra o próximo”), talvez Kieslowski deixe escapar o objetivo de seu cinema:

“Everybody has a story to tell…” 

Tentei escolher o filme que mais gostei dentre os 10 – tarefa praticamente impossível. Talvez fique entre o Dekalog: Quatro (“honrar pai e mãe”), o Dekalog: Seis (“não adulterarás”) e o Dekalog: Dez (“não cobiçarás o que pertence ao próximo”), mas aí começo a lembrar do Dekalog: Um (“amar a deus sobre todas as coisas”) que amei, ou do Dekalog: Três (“guardar domingos e festas”) que foi tão leve e tenso ao mesmo tempo e… afe! Não dá pra escolher. Tem que ver tudo mesmo – e se preparar porque o filme vai te fazer ruminar por um bom tempo ainda depois de seu fim… como raros filmes o farão.

A única certeza que você leva para casa sem precisar pensar muito: Kieslowski era um gênio.

Tudo de 10 sempre.

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P.S.: Uma resenha excelente sobre o Dekalog no site da NPR. A frase final é tudo:

“Dekalog celebrates the grandeur of not knowing.”

Postado em 30/04/2017 por em Arte, Cinema

Sexta Sub - mergulho no naufrágio Mahi

Já se vão alguns anos quando fiz este mergulho para visitar o naufrágio do navio Mahi, que senta no fundo do mar na costa oeste de Oahu.

Waianae Boat Harbor

Era uma manhã de domingo e nos encontramos cedo no píer de Waianae com o Ricardo, da Hawaii Eco Divers, para um dia de diversão embaixo d’água.

Há muito tempo meus amigos mergulhadores comentavam comigo sobre o Mahi, um navio de detecção de minas militares que foi intencionalmente afundado ali em 1982. A história mais interessante do Mahi é que a Marinha americana desencanou de utilizá-lo para desativar minas, vendeu-o para uma corporação que por sua vez o repassou para a Universidade do Havaí, que tinha a intenção de torná-lo um navio de pesquisa. Mas logo outro destino foi dado a ele: ser afundado para um projeto de construção de recifes artificiais da época. E assim foi – eis que a 1km da costa, o Mahi se sentou intacto, perfeitinho, a ~30m de profundidade.

Mas eis que em novembro do mesmo ano em que foi afundado o furacão Iwa passou exatamente pela costa oeste de Oahu, com swells enormes, causando muita destruição. Depois da passagem do furacão, os mergulhadores encontraram o Mahi bastante danificado, com o casco partido e cheio de ferragens, condição em que está no fundo do mar até hoje, quando mergulhamos.

O mergulho em si é considerado avançado, mas no dia em que fomos, o mar estava uma piscina – talvez por causa disso eu tenha achado o mergulho super-tranquilo. O Mahi está meio virado de lado, e a parte superior do naufrágio se encontra a rasos 20m.

As arraias que mandam no pedaço.

Mesmo perto da costa, a visibilidade ali é inacreditável de tão boa, em geral mais de 30m. Você desse pela corda, chega até ele, nada ao redor, vê os peixes e corais, e sobe de volta pela corda – mais direto e reto, impossível.

Em termos de vida marinha, um grupo de arraias-pintadas é residente ali, e há bastante corais e peixes típicos da fauna havaiana – ou seja, o projeto de criar um recife artificial que agregasse vida marinha foi bem-sucedido.

Por estar bem afastado de Waikiki (e numa parte da ilha que recebe o swell das ondas grandes no inverno), este é um naufrágio bem menos visitado – mas não menos interessante. Para quem vem ao Havaí e quer mergulhar num ponto interessante, recomendadíssimo.

A costa menos explorada de Waianae, no lado oeste de Oahu.

Tudo de mergulho sempre.



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O que é o Havaí

Uma ilha no Pacífico.

Na semana passada, a população do estado do Havaí ficou em polvorosa, bastante ofendida com recentes frases toscas pronunciadas por aí. Então que os jornalistas Patrick Laforge e Christine Hauser, do NYTimes, resolveram investir em um artigo na sua seção de Travel que era um verdadeiro crash course sobre Havaí. Quem sabe agora os ~desavisados~ em DC entendem melhor, né não?

Achei o artigo engraçado e, ao mesmo tempo, muito útil, dadas algumas dúvidas normais que as pessoas têm e que recebo por email. Então decidi traduzi-lo e adaptá-lo livremente aqui no blog, usando o mesmo formato que o NYTimes utilizou e fazendo alguns comentários mallas para ajudar. Fica como registro, como se fosse um rápido FAQ sobre o Havaí para os incautos leitores mais curiosos. Vamos lá.

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PERGUNTAS FREQUENTES

É possível dirigir até o Havaí?

Não. O Havaí é um arquipélago no meio do oceano Pacífico (veja mapa abaixo; em azul o oceano). Há oito ilhas principais que compõem este arquipélago: Ilha do Havaí (ou Big Island), Maui, Oahu, Kauai, Molokai, Lanai, Kahoolawe e Niihau.

Já recebi esta pergunta sobre vir de carro pro Havaí em emails (repare o plural), então não custa ~esclarecer. É que a palavra “mapa” foi removida do dicionário de alguns Homo sapiens, gente, relevem… #RIPGeografia

Um arquipélago cercado pelo Oceano Pacífico por todos os lados.

O Havaí é um estado?

Sim. Foi um reino independente de economia mercantil com a Europa até a chegada do Capitão James Cook em 1778; foi anexado pelos Estados Unidos em 1898, depois de um golpe econômico liderado por estrangeiros (incluindo 162 marinheiros e vários comerciantes) que retirou do poder a Rainha Liliuokalani. O #ForaLiliuokalani foi notícia de primeira página nos jornais da época.

Primeira página do jornal local Honolulu Star-Bulletin no dia 21 de agosto de 1959.

A primeira tentativa legal de tornar o Havaí um estado americano foi introduzida para votação pelo Congresso em 1921 – e os representantes do legislativo insistiram na pauta todos os anos por mais 48 anos, até que em 21 de agosto de 1959 conseguiram finalmente que o Havaí se tornasse um estado dos EUA. O presidente da época era Eisenhower.

Alguém mora no Havaí?

Sim. Cerca de 1 milhão e 360 mil pessoas – mais que outros 10 estados americanos. O Havaí tem mais extensão territorial terrestre que o estado de Connecticut e, se incluirmos a área oceânica, é maior que Massachusetts ou Nova Jérsei – e vale lembrar que ainda cresce todos os dias em área terrestre. Em termos brasileiros, o Havaí é maior que o estado do Acre ou de Alagoas.

Honolulu – uma metrópole no meio do Pacífico.

Oahu é a ilha mais populosa, com mais de 953.000 pessoas, de acordo com o censo de 2010. Honolulu é a capital do estado do Havaí e fica nesta ilha.

O Havaí também é o estado mais diverso dos Estados Unidos. Mais de 60% da população é de ascendência asiática, sendo o maior grupo os filipino-americanos. Considero que o Havaí está para a Ásia assim como Miami está para a América Latina – são os EUA mais perto deles, por isso a predominância populacional.

Em 2010 (último censo), cerca de 350.000 moradores se classificaram como nativos do Havaí ou de outras ilhas do Pacífico, sendo que 20% deste grupo é capaz de rastrear sua ancestralidade até um membro da população original, pré-homem branco.

E alguma coisa importante já aconteceu no Havaí?

No dia 7 de dezembro de 1941, “um dia de infâmia marcado para sempre na história”, o presidente da época Franklin Roosevelt disse ao país: “Os EUA foram atacados de surpresa e deliberadamente por forças aéreas e navais do Império Japonês.”

Rascunho original do discurso de Roosevelt sobre 7 de dezembro de 1941, rabiscado pelo próprio. Em exposição no Parque Nacional Histórico de Pearl Harbor.

O ataque a Pearl Harbor em Oahu marcou a entrada dos EUA na 2a Guerra Mundial e levou à ascensão americana como superpotência por décadas. Portanto, sim, alguma coisa importante aconteceu no Havaí.

Arizona Memorial, em homenagem aos americanos que pereceram durante o ataque a Pearl Harbor.

O que move a economia havaiana?

Por séculos, a cana-de-açúcar foi o principal produto de comércio e exportação da economia havaiana, atividade esta que modelou a história das ilhas nos últimos 200 anos. Entretanto, a última usina de cana-de-açúcar foi desativada no ano passado (2016), em Maui.

Era uma vez uma indústria de açúcar.

Atualmente, as principais atividades econômicas do estado são o turismo e a indústria militar. A base de Pearl Harbor ainda é ativa e operante, central do Comando do Pacífico das Forças Armadas Americanas. Esse moço trabalhava na sucursal havaiana da Agência de Segurança Nacional antes de se tornar um exilado político. A média de renda anual no Havaí é a 5a mais alta dos EUA, a US$63.030 por ano (censo de 2010).

Quais são as contribuições culturais do Havaí?

Dentre as ricas contribuições na dança e música, estão os movimentos únicos e graciosos de mãos e pés da hula, o instrumento musical ‘ukulele e o método slack-key, uma variação de estilo para se tocar violão.

Hula: a dança que é a cara de “uma ilha no Pacífico”.

Os músicos mais tradicionais do Havaí são Eddie Kamae e Israel Kamakawiwo’ole (ou Brother Iz).  Ambos contribuíram para um renascimento da cultura havaiana tanto no modo de tocar ‘ukulele quanto no refletir sobre suas raízes. Kamae morreu em janeiro passado; Iz morreu em 1997, antes de ver seu álbum “Over the Rainbow” se tornar mundialmente famoso e o mais importante da música contemporânea havaiana.

‘Ukuleles para todos os gostos.

Em termos de cultura audiovisual, o seriado “Hawaii 5-0” foi popular por décadas, acabou em 1980, e foi ressuscitado em 2010 com novos atores e outro ritmo. O Havaí também foi pano de fundo do famoso seriado “Magnum”, com Tom Selleck, e do filme “Os Descendentes”, que ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado em 2012. Em 2016, a Disney lançou o desenho animado “Moana”, uma verdadeira ode às culturas das ilhas do Pacífico, e cuja voz da personagem principal é narrada pela moradora havaiana Auli’i Cravalho, de 16 anos.

O NYTimes esqueceu, mas o Havaí também viveu 6 anos intensos de gravações do surreal seriado de TV e fenômeno de público “Lost”, que trouxe um lucro estimado de US$400 milhões pro estado.

E acrescento uma curiosidade cultural e linguística: o alfabeto havaiano é o menor do mundo, com  apenas 13 letras.

E essa obsessão toda com spam?

Um artigo da Vice em 2016 chamou o spam, esta carne enlatada (e para mim intragável) que domina a culinária havaiana, de “tanto uma bênção quanto uma maldição”. O Havaí consome 7 milhões de latas de spam por ano. Há inclusive o festival anual do spam, o Spam Jam, que no ano passado contou com a visita de 25.000 pessoas (eu inclusa).

Juro solenemente que não abracei o spam. 😀

O Havaí nunca sai nos jornais?

O Havaí é a terra de nascimento do ex-presidente Barack Obama (“Obama Ohana”), o 44º presidente americano. Ele passa férias no Havaí. Até um tempo atrás alguns servidores públicos se mobilizaram para liberar a certidão de nascimento dele no Kapiolani Hospital, em Honolulu, para que se acabasse de vez com uma conspiração maluca de que ele não teria nascido nos Estados Unidos. Isso gerou bastante headlines na época. (Nos EUA, a certidão de nascimento é um documento inviolável da pessoa, que não pode ser retirado de um órgão oficial sem mandado judicial.)

Kama’aina Obama.

Mais recentemente, um juiz havaiano bloqueou a tentativa do atual governo federal de banir a entrada de pessoas de 6 países de maioria muçulmana. Parece que foi este bloqueio que gerou os comentários toscos de que falei no início do post.

Pipe Masters, a última etapa do mundial de surfe. Nas páginas de esporte de alguns jornais.

E o NYTimes esqueceu do que, a meu ver, é o principal: o surfe. Terra de dois dos maiores surfistas de todos os tempos, Eddie Aikau e Duke Kahanamoku, todo ano o Havaí está nas páginas de esporte dos jornais qualificados, já que são nas ondas de Pipeline que os maiores nomes do surfe mundial se debatem durante a final do Mundial de Surfe. Todo. Santo. Ano.

Pelo menos aparecem uns gatos pingados para assitir ao mundial de surfe, néam?

Mais dúvidas? Caixa de comentários aberta à vontade, sintam-se em casa! 🙂

Tudo de Havaí sempre.

 



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Para não dizer que não falei das flores…

Eis algumas fotos de ontem da Marcha pela Ciência em Honolulu, Havaí (#ScienceMarch ou #MarchForScience). Foi um evento nacional que movimentou a comunidade científica, os interessados em ciência, e muitas pessoas de bom senso e razão não-envolvidas com ciência, mas que entendem o valor do conhecimento científico para uma sociedade. Em Honolulu, o evento foi bem organizado, apoiado pela Universidade do Havaí e consistiu numa caminhada pelas ruas principais do bairro de Manoa, onde fica o campus central da Universidade.

Caminhando e cantando e seguindo a razão

Carta ao Clima.

#DIVEST.

More equations, fewer invasions.

O protesto foi pacífico, apesar do sentimento geral era de irritação e angústia pelo que o atual governo (e o eleitorado que votou nele…) pensa da ciência, a base de toda e qualquer aventura humana de conhecimento. Enfim, deixo também o vídeo do cientista e divulgador de ciência Neil DeGrasse Tyson, que mostra o profundo incômodo que permeia o coração dos cientistas, com o atraso e o rumo que as decisões sobre ciência vêm andando.

Tudo de ciência e razão sempre.

Um dos meus points favoritos de snorkel no Havaí inteiro é a baía de Honaunau, a cerca de 20 milhas ao sul de Kona na Big Island. Ali, os corais estão relativamente saudáveis e a quantidade de peixes e tartarugas é imensa.

Em geral, é minha indicação principal para quem quer um bom snorkel sem precisar encarar um passeio de barco – dá pra entrar na água da costa mesmo, e você pode ir por conta própria. Além do mais, Honaunau tem áreas mais rasas (lado esquerdo) e outras mais fundas (lado direito), portanto tem snorkel para todos os níveis e gostos.

Honaunau

É super-fácil de entrar na água em Honaunau, usando os degraus naturais que a rocha possui.

Por sua posição geográfica, Honaunau é uma baía protegida dos grandes swells e ondas, o que mantém os corais praticamente intactos – o outro nome de Honaunau é “City of Refuge”, ou Cidade de Refúgio. Boa parte das placas indicadoras para se chegar lá, aliás, indicam “City of Refuge” ou “Place of Refuge”. De cada lado da baía, uma visão diferente do mundo havaiano.

Na extremidade esquerda, o Parque Nacional Histórico de Pu’uhonua o Honaunau é onde nos tempos ancestrais os havaianos que quebravam as leis sagradas da sociedade se refugiavam – e depois de estarem ali por um tempo, poderiam voltar ao convívio social com seus pecados ou crimes perdoados. Pu’uhonua é o termo para um local que o rei havaiano designava como sagrado ou de limpeza espiritual, e em havaiano significa “lugar de paz e segurança; asilo”. Embora um pouco similar ao conceito de prisão, o fato de muitas vezes ser voluntário – o criminoso/pecador/insurgente decidia ir para lá se refugiar e se “limpar” dos seus erros – é uma herança interessantíssima da cultura havaiana. Dentro do Parque, havia uma área especial para a família real, onde ela se “purificava”, e um grande muro separa esta área de onde antigamente outras pessoas que desonravam a lei ficavam. Aos interessados por história, este é o melhor conservado parque histórico que retrata o Havaí antigo. Para entrar no Parque Histórico paga-se um ingresso (US$3,00 por pessoa ou US$5,00 por veículo, válido por 7 dias).

Mas para quem vai ali apenas com interesse no snorkel, o melhor é nem entrar no parque, e sim pegar o acesso público à praia: a última rua à direita antes da portaria do parque. Dali, chega-se a área de piscinas naturais de rocha de lava (lava rock). O amontoado de rochas forma degraus naturais em certos pontos destas piscinas, e são destes degraus que a maioria das pessoas sai para explorar a baía (vá de botinha). Com a ajuda do Google Maps, fiz um mapinha para vocês terem melhor ideia do local.

Do lado direito de Honaunau, mais fundo, vemos mais abundância de vida marinha e formações que lembram pequenos cânions de corais. É nesta área que a maioria dos praticantes de mergulho autônomo vai, principalmente principiantes. Entretanto, você está nos fundos da casa de alguém, e é bom ter isso em mente quando estiver fotografando, pois os moradores não gostam de ter sua privacidade invadida. Debaixo d’água, um azul profundo e uma visibilidade a perder de vista – o mar ali em Kona é realmente sensacional.

Sou suspeita para comentar, mas quando vou a Honaunau, costumo passar pelo menos uma manhã inteira ali para apreciar com calma os corais. Levo uns sanduíches ou snacks, e faço piquenique na área rochosa das piscinas naturais. É um relax total.

Mas há um senão para o turista desavisado. Honaunau não tem estacionamento. Há poucas vagas para parar o carro na rua, e os moradores locais não gostam muito quando sua vizinhança está entupida de carros. (O estacionamento que vocês vêm no mapa é do parque, e eles costumam não gostar de ver você estacionar ali e ir fazer snorkel, algumas vezes até impedindo.) Meu conselho é: estacione longe, já na rodovia, e ande. Ou chegue beeeeem cedo, para poder estacionar na rua principal (e praticamente única daquele recanto).

Uma outra dica importante é de que, estando na água snorkelando, não é permitido sair na prainha que fica dentro do Parque Histórico, que é considerado um local sagrado. E esta prainha fica no canto do parque onde a maioria das tartarugas gosta de nadar, portanto você provavelmente chegará perto dali… Mas, conselho da tia, não caia na tentação de curtir esta prainha – a multa pode ser puxada.

Vale lembrar também que não há banheiros públicos (só químicos) nem salva-vidas na área – portanto, para se aventurar a snorkelar aqui, a pessoa deve se sentir confortável para tal atividade.

Uma Malla em Honaunau.

No mais, debaixo d’água, Honaunau é um dos melhores pedaços de paraíso que você encontrará na Big Island. Os corais e peixes coloridos são abundantes, e tenho certeza que este snorkel ficará guardado na sua lembrança num lugar bem aconchegante, onde estão os melhores momentos de uma vida interagindo com o mar. Palavra de Malla. 🙂

Tudo de Havaí sempre.

P.S.: Tem uma surpresa no fundo do mar em Honaunau, que mostrei neste outro post do blog. 😉

Semana passada, recebi um email de feedback super-bacana do Luis:

“Oi, Lucia!
Só quero deixar registrado meu agradecimento pelas excelentes dicas sobre o Hawaii, no teu blog. Li tudo que você escreveu sobre as ilhas antes de viajar para o paraíso em janeiro/2017 com minha família. Ficamos em Oahu e na Big Island. Apesar da viagem cansativa, todos amamos o Hawaii e pretendemos voltar com mais tempo (ficamos apenas 10 dias). Graças às tuas dicas consegui fazer um roteiro otimizado para aproveitar bem o tempo e conhecer lugares únicos no mundo.
Se quiser dar uma olhada na nossa viagem, fiz um pequeno vídeo com algumas fotos.
Mais uma vez, obrigado!
Abraço,
Luis”

Feedback de viagem - Luis

Dentro do lava tube, na Big Island.

Muito obrigada, Luis e família, pelas palavras gentis! É incrivelmente emocionante perceber que pude ajudar um pouquinho na sua viagem ao Havaí. Isto me anima a continuar compartilhando esta paixão intensa que tenho pelas ilhas havaianas (e por tubarões… 😀 ) com o mundo, via este blog.

Perguntei ao Luis se ele autorizaria postar o vídeo aqui; ele autorizou. Então deixo como inspiração de viagem a quem estiver pensando/sonhando em vir pro Havaí – tenha certeza que as ilhas te esperam com aloha e momentos inesquecíveis, de braços abertos.

Mais uma vez, mahalo, Luis, por compartilhar sua emoção com a gente. 🙂

Bienal de Honolulu

Está acontecendo até o dia 8 de maio a Bienal de Honolulu 2017, evento de arte contemporânea ultra-focado nas culturas do Pacífico. O tema deste ano é sensacional: “Middle of Now|Here” – além da contemporaneidade, alude à antiga visão de que as ilhas eram o meio do nada, e hoje vêm renascendo como quase ground zerofront essencial em grandes problemas atuais da nossa humanidade, como mudanças climáticas e futuro nuclear.

Mais: no mundo atual de extrema instabilidade política, financeira, ambiental e emocional, a arte é o palco ideal e fundamental para reflexão destes tantos desafios e incômodos planetários. Integrar e ouvir os povos do Pacífico nesta discussão artística é, a meu ver, fundamental.

“Above the wall under the rainbow, free air”, mural do artista indonésio Eko Nugroho.

As obras da Bienal estão espalhadas pela cidade de Honolulu, do Honolulu Art Museum ao Foster Botanical Garden. O pavilhão principal, onde estão a maior parte dos trabalhos, fica na Ward Avenue e chama-se The Hub. Ali, o foco é bastante na desocidentalização necessária das culturas ilhéus do Pacífico, principalmente condenando os anos de uso e abuso destes paraísos naturais para testes nucleares – a instalação sobre as bombas detonadas em Bikini da artista marshalhesa Kathy Jetnil-Kijiner, é de arrepiar a espinha.

“The Great goddess Pere”, murais de Alexander Lee.

“Target Island”.

Outra obra que tocou nesse tema foram os murais de Alexander Lee, do Taiti, que aludem ao impacto explosivo dos testes franceses em Moorea numa disposição quase como “azulejo” e cujo título em taitiano traduz-se para “A Grande Deusa do Fogo Pere”; e “Target Island”, do neozelandês Brett Graham, que reflete sobre o uso pelo exército americano da ilha havaiana de Kaho’olawe, terreno sagrado dos antigos havaianos, como área de treinamento e artilharia, deixando-a inabitável.

Algumas obras ainda relacionadas ao tema nuclear me chamaram bastante a atenção, como “Crystal Palace: the great exhibition of the works of industry of all nuclear nations”, que eram várias luminárias de vidro de urânio e luz UV, dos artistas Ken & Julia Yonetani.

E no contexto de obras sobre a “desocidentalização” do Pacífico, talvez a mais inspiradora tenha sido uma “homenagem” a meu ídolo Marcel Duchamp feita por Yuki Kihara, usando fotos e vídeo de um samoano descendo a escada, em “Maui Descending a Staircase II”. (Sou parcial: qualquer exposição que mencione Duchamp, no meu caderninho, já ganha muitos pontos…)

“Maui Descending a Staircase II”.

Outro destaque: a sala que o grupo de arte colaborativa teamLab organizou, chamada “Graffiti Nature”, com projeções coloridas e psicodélicas de animais tropicais pelo chão, tudo super-orgânico e atraente para as crianças – na hora em que estava lá, tinham vários meninos sentados no chão desenhando enquanto as projeções de baleias, jacarés e afins passavam por cima deles. Um barato!

“Graffiti Nature”

No histórico prédio da IBM no bairro do Kaka’ako, está para mim a preciosidade desta Bienal: a obra/instalação “I’m here, but nothing” da artista japonesa Yayoi Kusama. Kusama montou esta instalação especialmente para esta Bienal: um quarto/sala de plantation house havaiano, com toda a mobília e artefatos típicos daqui, e tudo marcado com adesivos coloridos que brilham no escuro – o ambiente está iluminado com luz negra e, como as bolinhas não são uma projeção e sim adesivos, você tem uma sensação bem mais integrada. Kusama é famosa por seu mundo visto com bolinhas, e o uso dos adesivos é um direcionamento muito interessante em termos de uso de materiais pela artista.

(E o IBM Building entrou na onda da arte colorida de Kusama e vem sendo iluminado como arco-íris enquanto a Bienal ocorre. #MuitoAmorÀArte )

Fica então a dica: se você estiver pelo Havaí neste mês, não deixe de visitar, pelo menos o “quarto” da Kusama – é gratuita (as exposições nos demais pontos da cidade têm ingresso a US$10,00/pessoa).

A mala da Kusama. 🙂

Tudo de arte sempre.

Artista local Chris Ritson (e seu fiel companheiro canino) comentando sua obra de arte bioregenerativa, feita com fungos e algas vivas.

 

Corais de Maragogi

Em novembro passado, estivemos André e eu em Maragogi, pela primeira vez. Já conhecia Alagoas de outras viagens na infância, mas a Maragogi, era a primeira vez que ambos íamos. E estávamos ansiosos: o que eu lia pela internet era o quanto aquele recife de corais era lindíssimo, sua fauna riquíssima, e sua água morníssima e de cor belíssima (um lugar superlativo, tudo indicava). Está ali a maior barreira coralina da costa brasileira, supostamente uma das maiores do mundo, então fazia sentido que o lugar fosse tudo isso mesmo. E para nós que amamos os corais do mundo, a oportunidade de ver – e fotografar – de perto os corais da nossa Costa dos Corais brasileira era especial. Eu estava super-animada.

Chegamos a Maragogi numa tarde de novembro e fomos direto para nossa pousada, a Portal de Maragogi – pé na areia, simples e eficiente. A maré estava vazante, e a extensão de areia enorme da praia a transformava em campinhos de futebol para diversas turmas. Inúmeros vendedores ambulantes e pessoas passeando ao entardecer. Uma atmosfera pacata relax deliciosa. Aquela costa de Alagoas é realmente a mais linda do Brasil, hands down. A cor da água, gente!

No calçadão de Maragogi, minha fraqueza: tapioca nos mais diversos gostos e estilos. Depois de traçar um pratão de vatapá, ainda sobra um espacinho para a tapioca, claro. E vamos dormir cedo que no dia seguinte tem o encontro esperado com os corais de Maragogi!

O passeio às famosas Galés de Maragogi (e outras piscinas naturais da área) é o carro-chefe do turismo na região, e se faz apenas na maré baixa. É fundamental, portanto, olhar a tábua de marés – é ela que determina o horário do passeio. No dia em que lá estivemos, a maré baixa era às 9 da manhã. Então no dia seguinte pegamos um barco a motor credenciado logo cedo, e fomos visitar as Galés.

O passeio às piscinas naturais da região é bem regulamentado – o que é excelente, pois pode significar que há todo um trabalho de conservação e manutenção adequada dos corais e do ecossistema da região, e de reestabelecimento das áreas degradadas. Algumas das regras:

  • paga-se uma taxa de conservação para visitar as piscinas naturais;
  • os turistas só podem ir até as piscinas naturais na maré baixa;
  • há dias em que o passeio não sai, para que o ecossistema “descanse”;
  • os barcos têm um limite de passageiros e tempo nas piscinas naturais;
  • há um barco oficial de fiscalização nas piscinas naturais durante todo o passeio, para evitar que barcos não-credenciados comecem a super-lotar o local;
  • ao fazer snorkel ali, não se pode usar nadadeiras, para evitar quebrar os corais sem querer;
  • é proibido alimentar os peixes e outros membros da fauna, assim como pisar nos corais.

Além disso, pelo menos no barco onde estávamos, os guias reforçaram a regra de não encostar em hipótese alguma nos corais e nos peixes. Achei ótimo.

Ainda assim, pelas fotos que eu tinha visto pela internet, já esperava que o lugar estivesse relativamente cheio de gente. Entretanto, a maioria das pessoas chega ali e fica perto da área de ancoragem, onde o fundo é de areia, curtindo a água quentinha e a piscina natural. Então decidimos colocar a máscara e o snorkel e nos direcionarmos, baseado no tempo que teríamos ali, para áreas um pouco mais distantes daquele amontoado de gente.

E aí é que fiquei boquiaberta.

Chorando embaixo d’água.

Logo no início, os corais estavam completamente cobertos por algas – sendo asfixiados, ou já mortos. Poucos peixes. (É engraçado, porque havia lido que a quantidade de peixes era o que mais impressionava as pessoas, mas acho que “muito peixe” é uma expressão que depende da sua experiência pessoal. Para um ecossistema saudável, a quantidade de peixes, assim como as espécies que vi ali me assustou: praticamente só herbívoros, pouca diversidade, e a maioria dos indivíduos arredios, exceto os que obviamente se aprochegavam por estarem ~condicionados~ a serem alimentados (o que sugere que, apesar das regras, algumas pessoas ainda alimentam os peixes).

Mergulho autônomo em Maragogi: é na realidade um tow-in subaquático, que leva o cliente numa área das Galés que não é complicada de snorkelar.

Achei que esta situação triste era apenas ali, perto de onde os barcos atracavam. Mas que nada: continuando o snorkel até a área mais funda e com menos gente, onde algumas empresas fazem o “mergulho” autônomo, a situação dos corais era praticamente a mesma: tirando uma ou outra colônia de coral-fogo (é uma espécie bem mais resistente mesmo), o emaranhado de algas cobria toda a formação coralínea dos cabeços.

Repare que a moça se segura no coral para tirar a fotografia. Mas aí pensei: adiantaria ser malla e reclamar? O coral já estava morto mesmo… #TristezaSemFim

A água naquela região sempre foi um pouco mais quente, portanto os corais de Maragogi provavelmente se adaptaram e se tornaram resilientes à temperatura um pouco mais elevada da água. Minhas hipóteses, portanto, eram: ou a temperatura do mar da região aumentou além do que os corais estão acostumados (como consequência das mudanças climáticas, como vem acontecendo pelo mundo), ou o impacto do turismo ainda é muito elevado, e a regulamentação precisa ser mais rigorosa ainda (menos pessoas por dia, talvez…?). Uma terceira hipótese poderia ser de que a área ainda não se recuperou de décadas anteriores de exploração pesqueira dos peixes maiores – sem as espécies-chave de uma cadeia alimentar saudável para manter o recife de coral, a comunidade biológica se esfacela, como o que a gente viu ali embaixo d’água. E pode também ser uma situação temporária – embora minha experiência vendo outros corais do mundo tende a acreditar que a situação ali está nos minutos finais mesmo.

O peixe mais comum de ser visto nas Galés de Maragogi.

Não sei qual delas é a hipótese mais provável para tal situação deprimente dos corais, mas desconfio que uma combinação de todas elas é a resposta mais adequada – ou seja, os corais de Maragogi gritam por socorro devido a diversas ameaças.

Snorkelei pelo tempo nos dado nas Galés – e descansei bastante nas águas das piscinas naturais, que são sim, morníssimas e lindíssimas vistas de cima, perfeitas para fotos no instagram. Mas a constatação da realidade dura e crua de que aqueles corais podem estar – se já não se foram… – em seus dias finais me entristeceu imensamente.

Galés de Maragogi: lindas vistas de cima. A cor do mar ali é hipnotizante.

Eu adorei a cidadezinha de Maragogi, e quero incentivar as pessoas a visitá-la, por seu povo adorável de simpático, pela tranquilidade de sua praia, pelas comidas deliciosas – e principalmente porque a comunidade depende do turismo e as alternativas a ele ainda são escassas na região. O dano econômico de não irmos mais a Maragogi seria trágico.

Mas não posso deixar de expressar também o aperto no coração que Maragogi me trouxe. A profunda preocupação pela situação de seu ecossistema e pelo futuro que vem para estes arrecifes, em uma região que depende dele economicamente (situação que se repete por tantas outras áreas de corais do mundo). Estes pensamentos me deixaram com a triste constatação de que talvez eu tenha visitado as piscinas naturais de Maragogi tarde demais.

Um lastimável exemplo do que é e será o turismo em tempos de mudanças climáticas.

Nem sempre tudo de bom.

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