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Estive em setembro/outubro do ano passado em Berlim, para um congresso de minha área de pesquisa. Apesar de ser uma viagem a negócios, aproveitei para tirar uns dias de férias e curtir minha cidade preferida da Europa. E para fazer uma viagem de volta às muitas memórias que tive, desde aquele longínquo dezembro/1997, quando a deixei pela última vez.

Morei em Potsdam em 1997, e, aos 22 anos, fiz de Berlim meu quintal de festas e passeios. Todo fim de semana, quando não pegava o Wochenende ticket e ia para uma cidade qualquer da Alemanha, me via no trem S7 rumo a Berlim. Foi um período cheio de descobertas, aventuras e histórias, em que queria provar pra mim mesma que era capaz de viajar pelo mundo sozinha.

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Mas a Berlim de 1997 era ainda um grande canteiro de obras. Potsdamer Platz era apenas um buraco no chão, o início das fundações em ferro pra todo lado. O Reichstag em reformas. Hauptbahnhof era um canteiro de obras. Não havia o Memorial Aos Judeus Mortos na Europa perto do Brandenburger Tor. Prenzlauer Berg era pura vida alternativa mesmo, sem yuppies nem cafés a cada esquina, mas com diversas feiras e shows pirados de música experimental que ficaram na minha memória jovem. Bahnhof Zoo ainda tinha um leve resquício do mundo junkie da Christiane F, mas a sensação era de que aquilo não duraria muito mais. E o Bauhaus Archiv já estava lá, com sua torre colorida linda. Era uma Berlim pós-queda do muro, mas já com uma atmosfera de mudança e (muita) vanguarda aparecendo. Uma revolução social, cultural e econômica acontecia. A população parecia inquieta e animada com todo aquele movimento de revitalização.

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Então que quando soube que ia voltar a Berlim, tive que montar uma estratégia de visita para conseguir equilibrar: satisfazer minha memória afetiva e conhecer as novidades, ver no que a cidade se transformara 16 anos depois.

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O congresso era no Hotel Seminaris, um hotel 100% de business eleito ano passado o melhor hotel para convenções na Alemanha. O hotel fica em Dahlem, perto da estação Dahlem-dorf (U3), e apesar do certo “isolamento” do burburinho central de Berlim, bastava atravessar a rua para chegar no Museu Etnológico, que estava na minha lista para visitar – um amigo aqui no Havaí comentara sobre a impressionante coleção deles de arte e artefatos polinésios. Aproveitei uma tarde livre para visitar esta coleção – que na realidade inclui objetos melanésios e micronésios também, ou seja, um excelente geralzão das culturas do Pacífico, minha paixão mor.

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Durante o congresso, fizemos um passeio pelo lago Wannsee de barco, fomos ao Reichstag, tivemos um jantar de gala no Jardim Botânico de Berlim, andamos pela área Brandenburger Tor/Potsdamer Platz à noite, fomos a pubs em Neukölln, tudo acompanhada de um bando de selenólogos, sendo muitos moradores de Berlim, portanto, guias locais de tabela. Foi extremamente divertido.

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Quando o congresso terminou, resolvi que ficaria uns dias a mais em Berlim, para matar minhas saudades da cidade. Nesta extensão da estadia, decidi ficar hospedada em Prenzlauer Berg, bem perto  das minhas memórias. Foi uma decisão mais que acertada. O hotel ficava perto da estação Prenzlauer Allee de S-bahn e da linha de bonde – ou seja, estava super-bem-conectada ao sistema de transporte público.

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Como a Berlin Art Week começava naquela semana na cidade, fui na sua abertura um dia à noite, numa festa-exposição de arte num prédio-abandonado-convertido-a-galeria (conceito super-chavão de Berlin!) da Auguststrasse. A festa foi fantástica, com lounges, DJs, arte em impressora 3D, muitas idéias deliciosas e vanguardísticas a todo vapor. Eu amo arte contemporânea, e aquele ambiente todo de respirar a contemporaneidade plástica me fez um bem danado.

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Também fui rever o famoso muro – na realidade ver a galeria de arte a céu aberto que ele se tornara. Ter vivido em Berlim me deu um pouco de “imunidade” viajante para não precisar fazer os lerês tradicionais, e deixei pra lá ver o muro na Bernauerstrasse e fui en passant ao Checkpoint Charlie, mas como as transformações e a arte não param na cidade, visitar a Galeria do Leste na Mühlenstrasse foi uma boa desculpa para rever o muro em si com mais calma e apreciação.

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Visitei também o Dalí Museum, pertíssimo de Potsdamer Platz, na Leipzigerstrasse. Gostei bastante do museu, cheio de desenhos e trabalhos “comerciais” de Salvador Dalí. As capas mais absurdas de revistas, os folhetos mais surreais possíveis e imagináveis. E ainda: um vídeo sensacional de animação de Dalí em parceria com Walt Disney. Inesquecível.

Fui também (re)visitar o famoso Aquário de Berlin, um dos primeiros do mundo (de 1913) – e definitivamente o primeiro do mundo a ter uma área “aberta” de visitação (na realidade uma estufa), onde ficava a suposta região tropical, com jacarés e pássaros do calor. Hoje, depois de ter visitado tantos aquários pelo mundo, posso dizer que o de Berlin é okzinho. Tem algumas espécies interessantes e de valor educacional único, mas a qualidade dos tanques e da organização das espécies fica muito a desejar. Mas vale pelo peso histórico, e principalmente por seus vitrais coloridos com peixes e animais marinhos desenhados, vitrais estes que foram escondidos durante os bombardeios da Segunda Guerra, e voltaram intactos à estrutura na época da Guerra Fria, sem nenhum dano (para fotos melhores dos vitrais, aqui). Valem o ingresso, sem dúvida.

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Neste período pós-congresso, tirei um dia também para visitar Potsdam, onde vivi. Refiz meus passos, peguei o S-7 e da Potsdam Hauptbahnhof, o mesmo ônibus 695, passei pelo prédio onde morava, desci para ver os palácios Sanssouci, Orangerie e Neues Palais, por onde cruzei tantas vezes de bicicleta. Foi emocionante. Depois andei pelo calçadão de Potsdam, onde tomei tantos gelattos com minhas amigas de laboratório. Achei uma loja de bijuterias maravilhosa (na realidade uma franquia de Berlin), e sentei num café para admirar e absorver o quanto a cidade ainda era a mesma, apesar dos 16 anos que me separaram dela. Uma delícia total.

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Daí saí de Berlin e fui rodar por outros pontos da Europa (Itália & Portugal), mas teria que voltar a Berlin pro meu vôo de volta ao Havaí. Planejei ficar neste terceiro momento em outra área da cidade. E como queria deixar a visita ao Bauhaus Archiv por último – é meu “pequeno museu” preferido do mundo! – resolvi que queria ficar a uma distância à pé do museu, para ir quantas vezes quisesse. Fiquei no ótimo hotel Berlin, Berlin, a um quarteirão do Bauhaus. É o hotel em que os funcionários da Air Berlin ficam quando em conexão pela cidade. Valeu muito a escolha, porque tive acesso a Bauhaus do jeito que eu queria: quando sentisse vontade. Ver a torre colorida da janela do hotel… ah!!!

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Já era outubro, e as folhas começavam a amarelar. O frio característico também já começara a dar sua cara. Apesar deste empecilho significativo, era o feriado da reunificação e uma mega-festa no Brandenburger Tor acontecia – aos moldes das inúmeras festas, festivais e shows que fui no mesmo ponto em 1997. Não podia perder mais essa viagem à memória afetiva.

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Não me decepcionei. Era uma mega-rave, com shows de DJs e bandas eletrônicas, shows pirotécnicos e várias barraquinhas de comidas e bebidas tradicionais de rua, muita animação apesar do frio de quase zero. Uma roda gigante iluminava o Siegesäulle, o ponto onde os anjos de Wim Wenders moram.

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Além de todos estes passeios e festas, meu objetivo maior era andar à toa e sem rumo pelas ruas de Berlin. Objetivo alcançado! Fiz isso inúmeras vezes, parei para cafés, sem lenço nem documento pelas esquinas da cidade. Respirando e absorvendo cada cheiro, cada gole de Berliner Weisse (grüne, immer), cada visual novo ou velho que a cidade exalava/emitia/emanava. Foi a volta dos corações que nunca foram embora, a re-realização de um sonho que dormiu por 16 anos e descobriu, deliciosamente, que era o melhor dos sonhos, aquele que chamamos de realidade.

Obrigada, Berlim, por cada momento maravilhoso neste outono da sua re-redescoberta em 2013.

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Tudo de Berlin sempre.

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2014 de amor

É tanta coisa pra comentar sobre estas últimas semanas que não sei por onde começar. Mas começo pelo começo, para citar o óbvio: 2013 foi um ano em que eu pisquei o olho, e puft! ele acabou. Fui meio que atropelada pelo ano, simples assim.

Voou muito. Talvez porque eu mal tenha tido tempo pra respirar, com inúmeras atividades na agenda. Ou porque as prioridades mudaram, e ainda estou me ajustando a esta nova ordem. Ou porque as decisões cruciais foram muitas, a maioria carregadas de complexidades e multilateralidades, na vibe tudoaomesmotempoagora.

Por isso, tudo que eu desejo neste 2014 é relax. E um pouco mais de organização da minha parte na agenda, para que eu possa dedicar algumas horas às brincadeiras dos bytes e ao blog. Que aliás, vai ganhar uma bela novidade em breve; stay tuned.

Por isso a foto da Sexta Sub de hoje. O cardume de peixes formando um coração. (Alguém já disse antes, mas não custa enfatizar: all we need is love.) Organização e amor, num mar azul de tranquilidade, de inúmeras descobertas surpreendentes.

E pessoas acima de tudo, se divertindo e curtindo e descobrindo e redescobrindo e se empolgando e arriscando e aprendendo e vivendo; tudo de bom, sempre.

Esta praia virtual está aberta para os mergulhos de 2014, pessoal! E que venham as boas ondas!

The Pipe
A onda de Pipe no dia dos mestres.

No último sábado, 14 de dezembro, ocorreu o campeonato Billabong Pipe Masters 2013 In Memory of Andy Irons, em Pipeline, North Shore de Oahu. Na praia, mais de 10.000 pessoas pararam para admirar os grandes mestres do surfe na água. E que dia para o surfe, camaradas!

The crowd

Muita emoção na água, pois as ondas de 20 pés estavam as mais perfeitas possíveis, com tubos cristalinos lindos. No céu azul infinito, um sol lindo de morrer. E na areia, a galera mais animada e antenada de surfe, cheia de vibração a cada onda bem pegada.

E, com tanta perfeição rolando, o campeonato não poderia ser mais emocionante, com 3 vencedores no mesmo dia.

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Mick Fanning (foto acima) logo no começo da manhã foi declarado por pontuação geral o campeão mundial de surfe em 2013. O Pipe Masters em si foi vencido por ninguém menos que o rei do surfe, Kelly Slater – aliás, de acordo com muitos, a onda suada e genial de Slater na final ofuscou totalmente a vitória de Mick Fanning. Mas o campeonato Pipe Masters é a última “jóia” da coroa do surfe, o Triple Crown, composta de 3 campeonatos no North Shore havaiano. E quem levou a coroa do Vans Triple Crown foi o cotadíssimo novatíssimo (21 anos!) queridíssimo John-John Florence, na final contra Slater que já entrou para a história do surfe.

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Guardem esse nome: John-John Florence. Ele ainda vai brilhar.

Para mim, que adoro surfe e ondas e praia, foi uma tarde inesquecível. Mais incrível ainda porque estávamos André e eu na companhia dos mais que queridos Mau & Oscar. Compensou muito acordar às 5 da matina e fazer o caminho mais ninja pro North Shore para evitar o trânsito, aguentar o sol e o calor na areia com milhares de pessoas, rir muito da animação e viagem na maionese da galera (excelente oportunidade de people watching); afinal o show e a festa do surfe na praia mais badalada do esporte foram simplesmente ALUCINANTES.

Tudo de surfe sempre.

Por que eu amo Honolulu

Esta semana, esbarrei em diversos links que afirmam, reafirmam, confirmam e auto-afirmam como a cidade de Honolulu, na ilha de Oahu, é super-hiper-ultra-über-legal. Compartilho aqui pros que querem se inspirar a vir me visitar um dia. Aconselho muito – mas sou suspeita, claro. :)

O primeiro link veio das peripécias de canyoning de um grupo pequeno de aventureiros pelas montanhas do Ko’olau (que circunda Honolulu) e de Waianae. Fotos sensacionais de cachoeiras permanentes e temporárias exploradas de uma maneira totalmente diferente, nas trilhas mais absurdas e escondidas da ilha, podem ser vistas no post do Unreal Hawaii, com fotos do Kitt Turner. Sensacional é pouco.

O segundo link veio da National Geographic Traveler, que fez uma galeria de fotos de Honolulu muito cativante, com diversos passeios, lugares e atividades que empolgam na cidade. Muita coisa turística, como tomar maitais no Duke’s, mas uma das fotos mostra a vista da Tantalus Drive, meu mirante predileto em Oahu – e que recentemente ganhou um balanço fofíssimo do projeto urbano-artístico #OahuSwingProject. (Veja fotos dos balancinhos aqui.) O projeto, organizado pelo ArtTruckHawaii, espalhou balanços por diversos pontos da ilha de Oahu, e pistas para as pessoas acharem os mesmos. Clima de gincana com paisagem de cinema. <3

O terceiro link – e mais suspeito… – veio da revista Honolulu Magazine (ahá!), que fez uma lista – dessas que a gente a-do-r-a discordar e discutir e acrescentar outros itens – das razões pelas quais a gente, que mora aqui, AMA Honolulu. Eu amei o #12: “Because no shirts, no shoes, no problem”, uma filosofia de vida e felicidade para mim.

E sério, baseado neste último link, resolvi incluir mais uns itens nessa lista – ou melhor dizendo, fazer a minha própria lista: por que eu amo Honolulu.

(P.S.: Essa é uma lista poliana. Claro que a cidade tem problemas também, e eu serei a primeira a apontá-los sem dó nem piedade. Mas hoje só vou listar as coisas boas, ok? A parte complicada da história fica pra outro dia…)

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Honolulu vista do Tantalus Drive.

 

POR QUE EU AMO HONOLULU

1. Porque fica numa ilha (#islomaniacfeelings), e o mar ao redor está sempre aberto a atividades diversas, e a qualquer dia e hora, posso pegar meu snorkel e ir ver peixes coloridos, ou águas-vivas, ou tubarões, sem preocupações com visibilidade na água. Fora as tartarugas, que estão quase sempre presentes… Fora os naufrágios a menos de 5 minutos da costa

2. Porque em um snorkel corriqueiro num recife de coral eu vejo mais diversidade de peixes que em muitos lugares do planeta.

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3. A cidade é uma metrópole, tem tudo que você precisa de uma cidade grande, mas tem a vibe de cidade pequena de praia – todo mundo sorrindo pra você, te cumprimentando e conversando como se conhecessem há gerações. Aliás, as pessoas são simpáticas e prestativas – pelo menos, nunca tive do que reclamar.

4. A cidade é atlética por natureza. Vá às 5 da tarde em Ala Moana Park ou Kapiolani Park e confira todo mundo correndo, jogando bola ou se exercitando. Ou então, olhe para a água e veja o número de surfistas, SUP’istas, canoístas e outros istas não-artistas. Todo dia, chova ou faça sol. É animador, todo mundo praticando atividades outdoor, já fico com vontade imediata de fazer exercício.

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5. As pessoas são simpáticas. Muito. E solidárias. Sempre sorridentes, vão além do possível para te agradar. A mistura populacional de japoneses super-educados, filipinos improvisadores, polinésios desencanados e amantes da natureza, portugueses musicais, e americanos eficientes gerou esse melting pot que a gente vê nas ruas. As pessoas que moram aqui são muito tranquilas, o bom humor predomina e tudo é muito relax. Aloha spirit total.

6. A possibilidade de ver uma foca-monge havaiana é alta – outro dia mesmo estava em Sandy Beach tomando sol e nem percebi que uma estava na areia. Quando levantei pra ir na água, levei o maior susto com o mamífero jogado na areia descansando! Como bióloga, ver bichos ameaçados de extinção assim, tão facilmente, me enchem o coração de amor. <3

7. …e às vezes é a foca quem tropeça em você.

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8. Chinelos everywhere. Só ando de chinelo. Como tenho que trabalhar de sapato fechado, deixo um par de tênis no trabalho – assim como a maioria dos meus colegas de trabalho também fazem. Mas já saio do lab de chinelo. Tenho chinelo de praia, chinelo de festa, chinelo de trabalho, chinelo de dar uma volta domingo à tarde, chinelo da night… sempre chinelo. Adoro!

9. Os fogos do Aloha Friday, toda sexta-feira às 7:45pm, pra indicar o início do fim de semana. Me sinto morando na Disney, com o plus da praia.

10. Os piqueniques em Magic Island pra ver os fogos do Aloha Friday, ou aos domingos, para curtir o dia na praia.

11. Porque até alerta de tsunami vira festa com violão.

12. Poke, poke, poke. Melhor modo de comer peixe. Ever. (Barato. Informal. Imbatível.)

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13. Dirigindo com aloha: apesar de sempre ter um ser do limbo que não seja paciente, em geral dirigir no Hawaii é muito tranquilo, porque os motoristas tendem a ser educados e pacientes, cedendo o lugar e a vez pro seu carro. E, para agradecer, ainda fazem o shaka (que a gente chama de hang loose).

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14. A língua havaiana misturada do dia-a-dia. Pau hana com pupus. Ser akamai. Descontos para kama’aina. Por favor, kokua com os keikis e os kupunas. Moro mauka. O laboratório fica makai. Mahalo. A hui hou. Tudo lindo – ou melhor, tudo aloha.

15. Kaka’ako, o bairro onde trabalho e que promete ser a sensação de Honolulu daqui a uns 5 anos (os planos são bem ambiciosos), hoje é uma galeria de grafite a céu aberto, com os artistas havaianos soltando a criatividade, e restaurantes estrelados que começam a pipocar. Adoro essa atmosfera de mudança positiva.

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16. Ar limpo. Estar no meio do Pacífico, longe dos grandes focos geradores de poluição e com uma densidade urbana relativamente pequena, colabora para que o Havaí tenha uma ótima qualidade de ar comparado com a maior parte das cidades do mundo. Apenas nos dias de vog (1 vez por mês, mais ou menos), a cidade fica um pouco menos respirável – mas eu até relevo, porque sei que o vog é a indicação de que temos um vulcão ativo ali pertinho, a uma hora de vôo… (#lavajunkie). Mas em geral, a clareza ríspida com que vemos o horizonte é, para mim, um ótimo sinal de saúde. Para uma asmática como eu, isso sim é o paraíso. [respira fundo]

17. Estacionamento de prancha de surfe no meio da rua, que outro lugar do mundo tem? E prédios que anunciam: “2 vagas para carros na garagem e 2 vagas de prancha”?

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18. Cansei da urbanidade nagô? Então dirijo 15-30 minutos e escolho uma praia “deserta” preferida do dia, pra leste ou pra oeste. Ou pro norte.

19. Cansei do clima hippie-surf-chinelo havaiana-woodstock? Quero me sentir numa urbe de verdade? Vou ver o jazz no The Dragon Upstairs ou no Jazz Minds Art & Café. Ou ver um concerto da Hawaii Symphony Orchestra no Blaisdell Center. Ou uma peça no Hawaii Theatre. Ou visitar as galerias de arte do downtown. Ou visitar o Honolulu Museum of Art, com sua coleção notável de arte asiática – e sua filial no Tantalus, o Spalding House, com arte contemporânea. Ou comer numa das dezenas de restaurantes estrelados. Ou (para quem gosta) fazer compras nas lojas badaladas de sempre. A cidade não é uma NY ou Londres, claro, mas tem bastante pra se entreter se você não curte o estilo outdoor.

20. Cansei do clima praia, mas não quero voltar pra cidade, quero continuar em contato com a natureza? Vou ali então fazer uma caminhada pelo Manoa Falls. Uma trilha no meio da floresta que termina numa cachoeira. Ah!

21. Tantalus Drive, uma floresta tropical bem grande dentro da cidade na encosta de um morro, com vista pro mar. Onde podemos respirar o verde e sentir o friozinho de mais cachoeiras. E nós cariocas achando que éramos os únicos com esse privilégio…

22. Free wifi. Na cidade. Graças aos diversos hot zones espalhados pela prefeitura no projeto Kokua. Em 2011, a cidade foi eleita a mais digital dos EUA.

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23. Os diferentes pontos para se ver o pôr-do-sol, todos lindos e de emocionar. Ala Moana. Diamond Head Lighthouse. Magic Island. Hawaii Kai. Kewalo Park. Waikiki. Kaimana Beach. Punchbowl Crater. Tantalus Park. Top of Waikiki. Ala Wai Harbor. Kuhio Beach. Ko’olina. Kaena point. Duke’s tomando maitai. Escolha o seu e se embasbaque.

24. Ah, e se o horizonte estiver limpo, sem nuvens e sem poluição, a chance de ver no momento do pôr-do-sol o green flash, raro fenômeno óptico, é maior. O Hawaii é um dos melhores lugares do mundo para se ver o green flash.

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25. Falando de fenômenos ópticos… arco-íris. De novembro a março, praticamente todos os dias; no resto do ano sempre que chove fino. E como chove quase todo dia nos vales, essa garoinha deliciosa gostosa com um sol lindo, é só olhar pras montanhas e eis os arco-íris. Singles, duplos e já vi um triplo. Totalmente emocionante. É o estado do arco-íris, e o desenho está inclusive nas placas dos carros por ser tão comum de se ver.

26. “Eu moro onde você passa férias” é um bom lema para se escolher uma cidade para viver, pelo menos para mim. É uma sensação deliciosa andar pelas ruas e ver as pessoas curtindo a cidade, sempre de bom humor e encantadas, um clima leve e sorridente no ar. E eu adoro brincar de turista, ir nos points onde eles estão, interagir com as pessoas. Então, fica aquela sensação como se eu estivesse também de férias, e cada vez que vou a Waikiki ou a Hanauma Bay dou uma descansada extra nos neurônios.

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Eu poderia ficar aqui listando mais uns 100 motivos pelo menos, mas vou só cansar todo mundo e ser ainda mais malla. :D

Então deixo o desafio: QUAL O SEU MOTIVO PARA AMAR HONOLULU? 

Tudo de bom sempre.

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- Ah, a foto da Sexta Sub láááá em cima do post? Sou eu nadando em Waikiki, em frente a Rainbow Tower do Hilton. :)

 

Mandarinfish Malapascua

Apesar da tragédia filipina, uma das lições da vida que devemos encarar é que a vida segue, e fica-se então com um olho na reconstrução e outro na rotina. Fiquei muito triste com tudo, e para finalizar essa semana, queria deixar para vocês hoje um exemplo da diversidade filipina debaixo d’água, tão linda e inspiradora. Sobre o super-tímido peixe-mandarim da foto, eu comentei antes aqui no blog. Este aí estava à noite em Malapascua, perto do Lighthouse, um point de mergulho pertíssimo da costa e repleto de animais incríveis. A mesma Malapascua que foi arrasada pelo Haiyan. Como será que os recifes de corais de lá estão? :/

Simbolicamente, com tantas cores, o peixe-mandarim me faz lembrar o sorriso sincero filipino. E sinceramente, todas as cores e corações serão necessárias para ajudar a cicatrizar este sorriso.

E para vocês, meus amig@s, mesmo sem sofrer tantas dores e provavelmente com cicatrizes bem diferentes, fica também, na figura do peixe-mandarim, meu sincero desejo de um mundo de cores, sempre.

Haiyan
Foto: NOAA

Na última sexta-feira, as Filipinas sofreram um dos maiores desastres naturais da história recente. O super-tufão Haiyan (Yolanda, para os filipinos), um dos mais fortes já registrados, fez landfall em Tacloban, cidade costeira da ilha de Leyte. Antes de fazer landfall nas Filipinas, Hayian passou por cima de Palau, um dos países mais naturalmente lindíssimos do mundo – o superlativo aqui não é à toa. Por combinação das condições do mar local, Haiyan ainda chegou ao Vietnã forte o suficiente para causar estragos significativos. Tudo isso é uma tristeza só, e me deixa de coração muito apertado.

Tenho um carinho muito grande pelas Filipinas. Não é um país fácil, extremamente religioso, muito arraigado a diversas tradições das quais não compartilho. Com problemas ambientais consideráveis. E muito pobre economicamente, fruto de mazelas políticas e consequência da desigualdade sem fim. Mas também um país muito cheio de vida, de uma diversidade marinha assustadora, de uma riqueza submersa que deixa a gente sem palavras. E principalmente, um país rico de recursos humanos, onde as pessoas são mestres do improviso, muito criativas na solução de problemas do dia-a-dia, e onde elas abrem seu coração e seu sorriso com a mesma facilidade com que tomam suco de calamansi. Um país onde a gente aprende a cada olhar.

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Por seu calor humano e criatividade evidentes, apelidei os filipinos carinhosamente de “brasileiros da Ásia”. Foram estas características tão especiais que me deixaram marcas, e que me fazem hoje ficar de coração apertado com o choro engasgado, pensando no quanto estas pessoas estão sofrendo. Elas me ofereceram tanto nas vezes que fomos lá. Me deram uma hospitalidade inesperada, uma sensação de tranquilidade e paz, de sorriso aberto verdadeiro, sem interesses, cheio de curiosidade. O povo filipino fez a diferença nas viagens que fizemos para lá.

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Malapascua, quando lá estive.

Me sinto profundamente compelida a retribuir de alguma forma a essas pessoas tão calorosas. Afinal, foi nas Filipinas que vivi momentos fenomenais em cima e embaixo d’água. Apo Island e Malapascua, lugares para voltar mais um milhão de vezes, para mergulhar até dizer chega. Uma das minhas ilhas favoritas do mundo está lá, Malapascua, minúscula, tema do meu primeiro post neste blog em 2004, e onde tive a oportunidade de nadar com o tubarão mais incrível do mundo, o tubarão-raposa (thresher shark, Alopias vulpinus). Malapascua do relax total, das estrelas e do luar lindo, dos peixes-mandarim e da diversidade incrível de nudibrânquios, do happy hour no bar flutuante e do tempo sem pressa. Malapascua dos problemas com a pesca desenfreada, com a corrupção local, do povo humilde sofrido que agora sofre ainda mais.

Malapascua estava na rota direta do olho do tufão. Teve ventos de mais de 250km/h e ondas gigantescas, numa praia que normalmente é uma piscina. A ilha foi bastante afetada, muitas construções destruídas, mas felizmente nenhuma fatalidade. Mas este não é o mesmo caso de outros pontos de Leyte ou Cebu, ou outras das centenas de ilhas que estão ali no mar de Visayas. Tacloban foi praticamente toda destruída. O número oficial fala em mais de 1000 mortos, mas acredita-se que este número chegará rapidamente a dezenas de milhares.

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Vista aérea de Malapascua depois da passagem do Haiyan. Foto: Edmund Porter, no Facebook. 

Por irônica coincidência, ontem, 11 de novembro, começou em Varsóvia a COP19, a 19ª sessão da Conferência da ONU para discutir Mudanças Climáticas. Mais uma tentativa provavelmente frustrada de engajar os países em fazer algo urgente pelo clima. Frente a Haiyan, um dos maiores desastres climáticos já sofridos pelo seu país, o representante filipino fez um discurso emocionante:

Não vou entrar aqui na discussão sobre os efeitos das mudanças climáticas na intensificação de tufões e furacões. Gente muito mais competente e embasada vem discutindo há décadas sobre isso, com conclusões científicas bem pertinentes.

O que eu quero deixar aqui neste post é todo meu amor às Filipinas neste momento, meus sinceros sentimentos às inúmeras famílias que sofrem, sem comida ou água, por conta da devastação causada pelo Haiyan. A tragédia humana, perdas sem precedentes. Independente de quem ou o que causou, o que se precisa agora é arregaçar as mangas e começar a reconstrução das cidades e da sociedade. O imediato fala mais alto.

Se você quiser ajudar, o Guardian trouxe uma lista muito útil de links de instituições idôneas que estão aceitando doações para ajudar as Filipinas. Um amigo também me enviou o link do Médicos Sem Fronteiras, que já está na região ajudando no que é possível e que também aceita doações. E há uma angariação de fundos direto para Malapascua, organizada pela principal operadora de mergulho da ilha, a Thresher Shark Divers. Para que a ilha reconstrua sua estrutura básica, e volte a ser o pequeno paraíso escondido de tantos.

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O povo filipino é muito resiliente, e sei que sairão dessa – com cicatrizes, mas sairão. Afinal, não são novatos nos desastres naturais. Mas, enquanto a situação de emergência ainda prevalece, acho que não custa a gente que não pode estar lá, ajudar da forma que for possível.

Todo amor às Filipinas nesse momento duro e triste. :(

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P.S.: Uma das cenas mais impressionantes que já vi embaixo d’água foi num mergulho em Dumaguete, quando avistei uma árvore seca completamente coberta por corais, esponjas e outros invertebrados. A árvore foi parar a 20 metros de profundidade depois de um tufão que passou pela região, arrancou-a de algum ponto no litoral e desejou-a no mar com toda força. Virou um “recife artificial-natural”. Para mim, foi um emocionante simbolismo da incrível resiliência e superação que predominam nas Filipinas desde sempre.

UPDATE: O jornal SunStar de Cebu postou esse vídeo, com uma tomada aérea de Malapascua depois do Haiyan. Muito triste. :(

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Mês passado, André esteve a trabalho em Israel, e aproveitou um dia livre para cruzar a fronteira com a Jordânia e mergulhar no litoral do Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho. E, como não poderia deixar de ser, fez um comentário especial aqui pro blog dos mergulhos em Aqaba. <3  E é claro que eu fiquei com água na boca de vontade de mergulhar lá ontem. :)

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“Esta viagem foi minha primeira vez mergulhando no Mar Vermelho. No dia anterior, já havia feito alguns mergulhos em Eilat, Israel, quando decidi de sopetão passar o dia em Aqaba, na Jordânia, que fica a apenas 2 milhas de Eilat. (OBS.: O mar ali é um pouco mais salgado que a média, e ao mergulhar você vai precisar de cerca de 1 kg a mais de chumbo do que o que está acostumado em outras regiões do mundo.)

Apesar de tão perto, a travessia da fronteira entre Israel e Jordânia foi bem demorada, pois havia vários tours indo visitar Petra e havia poucos guichês da polícia para atender tanta gente. Apesar da demora, cheguei a tempo no píer da operadora Dive Aqaba, que o taxista da fronteira me indicara, e fui o último a entrar no barco.

Fiz então dois mergulhos, um deles no naufrágio Cedar Pride. O Cedar Pride foi um cargueiro libanês danificado por um incêndio a bordo em 1982 e que, sob ordens do Rei Abdullah da Jordânia, foi afundado em 1985, se transformando num grande recife artificial. Está pertíssimo da costa, provavelmente dá pra nadar da costa até o naufrágio.

O navio está deitado de lado no fundo do mar, o que o torna um point bom para todos, independente do nível de experiência de scuba. A inclinação do naufrágio também permite um ângulo interessante para a fotografia, muito fotogênico. O navio está sentado em cima de dois recifes de corais, um de cada lado, o que gera um vão no meio e permite que você “passe por baixo” do navio, como se estivesse atravessando um cânion com paredes de corais e teto de ferro.

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A ferragem do Cedar Pride está bastante tomada pela fauna marinha. Há inúmeros corais encrustados por todo o cargueiro, a maioria deles corais moles, e diversas esponjas, de cores incríveis. Muitos invertebrados, o que me deixou com vontade de ficar para um mergulho noturno (mas não pude ficar, infelizmente). Em termos de peixes, vi alguns antias (Pseudanthias squamipinnis) mas não tantos como em outros mergulhos da região. Apesar de não ter tantos peixes, o naufrágio realmente impressiona pelo tamanho e pela qualidade do coral que cresceu ali nos últimos 20 anos. Muito diverso e colorido!

Além disso, outra peculiaridade é a presença de uma grande bolha de ar dentro de um compartimento do navio. A cerca de 20m de profundidade, você vai para “a superfície” neste compartimento, onde pode tirar o regulador da boca e respirar ar com o nariz. Hilário.

Aqaba2
Na bolha de ar, a 20m de profundidade.

Depois do naufrágio, fizemos um mergulho no First Bay – South, um point com um recife de coral raso com milhares de peixes e muitos corais negros. Sensacional! Vi várias espécies de peixe que nunca havia visto antes, o que para mim, biólogo marinho especialista em peixes, foi muito bacana. Para terminar bem o dia, depois do almoço árabe feito pelo Ashraf Sulaibi, que gerenciava a operação, fiz uma caminhada por Aqaba, pelas ruas e mesquitas do centro da cidade. Voltei para Eilat antes do pôr-do-sol, bem antes da fronteira fechar. O dia foi corrido e puxado, mas foi ótimo conhecer o fundo do mar da Jordânia – há diferenças sutis e muito peculiares com o que vi de fauna subaquática em Eilat. Apesar de tão próximas, a escolha de mergulhar nas duas cidades se revelou muito acertada. Deixo como sugestão de day trip tranquilo para quem estiver em Eilat.”

Tudo de mergulho sempre.

A China vem aí

Em agosto passado, aconteceu o Hawai’i Tourism Conference, encontro anual do Hawaii Tourism Authority (HTA), órgão estadual que regulamenta e coordena as atividades de turismo do estado do Havaí. Como turismo aqui é um grande negócio [link em pdf] - mais de 7 milhões de turistas por ano, cerca de 145,000 empregos diretos gerados, mais de 12 bilhões de dólares deixados pelos turistas aqui no estado – o encontro anual do HTA é na realidade uma interessante conferência específica de um destino que funciona como um termômetro do turismo global. O Havaí termina servindo como um pano de fundo e cobaia em muitos aspectos do turismo em geral.

Afinal, há uma experiência enorme das ilhas em lidar industrialmente com turismo, há muitas décadas, e experimentações turísticas são feitas diariamente aqui, com repercussões por todos os lados. Os grandes nomes do turismo estavam todos presentes na conferência, de antena ligada para as tendências futuras do mercado. E o futuro parece estar sendo bem delineado.

A palestra de abertura foi de Andrew McCarthy, ator, diretor, escritor e viajante profissional, que escreve pro NYTimes e é editor da NatGeo Traveler, sobre as perspectivas do turismo. Andrew falou várias coisas interessantes. Reforçou a arrogância que é distinguir entre viajante e turista (yeah!), que ele sugere ser mais uma diferença entre férias x viagens com outros fins. Comentou que podemos mudar o mundo, uma viagem de cada vez – mas para isso, precisamos parar de só querer vender um destino e começarmos a nos dedicar (e valorizar) às histórias de viagem. Uma perspectiva positiva e bem bacana, que compartilho com vigor, porque é a cara do que os blogs podem oferecer nessa equação.

Andrew McCarthy

 

Andrew McCarthy

Outro tópico muito comentado foi o “turismo verde”, ou turismo responsável, aquele que se preocupa com as práticas de sustentabilidade, sejam elas sócio-culturais, ambientais ou econômicas. O Havaí quer se tornar um destino reconhecido pela preocupação com a sustentabilidade, e dadas as condições naturais do estado e seu isolamento geográfico, acredito que não será uma tarefa tão complicada – mas há grandes desafios ainda, como por exemplo a questão da fonte energética do estado, que ainda é basicamente petróleo. Não dá pra marketear um destino como 100% sustentável com esse consumo de petróleo nas alturas, né? Então essa incoerência incomoda um pouco os chefões do turismo, que pressionam governo, tentam mitigar o que é possível, criam certificações verdes, etc. Aquela roda-viva que conhecemos, na tentativa de tornar o que for possível “verde” para o marketing do turismo local. É um esforço que vale a pena, principalmente no futuro aquecido que vem por aí, e que pode colocar o estado numa posição favorável perante os demais mercados. E é perceptível também que esse esforço não é artificial muito menos totalmente influenciado pelo dinheiro; ele vem de um reconhecimento de que os problemas ambientais são importantes para o crescimento e manutenção da robustez da indústria do turismo local.

Entretanto, mesmo com todo o interesse que tenho em turismo verde, foi outra conversa que me chamou a atenção neste encontro: a entrada maciça da China no mercado de turismo mundial.

Contextualizando: uma das peculiaridades do turismo no Havaí é o alto número de visitantes asiáticos. Isso acontece primordialmente pela proximidade geográfica – são os EUA “de verdade” (Guam não conta nessa equação) mais próximos da Ásia -, pelas qualidades meteorológicas do estado, que permitem a venda do destino durante o ano inteiro, e pelo marketing de “ilha exótica”, o que reforça a ideia de destino de férias ou de casamento/lua-de-mel nos mercados competitivos da Ásia. (Para vocês terem uma idéia, o grande competidor turístico do Havaí no quesito “ilhas” são as Maldivas, Bali e o Taiti. E os principais destinos dos sonhos dos chineses são França e EUA.). Só que, até pouco tempo, os asiáticos que vinham para cá eram basicamente japoneses e coreanos, que têm um perfil viajante relativamente diferente do chinês.

De acordo com as estatísticas divulgadas pelo órgão oficial de turismo da China neste encontro em Honolulu, as previsões são de que em 2017 mais de 400 milhões de chineses viajarão para o exterior (são atualmente menos de 100 milhões de chineses viajando pelo mundo [dados de 2012, e previsão do China Tourism Board apresentada na palestra]). Isto ocorrerá devido à melhoria das condições econômicas do país, ao crescimento robusto da classe média chinesa e aos incentivos que o governo chinês está oferecendo aos seus cidadãos para viajarem ao exterior, numa espécie de maoísmo cultural às avessas – de acordo com a moça do China Tourism Board que palestrou, o governo quer que os chineses sejam presença marcante no exterior. Os chineses já são os maiores consumidores de viagens do planeta, portanto é cada vez mais difícil não levá-los em consideração nos planos de turismo. Com tanta gente potencialmente viajando num futuro super-próximo, e se cada um destes viajantes fizer um gasto modesto de 100 dólares por dia, seja em que destino for… faça as contas. (E olha que 100 dólares está bem longe do gasto médio dos chineses no exterior…) Absolutamente nenhum mercado importante de turismo no mundo quer perder uma fatia sequer desta enormidade econômica. (Alô, Ministério do Turismo do Brasil, o que vocês estão planejando para facilitar a chegada dos chineses nas terras tupiniquins?)

Por outro lado, os turistas chineses não são tão bem-vindos em muitas áreas do planeta devido ao seu comportamento durante as viagens – o The Awl publicou recentemente um texto cheio de perspectivas diversas muito interessantes sobre esse tópico. Ao ponto do governo chinês ter lançado uma cartilha para os seus cidadãos ensinando como se comportar em viagens ao exterior. A fama de mal-educados e pouco preocupados com o meio ambiente se constrasta imensamente com o que parece ser a tendência mais forte do turismo, a sustentabilidade e valorização da cultura local, e joga as economias que dependem, integral ou parcialmente, desta atividade econômica em uma sinuca de bico das mais complicadas. Afinal, os chineses têm o principal, a grana para investir em viagens e gastar.

A estratégia lógica dessa sinuca é: adaptar o destino no que for possível para acomodar estes novos turistas e oferecer o que eles querem – afinal o cliente sempre tem razão. E o turista chinês quer basicamente comer bem, comprar (artigos de luxo, principalmente) e jogar golf, de acordo com o resultado de diversas pesquisas feitas pelos órgãos de turismo que lidam com a região apresentado no Hawaii Tourism Conference – lembrando que esse dado é uma média, que há na realidade uma grande diversidade de tipos de turista chinês, como em qualquer outra cultura. Entretanto, na tentativa de conciliar, os destinos estão ouvindo as reclamações dos chineses, e se adaptando. A França já os abraçou (ou melhor, abraçou suas cifras) e pretende incentivar mais ainda a ida dos chineses a Paris. A proximidade da Tailândia já colocou Bangkok e Chiang Mai no mapa dos chineses com toda força. Apesar das reclamações de comportamento em geral, os EUA não querem perder o bonde, e estão investindo em treinamento em mandarim, em permitir condições específicas condizentes à cultura chinesa para os viajantes e esperam com isso um crescimento de 232% no número de turistas chineses.

Enquanto isso, a estratégia do Havaí é basicamente transformar os turistas chineses nos neo-japoneses. Ele será atraído a vir ao Havaí via agências de viagem ou propagandas nos canais de compras da TV chinesa. Nada se falou de blogs, FAM trips e quejandos. Sobre mídias sociais, apenas que serão usadas como ferramentas adicionais, para sorteios e consolidação de conteúdo vindo de outros canais estabelecidos – uma estratégia antiquada, IMHO, mas que de acordo com os analistas de mercado, ainda é o que melhor funciona entre os asiáticos (a estratégia muda completamente para o mercado europeu, por exemplo). Será privilegiado o turista interessado em golfe e compras de alto luxo. Se ele for a um luau, ou fizer um passeio de snorkel para ver tartarugas, é lucro extra. Porque o grosso do interesse do estado é que ele saia às compras. Uma estratégia que, convenhamos, contradiz a idéia predominante instigada pelo Havaí durante a conferência, sobre destino com turismo responsável, preocupado com o meio ambiente e a cultura local, com sonhos de servir de exemplo de ecoturismo engajado a outros destinos.

Ou talvez não. Se pensarmos que os 400 milhões de potenciais turistas chineses que se espalharão pelo mundo já estão melhorando sua percepção sobre o cuidado com o meio ambiente e as questões de poluição, recursos naturais e energia – advinda principalmente do estado caótico em que o ambiente na China se encontra – e que o governo chinês vem colocando cada vez mais as preocupações com o meio ambiente na mesa de negociações internacional [pdf ótimo e mais detalhado sobre o tema], temos aí uma oportunidade de ouro para aprendizado de ambas as partes, turistas e destino turístico. É a oportunidade de valorizar o consumo consciente, de marcas engajadas ou com certificação verde reconhecida, de privilegiar as experiências turísticas que tragam menos impacto ao ambiente e que sejam mais sensíveis aos hábitos e costumes locais, para uma platéia de muitos milhões. Portanto, acho que é possível e factível que um destino possa melhorar mais a percepção de economia verde, com elementos fortes de sustentabilidade para o seu turista, com criatividade e sem preconceitos. E com regras bem definidas, claras e que não minimizem ou degradem o turista nem sua cultura, mas também não se ajoelhem para os seus pedidos mimados e de sustentabilidade deplorável. (Um bom exemplo aqui, outro aqui. Não é muito, mas são os primeiros passos nessa caminhada longa.)

Eu saí da conferência com a sensação de que, muito mais que “se não pode com eles, junte-se a eles”, a estratégia do Hawaii Tourism Authority é um pouco mais profunda do que parece, e que eles querem atrair o turista chinês para essa (boa) armadilha. Eles estão encarando de frente a chegada de 400 milhões de novos visitantes como a possibilidade de imprimir um efeito multiplicador em grandes proporções a uma abordagem responsável do turismo. É claro que o resultado pode ser inesperado, pra melhor ou pra pior. Mas nesse caso, pelo menos eles estão tentando, sem espaço pra denial state da realidade atual. Vamos ver o que o futuro revela. Tempos interessantes vêm pela frente no turismo, havaiano e mundial. Aguardemos.

Tudo de turismo responsável sempre.

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- Hoje, dia 06 de novembro, comemora-se o Dia Mundial do Turismo Responsável. A data foi instituída pela World Travel Market em conjunto com a United Nations World Tourism Organization (UNWTO), com o anúncio de um Guia de Critérios para o Turismo Sustentável Global. Este post faz parte de uma discussão sobre o tema que sugeri há poucos dias no grupo de blogs associados da ABBV, como forma de levantarmos também essa questão na blogosfera em português. Espero que outros blogueiros se empolguem e entrem na roda para o papo, são todos extremamente bem-vindos. :)

UPDATE: As viajantes Clarissa e Alícia também escreveram sobre o tema este ano. Vale ir lá dar uma lida no post bacana delas! E ano passado, o Jodrian comentou sobre turismo responsável também.

Efeito Catedral

Ontem, na palestra que o André ministrou em Hanauma Bay, ele explicou sobre o efeito catedral na fotografia subaquática.

Este efeito acontece quando você tira uma foto dentro d’água de frente pra luz do sol, durante o amanhecer ou entardecer. Com o sol mais próximo da linha do horizonte, os raios penetram num ângulo mais oblíquo na água, e há menos reflexão da luz pela superfície. Os raios de luz que passam pela água dão então esta sensação de vitral de catedral, que é de onde o nome do fenômeno vem.  Quanto melhor a visibilidade na água, melhor o efeito. É também uma forma de, ao compor uma imagem fotográfica, aproveitar a luz natural de uma maneira mais poética.

A imagem acima é um ótimo exemplo de efeito catedral. Pertinho da superfície, com o tom já amarelado pelo pôr-do-sol que se aproxima. Dá até pra imaginar um coral (pun intended) cantando ao fundo desta catedral… :D

Tudo de sub sempre.

WPY13 - Brian Skerry - Feast of the ancient mariner

Todo ano eu listo aqui as minhas fotos favoritas da competição do Wildlife Photographer of the Year (WPY), que é a mais prestigiada do mundo sobre fotografia de natureza. Já é meio que uma tradição do blog, e pros curiosos, meus posts anteriores estão aqui: 2006 (quando André venceu!!! Eeeeee!!!), 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012.

Então que este ano não ia ser diferente, né?

Escolhi pra Sexta Sub a FENOMENAL foto de Brian Skerry chamada Feast of the ancient mariner”, mostrando uma tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) se alimentando de um pirossomo, que é uma colônia de tunicados (ascídias), que são por sua vez os primeiros cordados do reino animal – não se engane, essa “coisa” gelatinosa que a tartaruga está comendo é mais próximo da gente na filogenia que um polvo ou um caranguejo. A foto foi tirada nos Açores, e mostra um comportamento raríssimo de se ver. Mais que merecida a vitória de Brian na categoria “Underwater Worlds”.

Também gostaria de mencionar que fiquei super-feliz de ver a tragédia de Belo Monte sendo contada pelo 2º lugar da categoria “Fotojornalismo”: as fotos do espanhol Daniel Beltrá mostrando “The dammed forest”, num trocadilho preciso sobre o que está se fazendo com a floresta naquele local, são de uma poesia trágica das mais doloridas.

Mas, no geral, achei as fotos da competição este ano mais “cruas”. Se antes a competição parecia prezar a viagem artística, hoje, na era dos filtros de instagram e dos bilhões de fotógrafos por segundo, a competição voltou às suas raízes privilegiando… o mundo natural. É a naturalidade de algumas fotos que as torna poderosas e incontestavelmente vencedoras frente a tanta manipulação de photoshop. É, sem dúvida, uma interessante tendência pra fotografia atual.

Abaixo, as 7 fotos da competição deste ano que mais curti:

1) “Surfing delight”Wim van den Heever

WPY13 - Wim van den Heever - Surfing delight

Minha foto predileta deste ano, dentre todas. Comportamento dos golfinhos nariz-de-garrafa inacreditável, clique com timing perfeito, dramaticidade das cores, sensação de movimento, ação, vontade de presenciar o momento… tá tudo ali. Foto perfeita.

Foi tirada na África do Sul, num dia de mar bem revolto, de acordo com o fotógrafo.

 

2) “The greeting” – Richard Packwood

WPY13 - Richard Packwood - The greeting

A imagem vencedora da categoria “Nature in Black and White” mais parece um desenho feito a lápis 6B. Aliás, se não fosse a presença dos elefantes, a gente com certeza confundiria a foto com um desenho. De uma delicadeza também inacreditável. A foto foi tirada na fronteira da Zâmbia com Zimbábue.

 

3) “Sharing a shower” - Michael “Nick” Nichols

WPY13 - Michael 'Nick' Nichols - Sharing a shower

Eu AMEI esta foto. Tão simples, natural e tão deliciosa! Ver um bicho tão majestoso numa situação em que ele parece totalmente desconcertado, com vontade de fazer todo tipo de reclamação. Tenho certeza que se esses leões tivessem conta no twitter, iam começar um twittaço nível #mimimi #chuvadadepressão. :D

Fora que dá pra ver na imagem as gotas de chuva… uma delícia sem fim. A foto foi tirada no Serengeti, na Tanzânia, e foi commended da categoria “Animals in their Environment”. Mas pra mim, ela só não seria vencedora porque concorreu na mesma categoria da foto dos golfinhos acima, que é a mais perfeita de todas. :)

 

4) “Hot spring magic”Connor Stefanison

WPY13 - Connor Stefanison - Hot-spring magic

Há realmente uma magia nessa foto extremamente única do parque de Yellowstone, nos EUA. O foco na árvore ressecada traz uma dimensão bem viajandona pra toda a névoa que a circunda. Uma composição nota 1000. A foto faz parte do portifólio vencedor na categoria especial “Eric Hosking Portfolio Award”.

 

5) “Tiger untrapped”Toshiji Fukuda

WPY13 - Toshiji Fukuda - Tiger untrapped

A foto parece “super simples”, mas… é um tigre siberiano (!!). Perto de Vladivostok (!!!!!). Na PRAIA (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) Precisa dizer mais?

#morri #queromuito

A foto foi, obviamente, a vencedora – na categoria especial “Gerald Durrel Award for Endangered Species”.

 

6) “The pull of the sea”Ellen Anon

WPY13 - Ellen Anon - The pull of the sea

Eu curto muito fotos tiradas em dias de tempestade, porque acho que conseguir capturar a beleza e o drama natural que é este momento meteorológico são um desafio enorme, em que a maioria de nós falha. Ellen conseguiu transformas os icebergs na beira da praia na Islândia em pepitas de pedra preciosa em estado cru. O que, no fundo, filosoficamente, é o significado dos icebergs: jóia natural não-lapidada, fundamental para a saúde do nosso planeta. O movimento que essa foto tem é impressionante – e, de novo, o foco nas pepitas de iceberg, perfeito. A foto foi commended na categoria “Wildscapes”.

 

7) “Spirit of winter”Jonathan Lhoir

WPY13 - Jonathan Lhoir - Spirit of winter

Outra foto que parece uma obra de arte em lápis, dessa vez com um quê impressionante de movimento. O jogo de sombras que a técnica permite é extremamente bem utilizado pelo fotógrafo. A imagem foi commended na categoria “Botanical Realms”, mas eu sinceramente preferi esta à vencedora mesmo da categoria…

 

Inspiradoras demais essas imagens, não? Ah, a fotografia… essa arte do momento…

Tudo de fotografia e arte sempre.

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