Onde mora o arco-íris?

Este era o título de um livro infantil da Giselda Laporta Nicolelis, que eu lia praticamente toda semana no auge dos meus 6 anos de idade. Adorava. E o que eu mais curtia no livro era o título mesmo, meio que um convite à imaginação. Afinal, o arco-íris precisava morar em um lugar, com seu pote de ouro no final. Eu viajava nesta ~questão~ de suma importância da minha infância colorida.

Mas aí a gente cresce e aprende que o arco-íris nada mais é que um fenômeno óptico de refração da luz do sol nas gotas de chuva da atmosfera como se fosse um prisma, que se “decompõe” nas sete cores que vemos, com seus respectivos comprimentos de onda. Física atmosférica, pura e simples.

arco-íris

Baixo no horizonte, sinal de sol mais alto. Esse aí, fotografado no North Shore de Oahu.

Só que, como a Física nos explica, não é qualquer chuva, nem qualquer iluminação solar que consegue produzir um arco-íris. Vê-lo no céu depende de:

  • a) Posição do sol: O seu olho de observador deve estar num ângulo de 42º do sol e sua sombra para ver o arco-íris. Baseado neste valor de ângulo, quando o sol está mais perto do horizonte, mais “alto” estará o arco formado, e quanto mais longe do horizonte o sol está, mais “baixo” será o arco (ao meio-dia, teoricamente, o arco-íris estará voltado para o chão).
  • b) Qualidade do ar: Quanto mais limpo o ar, ou seja menos poluição, menos interferência na trajetória da luz do sol, o que permitirá melhor refração – o arco-íris será mais intenso. O ar limpo das regiões costeiras é o mais indicado.
  • c) Tipo de chuva: Quanto mais isolada é a chuva, abaixo das nuvens mais densas e estando na trajetória da luz solar, mais fácil de se formar o arco-íris no céu.

E é aí que entra o Havaí nesta história.

arco-íris

Na Na Pali Coast ao entardecer, o espetáculo das sete cores.

Considerado a capital mundial do arco-íris, o Havaí tem as melhores condições atmosféricas do mundo para a formação dos mesmos. O ar é limpo e oceânico, com pouca poluição, e é super-comum cair uma chuva fininha nas áreas de montanha das ilhas, enquanto o litoral está ensolarado. Inclusive, com facilidade para ver arcos duplos, espelho que são do principal quando as condições atmosféricas estão excepcionais para tal. Cientistas especialistas em arco-íris (!!!) vêm para cá tentar entender e estudar mais detalhadamente o fenômeno.

Ver um arco-íris é tão comum no Havaí que há dezenas de palavras na língua havaiana para designar este fenômeno físico, dependendo de condições especiais – ānuenue é o arco-íris “chavão” completo no céu, ‘ōnohi é quando só um pedaço do arco aparece, punakea é quando o arco-íris está bem clarinho, e assim vai. Lembra a história das dezenas de palavras que os esquimós têm para neve? É a mesma ideia.

No vale de Manoa, costumam aparecer alguns arco-íris épicos: duplos e super-intensos.

No dia-a-dia no Havaí, também somos constantemente lembrados da frequência dos arco-íris: ele está na placa dos carros e no nome do time oficial de futebol americano (“Rainbow Warriors”) e de vôlei feminino (“Rainbow Wahine”).

Para o turista que visita o estado, é fácil ver um arco-íris durante sua estadia – basta procurar no horário e lugar certo. E para ajudar a achar, há um app, o Rainbow App, onde estão marcados os rainbow stops, com os lugares e horários mais prováveis de arco-íris naquele dia… (Mas não adianta ficar lá esperando se as condições não estiverem propícias, né?)

Rainbow stops; mapa tirado daqui.

Mas já adianto: nos meses em que chove mais (fevereiro e março), praticamente todo dia tem um no céu, principalmente de manhã cedo e à tardinha.  Sabe aquele dito popular/ pseudo-auto-ajuda que fala: “No rain no rainbow”? Morando no Havaí, literalmente é assim: mal começa a choviscar e eu já começo a olhar pro céu atrás das sete cores. (E se olhar pros vales das montanhas então… quase certo ter um lá te esperando.) Cada um mais lindo que o outro, épicos.

O que volta à questão da minha infância. Concluo que, se o arco-íris não mora definitivamente no Havaí, é com certeza um visitante frequente e ilustre. E que portanto o pote de ouro dos sonhos de felicidade deve ficar em algum canto deste estado. 😉

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • Junho é o mês do orgulho LGBTQ, cujo símbolo é o arco-íris. Nos EUA, felizmente o Havaí é considerado um estado bem gay-friendly. Será que a inspiração constante no céu ajuda? 😉
  • Sempre bom lembrar da música que é a cara do Havaí: “Somewhere over the rainbow”, cantada pelo inesquecível Israel Kamakawiwo’ole.

Postado em 13/06/2017 por em Ciência, Havaí

… e já que o assunto da semana dos oceanos neste blog foram os hope spots, nada como deixar para a Sexta Sub desta semana um hope spot bem especial: as Bahamas.

Esperança nas Bahamas

Ali, principalmente por causa da população local de tubarões, há razões para termos bastante esperança. As Bahamas já foram um dos primeiros países do mundo a proibir a pesca de tubarão, em 2011. Além disso, é um dos países com a maior quantidade de tubarões nas praias no planeta. As Bahamas deram o exemplo ao mundo, mostrando que tubarões valem mais vivos que mortos – mergulhar com tubarões é um grande negócio para as ilhas (US$100 milhões anuais para a economia do país). Uma lição que muitos países ainda não aprenderam, por sinal.

Mas não percamos a esperança de que um dia todos prezarão da mesma forma pelos tubarões – é pra isso que os hope spots foram estabelecidos, pra semear esperança, né?

Tudo de sub sempre.

Hoje é Dia Mundial dos Oceanos, uma data que celebro desde os tempos jurássicos deste blog. Celebro porque o mar é parte de mim profunda, o lugar que me dá tranquilidade e vontade de viver, que me dá esperança para continuar a caminhada.

O tema deste ano é “Nossos oceanos, nosso futuro”, bem alinhado com o tema do dia mundial do meio ambiente de 2017, unificando ainda mais a mensagem da nossa conexão humana com o ecossistema azul.

Costumo dedicar parte significativa deste blog aos meus pitacos sobre a situação dos oceanos, em vários recantos do planeta. De um modo geral, há muitos motivos para se preocupar: o mar está sendo explorado, aquecido e poluído num ritmo acelerado demais para que possamos fazer algo.

Mas, como hoje é uma data ~celebratória~, queria aproveitar para semear um pouco de esperança. E falar dos hope spots.

O projeto de Hope Spots – os pontos de esperança – é uma iniciativa da ONG Mission Blue, capitaneada por ninguém menos que Her Deepness Sylvia Earle. Em 2009, em sua clássica palestra para o TED, ela sugeriu a iniciativa de se proteger áreas do oceano que precisam ser preservadas para que consigamos manter um mínimo de saúde para o ecossistema marinho. Locais que dariam/darão esperança para o mar e seu valor às próximas gerações. Basicamente, os pontos nevrálgicos do mar. O critério para ser um hope spot não é único; pode ser um local onde a biodiversidade é alta (como os recifes de corais), ou que sejam berçários de espécies ou corredores migratórios, ou que tenham o potencial para reverter impacto humano negativo (como os estuários), ou ainda que seja habitat de alguma espécie criticamente ameaçada de extinção ou importantes para uma comunidade humana.

Hope spots pelo mundo, em azul; os pontos em amarelo estão sendo avaliados para se tornarem (ou não) hope spots. Mapa tirado do site do Mission Blue.

Dado que menos de 4% do oceano conta com algum tipo de política de preservação/conservação ambiental, é mais que urgente que aumentemos esta porcentagem se quisermos levar a sério a manutenção dos mares. Os pontos de esperança são, portanto, uma forma de mapear prioridades, focar nas áreas mais críticas e necessárias de serem preservadas que ainda não o são (ou que precisam de mais proteção do que têm agora). É uma forma de apontar o dedo mundialmente para aquele ponto e dizer: precisamos fazer algo para conservar este pedaço azul do mundo.

Para que um ponto do oceano seja considerado como um hope spot, basta ser sugerido com uma argumentação plausível do por quê daquele ponto precisar ser preservado – a justificativa. Após a nomeação, o local é avaliado por um conselho de experts do mundo inteiro especialistas em diversos aspectos do ecossistema marinho e seu gerenciamento. Se o conselho acha plausível a sugestão, o local passa a ser um ponto de esperança. Com isso, a ONG divulga mais a importância daquele local e ajuda a focar nele para desenvolver políticas e regulamentações – ou quem sabe até transformá-lo num parque marinho…

Parede de peixes em Palau, na Micronésia, um dos hope spots.

Desde que ouvi falar nos hope spots, eu curti a ideia. Principalmente porque sendo o mar uma vastidão considerável, é difícil estabelecer prioridades. Tudo parece ser prioritário. A concepção do hope spot ajuda exatamente a focar os esforços de proteção nos pontos, dentre os milhares possíveis, considerados mais prioritários, baseado no quão crucial aquele ponto é para um pedaço maior do oceano, ou para uma população, ele merece ter seu território protegido, nem que seja parcialmente. E principalmente, o quanto ele traz esperança de ser recuperado para as gerações futuras.

E claro, isso não significa que outras áreas oceânicas importantes possam ser ignoradas. Pelo contrário, nada impede que uma área de preservação nova seja discutida por um país ou organização sem necessariamente ser um hope spot. A vantagem da designação, entretanto, é que ela já traz consigo toda a argumentação ecológica, social ou biológica para facilitar e até acelerar o estabelecimento da reserva marinha.

Abrolhos, único ponto de esperança no Brasil.

No Brasil, há apenas um hope spot, o parque de Abrolhos. Que já é um parque, mas que pelo visto, precisa de que mais seja feito para sua real conservação futura. Percebam que Fernando de Noronha não está lá na lista – talvez por falta de nomeação, talvez porque já seja um parque bem gerenciado (embora saibamos de problemas notórios).

Há uma esperança adicional que estes hope spots trazem: que aos poucos formemos uma rede de parques, que ao final das contas preserve uma porcentagem bem maior do mar – fala-se em 30% da área marinha idealmente transformada em área de preservação. Temos muita água pela frente ainda pra chegar nestes 30% – mas ter esperança não custa nada. E é isso que os hope spots trazem para os nossos oceanos: esperança.

Tudo de mar sempre.

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P.S.: O filme do “Mission Blue” tem no netflix. Altamente recomendado. 🙂

O preço do turismo sustentável

É fácil e bonito a gente falar em turismo sustentável, em escolhas ambientalmente corretas e eticamente responsáveis, em ecoconsciência e afins, e não incluir a variável que mais pesa para 99,99% das pessoas na decisão de uma viagem: o custo. Em condições ideais de temperatura e pressão no vácuo, tudo funciona como calculamos na teoria e viajaríamos de maneira 100% ambientalmente, socialmente e politicamente correta. Só que sabemos, na prática, não é bem assim.

Na prática, ainda é o preço que define a maior parte das escolhas. Infelizmente, escolher um passeio ou um hotel sustentável ainda costuma ser mais caro, muitas vezes considerado até um luxo, algo que poucos podem pagar – e cria-se um status de exclusivismo ambiental entre os que podem ser “verdes” e os que não podem. Turismo gerando desigualdade, na prática.

E em tempos de crise e stress em diversos pontos do planeta, é ainda mais triste perceber que esta desigualdade fica mais difícil de ser combatida. É quando a opção massificada, mais barata e comumente menos ecoconsciente, se torna mais atrativa. Afinal, com todo estresse que uma crise traz, aí que a gente precisa mesmo daquelas férias pra relaxar, seja lá onde for. O crivo cai. É também quando o destino massificado, exaurido, começa a impor limites de visitantes, o que invariavelmente aumenta seu preço e valor, favorecendo quem pode pagar mais, aumentando a desigualdade.

Vejo duas soluções possíveis neste cenário: abaixar os preços das opções que prezam pela sustentabilidade, ou “esverdear” as opções massificadas. Minha opinião de economista de botequim é de que ambas são duas faces da mesma moeda e precisam acontecer em paralelo.

Num primeiro momento, seria essencial que uma opção sustentável fosse incentivada a ser mais barata – por meio de subsídios, deduções de imposto, redução de custos para produtos locais e advindos (ou utilizadores) de recursos sustentáveis, etc. Mecanismos de micro e macroeconomia que dessem o pontapé inicial em uma espiral para cima: quanto mais barata a opção sustentável, maior demanda, e mais incentivo para que fique mais barata, sucessivamente. Esta ideia está no centro da proliferação dos tours de bike nas cidades, por exemplo, que trazem sustentabilidade a um preço bem mais camarada pro turista.

Em paralelo, opções que hoje são consideradas massificadas poderiam receber outros tipos de mecanismos de incentivo para se tornarem mais verdes e socialmente justas. Por exemplo, um destino massificado cujo benefício financeiro é alto em detrimento à saúde e satisfação da população local, pode impôr restrições à entrada do turista de maneira transparente, que não envolva o clássico elitismo do “vai quem paga mais” – por exemplo, o  estado do Arizona tem uma loteria cheia de regras e com 4 meses obrigatórios de antecedência para escolher todo dia os 10 sortudos que visitarão a famosa formação geológica The Wave. requer um pouco mais de trabalho, mas é sem dúvida mais socialmente justa.

Um ponto chave, entretanto, nas duas soluções que sugeri é a fiscalização eficiente. As operadoras, hotéis, lojas e comércios que lidam com turismo precisam ser avaliadas constantemente em sua sustentabilidade. Este talvez seja um ponto nevrálgico da questão. Há atualmente certificados de sustentabilidade no turismo distribuídos por inúmeras ONGs, instituições e governos. O fato destes sistemas não serem unificados dificulta a vida do consumidor, criando mais confusão para se entender o quão verde é mesmo aquele passeio ou estadia. Neste ínterim, a criação em 2007 do Global Sustainable Tourism Council, com participação da UNEP e da UNWTO, estabeleceu critérios mais claros para a definição e avaliação do que é sustentável. O que falta ainda é uma ferramenta de busca de destinos, operadoras, hotéis e outros membros do turismo, que facilite ao consumidor verificar a certificação de sustentabilidade da opção escolhida.

Mas avaliar os prós e contras das nossas escolhas em um destino para a saúde do ambiente e para a qualidade de vida da comunidade local é tarefa árdua, laborosa, muitas vezes cansativa. Uma outra forma de ~fiscalização~ não tão oficial mas de impacto significativo é exercida pela mídia. Jornalistas e blogueiros de viagem, ao divulgarem um destino em qualquer dos seus aspectos, deveriam levar em consideração com muito carinho sua sustentabilidade e o preço que se paga para isso. Afinal, os posts em blogs de viagem, as reportagens, os diversos recantos da web são hoje em dia cada vez mais porta de entrada para o planejamento de uma viagem. Ser crítico mesmo, avaliando pontos positivos e negativos, pondo na balança as diferentes possibilidades e servindo de filtro que separa o joio do trigo sustentável. Isto gera uma responsabilidade intrínseca sobre o que escrevemos, algo que termina sendo valioso para o turista que planeja sua viagem (e não tem tempo para fazer as avaliações profundas de um destino de que falei no post anterior). Ele pode economizar tempo e dinheiro, se ler uma avaliação clara, calcada nos pontos mais importantes de sustentabilidade. Façam, portanto, bom uso desta opção econômica virtual. 😉

Tudo de bom sempre.

Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Numa demonstração clara de que a UNEP, o braço da ambiental da ONU que organiza as celebrações da data, está extremamente antenada com as necessidades atuais de conservação, o tema deste ano para celebrar a data é “Conectando pessoas à natureza”.

2017 é também o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento.

E que melhor forma de conectar (ou reconectar) as pessoas à natureza que o turismo sustentável?

Embora eu tenha um pé atrás com o termo “sustentável” – porque as definições costumam ser beeeeem elásticas e a gente começa a notar pinceladas de “sustentabilidade” que na realidade são apenas o bom e velho greenwashing -, achei extremamente fortuita a conjunção destes dois temas para este ano. Sabemos que alguns dos desafios mais complexos do turismo passam exatamente pela conservação e proteção do meio ambiente, e contemplar esta realidade, fazer reflexões necessárias sobre esta conjunção, são passos positivos na solução dos problemas existentes.

Turismo sustentável não é só ecoturismo

Turismo sustentável é mais do que só apreciar a natureza de longe, como entidade abstrata externa à gente. É entender que cada uma destas pessoas é parte da natureza também – e sua visita precisa ser gerenciada de maneira sustentável em todos os aspectos.

Conservação e proteção da natureza vão muito além de criar parques nacionais ou fazer trilhas no meio do nada para ver um bicho/planta específica. Estas ações são muito importantes, partes de uma estratégia de conservação ambiental robusta e de real impacto no futuro do nosso ambiente. Mas estão longe de serem as únicas atitudes representativas de uma política de conservação atual.

Esquema ótimo retirado deste artigo.

Portanto, que fique claro: turismo sustentável não é só sinônimo de “ecoturismo” ou “turismo de natureza – precisamos desmantelar de uma vez por todas esta ideia estreita e antiquada. Turismo sustentável também não é só turismo verde, de economizar água e reusar toalhas – é isso também e mais um pouco. Turismo sustentável engloba turismo responsável, com ética e ecoconsciente, que pensa no recurso natural e humano, na responsabilidade social, cultural, política e econômica, na saúde de cada peça que o faz mover, na saúde do destino e do planeta, como o esqueminha acima demonstra claramente.

O ambiente nosso de cada destino escolhei hoje

Limites são fundamentais. A placa estava próxima ao lago de Tenno, na Itália, e diz: “Reserva de pesca. Pesca só com permissão, adquirida no Hotel Stella Alpina. Proibido pescar às sextas-feiras.”

Sabemos que numa visão mais abrangente, proteger o ambiente passa obrigatoriamente pelas atitudes que tomamos todos os dias a todo momento. Nossas escolhas de vida ajudam (ou não) a proteger o meio ambiente, seja em casa ou na China. Todas estas facetas entram nas nossas escolhas turísticas, consciente ou inconscientemente. As escolhas de vida que tomamos não se restringem à nossa casa e nossa rotina. Elas se estendem quando viajamos, quando saímos da rotina. Servem tanto quando estamos na China quanto quando acampamos em Ibitipoca.

São escolhas que diminuem a poluição, atmosférica, aquática, sonora ou visual, das nossas cidades. Que entendem os limites do patrimônio natural e/ou histórico. Que respeitam as pessoas locais, que estão ali dividindo sabedoria sobre a rotina dos lugares turísticos, onde você, turista, está apenas de passagem. Escolhas que levam em conta a realidade das mudanças climáticas. Escolhas que trazem melhorias e impactos positivos tanto para o turista quanto para a comunidade local – seja esta comunidade de pessoas, animais, plantas, ecossistemas e por aí vai.

Turismo sustentável é feito quando decidimos ir a Veneza ou a Nova Iorque, quando escolhemos uma companhia aérea, um hotel ou um passeio, quando alugamos um carro ou usamos um shuttle. Até quando desistimos de um destino, estamos fazendo uma escolha. Em absolutamente todos os aspectos de escolha de uma viagem, pode-se incorporar atos de sustentabilidade que ajudem de alguma forma na proteção do ambiente, da saúde dos ecossistemas à qualidade de vida das pessoas.

A multidão que se agrega todos os dias para ver o nascer do sol em Angkor Wat, no Camboja, já passou de qualquer limite de sustentabilidade ao patrimônio histórico.

A gente não viaja no vácuo

A gente viaja para relaxar. Ou para fazer negócios. Ou para competir num esporte. Ou para visitar amigos e parentes. Ou para experimentar sabores novos. Ou para realizar um sonho. Ou para se auto-conhecer mais. Ou para andar a esmo, sem hora marcada pra nada.

A gente viaja. Ponto.

Mas, uma coisa é certa: independente da razão que nos leva a viajar, a gente não viaja no vácuo. 

A gente viaja para um lugar do planeta que tem uma política, economia, sociedade e cultura. Que está inserido num contexto local e global. Que tem um ambiente. A gente viaja e faz escolhas para este ambiente.

Parece óbvio, mas entender as consequências desta inserção para o destino não são tão claras.

Para um destino turístico ser ambientalmente sustentável é preciso vê-lo como multifacetado, passando pelo entendimento, pelo menos parcial, dos mesmos aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais aos quais está inserido, local e globalmente, pela ética e responsabilidade de cada um dos elos que formam a corrente do turismo. Mais: sustentabilidade turística é temporal – um local pode estar viável no momento e não o ser no futuro, como é o caso de Miami que, apesar de estar fadada a afundar com o aumento do nível do mar, continua construindo prédios e hotéis à beira-mar, inserida que está num boom do turismo atualmente.

Como regra geral, toda vez que viajamos, independente da razão de nossa viagem, geramos um impacto. A resposta de cada destino para minimizar este impacto ou torná-lo positivo determina a sustentabilidade deste local como destino turístico.

Só que o turismo cresceu tanto nos últimos 10 anos, tantos pontos inacessíveis do globo se tornaram agora visitáveis por razões políticas, econômicas, sociais ou culturais, que este impacto tem sido cada vez mais claramente difícil de ser gerenciado de maneira apropriada – quiçá positiva. É cada vez mais claro que nossas escolhas turísticas muitas vezes comprometem a sustentabilidade do destino, e pedem limitações. Achar o meio-termo entre turistar e limitar é uma tarefa difícil, e destinos famosos como Veneza, Amsterdam e Barcelona vêm se desdobrando para enfrentar este meio-termo de maneira urgente, dada a situação que já beira o caos, com clara insatisfação da comunidade local.

Mas estas cidades não estão sozinhas e é muito fácil perceber este fenômeno. Multiplicam-se listasartigos, filmes e reportagens de lugares que não querem mais receber turistas – destinos exaustos, onde o turismo passou de benesse a maldição, onde as comunidades locais mais se estressam que se beneficiam desta atividade econômica. E é difícil achar uma solução para o excesso de turismo (“overtourism” em inglês), pois se por um lado viajar expande horizontes e traz benefícios concretos individuais e coletivos às pessoas e ao modo de agir delas, regras para colocar limites a esta atividade costumam soar elitistas e arrogantes – uma concepção errada, mas infelizmente a percepção ainda é essa.

Temos também o caso de destinos cuja economia é extremamente dependente do turismo, como o Camboja  (16% do PIB, de acordo com dados de 2006), mas cujo gerenciamento ainda é capenga (principalmente no nível de governo) e cujos benefícios não são compartilhados equitativamente com os moradores locais – existe o turismo, mas ele está longe de ser sustentável. Ou ainda o caso controverso do AirBnb, que muita gente não considera um problema de sustentabilidade, quando indiretamente é também: menos opções de moradia disponível para as pessoas locais e menos imposto de turismo arrecadado pode gerar dificuldade em implementar iniciativas ecoconscientes para todos da comunidade e que beneficiarão, no final das contas, o ambiente geral e a qualidade de vida. Falta responsabilidade social e accountability com a comunidade, também insustentável.

Praça de São Marcos, Veneza, no verão. É praticamente impossível não ter pelo menos duas dezenas de pessoas nas fotos – o local é dos mais visitados do planeta. (Só a Mari Campos consegue essa proeza…)

Ir ou não ir, eis a questão…

Eis aí um outro lado da moeda. Por que o lugar tem problemas de sustentabilidade… vamos deixar de ir? Para algumas pessoas, esta pode ser uma solução. Acho radical demais, entretanto. Repito: muitas vezes, a comunidade local não tem outra alternativa econômica, depende do lucro do turismo para seu desenvolvimento em áreas diversas, como saúde e educação – e sua decisão de não ir prejudicará muito mais que ajudará.

Alguns destinos impõem seu limite, e eles mesmos se fecham à visitação para evitar a degradação completa – ou enquanto uma estratégia de turismo sustentável ainda está no papel sendo discutida. É o caso de Koh Tachai, na Tailândia. Outros limitam o número de visitantes por dia, como é o caso de Hanauma Bay, no Havaí. Com isso, tanto o ecossistema respira quanto às pessoas ainda o visitam – mas de forma controlada.

Acho que a solução para melhorar a sustentabilidade dos destinos passa definitivamente por este caminho do meio, que requer muita conversa e negociação entre diversos membros do setor e a sociedade local. Passa também por uma análise específica pelos governos de cada destino que inclua o contexto político, econômico, social e cultural, para providenciarem soluções que acolham a comunidade local e não espantem de vez o turista. Mas, enquanto os governos não agem, o que podemos fazer?

Se o turista vai num lugar super-saturado e/ou mal-administrado e, ao invés de só reclamar, se esforça para fazer escolhas o mais ecoconscientes possíveis, talvez ele ajude a dar o exemplo, e aos poucos a própria comunidade local passe a incorporar opções de sustentabilidade, numa espiral pra cima. Por outro lado, se a comunidade local, apoiada ou não por seu governo, passa a oferecer opções ecoconscientes de turismo, o turista é positivamente educado a perceber o que e como se faz turismo voltado para a sustentabilidade. É o que já vem acontecendo por aí.

O turismo sustentável, a meu ver, precisa ser esse objetivo maior comum de turistas, moradores locais, governo e membros do trade. É o final de uma estrada. Mas, enquanto vamos dirigindo por esta rodovia, passamos por obstáculos e paisagens novas. A gente nem percebe, mas aos poucos, nessa estrada, vamos conectando as pessoas, turistas e moradores locais, ao seu ambiente.

Tudo de turismo sustentável sempre.

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  • Há diversos guias online práticos para quem quer ser mais ecoconsciente nas suas férias, que mostram desde hotéis mais verdes até como viajar light, sem despachar – o que influencia no gasto de combustível dos meios de transporte, by the way. Eu em geral não me contento só com estes guias, e me informo no grande oráculo quais os problemas que o turismo traz à comunidade local que visitarei (“problemas + turismo + lugar”). O conceito de comunidade aqui é largo, vai desde pessoas até ecossistemas inteiros. Em geral, os artigos que aparecem já geram ótimos insights sobre as políticas ambientais do lugar, sobre como o dinheiro do turismo flui e sobre como as pessoas locais estão se beneficiando com o turismo – sobre a sustentabilidade da atividade, afinal. De posse destes insights e informações, as escolhas ecoconscientes de viagem já se tornam bem mais fáceis de serem feitas. É um bom começo.
  • Este post surgiu da experiência com minha própria empresa de turismo. Achava que meus objetivos iniciais eram simples – tornar a viagem ao Havaí o mais sustentável possível. Mas não demorou muito para que eu percebesse que o conceito de o mais sustentável possível não era claro. “Turismo sustentável = ecoturismo ou turismo de natureza” ainda era a equação predominante. Ou seja, o buraco era bem mais embaixo. Felizmente percebo que aos poucos esta interpretação quebrada vai desaparecendo, e o real conceito amplo de turismo sustentável vai se estabelecendo. Quero acreditar que esta educação ambiental trará boas novas reflexões e inovações turísticas pro futuro… 🙂

 

Vivemos tempos estranhos. De águas turbulentas. Tantas incertezas e decisões bizarras no ar, tanta desinformação, e com tantos desafios gigantescos sérios a cavalgar.

(Eu sei, a foto não é realmente sub… mas considerando a turbulência desta água, não demora pro barco afundar. Só depende da habilidade de quem está guiando este barco – nós.)

Águas turbulentas

Agora isso.

Eu deveria estar triste com esta notícia. Mas do fundo do meu coração, acho que a gente não pode perder o foco no futuro nem a esperança. Não temos tempo para pessimismo, muito menos para desânimo. Temos que usar este momento como o que ele é: mais um obstáculo. E se unir e tentar tomar atitudes locais que façam a diferença. É hora de mostrar a força do efeito formiguinha – que já é um formigueiro cheio de ramificações e ideias interessantes. É hora de passar por cima deste obstáculo e continuar na corrida (maratona?) por um futuro mais saudável para as próximas gerações. Nada de derrotismo, o negócio é bola pra frente que ainda tem jogo rolando.

Vamos lá?

Tudo de futuro melhor sempre.

Postado em 02/06/2017 por em Sexta Sub

Antes de ir pro Vietnã, coincidentemente assisti a um programa na BBC sobre os melhores cafés “escondidos” de Hanoi. Neste programa, foi mencionado o egg coffee (café com ovo! na xícara!), uma preparação do tradicional café vietnamita bem peculiar, que chamava a atenção pela raridade: só um café em Hanoi fazia – e o sucesso era absoluto.

Egg coffee

Egg coffee: uma xícara para enlouquecer os amantes de café.

Cafeinômana que sou, meus olhos brilharam ao ouvir tal informação: um novo tipo de café! E anotei imediatamente na minha lista de viagem ao Vietnã: tomar um egg coffee.

No programa de TV, eles não deixavam claro onde ficava este café, mas nada que uma pesquisa básica no google não resolvesse: Café Pho Co, na Hang Gai st., pertinho de uma rotatória enorme na beira do lago Hoan Kiem, no centro nevrálgico de Hanoi. Mas aí fui prestar atenção em como chegar neste café, e a aventura começa aí: a entrada pro café fica dentro de uma lavanderia/loja de roupas, e você facilmente passa batido sem perceber. Um verdadeiro egg coffee hunt. 😀

Assim que cheguei em Hanoi comecei minha busca pelo egg coffee. Subi e desci a Hang Gai algumas vezes, até que vi a placa minguada do Café Pho Co, facilmente imperceptível com tantas placas ao redor. A entrada era mesmo pela loja de roupas, e você segue num beco estreito até um pátio interno, onde fica o caixa para fazer o pedido. Detalhe: você não pode esquecer de fazer o pedido aqui, pois as mesas do café ficam no 3º e 4º andar, e não tem ninguém para pegar os pedidos lá em cima. Delícias do Vietnã…

Subida para o terraço.

O ambiente do café é Vietnã na veia, muito legal. Parece saído de um filme. As escadas estreitas, com um pequeno templinho budista no segundo andar, super zen. No terceiro andar, algumas mesas voltadas para o pátio com plantas, e no quarto andar (o último), mais mesas, desta vez com uma pequena vista para o lago.

A garçonete anda pra cima e pra baixo levando os pedidos feitos lá embaixo para os clientes nos andares de cima – haja exercício. Sentamos numa mesa no quarto andar, para tomar o famoso café com ovo.

E que café! Delicioso! Super-cremoso. Jamais imaginei que a mistura de café com ovo fosse ficar tão gostosa. É quase uma gemada, mas como o gosto do café vietnamita é bem diferente do nosso, a mistura fica com um quê mais exótico. US$2,00 muito bem empregados.

Gostei tanto, que antes de ir embora de Hanoi voltei para tomar outro. Só de escrever este post, já fiquei com vontade de voltar lá.

O templinho no segundo andar.

E aconselho aos amigos: não saia de Hanoi sem provar o egg coffee.

Tudo de bom sempre.

Listas. Aquela coletânea que amamos odiar ou odiamos amar, a ordem dos fatores não altera o produto que é: vamos pitacar sobre.

E todo ano, o Dr. Beach, um expert (de verdade!) em praias, lista suas praias prediletas dos EUA – e o faz de uma maneira bastante científica até, afinal ele é um professor-pesquisador de Regiões Costeiras da Universidade Internacional da Flórida. Em geral, em sua lista anual aparece pelo menos uma praia do Havaí, uma honraria que o turismo do estado agradece e divulga.

Costumo comentar aqui no blog sobre a praia havaiana citada nesta lista do Dr. Beach – ano passado foi Hanauma Bay, e em 2013 foi Waimanalo, por exemplo. Ambas em Oahu.

A lista de melhores praias de 2017 by Dr. Beach saiu na semana passada e nela constam na lista duas praias havaianas: Kapalua Beach, em Maui (2º lugar) e Hapuna Beach, na Big Island (8º lugar). merecidas, pois são lindas mesmo. Mas, para a brincadeira ficar interessante, eis meus pitacos sobre elas. Já aviso de antemão: concordo com Kapalua, discordo de Hapuna – sim, sou #malla. 😀

Kapalua Bay Beach fica na costa oeste de Maui, uma das costas mais incríveis do Havaí. Neste lado da ilha, estão outras praias sensacionais como Napili e Kahakuloa. A praia de Kapalua é rodeada por condomínios de temporada e ali perto, fica o Ritz Carlton, um dos melhores hotéis de Maui. Kapalua Bay é uma opção menos óbvia de praia naquela costa, ótimo lugar para fazer um snorkel ou realmente relaxar e esquecer da vida. A praia é mesmo das mais lindas de Maui e só é acessível depois de uma caminhadinha pela trilha que beira a costa – talvez esta seja a cereja no topo desta praia para não ficar muvucada.

Praia do Ritz, ao lado de Kapalua.

Dica malla: vá para ver o pôr-do-sol no Merriman’s, que fica no canto esquerdo de Kapalua Bay e tem um dos melhores happy hours do estado.

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Hapuna Beach

Hapuna Beach é uma praia de areia branca-amarelada na Big Island – e isso em si já é uma raridade. Talvez este seja motivo para que Hapuna entre nesta lista num honroso oitavo lugar.

Veja bem, a Big Island tem inúmeras praias, mas ou elas têm areia de cores incomuns, como Punaluu ou Papakolea, ou as praias são pedregosas, como em Kealakekua – ou não há extensão decente de praia, como em Honaunau, ou pior ainda, a praia tem tanto pedaço de coral que não dá nem pra esticar uma canga direito, como a praia do Hilton Waikoloa Village na costa de Kohala. Com tanta praia diferente, claro que uma praia “normal” com cara de praia de foto de instagram, com areia clara e mar azul, vai se destacar, mesmo que não seja uma brastemp.

A grande questão é: quem vai a Big Island quer mais é pra aproveitar o mar (mergulhar, snorkelar, surfar, etc.) ou fazer atividades terrestres (ver o vulcão, as cachoeiras, tomar bons cafés, etc.). Não acho que a Big Island seja uma ilha para se esticar na areia e tomar sol – é uma ilha exatamente para explorar esse monte de praia diferente, muitas que você não verá igual em lugar nenhum do planeta.

Mas, se você quer se esticar na areia, principalmente do lado de Kona, sobram: Hapuna, Mauna Kea Beach e Mauna Lani, todas ao norte de Kona, em Waikoloa. E dentre elas, Hapuna é a maior. Ou seja. Não é maravilhoooosa, mas é uma praia bonita, digamos assim. E ótima pra tomar sol e esquecer da vida – no conceito de praia mais tradicional que temos.

Vale lembrar que Hapuna agora tem um sistema de cobrança do estacionamento – US$5,00 por veículo. A praia costuma lotar aos fins de semana, portanto chegue cedo. Em geral é uma praia mansinha, mas de vez em quando o swell bate – e aí ela pode ficar bem perigosa.

Mas, o melhor de tudo mesmo: venha ao Havaí, veja o máximo de praias possíveis e decida você mesmo por suas melhores. Quem topa esta ideia? 😉

Tudo de pitaco em lista sempre.

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  • Eis minhas listas de melhores praias do Havaí: em 2009 e em 2014 – daqui a pouco preciso atualizar de novo minha listinha também… 😀 

Nos últimos dias, tem acontecido um fenômeno natural incomum em todo o Havaí: a super-maré alta, ou king tide em inglês. Na super-maré alta, o mar chega a ficar bem acima de sua altura normal indicada na tábua de marés. Isto pode causar problemas nas regiões costeiras, como inundações de ruas, diminuição da areia das praias e erosão. O fenômeno ocorre em praticamente todos os oceanos do planeta.

E por que tal evento de repente começou a gerar tanto buzz no Havaí (e pelo Pacífico) em 2017?

Primeiro, porque este king tide do verão de 2017 está previsto para ser o maior em 100 anos de registro das marés, com a maré alta em impressionantes 70 cm (quase um metro!). Este valor é inédito no Havaí, e nunca registrado tão elevado desde que se começou a medir a altura das marés no estado. Uma conjunção de fatores permite a subida tão drástica da maré nesta primavera/verão, e especificamente no king tide de ontem, contribuíram um swell relativamente grande, que trouxe ondas de até 10 pés para a costa sul das ilhas, e uma maré lunar (lua nova começando a crescente…) alta incomum – além do aumento do nível do mar que já ocorre no mundo, claro.

Segundo, porque se as previsões mais conservadoras das mudanças climáticas se concretizarem, a maré que vemos hoje no king tide passará a ser a maré normal. É como se estivéssemos presenciando o primeiro sinal prático do futuro que nos espera, de como será nossa região costeira com o aumento do nível do mar.

O hotel Outrigger Reef, que é pé na areia, tinha virado pé na água. Fizeram uma trincheira de areia para tentar segurar o mar de chegar na escada de seu restaurante, mas como podem ver na foto, não estava sendo muito efetiva.

Terceiro, porque um dos lugares mais afetados pela king tide de 2017 será Waikiki – a praia número 1 do turismo havaiano. Já comentei antes que as previsões para Waikiki em tempos de mudanças climáticas não são muito otimistas, principalmente dada a sua importância econômica para o estado. Esta king tide de 2017 pode ser o primeiro alerta para os hotéis e restaurantes de beira de praia da região para realmente começarem a pensar em medidas sérias de mitigação dos problemas que vêm aí – perceber quais áreas da propriedade/costa estão mais vulneráveis e trabalhar nelas prioritariamente.

Um pedaço do calçadão de Waikiki, antes…

Waikiki desapareceu

…e depois.

Por estas razões, os cientistas havaianos estão estudando com muita atenção e carinho as king tides deste verão – e pedem a ajuda colaborativa dos cidadãos e turistas que estiverem por aqui para registrarem o impacto desta super-maré alta pelas ilhas e subirem para o site deste projeto de citizen science. O projeto, liderado pelo Sea Grant da Universidade do Havaí, tem apoio de diversas ONGs, incluindo a Surfride Foundation.

Claro, fui lá participar – e tirei umas fotos deste dia peculiar em que a praia de Waikiki desapareceu.

Waikiki desapareceu

Uma Malla em Waikiki observando a super-maré. Esta passarela fica pelo menos 50cm acima do nível médio do mar, e normalmente está seca (ou semi-seca, molhada só dos splashs).

A questão é: até quando a super-maré alta será apenas peculiar – e quando passará a ser a norma? A resposta depende de diversos fatores a que os cientistas têm se debruçado diaria e avidamente calculando, analisando cada peça desse quebra-cabeças climático.

E enquanto a resposta não chega, o jeito é se preparar: coletar mais dados que tornem as previsões mais robustas e específicas, observar e entender os fatores geradores e a interação entre eles, e principalmente pensar em estratégias eficientes para lidar com o mar ali, batendo na sua porta – e entrando sem pedir licença.

A água do mar entrou na laguna do Hilton (à esquerda na foto).

Tudo de mar sempre.

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  • O primeiro impacto já é “cultural”, digamos assim: por causa do king tide, o Hilton Hawaiian Village ontem cancelou a tradicional queima de fogos de sexta-feira à noite. Afinal, o mar invadiu a área de onde eles soltam os fogos. Ok, é apenas um show cancelado. Mas para quem vive aqui, não deixa de dar a sensação de algo estranho no ar…

  • Enquanto o mar bate literalmente na porta dos hotéis da beira-mar e deixa este feeling de “alguma coisa está fora da ordem”, as pessoas continuam ouvindo música de ukulele e tomando seus maitais nos bares, como se nada acontecesse. E fazendo compras. Me fez lembrar aquela cena do Titanic dos violinos… República de Waikiki, né? Um mundo à parte dentro do Havaí…

A Grande Barreira de Corais Australiana, patrimônio natural da humanidade pela UNESCO desde 1981, pede socorro. Vítima de temperaturas oceânicas cada vez mais elevadas por conta das mudanças climáticas, de uma temporada de El Niño massacrante em 2016, de resíduos orgânicos costeiros em demasia, teve ano passado uma área significativa de seus corais morta e mais um tantão de quilômetros danificados.

SOS Grande Barreira de Corais

Challenger Reef, na área norte da barreira de corais, a mais afetada pelo evento de bleaching de 2016. Esta foto dos corais saudáveis é de 1997.

A Austrália tinha um plano de proteção e recuperação a longo prazo deste patrimônio natural único que temos no planeta, com objetivos a serem alcançados até 2050. Entretanto, ontem, 33 anos antes do prazo, os conselheiros do governo australiano afirmaram que este plano a longo prazo já não é mais possível.

A Grande Barreira de Corais agoniza. Sua saúde anda abalada – e o prognóstico não é dos melhores. Tenta resistir a tantos ataques e ameaças cruzando seu caminho. Testa sua resiliência como pode. Tenta resistir às mudanças climáticas – mas talvez uma parcela dos danos já sejam irreversíveis. O nível de acidificação dos mares, a temperatura que não deixa as algas simbiontes coexistirem com seus corais hospedeiros, a poluição, o excesso de turismo – e um governo federal que, ainda hoje, não tem um plano de mitigação das mudanças climáticas decente, e não vê razão (!!!!!!!!!) para parar de investir em carvão como matriz energética.

A Grande Barreira de Corais grita, a seu modo, por SOS.

Mas, no mundo atual tão conturbado, são tantos gritos de SOS que ouvimos todos os dias, que os da Grande Barreira de Corais ecoam como que num vácuo, zumbido de fundo em ouvidos ocupados com outros problemas.

A Grande Barreira de Corais, o maior sistema de corais da Terra, com recifes de até 600.ooo anos, passará a ser listada pela UNESCO como “patrimônio natural em perigo”. O que isso significa? Que haverá maior pressão da UNESCO e mundial em cima da Austrália para fazer algo para salvá-la, ou pelo menos, diminuir o prejuízo.

Mas fazer o quê, se já ultrapassamos há tempos o limite de 350 ppm de CO2 na atmosfera, e estamos hoje a inacreditáveis 409.98 ppm de CO2 – and counting? E com os combustíveis fósseis ainda reinando na nossa rotina diária?

Eu ainda tenho esperança que um dia mais pessoas ouçam o grito ensurdecedor dos corais. A tempo. E que possam vê-los como nas fotos deste post: saudáveis.

Corais de Heron Island, na parte sul da barreira de corais.

Um futuro melhor para os corais sempre: meu desejo do fundo de um coração apertado.

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