Eu ia escrever algo diferente, mas ao ler essa notícia, não pude deixar de me orgulhar: uma cientista brasileira, Belita Koiller, ganhou o prêmio L’Oreal-Unesco dado a mulheres de destaque na ciência mundial. Eu já sabia da existência desse prêmio de outros carnavais, uma excelente iniciativa de uma empresa de cosméticos – melhor que financiar propagandas com modelos esqueléticas que não são a realidade da maioria das pessoas… (Sobre isso, a DaniCast fez um excelente post ontem.) O prêmio L’oreal-Unesco já havia sido recebido por outras 2 brasileiras anteriormente, uma delas a Mayana Zatz, que defendeu com unhas e dentes o uso de células-tronco em pesquisas no Brasil, e há poucos dias atrás, conseguiu aprovação no Congresso. Uma vitória sem precedentes para a pesquisa brasileira. E no Ano Internacional da Física, nada mais legal que presentear físicas de renome…

Belita Koiller, professora da tão “falada falida” UFRJ, física de Matéria Condensada e Nanocondutores, nossa laureada neste ano, se “descondensará” em sorrisos por essa conquista representativa da ciência brasileira. Orgulho nacional.

Parabéns, Belita! Parabéns da mais profunda e diminuta nanopartícula quântica do órgão central do meu aparelho cardiovascular!

Postado em 09/03/2005 por em Ciência

Sou uma apaixonada pela cultura das ilhas do Pacífico. Não conheço muito, e talvez venha daí o meu fascínio, mas o pouco que conheço coletado no meu 1 ano e meio morando no Hawai’i, valeu para aprender muito e me apaixonar de verdade.

Assim que cheguei em Honolulu em maio/2002 e descobri que tinha direito a fazer uma disciplina por semestre na Universidade totalmente de graça, não pensei duas vezes: matriculei-me num curso de língua havaiana. A maioria das pessoas a quem eu comentava isso, perguntavam a mesma coisa: “pra quê? Havaiano é uma língua que ninguém mais no mundo fala, você vai colocar isso no seu currículo? Por que não aproveita a oportunidade e faz aula de uma disciplina da sua área de interesse?” Sou teimosa e sigo minhas paixões. Embora apaixonada por ciência, eu já lidava com aquilo no meu trabalho. Tinha que aproveitar o Hawai’i de outra forma. Eu adoro estudar línguas, a diversidade fonética e sonora dos habitantes desse planetinha azul. Então, foi batata: essa era A oportunidade de aprender uma língua de características tão exóticas.

O havaiano é o menor alfabeto do mundo: tem 13 letras sendo uma delas o ‘okina, representado pela apóstrofe, que para nós é apenas uma sinalização qualquer. Pra eles, não, é fonética, e está presente acima de tudo, na palavra Hawai’i – quer melhor aceitação do apóstrofe como letra que essa? Havaiano também é uma língua vocálica: tem encontros vocálicos de deixar qualquer um maluco – um dos bairros da ilha de Oahu chama-se Aiea.

Voltando à aula. O semestre começou, e para minha extrema surpresa, a classe em que eu estava matriculada era composta na maioria por estudantes havaianos (kama’ainas), ou seja, poucos americanos do continente efetivamente se interessavam em aprender. Além de mim, uma menina de Boston e outra do Texas. E só. O professor, um surfista renomado que nas horas vagas e sem ondas, fez mestrado em Havaiano. Mas isso não me desanimou, pelo contrário: era a minha oportunidade de ouro de interagir com pessoas que realmente VIVEM o Hawai’i.

Logo percebi que a disciplina era fácil para todos os locais, que obviamente haviam crescido ouvindo havaiano por todos os lados, e eu tive que na verdade estudar bastante para acompanhar o ritmo da turma. Mas muito mais que apenas a língua, o professor estava interessado em reintroduzir um pouco da cultura havaiana do passado na cabeça daquele monte de neo-havaianos. Afinal, o Hawai’i padece da perda de sua cultura para os pseudo-invasores americanos. Perfeito: eu ia aprender cultura havaiana também.

O professor no primeiro dia de aula havia dito que uma vez por semana (a aula era todo dia 7 às 8 da matina) não teríamos aula na sala, e sim num terreno (Lo’i) pertencente ao departamento de Estudos Havaianos onde construiríamos uma casa aos moldes havaianos. Como é que é? Eu fiquei meio cabreira com essa história de construção, mas topei o desafio e não tranquei matrícula. E todas as quartas-feiras, íamos todos pra esse terreno trabalhar na “casinha”: fazíamos separação da palha certa, políamos a madeira, assentávamos o terreno, etc. Sem discriminação alguma entre homens e mulheres. Ritmo de aloha e detalhe: utilizando ferramentas antigas havaianas. Nada de polir com lixa comprada no WalMart – o negócio era com pedra de lava mesmo. Eu, brasileiríssima, pensei: a casa só fica pronta daqui a uns 5 anos. E essa foi a primeira lição: todos iam ali determinados a trabalhar e chafurdar na lama para cumprir um objetivo, todos éramos uma família (‘ohana) e eu nunca havia presenciado tamanho sentimento de time e união. Primeira lição aprendida: os havaianos são uma imensa família.

Aos poucos, percebíamos que a casinha tomava forma, e o professor já traçava planos do que seria ali, ao lado daquela plantação de inhame (taro, a planta mais tradicional da culinária havaiana) – provavelmente um local para reunião entre os professores aos moldes havaianos tradicionais, todos sentados no chão. E aí a segunda lição veio. Embora até então estivéssemos trabalhando todos juntos, na hora da divisão de trabalho depois da casa pronta, os homens se reuniriam enquanto as mulheres fariam os leis. “Como é que é???” “Sim, homens não fazem leis, é a tradição. Homens não têm mãos delicadas, não sabem colocar a magia das flores de forma harmoniosa.”

Dançarinas de hula se apresentam em um hotel em Oahu com seus respectivos leis de dança.

Leis são aqueles colares de flores que ficaram famosos em cadernos de turismo, símbolos de um paraíso tropical. A idéia é você chega num lugar desses e ganha um colar de flores. Não é bem assim. É realmente muito agradável e bonito receber flores na sua chegada, e as agências de turismo fazem isso para os turistas de pacote, mas a idéia real por trás de cada lei é diferente. Tem o lei da guerra, o lei da mulher grávida, o lei da dança de agradecimento da colheita, o lei do homem forte, o lei de aniversário… e cada ilha havaiana tem também o seu lei específico, feito de flores diferentes. E os cheiros! Cada um mais delicioso que o outro. O lei de flor de gengibre era o meu predileto, branco e o cheiro ficava pela casa por vários dias, aliviando as tensões (?) do ambiente. E como para cada ocasião há um lei específico, as mulheres estavam sempre trabalhando duro, na antiga sociedade havaiana, cuidando da casa e fazendo os leis de todos da família. O lei é peça fundamental para qualquer um interessado em entender a cultura havaiana, e nos dias atuais, para os moradores das ilhas, continua preservado como uma identidade única, uma marca registrada do lugar deles. Exemplo? A foto que tenho no perfil deste blog exibe o lei de orquídeas, típico de turistas – eu tirei essa foto num luau comercial, para gringos. Se você aparece num bar com um lei de aniversário, qualquer havaiano legítimo imediatamente reconhece, e pode até vir a te oferecer um brinde “cortesia da casa”. Isso aconteceu comigo, e eu vi acontecendo várias vezes, nos lugares onde somente havaianos vão. O lei é o símbolo máximo de um objetivo conquistado, ou ainda a ser alcançado. É a realização de um sonho, é a concretização do sucesso, é a foma de desejar boa sorte. O lei é aloha. Portanto, muito mais significado existe por trás de cada um daqueles colares de flores do que sonha nossa vã filosofia…

Fiz a disciplina por 1 ano (passei pro nível 2!), e no final desse ano de trabalho às quartas, não é que a casinha estava pronta? De acordo com o professor, graças ao “aloha spirit” da turma. E eu aprendi a lição: mesmo fazendo muito pouco, todos nós somos importantes para o alcance de um objetivo comum. E se cada um faz a sua parte de maneira dedicada e feliz, o objetivo será alcançado. Já sabiam disso os antigos havaianos.

Maika’i mau i po’e. (Vocês podem imaginar o que isso significa…)

Minha turma de havaiano, em sala de aula (o professor Keoki de blusa azul na frente), e no terreno da Universidade, onde trabalhávamos na construção da casinha.

***********************

PS.: A casinha, após tanto amor e carinho de construção, foi parcialmente destruída numa enchente enorme no Halloween do ano passado. Não preciso comentar minha tristeza. Mas ao mesmo tempo, sei que novas turmas de Havaiano 101 virão – e poderão desfrutar da mesma experiência maravilhosa que eu tive. Aloha para os novos construtores.

“The flowers may last only a few hours, but the memory of having a lei placed on your shoulders lasts forever.” (Marsha Heckman, uma fazedora de leis)

(Dedicado a todas as mulheres que fazem todos os tipos de “leis” diariamente, onde quer que seja no planeta…)

Eu já havia comentado antes o quanto eu adoro detestar listas e rankings, por saber o quão volúveis e passíveis de erros elas são. E essa é a graça profunda da brincadeira, essa discussão infinita onde no fundo ninguém está certo, porque é uma questão de gosto pessoal.

Pois bem, aí vem o Idelber e sugere uma blogada coletiva com a lista dos 15 melhores discos de música brasileira pós-1950 (!) e com direito a prêmio e tudo o mais. Complicou demais para mim. Música é parte integral da minha alma, é algo tão importante quanto o ato de viajar, no meu universo! É pra lá de difícil fazer uma lista SÓ com 15 discos, porque eu sei que vou deixar muito disco que eu adoro de fora. Mas pensando melhor, até que o Idelber foi bonzinho e facilitou a escolha colocando a restrição da música brasileira, porque se fossem discos em geral, aí mesmo que eu estaria lascada. Não ia poder deixar de fora uns 5 discos do Miles Davis, mais uns 3 do Zappa, o meu Stockhausen querido e todos do Jaco Pastorius, do Charlie Parker e do Pat Metheny – até o minimalista “Zero tolerance for silence” entra na minha lista. Música é um assunto complicado.

Enfim, depois de pouco pensar – decidi que ia fazer meu ranking de sopetão, pra evitar divagações que me levariam a aumentar em mais de 1000% o conteúdo da mesma – estou imediatamente postando. Sim, porque se eu deixar até segunda-feira, o mesmo problema acima citado volta: eu vou querer incluir mais uns trocentos discos. E depois da lista pronta, eu cheguei a uma constatação inegável: eu realmente tenho um gosto musical muito estranho.

Aí vão meus 15 discos selecionados como melhores da música brasileira:

1) “Festa dos Deuses” (Hermeto Pascoal e Grupo) – Eu chamo esse disco de “disco-ilha deserta”. É aquele que eu levaria comigo pra uma ilha deserta se só pudesse levar um cd nesse delírio. É o melhor disco do planeta, arranjo, composição, músicos, genialidade do Hermeto, o discurso final, a improvisação, tudo, tudo, tudo, tudo!

2) “Água” (Trio Água) – O Trio Água é formado por Chico Saraiva, Edu Ribeiro e José Nigro, e oferece a mais promissora música instrumental da década. O carinho e a delicadeza do encarte, a poesia dos arranjos, a sutileza do Edu Ribeiro na batera… aliás, ele é o maior baterista que surgiu nos últimos tempos no Brasil, e a gente ainda vai ouvir falar muito dele, tenho certeza. O disco todo é superbo, mas em particular eu gosto da música “Ano Novo”.

3) “João” (João Gilberto) – Eu sei, ele é o chato do século, mas é um gênio, inovou em tudo na época, e para mim, esse disco é a síntese de uma carreira sólida e criativa. Eu o valorizo demais, e tenho uma verdadeira paixão por esse disco em particular.

4) “O tempo não pára” (Cazuza) – A versão ao vivo é simplesmente perfeita. Todas as músicas são notavelmente cruas, cheias da acidez puntual de Cazuza. Ideologia, eu quero uma pra viver.

5) “O silêncio” (Arnaldo Antunes) – A voz do Arnaldo Antunes é orgasmática. O meu poeta predileto da atual geração, que fez um showzaço desse cd em Ouro Preto, com direito a poema sobre a cidade e tudo o mais, e uma banda mais 10 ainda, com Pedro Ito na batera e Edgar Scandurra em sua guitarra canhota. Minha música favorita nesse disco é “E estamos conversados”.

6) “Babel” (Pau-Brasil) – Que projeto musical mais delicioso foi o Pau-Brasil! Rodolfo Stroeter e Marlui Miranda juntaram-se a Teco Cardoso, Lelo e Ze Eduardo Nazario para nos presentear com uma das maiores riquezas musicais do Brasil enraizado, o Brasil esquecido, o Brasil cheio de tons e sons naturais. Emocionante esse disco.

7) “Raio X” (Fernanda Abreu) – Eu adoro a Fernanda Abreu, acho que ela tem toda a vibração do Rio de Janeiro e um swing que ninguém mais tem. Ela é a única que consegue afirmar categoricamente “Sou carioca” e fazer você sentir isso lá no fundo do coração. Nesse disco, parece que ela pôs todo o swing pra fora de uma vez só, e conseguiu homenagear de forma mais calorosa ainda essa cidade maravilhosa, dando de lambuja um dos melhores representantes da música pop de qualidade da minha cdteca.

8) “Quarteto Novo Ao Vivo” (Quarteto Novo) – Essa foi a primeira banda “grande” do Hermeto Pascoal, e é nesse disco que está o meu clássico dos clássicos “O Ovo”. O disco foi recentemente relançado, e não dá pra não sentir a genialidade dos músicos. Ali nascia para o mundo o sertão universal de Hermeto Pascoal, o maior nome dos intrumentos de todos os tempos. E ponto final.

9) “Samblues” (Juarez Moreira) – Esse ilustre desconhecido guitarrista juntou grandes instrumentistas do Brasil todo e produziu essa obra-prima cheia de ginga e emoção. Eu ouvi esse disco uma vez, me apaixonei, comprei e nunca mais me separei dele. Essa história de amor já dura 10 anos, e eu tenho minhas dúvidas se um dia acabará. Duvido.

10) “Abrigo” (Marina Lima) – Os amantes de Tom Jobim (eu incluída) que me perdoem, mas a versão de “Samba do Avião” desse disco é a melhor existente. Completamente antenada, esse disco é alegre, cheio de vida, uma Marina recuperada das trevas do ostracismo. Vários arranjos legais, uma voz deliciosa. Nota 10.

11) “Alma” (Egberto Gismonti) – Esse disco é maravilhoso. Não simpatizo com o Egberto Gismonti, suas frescurites no palco são quase sempre irritantes, mas não há como negar que esse disco é um clássico, é todo bom, e de uma sonoridade brasileira de tirar o chapéu. “Palhaço” é a melhor de todas.

12) “Clara Crocodilo” (Arrigo Barnabé) – Como não colocar o cantor do “balcão de fórmica vermelha”? Clara Crocodilo é uma ópera (pós)-moderna, genial. É difícil não comparar o Arrigo com o Zappa de “Uncle Meat” nesse disco. E pra mim, que tive o prazer de participar lá, berrando e delirando no chão do SESC Ipiranga, da regravação ao vivo desse clássico, é impossível não fazê-lo constar entre esses 15.

13) “Moro no Brasil” (Farofa Carioca) – Um frescor de swing novo na área. Foi com essa percepção que eu ouvi pela primeira vez o Farofa Carioca, que imediatamente foi pra minha lista de favoritos, de onde até hoje não saiu. Muitos detestam o Farofa, mas eu achei o trabalho único deles fantástico. Retrataram o Rio de Janeiro como só a mestra Fernanda sabe, sendo que com mais pitadas de humor e sarcasmo.

14) “A Sétima Efervescência” (Júpiter Maçã) – Como deixar de fora meu “ídalo” trash lisérgico total? (Trash lisérgico é uma definição minha, não consta nas enciclopédias musicais.) Não dá, Júpiter Maçã (ou seria Jupiter Apple?) é detentor da vaga de melhor psicodélico do Brasil. “Miss Lexotan”, “As Tortas e as Cucas”, “The Freaking Alice”, “Querida Superhist X Mr. Frog”, “Eu e minha ex”… nossa, todas as músicas desse disco são muito trash – e muito legais!! Assisti ao Júpiter Maçã duas vezes ao vivo em Sampa (em uma delas foi no meio dos delírios londrinos dele) e só quem conhece a figura pode entender o quanto ele é uma demonstração da música brasileira que quer ser e não é. Eu adoro o Júpiter Maçã, com toda a sua irreverência.

15) “Carne Crua” (Barão Vermelho) – Esse é um dos melhores discos de rock’n roll do Brasil. Eu não consigo imaginar outro que tenha tido tal impacto no meu ouvido. Seremos macacos de novo.

Tenho ou não tenho um gosto musical pra lá de estranho? Será que tem conserto pra isso?

Tudo de bom sempre pra todos sonoramente ligados.

Muitos fatos e situações interessantes aconteceram na semana que passei na China, em fevereiro. Viagem deliciosa, aprendi muito. Mas algo que me chamou a atenção, obviamente, foram os letreiros e avisos de alguns lugares em especial… Letreiros já são motivos de risadas e espanto na Coréia, pois o inglês capenga e/ou a estética do mesmo, mostram que os asiáticos realmente têm uma noção diferente do tema. E na China não seria diferente. Selecionei 2 letreiros e 2 avisos de rua hilários pra apreciação de todos, que podem até não ser os melhores, mas são os que me chamaram a atenção de alguma forma. Espero que valha uma risadinha, mesmo que sem graça.

Letreiros:

Uma cidade nunca tem cafés suficientes para sua população cafeinômana, por isso em Macau existe mais um café, o Another Café. Como “coffe freak” assumida, eu adorei o nome e o trocadilho: lembrou-me alguns originais nomes de botecos no Brasil. Já em Beijing, essa placa enganadora: a loja é um restaurante de comida chinesa, mas ao olhar rapidamente, não parece o velhinho do KFC? Parece, mas não é. O velhinho chinês engana, mas aproveita-se da semelhança e amealha clientes.

Avisos de rua:

Tudo bem que a imagem que o mundo tem da China é de um país sujo com pessoas porcas – não é bem assim, mas tudo bem. Mas precisa do governo dar essa bola-dentro? Ter que classificar os banheiros públicos dessa forma… foi muito engraçado quando eu li essa placa na Cidade Proibida, centro de Beijing. Fico imaginando o banheiro 1 estrela… (Reparem que ainda teve um engraçadinho pra colocar mais uma estrela na classificação oficial!) E abaixo, um aviso que pode detonar num primeiro momento com a reputação de lugar seguro de Macau: precisa mesmo avisar do perigo dos trombadinhas? Bom, melhor prevenir que remediar, né? Já pensou se a moda pega no Brasil?

Tudo de bom sempre.

Postado em 04/03/2005 por em Ásia, China, Viagens

Cidade maravilha

Não, eu não esqueci. Foi aniversário do Rio de Janeiro, minha cidade maravilha natal. Embora com um pé em cada lugar do mundo que visito, foi na Cidade Maravilhosa que minha saga andarilha começou. Não dá para negligenciar a beleza dessa cidade, muito menos seus problemas. A cada vez que eu visito, é uma novidade, um novo ritual fashion, uma nova sacada malandra genial.

Pra mim, é difícil alguém ter mais cara de Rio de Janeiro que a Fernanda Abreu, em sua alcunha: Cidade maravilha mutante. Afinal, “eu quero meu crachá: sou carioca!”

Mudando a mil por hora, mas continuando sempre bela e descontraída.

Eu amo o Rio, cidade-natal que eu tanto renego e reclamo – apontar os podres é uma esperança de que um dia eles se resolvam.

Bateu uma saudade do calçadão de Ipanema! Ah…

Tudo de bom sempre.

Recentemente, li na excelente revista online Seed sobre a tentativa de envenenamento por dioxina do presidente ucraniano acontecida no ano passado. Após um longo período internado, o presidente se recuperou, mas em seu rosto ainda estão as marcas do envenenamento: a pele toda cheia de erupções de cor estranha. No caso dele, o que o salvou foi a pouca quantidade ingerida de veneno colocado em sua comida que, embora tenha sido 1000 vezes acima da dose aceitável, não foi letal. Um susto de dar calafrios a qualquer um.

Aí lembrei de outro fato. Há pouco tempo, foi divulgado um estudo com os níveis de mercúrio na comida americana. O estudo dizia também que tubarões sao os maiores acumuladores de mercúrio do ecossistema. Embora felizmente isso reforce a idéia de que não se deveria jamais comer tubarões (para não se correr o risco desnecessário de intoxicação por mercúrio), eram outros peixes o alvo do estudo.

Nas 2 notícias, entretanto, uma similaridade: a importância da dose. É a dose de mercúrio ou de dioxina que, num período de tempo curto, determina a morte ou não da pessoa. Mercúrio em excesso mata, dioxina mata também. Mas… até água em excesso teoricamente mata.

O conceito de dose parece muito nebuloso na cabeça das pessoas, e em minha opinião, não deveria ser. Basta ver o sucesso dos suplementos alimentares e vitamínicos para constatar isso. Vendem-se por exemplo verdadeiras “bombas” com miligramas – e até gramas – de selênio por cápsula. Selênio é ótimo para a saude, um agente anti-oxidante e regulador da função tiroideana, mas em doses de microgramas. 3 ordens de magnitude acima (miligramas), e você corre o risco de envelhecimento precoce ou de disfunção da tiróide. 6 ordens de magnitude acima (gramas), e você pode ir parar numa emergência de hospital. E não é só o selênio: o mesmo fenomeno acontece com vitaminas, sais minerais, remédios, alimentação em geral, hábitos pessoais. Assume-se que como boa parte das pessoas está mal-nutrida em certo elemento (o que é verdade) que elas estariam também mal-nutridas nos demais, e haja complexo multi-vitamínico.

Para saber o quanto precisamos de cada molécula, os cientistas se esmeram em produzir sempre as chamadas “curvas dose-resposta”. Toda nova droga que entra no mercado advinda de pesquisa séria tem uma curva dessas por trás, que representa o valor em uma unidade qualquer de peso ótimo para a ação de um composto/alimento em um certo tempo, indicando o limite entre a dose segura, perigosa e letal. Em geral, as bulas vêm também com os riscos da ingestão excessiva, basta prestar atenção que está lá escrito em letras pequenas, mas claras. Já no universo paralelo dos suplementos alimentares, onde em geral ingerem-se super-doses num piscar de olhos, acredita-se perigosamente na total eliminação do excesso pelo próprio organismo. Para alguns, isso é verdade – a vitamina C, por exemplo – mesmo assim com ressalvas, porque dependendo da dose, o organismo não dá conta de metabolizar em tempo plausível. Para uma boa parte dos suplementos, entretanto, o excesso fica acumulado no organismo, e pode causar problemas, como acontece com a vitamina E.

Saber a dose adequada é um dos conhecimentos mais primordiais que lidamos no dia-a-dia, embora muitas pessoas pareçam não se preocupar muito com isso. Quando um estudo diz: “é importante comer alimento X uma vez por dia”, fica claro que não é necessariamente para ingerir X em todas as refeições, muito menos esquecer de comer. Uma vez é o suficiente para te nutrir adequadamente para aquele dia. Não é recomendado assumir nada para cima nem para baixo daquele valor fornecido.

O equilíbrio da dose, nesse caso (e como sempre…), é a chave para uma atitude sensata e uma vida saudável.

Tudo de bom sempre.

Estou tendo muita relutância para abordar esse assunto pra mim tão necessário, por ser também de uma delicadeza extrema. Pelos diferentes comentários que ouço por aí, a impressão que tenho é de que a maioria das pessoas não está nem aí pra situação dos tubarões no mundo de hoje. A maioria responde assim: “Ah, tanta gente morrendo de fome/ doente/ precisando de ajuda!” Sim, concordo, e é pra isso que existem instituições governamentais (ou não) de ajuda a essas pessoas, e outras tantas pessoas engajadas nessas lutas. Mas eu prefiro atacar um problema que entendo um pouquinho, que está relacionado mais a minha paixão pelo mar, pela biologia, e mesmo que seja mais por paixão do que razão. É uma escolha pessoal – e mais pessoal ainda quando você encontra pela vida um companheiro ideal que sente o mesmo ímpeto de defesa da causa que você. Além de tudo isso, ressalto que não dá pra uma pessoa sozinha resolver todos os problemas do mundo, e se cada um se engajar numa luta (mesmo pequena) que seja por algum dos zilhões de problemas que nós temos no mundo atual, no final das contas, vários problemas estarão sendo resolvidos, de pouquinho em pouquinho, né? Cada um faz a sua parte. Michael Moore que o diga.

E foi com essa mentalidade que eu entrei de cabeça na defesa dos tubarões, esses animais que injustamente as pessoas têm mais medo do que compreensão do seu ecossistema, comportamento e biologia. O tubarão é um mito. As pessoas querem salvar o panda, os tigres, a onça pintada, e mais uma lista enorme de bichos. Mas quando citamos os tubarões… “Ah! Mas eles são predadores, matam pessoas!” Então, vá você invadir o território de um tigre ou onça pintada pra ver o que acontece com o seu corpinho querido. É o mesmo raciocínio. E principalmente, no caso dos tigres você vai lá onde eles estão, conta e vê que a população está diminuindo. O tubarão, por viver na água (esse ambiente etéreo, esse lugar que a maioria das pessoas não frequenta), não é visto dessa forma: afinal, no mar, a sensação é de que o estoque de animais é infinito. Pois não é.

Mas na Ásia, a situação piora e complica. Aqui, o tubarão não é visto só como predador: ele é visto como comida, e da melhor qualidade. Levando-se em consideração que a Ásia é o continente mais (super-)populoso do planeta, a pressão exercida sobre as populações de tubarões é simplesmente gigantesca. É claro, tem também a pressão econômica: comércio de barbatanas dá dinheiro – e não é ilegal, pelo menos na maioria dos casos. Mas por não ser ilegal, não significa que a legalidade dessa ação esteja completamente de acordo com o bom-senso, né?

E morando aqui na Coréia do Sul, sendo bióloga (molecular, mas isso é mero detalhe), mergulhadora, e tendo visitado as diferentes Chinas, achei que seria interessante colocar aqui essas fotos do que eu sugiro (do ponto-de-vista mais pessoal possível, entenda-se!) que seja o “CICLO DE MORTE DE UM TUBARÃO NA ÁSIA”. Nem que seja para uma limpeza de consciência minha, do tipo “estou fazendo um pouquinho pela causa em português”. Veja só:

1) O tubarão está no mar, totalmente na dele, e é pescado. Aqui, a forma como ele é pescado não interessa: ele pode vir no meio de uma rede de arrasto de outros peixes, ou pescado exclusivamente (pesca intencional). Normalmente, não é permitido pescar tubarões intencionalmente, mas a brecha da legislação para a pesca é o que chamamos de “bycatch”, ou pesca casual, um problema ainda sem solução plausível. Infelizmente, as redes e artefatos pesqueiros ainda não tem uma tecnologia adequada o suficiente para deixar passar tubarões ou salvá-los, e eles terminam sendo pescados junto a outros peixes. A maioria dos países (inclua-se aqui o Brasil) têm leis permitindo que uma pequena porcentagem de bycatch seja trazida do mar para uso humano – mais um entrave burocrático a que a sobrevivência dos tubarões está sujeita.

2) Os tubarões são desembarcados em um porto – no caso da foto, porto de Suao, na costa leste de Taiwan, um dos maiores portos de “casuais” descarregamentos de “pesca exótica” da Ásia, e entenda-se por “pesca exótica” animais como tubarão-baleia (espécie ameaçada de extinção!), tubarões thresher (de profundidade), cetáceos em geral (baleias, golfinhos, etc. que estão também nas listas de “ameaçados de extinção”) e, claro, as demais espécies de tubarão.

Ao chegarem em Suao, os tubarões são enfileirados no porto, processados, e/ou enviados para comércio. Reparem no detalhe de que os tubarões da foto já estão TODOS sem as barbatanas, pois estas são retiradas em geral ainda nos navios de pesca, em alto-mar. A barbatana é o subproduto mais valioso de um tubarão na Ásia.

3) Os tubarões são processados ainda no porto. Alguns (em geral os de menor “valor”) ficam por lá mesmo, sendo vendidos no comércio local, como esses filhotes nessa bacia no mercado do porto de Suao.

Acima, a pessoa está processando carne de tubarão-baleia, uma espécie que lidera a lista de extinção no mundo dos tubarões, um bicho que chega a medir 18m de comprimento e vive em lugares rasos. O tubarão-baleia é conhecido pelos taiwaneses como “tofu shark” por causa da aparência de sua carne branquinha com o tofu feito de soja. Devido ao valor econômico dessa carne, é muito provável que a mesma seja exportada ou enviada para outros locais da Ásia, pouco ficando no comércio local. Mas note que a pessoa tem várias caixas de plástico (todas cheias de carne) para processar ainda!

4) Os tubarões são encaixotados para envio ao comércio de outros locais da China e do mundo. Pra ser sincera, essa foto do tubarão encaixotado nós fizemos em série, são inúmeras, e tinha sangue em volta ainda, um verdadeiro cirquinho de horror. Eu acho das mais chocantes, me assusta e dói fundo olhar pra isso, porque parece que o bicho ainda está vivo, implorando pra viver. Mas não está mais. Ao vivo, a situação foi me dando uma revolta enorme, eu fui ficando de mau humor e com vontade de explodir aquele porto e dar outro emprego decente pra toda aquela população que vive desse comércio. Porque não dá pra punir e não dar alternativas as pessoas que vivem disso, né?

Acima, a mandíbula de um tubarão à venda como artefato de decoração numa loja em Hong Kong, a cidade por onde uma boa fatia dos tubarões assassinados do mundo vai parar.

5) As preciosas barbatanas, depois de devidamente secas e processadas, são vendidas em lojas de produtos naturais espalhadas pela Ásia e demais locais do mundo. A loja da foto fica na Dihua Street, rua tradicional de Taipei onde uma grande feira de produtos naturais se estabelece diariamente. Mas toda cidade da Ásia tem a sua análoga à “Dihua st.”: em Hong Kong chama-se Des Voeux St., por exemplo. Abaixo, a foto da sopa de barbatana no menu de um restaurante chiquérrimo em Hong Kong. A sopa custa cerca de 100 dólares, mas os preços variam de acordo com a quantidade de barbatana na mesma, é claro.

A problemática da sopa é muito mais complexa do que meramente alimentar-nutritiva. Aliás, até hoje, NADA foi mostrado pela ciência de que a barbatana tenha de especial, embora muitas pessoas tradicionais continuem acreditando no poder afrodisíaco TEÓRICO dela. Muito mais que isso, a sopa de barbatana representa status, e é fácil ser encontrada em qualquer jantar de negócios como demonstração de poder, de dinheiro, e como indicativo de bons acordos. É servida em casamentos, também como forma de dizer “será um casamento feliz” – e imagine quantos casamentos se realizam diariamente só na China! E qualquer restaurante que se preze, que quer ter um título de qualidade num Frommer’s da vida, servirá a sopa de barbatana. Portanto, a pressão para que o comércio de barbatanas continue é infinitamente maior que a pressão para salvá-lo. E como a oferta de barbatanas ultimamente tem aumentado – a pesca predatória aumentou muito – os preços da sopa têm caído (!!), tornando a situação mais caótica ainda: um produto que antes era ligado aos mais abonados, ao alcance de toda uma população de chineses, sedentos de mostrarem que têm dinheiro para tal iguaria. Algo como se de repente todos os brasileiros pudessem comer caviar todos os dias.

Mas… por que mesmo salvar os tubarões, hem? O que de tão importante eles têm ou representam para que mereçam ser salvos? Qual a diferença entre salvar um tubarão e um atum, por exemplo, que também é um peixe grande, caçado e altamente comercializado?

Antes de mais nada, é preciso entender que o tubarão está para o ecossistema marinho assim como o tigre, a onça e o leão estão para o ecossistema terrestre: eles são o topo da cadeia alimentar, ou o centro da teia alimentar, o último predador. O que mais acumula nutrientes e detritos dos demais abaixo deles. E se eles desaparecem, é provável que a estrutura seja afetada de forma irreversível, entre num caos sem volta. E se o ecossistema marinho colapsar, amigos, eu não quero estar aqui pra ver isso… Se pequenas modificações como esbranquiçamento de corais levam a verdadeiros desertos subaquáticos (quem mergulha pelo Pacífico sabe que essa é uma dura realidade) que levam à depletação completa de recifes inteiros, seus animais desaparecem – impactando as comunidades pesqueiras da região, ou seja em última análise, o homem local – imagine uma situação hipotética em que uma boa parte dos oceanos fosse depletada de recursos marinhos! É o colapso da atividade pesqueira, da sobrevivência de muita gente, de economias de países inteiros. Sei que vai soar estranho, mas eu acho muito mais vantajoso e inteligente manter o tubarão vivo e continuar pescando o atum (que não é sempre o topo da cadeida alimentar), do que pescar os dois, sendo um deles um animal que está sempre no topo da cadeia alimnetar. Por mais catastrófico que esse parágrafo inteiro soe – vai ter sempre alguém que vai dizer “Você está exagerando, não?” – eu prefiro imaginar o pior e lutar para que ele não aconteça, do que achar que a situação está sob controle (não está!), cruzar os braços, e esperar tudo chegar numa condição insustentável e IRREVERSÍVEL.

Sempre detestei o ecoxiismo do Greenpeace, pois achava que a política deles muitas vezes era “defender a natureza por defender”, sem pensar muito nas pessoas envolvidas no processo, e na complexidade das situações diversas por onde eles se metiam. E por usar ações exibicionistas para resolver problemas que muitas vezes com diálogos e diplomacia seriam mais bem resolvidos. Entretanto, não encaro a luta pela sobrevivência dos tubarões um ecoxiismo à la Greenpeace. Considero uma necessidade urgente para sobrevivência da nossa espécie, se quisermos ganhar a tão mal-interpretada “luta pela sobrevivência” de Darwin. Se não quisermos ver mais gente passando fome e morrendo de doenças do subdesenvolvimento. Sendo nós, humanos, dotados de razão e inteligência, os maiores (talvez os únicos) predadores do maior predador marinho, nós é que precisamos mudar de atitude e deixar os tubarões em paz no mundo deles. Porque eu quero que os seus e os meus filhos, netos, e demais gerações futuras sintam o prazer que eu tenho ao ver isso aí embaixo.

Tudo de bom sempre pros tubarões do mundo.

**************************

Não é viagem na maionese, mas vale viajar…

– Eu recomendo uma visita carinhosa e detalhada ao site da WildAid. É uma ONG que luta de forma muito mais eficiente que o Greenpeace e demais pelos problemas de conservação da natureza no mundo. Uma das campanhas deles, é claro, é de conscientização sobre a caça e comércio de tubarões. Leiam se possível os relatórios do site. Vocês perceberão que atualmente a América do Sul (Brasil, incluído) é um dos maiores fornecedores de barbatanas do mundo. Portanto, o problema não está tão distante de nós como muitos podem pensar.

– Fomos a China por uma semana em fevereiro para passear e conhecer esse país tão fascinante, viagem que foi postada aos pouquinhos aqui no meu blog de viagens. Mas também fomos para ver alguns problemas mais de perto, e principalmente ver a situação dos tubarões por lá. Queríamos sair daquele beco: “Você defende, mas nunca esteve lá, nunca viu o que é o comércio de barbatanas, a quantidade de pessoas que dependem desse comércio para viver.” Pois fomos, e vimos sim. E isso não diminuiu a vontade de defender mais ainda, pelo contrário, só aumentou. Porque como dizia minha sábia avó: só não existe solução na vida pra morte! Pra todo o resto há solução.

– No aeroporto em Taipei, quando estava de saída indo para Hong Kong, fui abordada por uma mocinha do órgão de turismo com um questionário enorme sobre “aspectos da minha estadia em Taiwan”. Perguntas convencionais: onde você se hospedou, quais atrações visitou, o que mais gostou, etc. Ao final, ela disse que havia um espaço para um recado a ser deixado no questionário. Não pensei duas vezes e disse: “Stop killing the sharks.” E a mocinha, com cara de espantada com a resposta mais que inesperada: “Oh, do we kill many sharks?” E eu respondi: “A lot!” Pelo menos, deixei o meu recado.

– Reparem que eu não citei em momento algum o Japão, o país asiático com maior poder aquisitivo, onde as pessoas têm em tese mais dinheiro para frivolidades culinárias que dão status… Reflitam sobre isso.

– A maior parte dos lugares (certos) em que fomos para ver tubarões no comércio foi dica do Victor Wu, um dos colaboradores do WildAid, biólogo marinho malaio e ambientalista de categoria, amigo de faculdade do André. Obrigada, Victor, pelas dicas certas.

– Mais fotos de tubarões aqui.

Parada easy and light, depois da tensão da DMZ.

Life is Easy

A foto aí acima foi tirada pelo André em Apo Island, nas Filipinas, em setembro do ano passado. Foi enviada para um concurso do Atlantis Resort e concorreu na categoria “Life is so easy!”. E ganhou primeiríssimo lugar!

Se eu fosse largar minha carreira de cientista pra viver de “modelo subaquática” acho que eu estaria no sal grosso e na miséria. Pequenos detalhes, não é mesmo?… Como pseudo-experiência, afirmo: foi gostoso me sentir a “Gisele Bündchen depois da gripe”! Mesmo que por apenas alguns poucos minutos. (A pergunta que não quer calar: será que isso aumenta o score do meu currículo na ciência? hehehehehhehe!!)

E nada disso seria possível se não fosse a intuição submarina absurdamente perfeita aliada a um rigor fotográfico extremo do meu querido namorado. Parabéns!

(Pra quem quiser ver mais fotos/maravilhas subaquáticas – e não subaquáticas também! -, visite o site da Alamy, da Age Fotostock, ou da SeaPics, agências de estoque de fotos, para ter uma idéia melhor do trabalho dele. Eu gosto particularmente mais da Age, mas decidam por vocês mesmos. E recomendem as fotos quando precisarem, afinal precisamos pagar o leitinho do gato.)

A vida parece realmente muito fácil olhando pra foto…

Tudo de bom sempre.

*Mais fotos que o André tira no site dele: ArteSub.com.

Carimbo da estação de Dorasan no passaporte, simbólico da ida ao DMZ.

Como já havia citado anteriormente, a Coréia do Sul é um país acessível apenas por mar ou ar, embora esteja numa península no nordeste da Ásia. E esse impedimento de acesso por terra dá-se pela razão mais simples (ou complexa, como preferirem o nível da discussão) do mundo: o vizinho de cima é a Coréia do Norte.

Desde o armistício da Guerra da Coréia na década de 50 – armistício, sim, pois em tese a guerra não acabou ainda, não houve um tratado de paz assinado muito menos uma rendição de um dos lados – a península está dividida em duas, e numa maneira grosseira de ver a situação, representa a última fronteira da quase extinta Guerra Fria: o vizinho do Norte comunista, e a “ilhada” do Sul, capitalista.

Entre cercas de arame farpado duplas, uma guarita vigia a fronteira da DMZ do lado sul-coreano.

A chamada “Ponte da Liberdade”, por onde em tese os norte-coreanos ganhariam a liberdade – tenho certeza que o Bush adora esse nome de ponte…

De posse dessas informações geopolíticas básicas, acrescido do fato de que o vizinho do Norte decidiu sair das conversações de desarmamento sobre seus brinquedinhos nucleares há 2 semanas sem mais nem menos, partimos sábado passado para uma aventura na chamada Zona Desmilitarizada (em inglês, DMZ), região de 5 km de largura na fronteira das 2 Coréias. Em Seul, disseram-nos que a única forma de visitar a região era com um pacote turístico de um dia, informação que depois percebemos ser uma meia-verdade, pois todos os micro-ônibus de tour param numa estação chamada Imjingak, e agrupam-se em alguns poucos mega-ônibus, que terão permissão para entrar a área. Em tese, você pode pegar um carro ou trem e chegar até esse ponto, comprar ingresso pro ônibus “agregador” e visitar a DMZ. Embora chamada de Zona DESmilitarizada, é muito bom lembrar que a região está sob comando militar 100% do tempo, e você está sendo SEMPRE vigiado por um rifle. Portanto, nada de gracinhas.

Enfim, ficamos com o tour, que embora de natureza essencialmente política (ninguém vem pra DMZ achando que vai ver castelos e pessoas descontraídas ou uma natureza maravilhosa, né?), estranha pela ausência de discussão. As informações são passadas pelo guia com zelo e sem excessos. Imprensei à beça o coitado com inocentes perguntas socio-econômico-políticas de curiosidade mallística, e depois fiquei pensando que se um daqueles meus companheiros de excursão/soldados americanos fosse um agente da CIA, pode ser que eu nesse momento esteja sendo perseguida por sei lá eu o quê sem nem saber! Viagem na maionese…

Bom, de Imjingak, o mega-ônibus começa a andar e você passa por um posto militar, onde obrigatoriamente mostra o passaporte (sim, parece que estamos saindo do país, mas não estamos), e entra na DMZ propriamente dita. O tour é bem restrito. Como tudo ali é área militar, poucas “atrações” são visitadas, e em boa parte delas você é proibido de tirar fotografias. O ápice do tour é andar por um dos túneis que foi encontrado no fim da década de 70 e estava sendo escavado pelos norte-coreanos para uma futura invasão do Sul. Um túnel super-úmido, baixinho e fundo, bem fundo. Ao total, até hoje descobriram 4 túneis na fronteira, e o exército sul-coreano/norte-americano estima que hajam mais uns 20 por aí. Uma peneira essa DMZ.

Próxima parada: Pyongyang! No dia que um trem sair com esse destino da estação de Dorasan, o mundo com certeza será um lugar melhor, e teremos mais esperança no futuro…

 

Do túnel vamos pra o Observatório de Dora, onde podemos ver a mais alta bandeira hasteada do mundo (da Coréia do Norte, é claro) e a cidade-propaganda da Coréia do Norte: uma cidade toda falsa, ninguém mora lá, mas era usada no passado para “atrair” sul-coreanos que quisessem mudar-se para a “tranquila e feliz vida” no vizinho do Norte. Além disso, dá pra ver um pedaço da terceira maior cidade Coréia do Norte, e a cidade de Panmunjom, onde as negociações de paz são feitas. As fotos dessa vez são permitidas, mas altamente monitoradas, e de ângulo algum você consegue registrar a enorme cerca de arame farpado da DMZ. E precisa de uma lente telefoto daquelas pra conseguir enxergar qualquer coisa do lado de lá.

E a última parada do tour é na estação de trem de Dorasan, que está sendo construída pela Coréia do Sul para, no evento de uma possível reunificação, ligar Seul à Europa, por trem através da Trans-Siberiana. Já pensou? Eu vou querer fazer essa viagem!! E a primeira parada depois de Dorasan será… Pyongyang, a capital da Coréia do Norte!

Soldados no Observatório de Dora, de onde ficam de butuca nos vizinhos do Norte.

Enfim, depois de dar adeus a essa região tensa e problemática, como boa “malla” não consegui ficar sem discutir política. E me fiz várias outras perguntas, e conversei com André, e li um pouco mais. Sabemos que os coreanos querem no fundo a reunificação, a ninguém interessa isso mais que eles. Mas a situação na península é delicada, pois reunificam-se, e aí? Sob que regime político? Aceitar o capitalismo bushista é a última coisa que o seu Kim do Norte quer – e com uma certa razão, viu… E a China, nessa história toda? É o país que mais ajuda financeiramente a Coréia do Norte, em troca de… sabe-se lá o quê! (Aliás, os brasileiros podem visitar a Coréia do Norte entrando pela China, nunca pela Coréia do Sul. Americanos, NEVER NEVER.)

Fato é: o cara tem um exército enorme (de famintos) e a única arma que ele tem pra não ser escrachado, escurraçado da mesa de negociações do planeta são as bombas nucleares. Enquanto a prepotência do discurso da D. Rice continuar imperando, Seul continuará em alerta, visto que é o alvo perfeito (13 milhões de habitantes!) para um devaneio neurótico do “Grande Líder”.

Tudo de bom sempre. Assim espero.

Viajando na maionese…

– O dono da Hyunday é um norte-coreano. Não sei se ele fugiu ou migrou simplesmente pro Sul de alguma forma, mas foi ele quem financiou a construção da rodovia que liga as duas Coréias, por onde a Coréia do Sul envia diariamente muita comida, medicamentos e materiais de construção para os “irmãos” do Norte.

– Durante o feriado de Ação de Graças (que aqui é em setembro), as famílias separadas pela política podem se rever por 3 dias. A cada ano esse encontro intercala-se: um ano em Seul, outro ano em Pyongyang. É a única chance para muitos de rever familiares próximos. E a TV adora ficar no ar com cenas de choro entre famílias…

– Se você está interessado em ver um bom filme sobre a situação das Coréias, veja “JSA – Joint Security Area”. Filme do sul, que assisti com legendas em inglês. Fala de neutralidade, e é um soco no estômago pros dois lados dessa moeda corroída.

– O lado bom da DMZ: como a região está intocada a mais de 50 anos, cheia de minas terrestres, os únicos que têm passe-livre são animais e sementes de plantas. Várias espécies ameaçadas estão tranquilinhas da silva, crescendo e se multiplicando nesse mega-parque ecológico forçado…



Booking.com

Lucia Malla de volta à China.

Considerando a “família China”, até agora mostrei a faceta tranqüila e calma, aquela que almoça aos domingos e dá risadas em conjunto. Mas nessa família, tem uma filha rebelde, e é a ilha de Taiwan (também chamada de Formosa).

O Brasil não mantém relações diplomáticas com Taiwan, para obviamente não melindrar a super-potência China. Afinal, a situação política da ilha é delicadíssima: quer se tornar independente da China, que por sua vez não aceita isso. Então, o que vemos é essa confusão imigratória: você precisa de um visto para entrar num país que, em tese, não é um país ainda. Nessa bagunça toda, é claro, os EUA estão envolvidos: vendem (de forma não-declarada, entenda-se) armas para as guerrilhas taiwanesas, fomentando sua sede de independência – para desconforto da mãe China. E como país nenhum do mundo quer comprar briga com a China (detentora de um exército de milhões e algumas bombinhas nucleares extras), a imparcialidade governa e vai-se vivendo.

Majestosa arquitetura do Opera House de Taipei.

 …e nas ruas, um mundo de vespas, o meio de locomoção por excelência em Taiwan!

Além dessa bagunça política, Taiwan ainda tem a “excelente” fama de ser um dos países (?) mais agressivos na caça a tubarões e outras preciosidades marinhas ilícitas de serem pescadas. Taiwan, estaria, assim dizendo, liderando a lista-negra de qualquer ONG ambiental. E eu, Lucia Malla, adentrei Taiwan com esse pé-atrás, essa coisa mineirística-desconfiada: estou entrando na terra do inimigo, um país que nem o meu país de cidadania reconhece! Ah, como eu estava enganada…

Taipei (a capital da ilha) é simplesmente uma cidade fantástica. Assim que comecei a andar pelas ruas, me senti andando em Copacabana, pois a arquitetura dos prédios no centro tem aquele ar típico e nostálgico da década de 50/60. Quer dizer, quase Copacabana, se não fossem as incontáveis vespas (ou mobiletes) espalhadas por todas as ruas e com direito a estacionamento especial em todas as calçadas. E que cidade organizada! Um sistema de metrô excelente, limpíssimo, eficiente e moderno. Em nada lembrando uma cidade suja, a primeira idéia que eu tinha na cabeça antes.

Vista geral do Memorial Chiang Kaishek no centro de Taipei.

Numa bodega na praça de alimentação do Taipei 101, onde o cozinheiro preparava os pratos em frente aos clientes, algo que eu adoro – esse lado lúdico de comer!

Não bastasse toda a organização do sistema de transporte público, as pessoas me conquistaram por lá, com seu calor humano e olhar alegre. Não sei explicar, mas me senti mais confortável naquela “Ásia cariocada”. Visitando o centro da cidade, conhecemos o Memorial Chiang Kaishek, feito em homenagem ao líder da insurreição que trouxe a condição política esdrúxula que a ilha-país vive. Nesse memorial-parque, estão também os 2 prédios da Opera House (um está na foto lá em cima): os 2 prédios são exatamente iguais, um de frente pro outro, e em um só tocam sinfônicas e orquestras ocidentais, e no outro, só orientais. Separando as culturas sem dó.

Mas é quando chegamos ao centro novo de Taipei que a gente se impressiona de verdade. Não dá pra não babar. É cada prédio mais moderno que o outro, cada rua mais bonita que a outra – e é nessa profusão de modernidade que está a recém-inaugurada (31/dez/2004) jóia de Taipei: o Taipei 101.

O Taipei 101 de dia e de noite, com a iluminação em arco-íris que lhe é peculiar.

Uma escultura em forma de boca (ah, Salvador Dalí se revirando…) iluminada numa das ruas do centro novo.

Um prédio moderno com uma horta na frente – aproveitando todo e qualquer espaço disponível para algo útil.

Taipei 101 é o edifício mais alto do mundo atualmente, além de se auto-intitular o mais seguro (vi um programa no National Geographic Channel sobre ele, realmente é de espantar a rapidez com que é evacuado em caso de emergência). A idéia do prédio em vidro é parecer um bambu, planta tão ligada aos orientais. Parece, mas eu diria que ele é melhor como monumento à grandeza, única e simplesmente. 101 andares de pura estética contemporânea, sustentados por uma estrutura esférica enorme no centro (600 toneladas), que diminui as vibrações do prédio frente aos possíveis ventos. O observatório para visitantes fica no andar 89, e não é recomendado para os que têm medo de altura. O visual é interessante, uma cidade aos seus pés. Imagino que fosse a mesma sensação de subir no finado World Trade Center, experiiencia que nunca tive e nunca terei por razões óbvias. Nos primeiros 5 andares, funciona um shopping center, com uma das melhores praças de alimentação que já visitei na vida: eu queria ter 30 estômagos pra poder provar de tudo um pouco naquele lugar, pois tudo tinha um toque de comida chinesa da boa. Deu água na boca só de lembrar dos cheiros!

A emoção de entrar num elevador e ir do 5 ao 89 em menos de 40 segundos: Taipei 101, esse é o endereço.

Em Taiwan, ainda, visitamos a cidade-porto de Suao, onde desembarcam grande parte das pescas ilícitas da ilha. Mas como essa é a parte feia da história, eu conto outra hora. Por enquanto, fiquem com a Taiwan dos sonhos: rebelde só no papel, e simpática e bem-cuidada na prática.

Tudo de bom sempre.

Página 155 de 162« Primeira...153154155156157...Última »