Esse fim de semana faremos uma viagem curta e rapidinha a Busan, costa leste da Coréia do Sul, para visitar o Aquário de lá, e aproveitar pra dar um alô bem de pertinho aos meus amigos mais queridos. Voltaremos no domingo à noite com fotos. Iremos de trem-bala, o KTX, inaugurado no ano passado, tecnologia baseada no TGV francês – é óbvio que os coreanos não vão importar a tecnologia japonesa, né?

Enquanto eu estarei fora (mesmo que por apenas 2 dias), a blogosfera está pipocando de discussões boas, que valem a pena dar uma “bisoiada”:

1) A Roberta Febran está relatando sua experiência com a diabetes tipo 1, na série especial “Doces Emoções”. Imperdível! É o tipo de relato que raramente a gente encontra por aí, a não ser que você conheça alguém que é diabético tipo 1. E eu falo de cadeira: pesquiso diabetes, e não é nada fácil achar alguém que se disponha a falar sobre ser diabético, sobre a patologia de uma perspectiva pessoal.

2) O Cláudio está coletando informações sobre pessoas patologicamente ciumentas, para uma palestra. Se você é um ciumento, ou conhece algum caso, ajude-o. (Só um pesquisador sabe o quanto a coleta de dados pode ser a parte mais difícil da pesquisa!)

3) O Idelber, dono de um dos blogs mais movimentados da atualidade, está suscitando a discussão sobre cotas para negros nas universidades brasileiras. Se você é a favor ou contra, e quer expressar sua opinião, lá é o lugar. Vá num clicar de mouse!

4) E um “apelo” final: será que o SERPRO não pode liberar o computador do Barnabé pra acesso ao Blogspot lá em BSB? Saber que o blog dele está ameaçado de extinção por causa de… (do quê mesmo?) É de doer o coração.

Um bom fim de semana a todos. E tudo de bom sempre.

Viaje na maionese com essa notícia da Coréia:

– Em Seul, quarta passada, seis elefantes fugiram de um parque de diversões. Eu não estava lá para fotografar esse momento bizarro – lástima. E de acordo com um amigo coreano nosso, não foi a primeira vez que eles fugiram… Cenas bizarras do cotidiano.

Há algum tempo, eu e 5 amigos de faculdade começamos a trocar emails, em geral perguntando notícias de cada um, visto que morávamos em cidades diferentes. Nada mais normal entre amigos. Como entretanto não somos um grupo normal e sim um bando de loucos apaixonados/obcecados pelo estudo da vida (e trabalhando cada um em uma área diferente), esses emails logo deixaram de lado o caráter estritamente pessoal e se tornaram conversas desinteressadas sobre… biologia. E desde então, esses 6 indivíduos malucos (que se tratam por codinomes/apelidos os mais esdrúxulos possíveis e apelidam também os lugares por onde passam e cenas que vivem, criando um dialeto inalcançável aos demais ao redor) trocam emails frequentes sobre diversos aspectos profissionais, práticos, teóricos, acadêmicos, filosóficos e viajantes da carreira de biólogo e da carreira de ser vivo na Terra. Conhecimento aleatório.

Na última série de emails, a discussão tem ficado em torno de evolução molecular, ou mais claramente, a origem da vida na Terra. Não quero colocar aqui as idéias profundas e detalhadas que têm sido suscitadas – afinal, ainda quero ser considerada pela sociedade uma pessoa com as faculdades mentais intactas – mas não posso deixar passar o fato da minha completa desatualização a respeito de conceitos modernos da Biologia. Melhor dizendo, minha ignorância. Após quase 10 anos de formada, sinto que preciso de uma reciclagem profunda em vários conceitos.

O primeiro termo desconhecido que veio à tona foi o de LUCA. Que raios é LUCA? Um dos emails clarificou a idéia: sigla em inglês de “Last Universal Common Ancestor”, ou em boa tradução, o “último ancestral comum do universo”. O ser vivo (ou não) que gerou todas as demais formas de vida que vemos hoje. Campo fértil de especulação, é o conceito onde ciência e crenças supra-naturais se esbarram, confrontam-se, esperneiam, e atiram a primeira pedra. É de onde sai, em última instância, toda a base filosófica para as batatadas do “design inteligente” e para os questionamentos científicos reais à teoria darwiniana. Enfim, meu primeiro choque de desconhecimento total.

A idéia do “LUCA” trouxe outra realidade mais assustadora: eu não sabia a atual divisão geral dos seres vivos. Que bióloga sou eu que não tinha essa informação atualizada na ponta da língua???? Já havia me deparado com suspeitas de que alguma coisa tinha sido profundamente alterada, mas não me passava pela cabeça que essa mudança foi consequência da mudança teórica especulativa sobre a própria origem da vida. Traduzindo em miúdos: no passado remoto e enterrado, tudo se dividia entre os reinos mineral, vegetal e animal. Aí veio Lineu, com sua organização taxonômica clássica, e categorizou mais claramente os grandes reinos, prestando mais atenção às diferenças morfológicas entre espécies e implantando inclusive o sistema de 2 nomes em latim que usamos até hoje para definir espécies como em Homo sapiens. Quando estava na faculdade, há 10 anos, aprendi que havia 5 reinos de seres vivos: bactérias, protozoários, fungos, animais e plantas. Pois bem, hoje isso acabou. Tudo que é vivente está englobado em uma das 3 divisões: bactérias, arqueobactérias e eucariotos (com células possuidoras de núcleo definido, ou seja, material genético compartimentalizado). A mudança veio a partir dos avanços da biologia molecular, da genética, da melhoria das técnicas de categorização e morfologia, que possibilitou reformular a organização anterior, cheia de falhas e questões. Nunca teremos uma divisão perfeita, visto que quanto mais de perto olhamos para a diferença entre espécies, mais difícil é para separá-la com clareza. Mas já é uma melhoria organizacional, sem dúvida. Subimos um degrau na escada do conhecimento, e eu nem sabia.

E hoje à noite, o ciclo de desconhecimento se completou ao ligar a TV. Assisti a um documentário do National Geographic sobre evolução humana – todas as novas teorias, especulações e idéias estavam lá, mostrando que a idéia de que nossa evolução monofilética está cada vez mais separada da realidade do que provavelmente aconteceu. Espécies que eu nunca tinha ouvido falar surgiram na minha tela, com paleontólogos, arqueólogos e geneticistas comprovando a existência, esfregando aquela informação na minha cara. Um verdadeiro curso básico de evolução humana, que eu definitivamente estava precisando pra desempoeirar.

Não parou por aí. Bastou eu ficar mais intrigada ainda e procurar me atualizar em campos onde não mais atuo para constatar o quanto estou deixando de conhecer a biologia que aprendi na faculdade. O quanto a ciência mudou – algo inevitável, diga-se de passagem. E para cada novo conceito que surge, precisamos manter a cabeça aberta, não deixar os preconceitos, dogmas e idéias rançosas e empoeiradas do passado fixarem no cérebro impedindo o novo de entrar. O novo conceito não é isento de crítica, é claro – a crítica é a base do método científico – mas assim que a hipótese é aceita por experimentação dentro desse próprio método, ela precisa ter um terreno fértil e livre para se ampliar, se memetizar. Não encontrar as barreiras de preconceito. Talvez seja preciso rever os métodos científicos – provavelmente outro campo em que ando desatualizada, a filosofia da ciência. (Thomas Kuhn ainda dita idéias?)

A constatação de que a quantidade de informação hoje é infinitamente maior que a capacidade de assimilação em tempo hábil do mundo ao redor me assusta. A biologia é o meu exemplo pessoal, porque é o que eu vivo, mas não sou ingênua de pensar que sou a única a enfrentar esse dilema, e de que ele não exista em outros campos da vida. Constatar que o nosso limite de assimilação é finito gera um incômodo intelectual, cuja solução parece ser apenas estarmos abertos a novas idéias, livres de preconceito, e principalmente, sabendo que aquela máxima antiga é ainda a mais verdadeira: só sei que nada sei.

Tudo de bom sempre.

Essa semana, houve uma reunião da Comissão Internacional para Baleias em Ulsan, costa leste da Coréia do Sul, para decidir propostas gerais sobre caça às baleias. Como de praxe, baleia também é comida por aqui, e custa caro, é prato de grã-fino, etc etc etc. (O mesmo estigma da sopa de barbatana de tubarão, se vocês me entendem.) Houve vários protestos em Ulsan e em Seul, pois a proposta coreana especificamente soa meio surreal: criar um(a) ………………. (usina???? matadouro??? centro de processamento??? laboratório???) para fácil acesso a(o) fornecimento/coleta (???????) desses mamíferos. Como se você pudesse fazer um cercadinho ou um aquário e enfiar uma baleia dentro (ou várias!), e ela ficaria lá, tranquilinha nadando. Me engana que eu gosto. (Na realidade, acima de tudo, eles estão brigando pelo direito à caça das baleias, que está suspensa depois de muito lobby japonês. Vitória dos cetáceos!)

Eu prefiro nem comentar muito esse assunto, porque essa voracidade asiática em comer tudo que vem do mar – literalmente TUDO – é um traço cultural difícil de apagar, e tenho receio de que só será apagado quando for tarde demais: quando os grandes animais já tiverem sido extintos. Além do que a desculpa de sempre (“não sabemos ao certo como anda a dinâmica da população de baleias, elas podem estar em grande número, bla-bla-bla”) é para mim conversa para ruminantes dormirem ou para países poderem caçar à vontade um bicho que está ameaçado. Ou ainda a desculpa mais cara-de-pau de todas: vamos coletar apenas ALGUMAS baleias para pesquisa científica “séria”. Esse “algumas” torna-se logo um baleicídio. E engraçado que outros países pelo mundo (incluindo o Brasil) pesquisam baleias e nem por isso precisam coletar/sacrificar vários indivíduos… mas Japão, Noruega, Coréia, China e cia. ltda. precisam coletar o animal e sacrificá-lo, senão não conseguem fazer ciência. Por quê será, hem? Entenda essa lei do mais esperto como quiser.

Enfim, na tentativa de fazer um escarcéu contra isso, a novidade é que o Greenpeace blogou a semana inteira direto de Ulsan, onde montaram uma “Embaixada das Baleias”. A idéia é a cara dos protestos ecoxiitas do Greenpeace mesmo, e vale a leitura pela causa ambiental. (Aliás, o blog do Greenpeace é bem interessante e tenho me perdido por ele.)

Sinceramente? É difícil acreditar que um ser humano que veja essas cenas aí embaixo ao vivo e a cores, pela TV, pela Internet, por onde for, possa depois querer comer sua carne, por mais gostosa que seja. Baleias são bailarinas do mar, dançam em suas navegações pelo mundo… Deixem elas curtirem a vida em paz!

Susto no barco ao ver essa “visitante inesperada” pro almoço.

Tudo de bom sempre.

*Para mais fotos de baleias, visite a galeria da ArteSub.

Era uma vez… uma ilhota não tão paradisíaca no Pacífico sul chamada Nauru. 21 km quadrados. No passado, seus habitantes (como bons polinésios) eram grandes navegadores: cruzavam o oceano à bordo de seus barquinhos frágeis. Muitos morriam na jornada, de fome, inanição. Os poucos sobreviventes, ao voltar para a ilha, eram tratados como reis: heróis na comunidade, ganhavam todo tipo de regalia. Engordavam com toda a fartura a eles oferecida, e ser muito gordo era o esteticamente belo. Até a próxima jornada ao mar, quando retornavam ao sofrimento e inanição – tudo em nome da descoberta de novos vizinhos naquele oceano infinito. Aos que viviam em terra, sobrava pesca e agricultura de subsistência.

E assim viveram por muitos séculos. Até que os europeus encontraram Nauru em 1830, e logo os alemães tomaram conta, sendo seguidos pelos australianos. No início do século XX, descobriu-se que a ilhota possuía uma reserva inacreditável de fosfato de alta qualidade, usado como fertilizante na então emergente agricultura industrial. As Guerras Mundiais vieram, exploração do Pacífico, até a independência do país em 68.

Aí é que começa o caráter experimental, laboratorial, do lugar. A exploração do fosfato, antes sendo feita pelos britânicos, foi logo repassada para os nauruanos, que começaram a ganhar muito dinheiro com a venda do mineral pelo mundo afora. Sim, a ilha era toda uma grande reserva de fosfato, minas se proliferaram no local, e logo os nauruanos passaram a ser um povo muito rico. Tão ricos que chegaram a constar na lista de maior renda per capita do planeta por certo período na década de 70! O óbvio: quem tem muito dinheiro, investe e não trabalha mais, certo? Pois foi exatamente isso que eles fizeram.

Como cada nauruano era um rico de verdade – o país passou a ser administrado como uma grande empresa -, com acesso a fartura que só o american way of life consegue difundir tão fortemente, os nauruanos passaram a viver como marajás: não trabalhavam (contratavam trabalhadores de outras ilhas para a exploração de fosfato), compraram imóveis pelo mundo e viviam do aluguel desses lugares (um prédio inteiro no centro de Honolulu, por exemplo pertencia a Nauru, que alugava seus escritórios), comiam do bom e do melhor junk food pronto (claro, ninguém quer ter o trabalho nem de cozinhar, né?), e não mais se exercitavam, como na época em que navegavam, remavam pelo Pacífico. De tal forma que esse ciclo gerou o que na biomedicina virou uma história clássica: Nauru tem uma epidemia de obesidade e diabetes tipo 2.

Epidemias geralmente são causadas por agentes infecciosos: vírus, bactérias, protozoários e afins. Diabetes tipo 2 não é doença infecciosa. É uma patologia que reflete o estilo de vida associada à presença de genes suscetíveis – e isso tornou Nauru um laboratório em tempo real para vários estudos genéticos pela característica única da epidemia. Até hoje, os maiores índices de diabetes tipo 2 estão lá: cerca de dois terços da população economicamente ativa! Acredita-se que o estilo de vida dos nauruanos do passado selecionaram genes ao longo do tempo que permitissem a manutenção máxima de energia em seus corpos: claro, eles viajavam muito e passavam longos períodos com fome. Quando a comida passou a ser farta e de alto valor calórico, esses genes não entenderam a mensagem: continuaram guardando, estocando toda a energia no corpo dos nauruanos.

Mas fosfato é recurso natural não-renovável. E um dia, o fosfato de Nauru acabou. (Esse dia em tese será em 2006, mas já há pouquíssima exploração: não sobrou nada). A população, obesa e diabética, com uma expectativa de vida das menores do mundo, deparou-se então com um país cujo solo não se podia plantar mais – estava destruído pelas minas -, não produzia mais nada, dependia de serviços e alimentos estrangeiros, e com um dos maiores crimes ecológicos de que a história tem notícia. Ah! E sem perspectivas de turismo, pois de acordo com a opinião geral, é um lugar feio, sem nenhum atrativo que justifique a um turista médio se deslocar tão longe para passeio – lembre-se que 90% do solo foi fuçado e remexido, virou terreno morto. A destruição de uma ilha pela voracidade da exploração humana.

Na década de 90, após vender várias das propriedades do país no exterior na tentativa de manter o estilo de vida da população, ainda tentou um último suspiro econômico que não quebrasse todo esse ciclo vicioso: transformou-se num paraíso fiscal. Entretanto, logo grande parte do dinheiro da máfia russa passou a circular por lá, e Nauru, dependente de comida estrangeira, foi pressionada a acabar com a lavagem de dinheiro.

Hoje Nauru, um mercado consumidor sem capital, endividada pelos vários empréstimos, está em falência total: declarou estado de emergência em 2004, e dependerá agora da benevolência da ONU ou sabe-se lá de quem para sobreviver decentemente. Isso se o nível dos oceanos não subir antes, é claro – Nauru será um dos primeiros países a desaparecer da Terra, nesse caso.

Os nauruanos não viveram felizes para sempre, como o conto de fadas deles imaginava.

Tudo de bom sempre.

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Viajando na maionese…

– Será que se a gente trocar o fosfato pelo petróleo, podemos utopizar que vivemos num macro-Nauru? Em que estágio estaremos, nesse caso?

– Veja um mapa de Nauru aqui. – Se você procurar pela culinária nauruana… sente e chore. A comida típica deles é MacDonald’s.

– Poucos diabetólogos estudam profundamente a população nauruana, na tentativa de encontrar genes que estejam ligados à predisposição de diabetes tipo 2. Algumas dessas pesquisas já renderam bons frutos, auxiliando indiretamente o desenvolvimento de melhores drogas ou tratamentos. Ou pelo menos aumentando o nosso conhecimento sobre a patologia que rouba 100 bilhões de dólares anuais do orçamento nos EUA.

Andei circulando por aí. Como pessoa que sempre quer ver o lado positivo da vida, constato que tem muita coisa boa sendo escrita pelas teias virtuais. E aí vão algumas anotações das últimas viagens que me conquistaram, algumas com atraso, mas o que vale é a diversão da blogagem.

1) O post do Claudio sobre criança é um verdadeiro soco no estômago na consciência da gente. Maravilha quando a gente lê algo que nos faça pensar um pouco que seja na nossa existência humana. Idem para o post da Denise sobre o direito de amamentação das mulheres. Uma necessidade de leitura e reflexão. E se a palavra é refletir sobre a situação do Brasil, boa oportunidade para tal é ler o post da DaniCast sobre legalização de profissões misturado à problemática da super-tributação brasileira. Vale a pena mesmo.

2) Se a palavra é ousadia, os blogs da Mônica, da Tata e do Marcus se uniram e escreveram um texto a 6 mãos, publicado simultaneamente. Divertido e interessante. Uma experiência blogo-virtual que deu certo.

3) Se é pra dar risadas nerds, não perca o cálculo matemático para descoberta da data da Páscoa, no blog “Física na veia”, no post “Astronomia e Páscoa: tudo a ver!”. Ainda estou com a barriga doendo de tanto rir – mas isso talvez seja porque meu lado nerd aflorou com força total… dêem um desconto, ok?

4) Falando em ciência, não dá pra não se orgulhar de ver um pedaço (microscópico que seja, mas está lá!) da história da ciência brasileira nas páginas da Science dessa semana. O slideshow é geralzão, e bem apresentado. A Science, para quem não sabe, está completando 125 anos de existência e de “ciência global”, e a comemoração é dessa forma: mostrando a ciência em países fora do mainstream da ciência. Muito boa iniciativa – mas o que esperar da melhor revista de divulgação da ciência do planeta, não é mesmo? (Empatada com a Nature, é claro, minha predileta desde sempre.)

5) Eu atrasadésima na notícia, mas preciso dizer que a jornalista adorada Leila me deu o gancho, e eu fui atrás da informação: o tubarão branco que estava no Aquário de Monterrey foi liberado de volta ao mar. Decisão mais que acertada. Era o único tubarão branco em cativeiro do mundo, e de acordo com os biólogos do Aquário, ele estava predando os companheiros de tanque, após meses em exposição real e via web – sim, tinha uma webcâmera onde as pessoas podiam acompanhar 24h o bicho nadando no aquário através do site. A câmera ainda está lá, e vale a pena viajar naquele azul artificial. Vale ressaltar que durante a sua estadia no Aquário, o tubarão foi um excelente alvo de programas de educação ambiental com o intuito de ACABAR com essa fama execrada que titio Spielberg ajudou tanto a construir com seu clássico tubarãonístico. E o Aquário já pensa em arrumar outro. Se é pra melhorar a qualidade de vida dos outros tubarões que estão aí fora no oceano sendo pescados e massacrados diariamente, é bem-vinda a idéia de mais um branco no aquário. Crianças conscientes podem gerar adultos mais respeitosos com essas criaturas maravilhosas.

6) Consciência do futuro do nosso planeta é a preocupação número 1 da UNEP, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. No ano passado, meu fotógrafo predileto inscreveu-se num concurso deles, o “Focus on your world”. Mais de 30,000 fotos depois, saiu o resultado. Só ganhamos experiência dessa vez, apesar da torcida incessante. Mas vale MUITO a pena dar uma olhada nas fotos vencedoras, todas de uma qualidade artística de dar gosto. Um dos prêmios especiais foi para a foto daquela baleia jubarte encalhada em Niterói no ano passado.

7) E eu não posso deixar de registrar aqui algumas notícias vindas do Nepal – visto que eu estou torcendo pela equipe brasileira na tentativa de escalada do Everest. As notícias dos brasileiros continuam confusas: Waldemar Niclevicz tem relatado o diário de viagem no seu site, e já chegaram ao topo do Mera Peak, parte do treinamento deles pré-Everest. Entretanto, recebi um email de uma companhia de montanhismo dizendo que são na verdade 8 brasileiros tentando dominar a montanha mais alta do mundo, entre eles uma expedição sem oxigênio suplementar, o que, caso seja verdade, colocaria o Brasil numa excelente posição no montanhismo mundial. E a toda essa informação, o site oficial das expedições do Everest passa batido… O que será que está se passando com os brasileiros? Por que não chegaram a avisar o EverestNews? Bom, eu continuo de orelha em pé, aguardando notícias de todos os brasileiros, e de Will Cross, o diabético americano que também está no jogo nessa temporada. É continuar torcendo, cada vez mais.

8) E é do Everest que vem a síndrome do “primeirão da fila” da temporada. O acampamento-base no lado tibetano abre todos os anos no dia 05 de abril. E não é que nesse ano teve um alpinista que chegou mais cedo? Bom, como loucos se entendem bem, óbvio que o cara não ficou desabrigado a 5,000 m de altitude, e foi o verdadeiro “primeirão” a chegar pra esta temporada de escaladas…

9) Pra finalizar, aos curiosos de plantão interessados nas minhas opiniões viajantes, saiu uma entrevista que a Karla Brunet, do site-projeto-documentário online “Identidades” fez com… a Lucia Malla! Espero que gostem.

Tudo de bom sempre.

No início, era a sopa primordial. E nela estavam as moléculas que um dia, aleatoriamente misturadas, formaram as moléculas da vida, usando as superfícies rochosas como catalisadores de reações químicas básicas do processo. Eis que depois de alguns milhões de anos, surgiu a primeira célula, a protocélula. Muito simples, sem complexas elaborações. Evoluiu. Sofreu pressões. Até que um dia o mundo estava povoado de bactérias, derivadas dessa protocélula. E da bactéria para os seres humanos, mais pelo menos 3 bilhões de anos se passaram. Sempre o mesmo processo: aparece uma mutação ao acaso, confere um maior valor adaptativo ao ser vivo, é selecionada (ou não), passa aos descendentes, fixa-se na população. Esse processo,going on and on and on, é a forma pela qual chegamos aqui, hoje, Homo sapiens sapiens, nesse mundo azul. É o processo de evolução natural.

Embora pareça simples, a teoria da Evolução é a idéia mais bombardeada da ciência desde que Darwin a cunhou após sua viagem de volta ao mundo no navio Beagle – Darwin era um sortudo por poder viajar a torto e a direito. Mas essa idéia, base de qualquer pensamento biológico (desde porque o olho existe passando pela origem da vida e pela extinção dos dinossauros, para citar casos mais famosos), é atacada por todos os lados possíveis – e os impossíveis também.

Quando entrei na faculdade de Biologia na Universidade Federal de Viçosa, no interior de Minas Gerais, eu não tinha a menor idéia da responsabilidade que eu estava abraçando para mim. Entender o fato da Evolução, e principalmente saber lidar com as críticas a essa teoria de forma sensata e científica, são talvez os desafios máximos dos bons biólogos, aqueles que fizeram e fazem a diferença na história da biologia e das grandes descobertas.

Em meu terceiro período na faculdade (aquele em que você é bombardeado por bioquímicas e estatísticas da vida), apliquei (correção: candidatei-me) para uma bolsa de estudos num programa da CAPES que conhecia pouco, chamado “Programa Especial de Treinamento”. Um grupo de 12 estudantes do curso reuniam-se na tentativa de empenhar-se na melhoria do curso como um todo, através da organização de atividades extra-curriculares, no final melhorando a qualidade do profissional que sairá formado dali como um todo. Objetivos pra lá de vagos, mas encarei o desafio, e fui aceita no grupo. E aí conheci um professor chamado Lucio.

O Lucio era o tutor deste grupo, o líder que direcionava as idéias. Algo como o “grande guru”. Para os alunos do curso de Biologia daquela faculdade, era também o carrasco professor de Evolução Natural, disciplina que reprovava aos montes. Quando nos encontrávamos com alunos de biologia de outras universidades, sempre nos falavam que Evolução era matéria “fácil”, e por muito tempo, essa contradição me incomodava. Por que para todo mundo era fácil e em Viçosa, com o Lucio, era aquele mata-mata? E é aí que entra a Evolução em si.

Lucio é um professor peculiar. Em sua visão evolutiva não só da vida natural como da vida humana em sociedade, ser biólogo é um processo irreversível. Cada aluno do curso é uma espécie de “mutação”, que surgiu ao acaso em sua sala de aula. Com o passar do tempo (no caso do semestre), o valor adaptativo de cada um vai aparecendo na forma de notas, discussões em sala de aula, seminários. E o professor precisa exercer uma pressão natural para que os mais adaptados sejam selecionados, e suas idéias sobre biologia possam, então, fixar-se na população, sob a forma de um bom biólogo. Portanto, em sua mente evolutiva brilhante, ele é o responsável por essa pressão natural, ele faz-se de predador voraz. Cabe aos alunos adaptar-se: adquirindo camuflagens especiais, aumentando sua “prole” de conhecimentos, não interessa a estratégia. Para evoluir na Evolução, os estudantes precisavam adaptar-se.

De certa forma, apenas depois que cursei sua disciplina, no quinto período, passei a me considerar bióloga. (Passei raspando, diga-se de passagem: média era 60, fiz 62 pontos). Porque minha adaptação ao processo da sua aula foi a de aumentar a “prole” de conhecimentos – passei a devorar livros sobre evolução como bebia café, em quantidades abissais. Era Dawkins, Gould, Wilson, Futuyma, Mayr… Esses homens e suas mentes maravilhosas passaram a fazer parte do meu dia-a-dia, e de certa forma, assimilei o pouco que sei da teoria da Evolução a partir dos textos brilhantes deles. A filosofia de Lucio, por mais carrasca e despropositada que soe, era a que mais refletia a própria teoria de Darwin, e foi a que me proporcionou entender melhor a biologia em si. Não sei se Lucio fazia isso consciente, mas que ele se sente responsável por cada diploma que sai daquele curso… ah! sente sim. E isso é bom.

Lucio foi o melhor professor que tive na vida estudantil. Ele ainda está lá em Viçosa, fazendo pressão natural sobre os alunos do curso… afinal, ser selecionado é a forma de fixar-se como biólogo, mas evoluir é um fato, sempre.

E hoje, é seu aniversário. Parabéns, Lucio! Obrigada pela verdadeira Revolução que você criou em nossas cabecinhas desvairadas, com suas perguntas sem resposta, mostrando que a vida é isso aí, a maravilha do mistério, da boa argumentação e do questionamento.

Tudo de bom sempre para o hoje grande amigo Lucio Campos.

Essa foto foi tirada num casamento em Viçosa. Eu estou abraçada ao Lucio. Os 2 indivíduos da esquerda são casados, e participaram da andarilhação-roubada pelo sul da Bahia no Ano Novo/2000, que contei no post anterior. O amigo mais à direita morava na Carolina do Norte, EUA, e é um desencanado companheiro de viagens pelo MSN. E eu fico sonhando com o dia em que poderemos nos sentar de novo em volta de uma mesa, contar “causos”, dar risadas e levemente demonstrar o quanto nos orgulhamos de ter sido laboratórios (r)evolutivos do Lucio.

P.S.: Além de professor de Evolução Natural, Lucio é um dos geneticistas de abelhas mais respeitados do país. Um verdadeiro abelhudo mesmo…

A Janice, uma simpática estudante de jornalismo da Unesp-Bauru, me escreveu um email pedindo que eu fizesse um texto contando/exemplificando algumas frustrações de viagens, para ser publicado num jornal-laboratório chamado Contexto. Decidi compartilhar o texto aqui no blog, já que o tema condiz.

“Viagens em geral são momentos de expectativa. Seja qual for a razão da viagem, preparamo-nos para aquela situação de certa forma ansiosa. Para alguns, organização extrema; para outros, quanto mais improvisado, melhor. Entretanto, nada é mais frustrante que quando aparecem alguns probleminhas na viagem, independente da forma como encaramos a mesma… Ressalto porém que o que pode ser um problema para mim, não o é para outra pessoa – essas nuances variam individualmente, e cada um deve ter em sua cabeça a idéia do que seria a viagem ideal para comparação pessoal. O importante é saber identificar o problema e agir para sua solução de alguma forma.

Numa concepção totalmente pessoal, divido os problemas em a) aqueles que você cria; e b) aqueles que criam para você. Esses problemas todos podem ser subdivididos em: de logística, de serviços ou de localização. Essa divisão tem me ajudado em alguns momentos a solucionar alguns imprevistos, e acho muito útil – pelo menos para mim. Tentarei dar alguns exemplos que já vivi, e como encarei naquele momento.

1. Problemas que criamos:

Quando viajo, tento entrar no “espírito” da coisa, mesmo que seja uma viagem para negócios ou coisa que o valha. Entretanto, algumas vezes me deparei com situações inusitadas, e tive uma reação inexperiente, infantil, confusa. Ou então não fui com a cara do lugar, e começo a inventar um monte de problemas – somos imperfeitos, e essa é uma reação típica: inventar desculpas esfarrapadas, gerando problemas “mallas”.

Logisticamente, lembro sempre da viagem do Ano Novo de 2000 (o “revéillon do milênio”) quando decidi fazer algo “diferente” – olha, desde então eu tenho um pé atrás com essa coisa de fazer algo diferente… Decidi que ia fazer a trilha do Descobrimento, numa celebração pessoal dos 500 anos de descoberta do Brasil. É uma caminhada de 100 km, pela praia, no litoral sul da Bahia, mais especificamente de Prado até Arraial D’ajuda. 5 dias de caminhada, em pleno verão escaldante. Consegui convencer 6 malucos amigos a embarcar nessa roubada (2 deles alemães), e no dia 27/dez/99 saímos à pé de Prado, meio que no improviso. Logística quase inexistente. Não sabíamos ao certo se íamos acampar em todos os lugares, não sabíamos se teríamos água potável pelo caminho… Fomos, simples. Primeiro dia: tranquilo, de Prado até Cumuruxatiba. Segundo dia: andamos menos, mas paramos na praia mais linda que eu já vi: Barra do Caí. Alguns pés já reclamavam dos calos, do tênis roçando na areia da praia que entrava e grudava cada vez que cruzávamos um riacho. E aí está o problema que eu havia criado: antes da viagem, disse a todos que andar de chinelo seria uma loucura, e aconselhei que viessem de tênis! Na areia??? Nada mais insano, mas eu-sem-noção não imaginava o quão insano seria. O pior é que todos acataram minha sugestão… O resultado disso é que no último dia, já a caminho de Trancoso, quando chegamos em Curuípe, a decisão foi unânime: abortar a caminhada e pegar uma carona qualquer até Arraial. Foi o que fizemos, sem arrependimento, pois 2 amigos já estavam sangrando pelos pés. Problema gerado da minha incompetência logística.

Outra situação que lembro foi quando perdi um vôo Boston-Nova Iorque – sendo que de NY eu embarcaria num vôo pro Brasil, era dezembro, época de Natal, tudo lotado. Cheguei com 3 horas de antecedência no aeroporto de Boston, despachei minha bagagem, e fui… comer tranqueiras com meus amigos americanos! Estava me despedindo deles, então decidimos sentar e jogar a última conversa do ano fora. Essa conversa estendeu-se, chegaram outros amigos, e logo estava rolando uma pequena festa no bar do aeroporto, com direito a risadas altas e apostas pro Ano Novo. De modo que, quando eu saí do bar, passei pelo raio X e finalmente cheguei no portão de embarque, vi aquela cena de “Casseta & Planeta”: o avião indo embora, e eu dando tchauzinho pelo vidro… De acordo com a aeromoça, eles me chamaram inúmeras vezes pelo alto-falante, mas você acha que com música e conversa alta com amigos, eu ia perceber alguma coisa? Estava totalmente desencanada… E agora? Fui conversar civilizadamente com a mulher do balcão, implorei por uma vaga, tomei um sermão, mas valeu: a American Airlines tinha vaga no próximo vôo que ia para Nova Iorque, e embarquei com 1 hora e meia de atraso, não perdendo o avião pro Brasil. Mas de qualquer forma, displiscência minha total.

Quero voltar a Florença, na Itália, cidade que gostei mas que me decepcionou por esperar muito mais. Problema da minha cabeça: minha expectativa era muito grande. Criei uma Florença que não existia. E saí de lá fugida, porque um inimigo poderoso me venceu: as baratas do albergue que fiquei. Durante a noite, era impossível dormir, porque as baratas passeavam por todos os lugares, um nojo. Detesto baratas, terminei apressando minha visita e indo embora antes do esperado porque não aguentava mais pisar naquela gosma babenta. Paciência de mochileira também tem limite, principalmente depois de 72h acesas direto.

2) Problemas que criam para a gente:

Em geral, esses são melhor exemplificados por serviços contratados que não condizem com nossas expectativas. E nesse caso, eu não vou me esquecer NUNCA da viagem para Fernando de Noronha, em 2003. Não pela viagem em si, que foi maravilhosa – o lugar é um pequeno pedaço de paraíso mesmo -, mas pela empresa que contratamos para fazer os mergulhos. Que desilusão! Mergulho já não é uma atividade barata por natureza, diga-se de passagem. Portanto, você morrer numa grana e ser mal-tratada… é o fim! A história foi assim: no pacote de 5 dias para Noronha, eu e meu namorado incluímos 4 mergulhos para cada um através da Atlantis Divers, uma das maiores equipes da ilha, negociação feita através de uma agência de turismo. Temos nosso equipamento pessoal, exceto tanques e lastros de chumbo, portanto os mergulhos ficariam mais baratos sem o aluguel do equipamento básico. Ok, primeira saída pro mar: o barco da Atlantis é o maior e o de melhor infra-estrutura pra mergulho do portinho da Vila dos Remédios. Respiramos aliviados. Mas não por muito tempo: logo percebemos que o barco estava lotado, umas 15 pessoas iam mergulhar ao mesmo tempo, e tinham apenas 2 mergulhadores-guia para aquela galera toda! O problema não eram os poucos guias, o problema foi a regra irrestrita de que ninguém poderia ficar para trás em momento algum, por motivo de segurança. (Acrescido do guia ser um idiota completo, contando mil vantagens a viagem de barco inteira, se achando o último biscoito do pacote, o único gostosão do planeta Terra.) Ok, aceitamos aquilo, afinal com segurança em mergulho recreacional não se brinca, e com muita gente embaixo d’água a probabilidade de acontecer algum imprevisto aumenta. Entretanto, quando descemos, a história foi bem a esperada pelos mais experientes turistas-mergulhadores: o guia não conseguia ficar com todo mundo sob controle, simplesmente era muita gente de uma vez só na água. Além disso, o guia não dava tempo suficiente para apreciarmos a vida marinha em volta. Aquilo foi me dando uma raiva tão grande… eu estava ali para aquilo, ver os corais, peixes, e tem um babaca descontrolado fazendo sinal o tempo todo para a gente correr??? Correr para quê, se o barco estava acima da gente?? Quando o ar estivesse acabando, era só emergir! A sensação que tivemos é que eles tinham um plano X de ir de lugar Y a Z, e se não fossem não seriam pagos ou algo que o valha por completo, então “tínhamos” que ver aqueles lugares – independente se no lugar anterior tinha um tubarão maravilhoso passando… Ver sem observar, se é que me entendem. E pra terminar a história, em um dos mergulhos eu comecei a subir por falta de lastro pra me manter no fundo, e bem, nem precisa falar que quem me socorreu nessa situação foi uma outra menina nada a ver com o pato, e não o babaca do guia, que obviamente estava ocupado, apressando os demais para nadar em círculos ad eternum, ou se mostrando o bam-bam-bam pra umas menininhas que mergulhavam com a gente. Bom, depois de feitos nossos mergulhos e identificados os problemas básicos daquela operadora, decidimos que iríamos mergulhar nos próximos 2 dias com outra equipe, e contratamos a Águas Claras (a mesma que levou Fernando Henrique Cardoso em seu mergulho de batismo). Que diferença de serviço!! Menos pessoas no barco, mais atenção = mais segurança! O guia era um amor de pessoa, não só mostrava animais para a gente no fundo, como esperava com a maior paciência meu namorado tirar fotos de tudo que passava na frente da lente… mergulhamos praticamente com um guia pra nós dois, e um guia para outro casal, situação mais que perfeita quando queremos segurança e contemplação da vida marinha.

Mallices de viagem

Duas maravilhas da vida marinha que estávamos perdendo com a correria em Noronha… Detalhe: esse peixe-anjo simplesmente “grudou” na gente, e ficou fazendo mil poses por um tempão num mergulho à tarde com a Águas Claras. Fico imaginando se a gente ia ter podido curtir ao meaximo essa interação se tivéssemos com a pressa da Atlantis no nosso cangote… Divagações, apenas.

Deixei para o final a constatação de que há infelizmente lugares que penso nunca mais voltar na vida, de tão desanimadores que foram. Ou talvez voltaria de passagem, na esperança eterna de que melhoraram um pouco sequer. Um deles é Caxambu. Fui inúmeras vezes para lá a serviço: da primeira vez, foi até legalzinho, um lugar novo, mas nas demais, foi ficando evidente que o serviço da cidade não está preparado pro turista: garçons mal-educados em todos os hotéis e restaurantes, atraso na maior parte dos serviços, enfim, uma tristeza. E a cidade era entediante, nada pra fazer, nada valorizado.

E no fim de todas essas experiências frustrantes, apesar de tudo, não diriam que foram ruins. Depende da sua cabeça, da forma como você encara a situação, de seu espírito esportivo na hora. Se você souber estabelecer seus limites e identificar os problemas assim que eles surgem, antes que se tornem gigantescos, são os primeiros passos para uma viagem adequar-se sempre ao que você espera, e não frustrar suas expectativas.

Afinal, “viajar é preciso; viver não é preciso.”

Tudo de bom sempre.

Hoje de manhã cedo, a boa surpresa do novo endereço do blog do Idelber. E ele, já todo embalado no verdadeiro sentido do termo BLOGAR, presenteou a todos com o valiosíssimo “Decálogo dos Direitos do Blogueiro”, que, de forma não-oficial mas muito pertinente, define o que seriam os direitos daqueles que blogam. É óbvio que se sente incorporado à ele quem quiser – e eu me senti, pela clareza, bom-humor e visão abrangente da natureza de um bom blog, cuja intrínseca função é de informar, gerar discussões construtivas, abobrinhar ou coisa que o valha (tudo no mais livre critério do Homo sapiens que acessa o login do endereço, é claro), mas sempre com prazer, liberdade e frescor. Parabéns ao Idelber, e em reforço ao que considero já um documento virtual, coloquei o selinho aí na coluna da direita, como indicativo da diretriz que um bloguinho sem rumo de uma Malla perdida nesse mundão pode ter.

E ler o decálogo me fez parar e pensar sobre o blog em si, algo que pouco faço, pra falar a verdade. Meu blog nasceu da necessidade pessoal de narrar fatos, viagens e acontecimentos ligados a lugares do mundo, muito mais que polemizar. Se esse blog tem uma madrinha-criadora-sem saber, essa posição única e estritamente é da Liliana, que me encantou com sua verve escritora e suas histórias sobre Hong Kong, me fazendo enxergar o quanto o canal “blog” poderia ser frutífero às minhas frustrações de escrita. E se esse blog teve uma função inicial clara na minha cabeça, essa foi: mostrar a amigos e familiares o que ando fazendo/vendo/vivendo pelo mundo afora. E como já expliquei anteriormente, ele funciona muito mais como uma rua de paralelepípedos tortos para o meu subjetivo, normalmente tão esmagado pela minha profissão de caráter “racional-objetivo” extremo. E com o tempo, o blog cresceu no meu mundinho, novas amizades virtuais surgiram (um dia ainda quero comer pastel e caldo de cana com todos os “novos amigos” que compartilham suas viagens por aqui – os “velhos amigos” já sabem que esse desejo é uma realidade nas raras, emocionantes e inesquecíveis oportunidades quando os vejo), e principalmente descobri novos blogs, interessantes, criativos, instigantes – meus favoritos estão linkados aí do lado. Eu adoro essa interação via blog, principalmente por saber o quanto ela pode trazer bons frutos – já traz para mim, me permite bons sorrisos, reflexões e risadas.

Aí comecei a pensar mais umbigamente ainda no sentido do título do meu blog. Além do trocadilho barato com meu apelido cunhado pelo amigo Chico nos tempos de faculdade (demonstrativo da minha “inapetência publicitária mercadológica intrínseca”), ele reflete a minha visão de MUNDO: ele está aí, aberto a todos, e pensando positivamente querendo ser descoberto pelos que estão a fim de descobri-lo, pelos que não se intimidam perante o novo, o desconhecido. E eu quero devorar o mundo, conhecer cada recanto, poder por exemplo ao pensar em Taiwan e sua situação política, lembrar das ruas de Taipei, fazer um julgamento baseado na informação formal que a mídia fornece acrescida/instigada pelas minhas impressões próprias das pessoas do local e do que vivi por lá. Ou seja, viver o mundo: nada mais libertador para mim que esse sentimento de cidadã do mundo.

Entretanto, sou cidadã brasileira – essa é minha nacionalidade, dada pelo fato de eu ter nascido, crescido e vivido no Brasil, ter costumes brasileiros, falar português do Brasil e não ter parentesco algum que me permita sequer cogitar em outro país como “pátria-mãe”. Em conversa casual num jantar da empresa ontem, descobri que na Coréia do Sul, por exemplo, filhos de estrangeiros nascidos aqui não podem por lei ser registrados como coreanos: serão registrados na embaixada que lhe couber como cidadãos, do país dos pais. No Brasil a lei é diferente: qualquer pessoa que nasça no Brasil já é um cidadão brasileiro, e ponto final. Basta nascer. Fiquei curiosa, e fui pesquisar mais abobrinhadas sobre cidadania (no sentido de nacionalidade, não no sentido de civilidade), descobri uma situação vivida por mais de um milhão de pessoas atualmente: elas não tem cidadania alguma. São chamadas em inglês stateless, que por diferentes motivos vivem num limbo legal, onde você não tem deveres (não paga imposto algum, por exemplo), mas também não tem direitos estabelecidos. Cidadania é um direito garantido pelo Artigo 15 da Declaração de Direitos Humanos. A maior parte dos “sem-cidadania” estão assim por razões políticas, são refugiados, asilados políticos, e são cidadãos do mundo à força – nada à força funciona muito bem. Existe um tribunal das Nações Unidas responsável por lidar com essas pessoas, e não vou entrar no mérito da questão, porque quero brevemente refletir sobre os que ESCOLHEM ser “sem-cidadania”.

A pessoa pode escolher perder a cidadania que possui – é uma brecha legal. Por exemplo, se um bebê nasce em território ou águas internacionais, poderá ser registrado na cidadania dos pais ou da bandeira da embarcação onde o bebê nasceu, e aos 18 anos, terá que escolher a cidadania que quer seguir. A escolha não é totalmente aberta, é claro, e normalmente só é permitida à pessoa a cidadania dos pais. Entretanto, se os pais forem “stateless”, o bebê não terá vínculo algum com país algum. E aí? Tentei buscar a solução desse problema legal, e não achei. Há casos de crianças nascidas na Antárctica, um território sem dono oficial, mas a essas crianças foi dada a cidadania dos pais, que refletiam a base de pesquisa científica onde estavam em terras geladas austrais.

A maior parte dos pouquíssimos casos de “stateless por escolha” são pessoas que vivem em barcos, viajando pelo mundo, e que querem evitar pagar impostos, ter uma vida totalmente “livre”. Entretanto, para esses casos exóticos de verdadeiros “cidadãos do mundo”, os direitos são restritíssimos e a maior parte dessas pessoas termina na situação oposta a desejada: a “prisão” de não ser de lugar algum. Todo país tem o direito de negar a cidadania a alguém; portanto essas pessoas terminam por pegar a cidadania conveniente ou aquela burocraticamente mais fácil. (Qualquer pessoa com uma conta corrente polpuda por exemplo numa ilha caribenha pode pedir cidadania da ilha – eles não vão negar, provavelmente, visto que o dinheiro ainda move a humanidade.) E assim os “stateless por escolha” viram cidadãos de algum lugar, deixando de ser prisioneiros da sua liberdade para voltarem a ser prisioneiros, mais uma vez, do estado a que estão atrelados por seu passaporte.

E é como uma cidadã brasileira com um pé no mundo, o outro fincado no Brasil, com o espírito sapiente de “cidadã do mundo” livre da real prisão que é o sê-lo, como dona de um passaporte verde-amarelo ávido de carimbos de outras praias, montanhas e urbes para coletar mais informação e conhecimento que nutram meus neurônios desgastados, que esse blog passou a existir mais ainda dentro de mim como uma grande viagem prazeirosa de volta ao mundo na maionese.

Que valha acima de tudo a frase do Idelber em seu decálogo: “Mais bobagem que certas revistas semanais blog nenhum conseguirá dizer.”

Tudo de bom sempre para todos os cidadãos do mundo – até aqueles que nunca saíram de seus vilarejos reais ou utópicos.

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P.S.: Fazer ciência é uma atividade cara de se exercer e mal-remunerada, no mundo todo, fator pelo qual eu poderia até me desculpar de não ficar no Brasil: a miríade científica brasileira e os investimentos destinados à pesquisa ainda são infelizmente irrisórios comparados aos demais países. Dura realidade e boa desculpa. Um blogueiro esperto, entretanto, não caiu nesse papo de não ter emprego no Brasil, e matou sem saber a charada da minha escolha de cidadã do mundo dizendo simples e definitivamente:“(…) o que não tem é como apagar a vontade de ver o mundo.”

Passei o último fim-de-semana assistindo televisão, num descanso osmótico merecido há tempos. De posse de tanto tempo livre em frente à telinha, não pude deixar de reparar nas peculiaridades dos canais da TV coreana que assistimos aqui na terra de Confúcio. Os que conseguimos entender, é claro.

Dos canais de TV aberta, nada posso dizer: não os assisto. A não ser por um programa de comédia pastelão com uns caras muito engraçados, que são uma espécie de mistura de Cassetas com Trapalhões, visto que suas palhaçadas parecem ter uma certa ingenuidade – digo parece, porque não entendo: dou risadas como se estivesse assistindo a um filme mudo pastelão.

A TV a cabo que assinamos, embora seja o plano básico, possui 5 canais de filmes – todos legendados em coreano. Como entendo 2 línguas, na prática significa que somos reféns de Hollywood. Só me recordo neste 1 ano de Coréia de ter assistido a um filme francês, o “Amélie”, e de ter passado por um filme alemão que até parecia interessante, mas como já se foi o tempo em que eu conseguia falar ou me expressar na língua de Goethe, deixei de lado. Ah!, e outro dia de madrugada passava um filme meio pornochanchada com tomadas no Brasil e participação do Milton Gonçalves – deu pra entender algumas frases ao fundo em português. Mas de resto, só assistimos a filmes em inglês.

Entretanto, os canais de filme até que são bons, se avaliados como mero geradores de entretenimento. Descobrimos, por exemplo, que os coreanos AMAM James Bond, pois todo fim-de-semana passa pelo menos um filme do 007, e nessa contabilidade, acabei completando minha coleção de “assistidos” do agente secreto britânico mais famoso. Fora os especiais mostrando todos os bastidores possíveis e imagináveis de 007, prato cheio pros fãs.

Existem 2 canais japoneses no nosso pacote de cabo, e na atual conjuntura do “imbroglio” que a política anda aqui, não sei como ainda estão no ar. Canais chineses, alguns, mas muitos filmes chineses nos outros canais – infelizmente, não consegui assistir a um filme que parecia engraçadíssimo com Jackie Chan e Lucy Liu em som “original”. Uma pena.

Mas há bizarrices na TV. Por exemplo, o canal AFN (American Forces Network), um canal militar americano, cuja função máxima parece ser fazer com que os americanos que aqui residem sintam-se na sala de TV de sua casa em Ohio, Kentucky ou Texas. A programação é toda uma lavagem cerebral militar, e os intervalos são todos recheados de propagandas-babás, que ensinam os militares a tomar conta de seu dinheiro, de sua família, de suas viagens, e principalmente, mostram que o governo está sempre correto ao enviar os soldados pros confins do planeta para lutar: tudo pela liberdade, não é mesmo? O mais engraçado desse canal é na hora da previsão do tempo, quando eles mostram o mapa da Ásia e Oceania, e, ao invés do nome dos países, estão o nome das bases americanas, ou apenas as cidades onde há bases. Assim, as Ilhas Marshall, coitadas, viram um “país” chamado Kwajalein, e por aí vai. Embora um canal lavagem cerebral, é nele que assisto a alguns adoráveis enlatados.

Outra bizarrice é a quantidade absurda de canais de venda de produtos… bizarros! Propagandas de vaso sanitário, de aparelhos de ginástica, de calças impermeáveis, de tacos de golfe, de cortadores de frutas, entre outras, são as que reinam. O que leva uma pessoa a comprar um vaso sanitário pela TV? Faço-me essa pergunta, mas já penso na resposta, porque se está sendo apresentado ali, uma coisa é certa: é porque alguém compra.

E novelas. Como coreano adora uma novela! As de época, parecem fazer bastante sucesso, porque são várias. Todas no melhor/pior estilo Globo, e principalmente, lançadoras de modas e modismos. Lembro que uma aluna vietnamita da minha aula de coreano lá no Hawai’i justificou no primeiro dia de aula sua intenção de aprender coreano para que pudesse entender as novelas daqui. O professor olhou para ela com aquela cara de “tem louco pra tudo no mundo…”.

Existe ainda um canal coreano só em inglês, o Arirang. Esse é pra mim o canal mais interessante, não só por que eu entendo, mas pela proposta do canal: mostrar a vida coreana na chamada “língua mundial”. Mostram de tudo: esportes, notícias, programas de auditório, aulas de coreano, curiosidades, etc. (Fico me perguntando se tal iniciativa faria sucesso no Brasil – as comunidades estrangeiras que aí habitam iam gostar, com certeza.) O Arirang passa um programa de esportes em que já vi até os gols do meu Fluminense querido – quando nos EUA eu cheguei a ver na TV esse fato??? Nunca! Eles também têm um convênio com a BBC e com o Deutsche Welle, então um pedacinho da visão européia da vida contrabalanceia o “brainwash” do AFN. Good deal.

Minha reclamação desse pacote de cabo fica pela ausência de um bom canal de desenhos animados. Sou uma viciada em desenhos. No Brasil, a TV da casa onde morava, se eu estava em casa, estava ligada no Cartoon Network, eu devorando o Laboratório do Dexter, as meninas Super-Poderosas, Johnny Bravo, e todos os demais feitos pelo Tartakovski. Em Boston, minha maior alegria foi quando conseguimos enxergar na velha TV o Nickelodeon, e eu pude passar a tomar meu café-da-manhã assistindo ao Pinky & Cérebro: que inspiração para quem ao desligar a TV ia viver a realidade de um laboratório com camundongos transgênicos! Fora os clássicos Tom & Jerry, Popeye, Corrida Maluca… Enfim, sou louca por desenho animado, e aqui, o único que eu semi-vejo é o Bob Esponja (que também adoro!) – semi-vejo porque é dublado em coreano.

Mas foi neste fim-de-semana de overdose de TV que eu percebi algo: em matéria de interesse pessoal, aqui na Coréia, nenhum canal me é mais querido que o National Geographic. Aliás, no Brasil, eu já era uma piolha de Discovery Channel. Nos EUA, a PBS até me conquistou, mas eu sempre fiel, terminava assistindo aos documentários instigantes que só a National Geographic sabe produzir. Na sexta, vi um documentário sobre um vulcanólogo francês que estava estudando o Nyiragongo, ativo na República do Congo. Aquilo é amor à pesquisa: o cara foi coletar amostra de lava a 1,000 graus dentro da cratera em erupção! E falando assim: “I think I can get a little bit closer…” Mais perto e o cara morre! Assisti àquilo como se fosse a um filme, tamanha a tensão que aquela saída de campo me trouxe. (Só por curiosidade, o Nyiragongo afeta a menos de 50 km a cidade de Goma, com 500,000 habitantes, cujo deslocamento é/foi uma complicação política daquelas.)

E aí vieram os documentários de vida selvagem. Ah! Como eu os adoro! Fazem-me sonhar com a próxima viagem, com os bichos e plantas que ainda quero ver, com a causa ambientalista, com tudo que há de bom e melhor no mundo. Vimos documentários sobre focas e pinguins da Antárctica, jacarés africanos, tubarões pelo mundo, morcegos, peixes camuflados… enfim, uma infinidade zoológica, exemplo digno do que é a tal diversidade da vida que Darwin falava. Ou a explicação de porque a vida é realmente MARAVILHOSA…

Tudo de bom sempre.

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