São quase 6 da matina, estou de pé, e pronta para sair a qualquer momento pra mais uma aventura. (Pensando bem, o clima “expedição” que eu vivo normalmente não é tão diferente de agora…)

Desejem-me boa sorte, e que nenhum mega-imprevisto aconteça – sim, eu já espero pequenos imprevistos.

Será que o Lula já acordou de seu jet-lag?

Seul, aí vamos nós.

A logística de amanhã não me sai da cabeça. O receio do fiasco, que é o maior de todos os problemas que paira no meu cérebro no momento. Será que vai dar certo?

Problema número 1: como despertar

Normalmente, o que me acorda é um despertador laranja endotérmico da família dos felinos que pula na cama pontualmente (parece até que ele é suíço e não havaiano) às 7 da manhã com grunhidos de fome. Preciso que ele me desperte amanhã às 5. Como alternativa, há o alarme cujo volume máximo eu não escuto direito. Em que confiar?

Catupiry, não me decepcione.

Problema número 2: A ida pra Seul

Moro a 1 hora e meia de metrô do COEX Mall, e quando você sai da estação lá, ainda precisa andar uns 10 minutos por dentro do shopping para chegar no Centro de Convenções. Ainda bem que será de manhã cedo e o BodyShop estará fechado. Sem distração é mais fácil chegar ao destino final.

Entretanto, nada é previsível quando a viagem de metrô inclui uma troca em Sadang às 7 da manhã. Sadang é o equivalente coreano à estação da Sé em São Paulo, com direito a guardinha socando pessoas no trem e filas quilométricas, naquelas cenas que mais parecem saídas de Tóquio.

Problema número 3: a conexão à Internet

Tudo nessa empreitada maluca dependerá da conexão à rede. Claro, tenho um plano alternativo. Mas estou confiando que meu computador não vai dar chilique algum ao ser ligado em wifi no COEX.

E só pra deixar claro mais uma vez: eu estou experimentando ser pseudo-jornalista por um dia (talvez 2). Nunca fiz isso na vida antes. O processo inteiro é passível a falhas humanas ou mecânicas, além de atrasos inexplicáveis. Tudo que está/será escrito é uma perspectiva pessoal, de uma brasileira no exterior vendo o presidente.

É o diário da Lucia Malla sobre o Lula na Coréia.

Tudo de bom sempre.

Como eu já disse numa discussão no Smart e repetido aqui, a Posco é uma das 5 grandes empresas coreanas, que detém o mercado siderúrgico e afins. Estive em 2004 em Pohang, onde está a empresa, e o tamanho da fábrica é realmente impressionante: toma quase toda a faixa litorânea da cidade, cobrindo tudo com aquela poluição siderúrgica que só quem passou a infância em Vitória/Vila Velha ou Volta Redonda sabe bem o que é…

E agora, como efeito da visita do Lula à Coréia, um acordo privado bilionário entre 2 grandes produtoras de aço mundiais se realiza. Vitória brasileira, sem dúvida.

Vista aérea da siderúrgica da Posco em Pohang, costa leste da Coréia do Sul.

Acabei de chegar do salão, onde fui dar um jeito na minha juba querida para o grande evento de amanhã, e talvez depois de amanhã (caso se concretizem os planos de uma reunião dos brasileiros com o presidente). Deixarei de lado por alguns dias o meu visual mix de “pronta-pra-expedição-na-Amazônia” com “pseudo-patricinha-rebelde” que será trocado devidamente por um visual mais formal, apropriado ao momento. Apenas acrescentei mais uma preocupação a minha já lotada agenda de preocupações para amanhã: agora tenho que torcer para que não chova, senão minha chapinha no cabelo vai pro beleléu.

No salão, vi algo genial: eles tinham 3 computadores com monitores gigantes de alta definição, recheados de games. Pra quê? Pras crianças brincarem enquanto as cabeleireiras fazem seu trabalho. Perfeito! A criança, entretida com os joguinhos, mal pisca o olho, quiçá mexer a cabeça, o que torna o trabalho de cortar e embelezar o cabelo dos baixinhos muito mais simples pro cabeleireiro. Idéia a ser copiada, sem dúvida.

E não consegui fazer minha unha. Vou ter que improvisar em casa mesmo. Seja o que Darwin quiser.

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Chego em casa, e minha amiga coreana tinha ligado. Sua mãe quer informações de “insider” sobre a visita do Lula. Quer histórias, fábulas sobre nosso Presidente. Alguém pode me contar alguma porque minha cabeça está em estado de “amnésia letárgica com foco único à visita presidencial” e eu não consigo me lembrar de nada que já não esteja na mídia coreana totalmente destrinchado.

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Mas está uma noite linda de lua cheia lá fora, e a sensação de conforto e tranquilidade me abraça de repente.

Tudo de bom sempre…

Este é o sexto forum sobre governância que a ONU promove – o primeiro foi nos EUA, seguidos por Brasil, Itália, Marrocos e México. A temática de “reinventar o governo” já abriu espaço no passado para discussão sobre as instituições democráticas, para o e-governo, para alianças para a democracia. Neste fórum, o tema é “Toward Participatory and Transparent Governance” – algo como “Em direção à Governância Participativa e Transparente”. Além de Lula, os presidentes da Tailândia, Tajiquistão, Coréia do Sul, Austrália e vários outros representantes de governos estarão passeando por Seul nestes dias.

A lista de agências ligadas à ONU que contribuem para o evento é longa. Veja aqui os objetivos do fórum e maiores detalhes. Aos mais curiosos, a brochura oficial pode ser baixada da internet, basta ter o Adobe Reader funcionando no computador.

A visita de Lula também já está obviamente na primeira página da Agência Nacional de Notícias.

A visita presidencial a Coréia do Sul já está nos principais jornais coreanos. É dito pelo Korean Herald que dos presidentes que aqui estarão, o brasileiro é um dos mais esperados.

Interessante a entrevista do Lula ao Chosun, vale dar uma conferida.

E aproveitem para passear um pouco pelos jornais da Coréia do Sul. A perspectiva da notícia muda, e pode ser uma boa pausa na mídia convencional americana e brasileira. Minha dica pessoal: notícias sobre células-tronco e sobre novas tecnologias de celular.

E se quiserem sentir um pouco como é estar “lost in translation“, vejam a página do jornal Joongang e divirtam-se…

De segunda até quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará na Coréia do Sul, para participação em um seminário de investimentos e dar uma palestra no Sexto Fórum da ONU sobre Governância. Fiquei sabendo dessa participação através do grupo de brasileiros que encontrei em Seul há 2 semanas, no festival primaveril “Hi Seoul!”. Embora tenho críticas a algumas medidas adotadas por Lula – mas sempre tentando entender que a figura dele é representativa, que ele não governa sozinho, blábláblá – é uma oportunidade única de ver o presidente do meu país de cidadania num evento gratuito em outro país.

Decidi então ir a esse fórum: pedi dispensa do trabalho por meio dia, e estarei lá com meu super-kit “máquina fotográfica + laptop + AirPort”, tentando uma proeza que jamais me imaginei fazendo…

Estarei blogando ao vivo, direto de Seul, a partir das 9 da manhã de terça (horário coreano – 9 da noite de segunda horário de Brasília). (Eu sempre blogo em horário coreano, portanto, todas as menções a horários aqui devem ser ajustadas para o local onde o leitor está.)

Direto do COEX Mall, Auditório principal, onde será a abertura do evento da ONU. A palestra de abertura será ministrada por Lula. E como eu estive no mesmo lugar na quinta passada, não estarei tão perdida assim. A tarefa de ser pseudo-semi-jornalista é que me deixará perdida, pois nunca foi meu forte ir atrás de notícias in loco, sou uma leitora, acima de tudo. Enfim, desejem-me boa sorte… precisarei.

Preparativos

COEX Mall

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Hoje já comecei a me preparar para tal empreitada. Cadastrei-me através da Associação de Brasileiros na Coréia (ABC) para um possível evento/recepção com o presidente e os membros da comunidade brasileira (que é minúscula comparada com as de outros lugares onde morei). Serão permitidos apenas 100 membros, e pelo andar da carruagem, parece que haverá lugar sobrando, os brasileiros aqui são realmente minoria. Inacreditável: pode ser que nessa semana eu conheça ao vivo e a cores, de pertinho, o presidente do país. Muito louco pensar nisso, nunca imaginei mesmo. Não estava nos meus planos de viagens pelo mundo, mas já que a oportunidade pintou, não a desperdiçarei. Com fotos se possível, é claro.

Além disso, hoje passei o dia neuroticamente tentando organizar os detalhes: graxa no sapato, passar ferro nas roupas, testar a Internet sem fio, recarregar pilhas da máquina fotográfica, ler com cuidado os detalhes do evento.

E nessa confusão toda, ainda me apareceu domingo de manhã um email na minha caixa postal do rapaz responsável pelo site do EverestNews, para que eu traduzisse o último relato do Irivan pro inglês. Isso mesmo: eu acessei o site deles tantas vezes, e enchi tanto o saco do cara com perguntas de montanhismo (sim, eu sou uma malla) que ele me convidou pra essa nanoparticipação. Eu adorei, é claro. Afinal, estou traduzindo os brasileiros do Everest pro mundo. Assim que entrar no ar eu ponho um link aqui.

Update: Minha contribuição ao EverestNews está aqui.

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Como parte da minha dedicação exclusiva à visita do Lula a Coréia do Sul, blogarei nesses dias com maior freqüência e textos menores, com minhas impressões particulares de um evento que provavelmente estará na mídia brasileira sendo reportado de maneira impessoal.

Poderemos chamar no melhor estilo diarinho de “minhas impressões do Lula na Coréia”. Aguardem cenas do próximo capítulo a partir de terça.

Tudo de bom sempre.

Começo o meu dia com a triste notícia do falecimento do Gegê, professor do Instituto de Ciências Biomédicas – ICB da USP. Embora meu contato com ele tenha sido uma meia dúzia de “ois” pelos corredores do ICB na época em que estava lá, não posso deixar de relembrar da sua voz brincando com seus estudantes no laboratório mais alegre do departamento, de suas pedaladas e corridas malucas pela USP – pedaladas estas que lhe custaram a vida, ontem de manhã, quando um Santana desvairado resolveu dar fim a mesma. A vida é isso aí, um segundo é, no outro não é mais. E não paro de pensar como a Marília, sua esposa, deve estar passando por essa barra pesadíssima. A ela e seus filhos, meus pêsames. O Gegê e sua descontração com certeza vão fazer falta pelos corredores da USP.

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Já morreram também 2 pessoas nessa temporada no Everest, e mais de 10 pessoas foram impedidas de tentar chegar ao cume por lesões diversas ou congelamento de dedos dos pés ou das mãos, além de manifestações leves do “mal da montanha”. Várias desistências, por motivos diversos. O tempo tem estado muito ruim por lá, não dando nem uma janelinha de céu azul e ausência de vento que permita aos alpinistas alcançarem seu tento – principalmente os de expedições comerciais, com menos experiência em escaladas. Apesar de São Pedro não estar colaborando, os alpinistas mais profissionais estão neste exato momento aproveitando cerca de 48 horas de calmaria e tentando subir, quase que num fôlego só, até o topo do mundo. Entre as expedições que já estão rumo ao topo, estão os chineses que estão (re)medindo a altura do Everest; o diabético tipo 1 Will Cross, que ainda está no acampamento-base, mas continua firme e forte na aventura; os brasileiros Waldemar e Irivan pelo Nepal na expedição que celebra os 10 anos da primeira conquista brasileira na montanha mais alta do mundo; os também brasileiros Vitor Negrete e Rodrigo Ranieri pelo Tibet na expedição Everest 2005 (mais óbvio, impossível), que estão escrevendo toda a aventura no blog Everest 2005 (desativado) e tentarão a escalada sem uso de oxigênio auxiliar, ou seja, literalmente no peito, confiando apenas no ar rarefeito que a montanha oferece. Fato é: os primeiros alpinistas poderão estar chegando ao topo do Everest neste fim de semana. Portanto, Lucia Malla neste fim de semana não desligará em momento algum o computador do site do EverestNews e demais links acima citados, esperando e torcendo por todos em mais uma temporada dessa aventura extenuante e incrível. Boa sorte aos cavaleiros das montanhas! O topo do mundo os aguarda!

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Já chegaram ao cume, mas da ciência mundial, os coreanos do laboratório de células-tronco da Universidade de Seul. Hoje de manhã, a Science publicou a esperada notícia. Há um ano, os mesmos pesquisadores mostravam ao mundo o desenvolvimento da linhagem de células-tronco a partir do óvulos de doadoras. Hoje, eles já mostram o desenvolvimento das linhagens a tecidos específicos, aumentando a esperança para portadores de patologias como diabetes, mal de Parkinson, lesões de coluna e mal de Alzheimer. Enquanto isso, em Jesusland, sr. Arbusto continua misturando ciência, política e religião, impedindo o avanço da pesquisa por lá e de tabela, diminuindo a participação americana no que será o negócio do futuro para as indústrias farmacêuticas. Estagnação, essa é a palavra. A melhor frase dessa descoberta inovadora importantíssima veio do cientista Rudolf Jaenisch, do MIT (EUA): “Algumas pessoas vão odiar, outras vão amar; mas [a descoberta] põe a discussão num sustentáculo muito mais firme agora. As pessoas terão que repensar o argumento de que não é “eficiente”.” Cutucão melhor, impossível. Simplesmente perfeito.

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Ciência coreana na pauta ainda: ontem estive no COEX Mall, onde estava sendo realizado o Congresso Coreano de Bioquímica e Biologia Molecular. Além das zilhões de palestras e posters interessantes, a palestra sobre o Projeto de Identificação das Proteínas do Plasma Humano, que tem a ambiciosa meta de identificar o maior número possível e imaginável de fatores circulantes no plasma, mostrou alguns dos seus resultados. Números simplesmente impressionantes, um esforço conjunto de mais de 30 laboratórios pelo mundo que sem dúvida entrará pra história da ciência mundial. Em breve, teremos resultados interessantes, mostrando que o esforço humano aliado à tecnologia avançada vai render bons frutos. O palestrante nesse caso era ninguém mais, ninguém menos que o pesquisador Gilbert Omenn, diretor geral do projeto, presidente da Academia Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que é nada mais nada menos que a maior sociedade científica do planeta, órgão responsável pela excelente revista Science e pelo periódico de alto impacto PNAS. Além de brilhante cientista, Dr. Omenn mostrou-se também muito simpático, sorridente e extrovertido, quando uma mera cientista brasileira abordou-o e ouviu que ele reprova veementemente a intervenção da política conservadora-religiosa na ciência – que ele repetiu inúmeras vezes ser baseada em evidências, não em achismos passionais baseado em entidades supra-naturais. Não é uma preciosidade esse cientista?

Ouvindo os bons conselhos científicos do Dr. Omenn em Seul.

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Falando em influência da religião sobre a ciência, o Panda’s thumb está mostrando uma extensa discussão sobre a confusão em Kansas, EUA, envolvendo mais uma vez os defensores do “design inteligente”, essa teoria mais furada que peneira. Vale a leitura.

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Ontem, dia 19 de maio, foi o dia Nacional da Física, no Brasil. Como estamos no ano mundial da Física, essa data passa a ter uma certa importância. O “Por dentro da ciência” parabenizou os companheiros de Einstein na labuta pelo melhor entendimento do nosso mundo físico. Eu também parabenizo, pois adoro a Física, geradora e interrogadora das grandes filosóficas questões do universo. Principalmente os raríssimos físicos que eu sei que lêem esse blog, entre eles o prof. Wayne.

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Outra data importantíssima: hoje é aniversário da Mônica (do antigo blog Monicômio), dona do melhor divã da blogosfera brasileira e figurinha fantástica, amiga virtual de BH que sonho um dia virar realidade virtual, ou simplesmente realidade. Mônica, muito, muito, muito feliz aniversário!! Você merece um grande beijo e um… um…

Tudo de bom sempre: pra você, especialmente!!

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UPDATE! Waldemar e Irivan já voltaram pro acampamento-base, e abortaram essa tentativa do fim de semana. Estão mais uma vez no base, esperando a chegada da tão sonhada monção de verão – que é prometida pra esse fim de maio. De acordo com o site do Waldemar, eles estão bem de saúde, e muito animados para a escalada no momento em que ela surgir. É aguardar.

Passeando pela rede outro dia, achei esta página do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com um pequeno documento sobre a política de biotecnologia na Coréia do Sul, com referências para algumas características da mesma política no Brasil. Afinal, o assunto é um tema da agenda internacional brasileira – pelo menos é assim que está sendo referido no site do ministério.

Logo de cara, a seguinte frase do ministro de Ciência e Tecnologia coreano me chamou a atenção (traduzida por mim):

“Tecnologia é um jogo para o rico e um sonho para o pobre, mas uma chave para o sábio.”

Sábio, realmente. E no decorrer do documento, disserta-se sobre a evolução da política científica coreana, com muitos números e percentagens, desde a década de 60. Mas o que realmente me fez parar e refletir foi o trecho seguinte no item 3.1:

“Ao examinar a evolução da atividade de biotecnologia na Coréia pode-se constatar que o seu desenvolvimento ocorreu em três grandes fases, a saber (Rhee, 2000):

– durante a década de 80 – fase de alavancagem. Nesta fase, principalmente, a comunidade técnico-científica e o governo lideraram as várias iniciativas para desencadear o desenvolvimento da biotecnologia na Coréia. (…)

– durante a década de 90 – fase de decolagem. Com o desenvolvimento da biotecnologia e áreas correlatas, o setor privado se envolve mais intensamente. (…)

– ano 2000 – fase de cruzeiro. O ano em curso é marcado pelo lançamento do grande programa coreano de C&T: “The 21st Century Research Program”. A biotecnologia é considerada atividade estratégica perpassando vários setores. O Programa prevê grandes investimentos em recursos humanos e avanços no conhecimento básico visando ampliar a capacidade inovadora da biotecnologia coreana.”

A comparação com um avião decolando cabe muito bem, pois o país literalmente soube construir seu transporte que levasse ao que vemos hoje aqui, uma ciência forte e de ponta, sendo encarada de forma muito profissional e precisa.

O documento continua mostrando as fases da biotecnologia em países como EUA, China, Japão e Europa, todos com programas institucionalizados, sendo alguns com parcerias público-privadas. Planos bem delineados, embora detalhes estejam omitidos.

Aí chegamos na evolução da política de biotecnologia brasileira, onde a primeira frase já me fez parar no texto e gritar: “Epa! Tem algo errado aqui”:

“A biotecnologia brasileira evoluiu de forma diferente dos outros países, caracterizando-se por uma evolução não linear e não coordenada.”

Evolução não linear e não coordenada. O que isso significa – será que é: os planos foram escassos, pouco produtivos ou não houve um projeto consistente, a longo-prazo? Lendo o resto do parágrafo, percebi uma valorização da construção dos chamados centros de biotecnologia (um deles, inclusive, onde trabalhei), e dos respectivos programas científicos que o governo respaldou. Ok, ponto pro Brasil. Entretanto, fica notória a ausência de um plano linear a longo-prazo, robusto e com ênfase no desenvolvimento industrial. A pesquisa brasileira de ponta está na área agrícola, ainda – as EMBRAPAs são um programa de sucesso, não há como negar. Não estou reclamando, pelo contrário: se vendêssemos nossa tecnologia agrícola de forma eficiente, rendimentos bons seriam gerados para melhorias gerais da população. Mas é necessário que isso seja delineado de forma clara, não “salpicando” medidas a esmo.

Se olharmos por exemplo para o projeto brasileiro que obteve relativo “sucesso em biotecnologia” (pra usar um termo batido) na mídia nos últimos anos – o projeto Genoma da Xylella, financiado pela Fapesp – vemos mais uma vez essa característica de pensamento a longo-prazo deficitária. Temos hoje o organismo sequenciado, alguns laboratórios dedicando-se a pesquisar mais sobre certos genes dessa bactéria, mas nenhum “produto” final foi aludido a partir de tamanha informação gerada. Produzimos o conhecimento – o que já é louvável, mas não é tudo. Porque faltou o objetivo pragmático no caso. (Talvez seja questão de tempo: ainda veremos um belo produto/tecnologia saindo daí, e eu torço muito, muito, muito, muito para que isso aconteça e gere mais incentivos à ciência no Brasil.) Alguns podem dizer: “Ah, mas é necessário investir em pesquisa básica.” Ninguém repugna mais essa dicotomia “ciência básica X ciência aplicada” do que eu. Tudo é ciência e precisa de investimento igualmente. Mas precisamos pensar a frente, no futuro, em termos teóricos E pragmáticos, em termos de ciência E tecnologia, porque isso sim faz a diferença na robustez de um projeto de governo que quer avançar pro futuro, e não estagnar no presente. Fez para a Coréia do Sul, com certeza.

Ciência é uma atividade a longo prazo. Mas é a tecnologia, um subproduto valiosíssimo da ciência, é que gera riqueza para uma nação. É preciso acreditar e investir tempo e dinheiro nas duas; não pensar apenas nas próximas eleições, porque é um legado para algumas gerações depois. E acho que aí é que o Brasil tem falhado um pouco. Mas só o fato de já haver um relatório desses apontando os caminhos de sucesso, a meu ver, já é um bom começo. Agora só falta agir.

Tudo de bom sempre.

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