Recentemente, li na excelente revista online Seed sobre a tentativa de envenenamento por dioxina do presidente ucraniano acontecida no ano passado. Após um longo período internado, o presidente se recuperou, mas em seu rosto ainda estão as marcas do envenenamento: a pele toda cheia de erupções de cor estranha. No caso dele, o que o salvou foi a pouca quantidade ingerida de veneno colocado em sua comida que, embora tenha sido 1000 vezes acima da dose aceitável, não foi letal. Um susto de dar calafrios a qualquer um.

Aí lembrei de outro fato. Há pouco tempo, foi divulgado um estudo com os níveis de mercúrio na comida americana. O estudo dizia também que tubarões sao os maiores acumuladores de mercúrio do ecossistema. Embora felizmente isso reforce a idéia de que não se deveria jamais comer tubarões (para não se correr o risco desnecessário de intoxicação por mercúrio), eram outros peixes o alvo do estudo.

Nas 2 notícias, entretanto, uma similaridade: a importância da dose. É a dose de mercúrio ou de dioxina que, num período de tempo curto, determina a morte ou não da pessoa. Mercúrio em excesso mata, dioxina mata também. Mas… até água em excesso teoricamente mata.

O conceito de dose parece muito nebuloso na cabeça das pessoas, e em minha opinião, não deveria ser. Basta ver o sucesso dos suplementos alimentares e vitamínicos para constatar isso. Vendem-se por exemplo verdadeiras “bombas” com miligramas – e até gramas – de selênio por cápsula. Selênio é ótimo para a saude, um agente anti-oxidante e regulador da função tiroideana, mas em doses de microgramas. 3 ordens de magnitude acima (miligramas), e você corre o risco de envelhecimento precoce ou de disfunção da tiróide. 6 ordens de magnitude acima (gramas), e você pode ir parar numa emergência de hospital. E não é só o selênio: o mesmo fenomeno acontece com vitaminas, sais minerais, remédios, alimentação em geral, hábitos pessoais. Assume-se que como boa parte das pessoas está mal-nutrida em certo elemento (o que é verdade) que elas estariam também mal-nutridas nos demais, e haja complexo multi-vitamínico.

Para saber o quanto precisamos de cada molécula, os cientistas se esmeram em produzir sempre as chamadas “curvas dose-resposta”. Toda nova droga que entra no mercado advinda de pesquisa séria tem uma curva dessas por trás, que representa o valor em uma unidade qualquer de peso ótimo para a ação de um composto/alimento em um certo tempo, indicando o limite entre a dose segura, perigosa e letal. Em geral, as bulas vêm também com os riscos da ingestão excessiva, basta prestar atenção que está lá escrito em letras pequenas, mas claras. Já no universo paralelo dos suplementos alimentares, onde em geral ingerem-se super-doses num piscar de olhos, acredita-se perigosamente na total eliminação do excesso pelo próprio organismo. Para alguns, isso é verdade – a vitamina C, por exemplo – mesmo assim com ressalvas, porque dependendo da dose, o organismo não dá conta de metabolizar em tempo plausível. Para uma boa parte dos suplementos, entretanto, o excesso fica acumulado no organismo, e pode causar problemas, como acontece com a vitamina E.

Saber a dose adequada é um dos conhecimentos mais primordiais que lidamos no dia-a-dia, embora muitas pessoas pareçam não se preocupar muito com isso. Quando um estudo diz: “é importante comer alimento X uma vez por dia”, fica claro que não é necessariamente para ingerir X em todas as refeições, muito menos esquecer de comer. Uma vez é o suficiente para te nutrir adequadamente para aquele dia. Não é recomendado assumir nada para cima nem para baixo daquele valor fornecido.

O equilíbrio da dose, nesse caso (e como sempre…), é a chave para uma atitude sensata e uma vida saudável.

Tudo de bom sempre.

Estou tendo muita relutância para abordar esse assunto pra mim tão necessário, por ser também de uma delicadeza extrema. Pelos diferentes comentários que ouço por aí, a impressão que tenho é de que a maioria das pessoas não está nem aí pra situação dos tubarões no mundo de hoje. A maioria responde assim: “Ah, tanta gente morrendo de fome/ doente/ precisando de ajuda!” Sim, concordo, e é pra isso que existem instituições governamentais (ou não) de ajuda a essas pessoas, e outras tantas pessoas engajadas nessas lutas. Mas eu prefiro atacar um problema que entendo um pouquinho, que está relacionado mais a minha paixão pelo mar, pela biologia, e mesmo que seja mais por paixão do que razão. É uma escolha pessoal – e mais pessoal ainda quando você encontra pela vida um companheiro ideal que sente o mesmo ímpeto de defesa da causa que você. Além de tudo isso, ressalto que não dá pra uma pessoa sozinha resolver todos os problemas do mundo, e se cada um se engajar numa luta (mesmo pequena) que seja por algum dos zilhões de problemas que nós temos no mundo atual, no final das contas, vários problemas estarão sendo resolvidos, de pouquinho em pouquinho, né? Cada um faz a sua parte. Michael Moore que o diga.

E foi com essa mentalidade que eu entrei de cabeça na defesa dos tubarões, esses animais que injustamente as pessoas têm mais medo do que compreensão do seu ecossistema, comportamento e biologia. O tubarão é um mito. As pessoas querem salvar o panda, os tigres, a onça pintada, e mais uma lista enorme de bichos. Mas quando citamos os tubarões… “Ah! Mas eles são predadores, matam pessoas!” Então, vá você invadir o território de um tigre ou onça pintada pra ver o que acontece com o seu corpinho querido. É o mesmo raciocínio. E principalmente, no caso dos tigres você vai lá onde eles estão, conta e vê que a população está diminuindo. O tubarão, por viver na água (esse ambiente etéreo, esse lugar que a maioria das pessoas não frequenta), não é visto dessa forma: afinal, no mar, a sensação é de que o estoque de animais é infinito. Pois não é.

Mas na Ásia, a situação piora e complica. Aqui, o tubarão não é visto só como predador: ele é visto como comida, e da melhor qualidade. Levando-se em consideração que a Ásia é o continente mais (super-)populoso do planeta, a pressão exercida sobre as populações de tubarões é simplesmente gigantesca. É claro, tem também a pressão econômica: comércio de barbatanas dá dinheiro – e não é ilegal, pelo menos na maioria dos casos. Mas por não ser ilegal, não significa que a legalidade dessa ação esteja completamente de acordo com o bom-senso, né?

E morando aqui na Coréia do Sul, sendo bióloga (molecular, mas isso é mero detalhe), mergulhadora, e tendo visitado as diferentes Chinas, achei que seria interessante colocar aqui essas fotos do que eu sugiro (do ponto-de-vista mais pessoal possível, entenda-se!) que seja o “CICLO DE MORTE DE UM TUBARÃO NA ÁSIA”. Nem que seja para uma limpeza de consciência minha, do tipo “estou fazendo um pouquinho pela causa em português”. Veja só:

1) O tubarão está no mar, totalmente na dele, e é pescado. Aqui, a forma como ele é pescado não interessa: ele pode vir no meio de uma rede de arrasto de outros peixes, ou pescado exclusivamente (pesca intencional). Normalmente, não é permitido pescar tubarões intencionalmente, mas a brecha da legislação para a pesca é o que chamamos de “bycatch”, ou pesca casual, um problema ainda sem solução plausível. Infelizmente, as redes e artefatos pesqueiros ainda não tem uma tecnologia adequada o suficiente para deixar passar tubarões ou salvá-los, e eles terminam sendo pescados junto a outros peixes. A maioria dos países (inclua-se aqui o Brasil) têm leis permitindo que uma pequena porcentagem de bycatch seja trazida do mar para uso humano – mais um entrave burocrático a que a sobrevivência dos tubarões está sujeita.

2) Os tubarões são desembarcados em um porto – no caso da foto, porto de Suao, na costa leste de Taiwan, um dos maiores portos de “casuais” descarregamentos de “pesca exótica” da Ásia, e entenda-se por “pesca exótica” animais como tubarão-baleia (espécie ameaçada de extinção!), tubarões thresher (de profundidade), cetáceos em geral (baleias, golfinhos, etc. que estão também nas listas de “ameaçados de extinção”) e, claro, as demais espécies de tubarão.

Ao chegarem em Suao, os tubarões são enfileirados no porto, processados, e/ou enviados para comércio. Reparem no detalhe de que os tubarões da foto já estão TODOS sem as barbatanas, pois estas são retiradas em geral ainda nos navios de pesca, em alto-mar. A barbatana é o subproduto mais valioso de um tubarão na Ásia.

3) Os tubarões são processados ainda no porto. Alguns (em geral os de menor “valor”) ficam por lá mesmo, sendo vendidos no comércio local, como esses filhotes nessa bacia no mercado do porto de Suao.

Acima, a pessoa está processando carne de tubarão-baleia, uma espécie que lidera a lista de extinção no mundo dos tubarões, um bicho que chega a medir 18m de comprimento e vive em lugares rasos. O tubarão-baleia é conhecido pelos taiwaneses como “tofu shark” por causa da aparência de sua carne branquinha com o tofu feito de soja. Devido ao valor econômico dessa carne, é muito provável que a mesma seja exportada ou enviada para outros locais da Ásia, pouco ficando no comércio local. Mas note que a pessoa tem várias caixas de plástico (todas cheias de carne) para processar ainda!

4) Os tubarões são encaixotados para envio ao comércio de outros locais da China e do mundo. Pra ser sincera, essa foto do tubarão encaixotado nós fizemos em série, são inúmeras, e tinha sangue em volta ainda, um verdadeiro cirquinho de horror. Eu acho das mais chocantes, me assusta e dói fundo olhar pra isso, porque parece que o bicho ainda está vivo, implorando pra viver. Mas não está mais. Ao vivo, a situação foi me dando uma revolta enorme, eu fui ficando de mau humor e com vontade de explodir aquele porto e dar outro emprego decente pra toda aquela população que vive desse comércio. Porque não dá pra punir e não dar alternativas as pessoas que vivem disso, né?

Acima, a mandíbula de um tubarão à venda como artefato de decoração numa loja em Hong Kong, a cidade por onde uma boa fatia dos tubarões assassinados do mundo vai parar.

5) As preciosas barbatanas, depois de devidamente secas e processadas, são vendidas em lojas de produtos naturais espalhadas pela Ásia e demais locais do mundo. A loja da foto fica na Dihua Street, rua tradicional de Taipei onde uma grande feira de produtos naturais se estabelece diariamente. Mas toda cidade da Ásia tem a sua análoga à “Dihua st.”: em Hong Kong chama-se Des Voeux St., por exemplo. Abaixo, a foto da sopa de barbatana no menu de um restaurante chiquérrimo em Hong Kong. A sopa custa cerca de 100 dólares, mas os preços variam de acordo com a quantidade de barbatana na mesma, é claro.

A problemática da sopa é muito mais complexa do que meramente alimentar-nutritiva. Aliás, até hoje, NADA foi mostrado pela ciência de que a barbatana tenha de especial, embora muitas pessoas tradicionais continuem acreditando no poder afrodisíaco TEÓRICO dela. Muito mais que isso, a sopa de barbatana representa status, e é fácil ser encontrada em qualquer jantar de negócios como demonstração de poder, de dinheiro, e como indicativo de bons acordos. É servida em casamentos, também como forma de dizer “será um casamento feliz” – e imagine quantos casamentos se realizam diariamente só na China! E qualquer restaurante que se preze, que quer ter um título de qualidade num Frommer’s da vida, servirá a sopa de barbatana. Portanto, a pressão para que o comércio de barbatanas continue é infinitamente maior que a pressão para salvá-lo. E como a oferta de barbatanas ultimamente tem aumentado – a pesca predatória aumentou muito – os preços da sopa têm caído (!!), tornando a situação mais caótica ainda: um produto que antes era ligado aos mais abonados, ao alcance de toda uma população de chineses, sedentos de mostrarem que têm dinheiro para tal iguaria. Algo como se de repente todos os brasileiros pudessem comer caviar todos os dias.

Mas… por que mesmo salvar os tubarões, hem? O que de tão importante eles têm ou representam para que mereçam ser salvos? Qual a diferença entre salvar um tubarão e um atum, por exemplo, que também é um peixe grande, caçado e altamente comercializado?

Antes de mais nada, é preciso entender que o tubarão está para o ecossistema marinho assim como o tigre, a onça e o leão estão para o ecossistema terrestre: eles são o topo da cadeia alimentar, ou o centro da teia alimentar, o último predador. O que mais acumula nutrientes e detritos dos demais abaixo deles. E se eles desaparecem, é provável que a estrutura seja afetada de forma irreversível, entre num caos sem volta. E se o ecossistema marinho colapsar, amigos, eu não quero estar aqui pra ver isso… Se pequenas modificações como esbranquiçamento de corais levam a verdadeiros desertos subaquáticos (quem mergulha pelo Pacífico sabe que essa é uma dura realidade) que levam à depletação completa de recifes inteiros, seus animais desaparecem – impactando as comunidades pesqueiras da região, ou seja em última análise, o homem local – imagine uma situação hipotética em que uma boa parte dos oceanos fosse depletada de recursos marinhos! É o colapso da atividade pesqueira, da sobrevivência de muita gente, de economias de países inteiros. Sei que vai soar estranho, mas eu acho muito mais vantajoso e inteligente manter o tubarão vivo e continuar pescando o atum (que não é sempre o topo da cadeida alimentar), do que pescar os dois, sendo um deles um animal que está sempre no topo da cadeia alimnetar. Por mais catastrófico que esse parágrafo inteiro soe – vai ter sempre alguém que vai dizer “Você está exagerando, não?” – eu prefiro imaginar o pior e lutar para que ele não aconteça, do que achar que a situação está sob controle (não está!), cruzar os braços, e esperar tudo chegar numa condição insustentável e IRREVERSÍVEL.

Sempre detestei o ecoxiismo do Greenpeace, pois achava que a política deles muitas vezes era “defender a natureza por defender”, sem pensar muito nas pessoas envolvidas no processo, e na complexidade das situações diversas por onde eles se metiam. E por usar ações exibicionistas para resolver problemas que muitas vezes com diálogos e diplomacia seriam mais bem resolvidos. Entretanto, não encaro a luta pela sobrevivência dos tubarões um ecoxiismo à la Greenpeace. Considero uma necessidade urgente para sobrevivência da nossa espécie, se quisermos ganhar a tão mal-interpretada “luta pela sobrevivência” de Darwin. Se não quisermos ver mais gente passando fome e morrendo de doenças do subdesenvolvimento. Sendo nós, humanos, dotados de razão e inteligência, os maiores (talvez os únicos) predadores do maior predador marinho, nós é que precisamos mudar de atitude e deixar os tubarões em paz no mundo deles. Porque eu quero que os seus e os meus filhos, netos, e demais gerações futuras sintam o prazer que eu tenho ao ver isso aí embaixo.

Tudo de bom sempre pros tubarões do mundo.

**************************

Não é viagem na maionese, mas vale viajar…

– Eu recomendo uma visita carinhosa e detalhada ao site da WildAid. É uma ONG que luta de forma muito mais eficiente que o Greenpeace e demais pelos problemas de conservação da natureza no mundo. Uma das campanhas deles, é claro, é de conscientização sobre a caça e comércio de tubarões. Leiam se possível os relatórios do site. Vocês perceberão que atualmente a América do Sul (Brasil, incluído) é um dos maiores fornecedores de barbatanas do mundo. Portanto, o problema não está tão distante de nós como muitos podem pensar.

– Fomos a China por uma semana em fevereiro para passear e conhecer esse país tão fascinante, viagem que foi postada aos pouquinhos aqui no meu blog de viagens. Mas também fomos para ver alguns problemas mais de perto, e principalmente ver a situação dos tubarões por lá. Queríamos sair daquele beco: “Você defende, mas nunca esteve lá, nunca viu o que é o comércio de barbatanas, a quantidade de pessoas que dependem desse comércio para viver.” Pois fomos, e vimos sim. E isso não diminuiu a vontade de defender mais ainda, pelo contrário, só aumentou. Porque como dizia minha sábia avó: só não existe solução na vida pra morte! Pra todo o resto há solução.

– No aeroporto em Taipei, quando estava de saída indo para Hong Kong, fui abordada por uma mocinha do órgão de turismo com um questionário enorme sobre “aspectos da minha estadia em Taiwan”. Perguntas convencionais: onde você se hospedou, quais atrações visitou, o que mais gostou, etc. Ao final, ela disse que havia um espaço para um recado a ser deixado no questionário. Não pensei duas vezes e disse: “Stop killing the sharks.” E a mocinha, com cara de espantada com a resposta mais que inesperada: “Oh, do we kill many sharks?” E eu respondi: “A lot!” Pelo menos, deixei o meu recado.

– Reparem que eu não citei em momento algum o Japão, o país asiático com maior poder aquisitivo, onde as pessoas têm em tese mais dinheiro para frivolidades culinárias que dão status… Reflitam sobre isso.

– A maior parte dos lugares (certos) em que fomos para ver tubarões no comércio foi dica do Victor Wu, um dos colaboradores do WildAid, biólogo marinho malaio e ambientalista de categoria, amigo de faculdade do André. Obrigada, Victor, pelas dicas certas.

– Mais fotos de tubarões aqui.

Parada easy and light, depois da tensão da DMZ.

Life is Easy

A foto aí acima foi tirada pelo André em Apo Island, nas Filipinas, em setembro do ano passado. Foi enviada para um concurso do Atlantis Resort e concorreu na categoria “Life is so easy!”. E ganhou primeiríssimo lugar!

Se eu fosse largar minha carreira de cientista pra viver de “modelo subaquática” acho que eu estaria no sal grosso e na miséria. Pequenos detalhes, não é mesmo?… Como pseudo-experiência, afirmo: foi gostoso me sentir a “Gisele Bündchen depois da gripe”! Mesmo que por apenas alguns poucos minutos. (A pergunta que não quer calar: será que isso aumenta o score do meu currículo na ciência? hehehehehhehe!!)

E nada disso seria possível se não fosse a intuição submarina absurdamente perfeita aliada a um rigor fotográfico extremo do meu querido namorado. Parabéns!

(Pra quem quiser ver mais fotos/maravilhas subaquáticas – e não subaquáticas também! -, visite o site da Alamy, da Age Fotostock, ou da SeaPics, agências de estoque de fotos, para ter uma idéia melhor do trabalho dele. Eu gosto particularmente mais da Age, mas decidam por vocês mesmos. E recomendem as fotos quando precisarem, afinal precisamos pagar o leitinho do gato.)

A vida parece realmente muito fácil olhando pra foto…

Tudo de bom sempre.

*Mais fotos que o André tira no site dele: ArteSub.com.

Carimbo da estação de Dorasan no passaporte, simbólico da ida ao DMZ.

Como já havia citado anteriormente, a Coréia do Sul é um país acessível apenas por mar ou ar, embora esteja numa península no nordeste da Ásia. E esse impedimento de acesso por terra dá-se pela razão mais simples (ou complexa, como preferirem o nível da discussão) do mundo: o vizinho de cima é a Coréia do Norte.

Desde o armistício da Guerra da Coréia na década de 50 – armistício, sim, pois em tese a guerra não acabou ainda, não houve um tratado de paz assinado muito menos uma rendição de um dos lados – a península está dividida em duas, e numa maneira grosseira de ver a situação, representa a última fronteira da quase extinta Guerra Fria: o vizinho do Norte comunista, e a “ilhada” do Sul, capitalista.

Entre cercas de arame farpado duplas, uma guarita vigia a fronteira da DMZ do lado sul-coreano.

A chamada “Ponte da Liberdade”, por onde em tese os norte-coreanos ganhariam a liberdade – tenho certeza que o Bush adora esse nome de ponte…

De posse dessas informações geopolíticas básicas, acrescido do fato de que o vizinho do Norte decidiu sair das conversações de desarmamento sobre seus brinquedinhos nucleares há 2 semanas sem mais nem menos, partimos sábado passado para uma aventura na chamada Zona Desmilitarizada (em inglês, DMZ), região de 5 km de largura na fronteira das 2 Coréias. Em Seul, disseram-nos que a única forma de visitar a região era com um pacote turístico de um dia, informação que depois percebemos ser uma meia-verdade, pois todos os micro-ônibus de tour param numa estação chamada Imjingak, e agrupam-se em alguns poucos mega-ônibus, que terão permissão para entrar a área. Em tese, você pode pegar um carro ou trem e chegar até esse ponto, comprar ingresso pro ônibus “agregador” e visitar a DMZ. Embora chamada de Zona DESmilitarizada, é muito bom lembrar que a região está sob comando militar 100% do tempo, e você está sendo SEMPRE vigiado por um rifle. Portanto, nada de gracinhas.

Enfim, ficamos com o tour, que embora de natureza essencialmente política (ninguém vem pra DMZ achando que vai ver castelos e pessoas descontraídas ou uma natureza maravilhosa, né?), estranha pela ausência de discussão. As informações são passadas pelo guia com zelo e sem excessos. Imprensei à beça o coitado com inocentes perguntas socio-econômico-políticas de curiosidade mallística, e depois fiquei pensando que se um daqueles meus companheiros de excursão/soldados americanos fosse um agente da CIA, pode ser que eu nesse momento esteja sendo perseguida por sei lá eu o quê sem nem saber! Viagem na maionese…

Bom, de Imjingak, o mega-ônibus começa a andar e você passa por um posto militar, onde obrigatoriamente mostra o passaporte (sim, parece que estamos saindo do país, mas não estamos), e entra na DMZ propriamente dita. O tour é bem restrito. Como tudo ali é área militar, poucas “atrações” são visitadas, e em boa parte delas você é proibido de tirar fotografias. O ápice do tour é andar por um dos túneis que foi encontrado no fim da década de 70 e estava sendo escavado pelos norte-coreanos para uma futura invasão do Sul. Um túnel super-úmido, baixinho e fundo, bem fundo. Ao total, até hoje descobriram 4 túneis na fronteira, e o exército sul-coreano/norte-americano estima que hajam mais uns 20 por aí. Uma peneira essa DMZ.

Próxima parada: Pyongyang! No dia que um trem sair com esse destino da estação de Dorasan, o mundo com certeza será um lugar melhor, e teremos mais esperança no futuro…

 

Do túnel vamos pra o Observatório de Dora, onde podemos ver a mais alta bandeira hasteada do mundo (da Coréia do Norte, é claro) e a cidade-propaganda da Coréia do Norte: uma cidade toda falsa, ninguém mora lá, mas era usada no passado para “atrair” sul-coreanos que quisessem mudar-se para a “tranquila e feliz vida” no vizinho do Norte. Além disso, dá pra ver um pedaço da terceira maior cidade Coréia do Norte, e a cidade de Panmunjom, onde as negociações de paz são feitas. As fotos dessa vez são permitidas, mas altamente monitoradas, e de ângulo algum você consegue registrar a enorme cerca de arame farpado da DMZ. E precisa de uma lente telefoto daquelas pra conseguir enxergar qualquer coisa do lado de lá.

E a última parada do tour é na estação de trem de Dorasan, que está sendo construída pela Coréia do Sul para, no evento de uma possível reunificação, ligar Seul à Europa, por trem através da Trans-Siberiana. Já pensou? Eu vou querer fazer essa viagem!! E a primeira parada depois de Dorasan será… Pyongyang, a capital da Coréia do Norte!

Soldados no Observatório de Dora, de onde ficam de butuca nos vizinhos do Norte.

Enfim, depois de dar adeus a essa região tensa e problemática, como boa “malla” não consegui ficar sem discutir política. E me fiz várias outras perguntas, e conversei com André, e li um pouco mais. Sabemos que os coreanos querem no fundo a reunificação, a ninguém interessa isso mais que eles. Mas a situação na península é delicada, pois reunificam-se, e aí? Sob que regime político? Aceitar o capitalismo bushista é a última coisa que o seu Kim do Norte quer – e com uma certa razão, viu… E a China, nessa história toda? É o país que mais ajuda financeiramente a Coréia do Norte, em troca de… sabe-se lá o quê! (Aliás, os brasileiros podem visitar a Coréia do Norte entrando pela China, nunca pela Coréia do Sul. Americanos, NEVER NEVER.)

Fato é: o cara tem um exército enorme (de famintos) e a única arma que ele tem pra não ser escrachado, escurraçado da mesa de negociações do planeta são as bombas nucleares. Enquanto a prepotência do discurso da D. Rice continuar imperando, Seul continuará em alerta, visto que é o alvo perfeito (13 milhões de habitantes!) para um devaneio neurótico do “Grande Líder”.

Tudo de bom sempre. Assim espero.

Viajando na maionese…

– O dono da Hyunday é um norte-coreano. Não sei se ele fugiu ou migrou simplesmente pro Sul de alguma forma, mas foi ele quem financiou a construção da rodovia que liga as duas Coréias, por onde a Coréia do Sul envia diariamente muita comida, medicamentos e materiais de construção para os “irmãos” do Norte.

– Durante o feriado de Ação de Graças (que aqui é em setembro), as famílias separadas pela política podem se rever por 3 dias. A cada ano esse encontro intercala-se: um ano em Seul, outro ano em Pyongyang. É a única chance para muitos de rever familiares próximos. E a TV adora ficar no ar com cenas de choro entre famílias…

– Se você está interessado em ver um bom filme sobre a situação das Coréias, veja “JSA – Joint Security Area”. Filme do sul, que assisti com legendas em inglês. Fala de neutralidade, e é um soco no estômago pros dois lados dessa moeda corroída.

– O lado bom da DMZ: como a região está intocada a mais de 50 anos, cheia de minas terrestres, os únicos que têm passe-livre são animais e sementes de plantas. Várias espécies ameaçadas estão tranquilinhas da silva, crescendo e se multiplicando nesse mega-parque ecológico forçado…



Booking.com

Lucia Malla de volta à China.

Considerando a “família China”, até agora mostrei a faceta tranqüila e calma, aquela que almoça aos domingos e dá risadas em conjunto. Mas nessa família, tem uma filha rebelde, e é a ilha de Taiwan (também chamada de Formosa).

O Brasil não mantém relações diplomáticas com Taiwan, para obviamente não melindrar a super-potência China. Afinal, a situação política da ilha é delicadíssima: quer se tornar independente da China, que por sua vez não aceita isso. Então, o que vemos é essa confusão imigratória: você precisa de um visto para entrar num país que, em tese, não é um país ainda. Nessa bagunça toda, é claro, os EUA estão envolvidos: vendem (de forma não-declarada, entenda-se) armas para as guerrilhas taiwanesas, fomentando sua sede de independência – para desconforto da mãe China. E como país nenhum do mundo quer comprar briga com a China (detentora de um exército de milhões e algumas bombinhas nucleares extras), a imparcialidade governa e vai-se vivendo.

Majestosa arquitetura do Opera House de Taipei.

 …e nas ruas, um mundo de vespas, o meio de locomoção por excelência em Taiwan!

Além dessa bagunça política, Taiwan ainda tem a “excelente” fama de ser um dos países (?) mais agressivos na caça a tubarões e outras preciosidades marinhas ilícitas de serem pescadas. Taiwan, estaria, assim dizendo, liderando a lista-negra de qualquer ONG ambiental. E eu, Lucia Malla, adentrei Taiwan com esse pé-atrás, essa coisa mineirística-desconfiada: estou entrando na terra do inimigo, um país que nem o meu país de cidadania reconhece! Ah, como eu estava enganada…

Taipei (a capital da ilha) é simplesmente uma cidade fantástica. Assim que comecei a andar pelas ruas, me senti andando em Copacabana, pois a arquitetura dos prédios no centro tem aquele ar típico e nostálgico da década de 50/60. Quer dizer, quase Copacabana, se não fossem as incontáveis vespas (ou mobiletes) espalhadas por todas as ruas e com direito a estacionamento especial em todas as calçadas. E que cidade organizada! Um sistema de metrô excelente, limpíssimo, eficiente e moderno. Em nada lembrando uma cidade suja, a primeira idéia que eu tinha na cabeça antes.

Vista geral do Memorial Chiang Kaishek no centro de Taipei.

Numa bodega na praça de alimentação do Taipei 101, onde o cozinheiro preparava os pratos em frente aos clientes, algo que eu adoro – esse lado lúdico de comer!

Não bastasse toda a organização do sistema de transporte público, as pessoas me conquistaram por lá, com seu calor humano e olhar alegre. Não sei explicar, mas me senti mais confortável naquela “Ásia cariocada”. Visitando o centro da cidade, conhecemos o Memorial Chiang Kaishek, feito em homenagem ao líder da insurreição que trouxe a condição política esdrúxula que a ilha-país vive. Nesse memorial-parque, estão também os 2 prédios da Opera House (um está na foto lá em cima): os 2 prédios são exatamente iguais, um de frente pro outro, e em um só tocam sinfônicas e orquestras ocidentais, e no outro, só orientais. Separando as culturas sem dó.

Mas é quando chegamos ao centro novo de Taipei que a gente se impressiona de verdade. Não dá pra não babar. É cada prédio mais moderno que o outro, cada rua mais bonita que a outra – e é nessa profusão de modernidade que está a recém-inaugurada (31/dez/2004) jóia de Taipei: o Taipei 101.

O Taipei 101 de dia e de noite, com a iluminação em arco-íris que lhe é peculiar.

Uma escultura em forma de boca (ah, Salvador Dalí se revirando…) iluminada numa das ruas do centro novo.

Um prédio moderno com uma horta na frente – aproveitando todo e qualquer espaço disponível para algo útil.

Taipei 101 é o edifício mais alto do mundo atualmente, além de se auto-intitular o mais seguro (vi um programa no National Geographic Channel sobre ele, realmente é de espantar a rapidez com que é evacuado em caso de emergência). A idéia do prédio em vidro é parecer um bambu, planta tão ligada aos orientais. Parece, mas eu diria que ele é melhor como monumento à grandeza, única e simplesmente. 101 andares de pura estética contemporânea, sustentados por uma estrutura esférica enorme no centro (600 toneladas), que diminui as vibrações do prédio frente aos possíveis ventos. O observatório para visitantes fica no andar 89, e não é recomendado para os que têm medo de altura. O visual é interessante, uma cidade aos seus pés. Imagino que fosse a mesma sensação de subir no finado World Trade Center, experiiencia que nunca tive e nunca terei por razões óbvias. Nos primeiros 5 andares, funciona um shopping center, com uma das melhores praças de alimentação que já visitei na vida: eu queria ter 30 estômagos pra poder provar de tudo um pouco naquele lugar, pois tudo tinha um toque de comida chinesa da boa. Deu água na boca só de lembrar dos cheiros!

A emoção de entrar num elevador e ir do 5 ao 89 em menos de 40 segundos: Taipei 101, esse é o endereço.

Em Taiwan, ainda, visitamos a cidade-porto de Suao, onde desembarcam grande parte das pescas ilícitas da ilha. Mas como essa é a parte feia da história, eu conto outra hora. Por enquanto, fiquem com a Taiwan dos sonhos: rebelde só no papel, e simpática e bem-cuidada na prática.

Tudo de bom sempre.

Ainda não terminei com a série de posts sobre a China (aguardem ainda Taiwan, a novela dos tubarões e algumas outras curiosidades que eu acredito pertinentes). Mas precisei dar uma respirada maior por motivos de saúde – nada sério, mas requerendo repouso.

Entretanto, no meio do meu “descanso forçado”, achei esse texto que saiu hoje na Nature, essa revista que eu amo ler, reclamar, refletir e discutir.

Cada um ao ler o texto, encara da sua maneira/perspectiva; eu reassumi minha postura de amante 100% da boa ciência por um mundo melhor. Pode até soar óbvio, mas na atual conjuntura mundial, parece que nos esquecemos cada vez mais que pensar cientificamente não se reduz a adquirir uma postura frente a problemas como alimentos transgênicos ou pesquisa com células-tronco – inclui também outras decisões maiores em áreas tão etéreas como viajar para um lugar ou terrorismo. Ou votar.

Eu visto a camisa da ciência. E estou aberta a discussões fundamentadas nela.

Tudo de bom sempre.

P.S.: 2005 é o Ano Mundial da Física. E olha o que só hoje eu descobri: um blog de físicos! E já devorei vários textos deliciosos… Vale a pena viajar na maionese com esses “malucos” tão sanos…

Postado em 23/02/2005 por em Ciência

Eu prometi escrever sobre a China em sequência, mas vou ter que fazer uma pequena parada. Principalmente porque já é pra lá de meia-noite do dia 19 para 20 de fevereiro, e eu estou desde às 5 da manhã em intensa atividade física e mental. Cansadésima e sem criatividade, drenada. Mas eu também havia prometido escrever um parágrafo que seja de parabéns pelos 35 anos de aniversário do amigo virtual Rafael, que foi ontem (já passou da meia-noite aqui na Coréia do Sul). Rafael, meus parabéns! Homenagear um sergipano de coração que escreve “um pouco de tudo e nada de muito importante”, num dos blogs mais interessantes, inteligentes e divertidos de ler nesse mar virtual, que honra para mim! Muita saúde e idéia na caixola para muitas outras viagens com você…

Hoje eu vou ser bem egoísta. E desejar:

Tudo de bom sempre, só pro Rafael. Feliz Aniversário!

Não há muito o que falar sobre Macau, pois fiz apenas um day trip para lá, a partir de Hong Kong. Portanto, minhas impressões podem estar bem equivocadas, pois foram coletadas rapidamente, em um dia. Mas aí vão elas, de qualquer forma.

Ao chegar em Macau de ferry boat, é inevitável a comparação com a “prima-rica” Hong Kong: afinal, a rica HK era entreposto comercial inglês até bem pouco tempo atrás, e a “prima-pobre” Macau foi entreposto lusitano. E lusitano, no mais sarcástico humor, é a melhor definição para o clima geral de Macau.

A arquitetura de influência portuguesa no centro de Macau, e principalmente o português presente no estilo relaxado e bucólico das pessoas em Macau, exemplificado pelo costume de ficar sentado em pracinhas jogando conversa fora como nas boas cidades do interior brasileiras…

A influência portuguesa é vista em cada esquina, em cada placa, em cada recanto da cidade: na arquitetura, nos costumes alimentares, no ritmo da cidade. MAS… são chineses (!!), estamos na Ásia, e a maioria das pessoas nem português direito fala! Inusitado, pelo menos. De acordo com o que um brasileiro em Macau disse, o governo chinês está contratando pessoas que tenham como primeira língua o português para lá trabalharem, numa tentativa final de revitalizar a língua que dominou as trocas comerciais (pelo menos) nos últimos séculos daquele pedacinho de continente. Mas só as trocas comerciais, pelo visto. Qualquer tentativa de comunicação em português por lá foi logo descartada: inglês é a língua universal, não adianta.

E isso tudo gera uma certa confusão na cabeça da gente, principalmente daqueles que vêm de um país dominado por tanto tempo pelos mesmos portugueses. A sensação que eu tive foi que os mesmos erros de visão e administração que os portugueses tiveram ao lidar com o Brasil (e onde os ingleses tiveram sucesso nas colônias do Norte) é repetido na comparação Hong Kong/ Macau. Eu sei, é uma visão ultra-super-simplista da situação, mas é tão gritante a olhos nus que Macau foi “usada e abusada” como entreposto, e nunca pensada como um lugar oficial para os portugueses, que infelizmente essa visão simplista toma conta e obscurece qualquer outra razão que possa ter existido. E se tivéssemos mantido a língua dos indígenas que aqui habitavam? Como dizia Oswald de Andrade, e se fosse um dia de sol quando os portugueses chegaram no Brasil? Será que o português também teria esvaecido, como aconteceu em Macau?

Aí estou eu, ao lado da placa de um largo no centro de Macau. Todos os sinais e placas da cidade são bilíngues, embora a população chinesa pouco saiba de português! Abaixo, pra dar risadas: uma loja de “quinquilharias” – o velho armarinho “vende-tudo” do Brasil…

Igreja de São Paulo, com o detalhe de um galo em frente à mesma (resquício de celebração do Ano Novo Chinês) e um pedaço de um largo em Macau. Estamos ou não em uma Parati da Ásia?

Entretanto, além das observações de “cidade”, deu pra passearmos em alguns pontos turísticos de lá, como as ruínas da Igreja de São Paulo, no largo da Companhia de Jesus. Uma igreja muito similar as de Ouro Preto e afins, embora apenas a frente tenha sobrado. Existe também uma fortificação portuguesa ao lado dessa igreja, onde hoje funciona o museu de Macau, e de onde canhões no passado miravam o porto tão valioso. Hoje apontam pro vazio, para a ausência de disputa e futuro.

Minha feijoada em Macau!! I couldn’t believe!!! E abaixo, um passeio pelo calçadão central de Macau, onde uma feira de produtos para o Ano Novo Chinês estava acontecendo: não parece que estamos no centro do Rio antigo?

China - Macau

Um templo budista chinês… Onde a cultura do dominador não prevaleceu tanto assim entre o povo…

De qualquer forma, fomos a Macau para sentir essa “estranheza”, e eu, particularmente, fui lá para comer feijoada. Sim!!! Meu prato predileto, servido com toques da culinária macauense, simplesmente perfeito! Tracei a feijoada sem dó nem piedade – acho que só quem já morou no exterior sabe das dificuldades para se encontrarem alguns ingredientes simples para brasileiros às vezes, portanto, comer uma feijoada é um prêmio que eu prezo muito. O mesmo para o pastel de pizza da feira da Mourato Coelho, mas aí já é outra história…

Tudo de bom sempre.

PS: Devo dizer que andar por Macau é como andar por Parati ou Ouro Preto, mas com traduções em chinês para todos os lados. Achou estranho? Vai lá conferir essa doideira. É de dar nó no cérebro…

Postado em 18/02/2005 por em Ásia, China, Viagens

Visão geral (e vertical) de uma das muitas avenidas de Hong Kong.

Para os amantes de cidades, metrópoles e todos os aspectos de uma urbe imensa, visite Hong Kong. Para os que querem segurança e eficiência numa cidade, visite Hong Kong. Para os que dependem de uma natureza exuberante e bela por perto, visite Hong Kong. Para os que gostam de comer bem, visite Hong Kong. Para os arquitetos, urbanistas, amantes dos trópicos… visite Hong Kong. Precisa dizer mais? A cidade é incrível. Eu me apaixonei por Hong Kong, e foi amor à primeira vista. Minha sensação? Um Rio de Janeiro menor, sem violência e bem mais organizado. Organização inglesa, diga-se. Embora a cidade não seja enorme, tem espírito cosmopolita no melhor sentido da palavra.

Chegamos em Hong Kong num dia ensolarado, e a visão da janelinha do avião já prometia, pois a paisagem natural da ilha era fantástica. Uma pequena Angra dos Reis com ilhotas e praias recortadas. Mas é quando você desembarca naquele aeroporto modernérrimo e se encaminha para o centro da cidade que percebe o quanto Hong Kong é uma cidade pra lá de especial. Hong Kong é vertical.

Hong Kong

Olha a iluminação desse arranha-céu, que maravilha!!!

Cercada de verde e morros, os arranha-céus cortam o visual. Mas não é qualquer arranha-céu, não! É o conjunto de prédios mais bonito que eu já vi, todos de arquitetura e design arrojado, funcionais, e disputando à noite qual deles faz o melhor show de iluminação. E que show na noite do Ano Novo Chinês! Luzes de todas as cores, prédios mudando de tons, uma pintura em monumentos de vidro e aço refletida nas águas da baía de Victoria. A Liliana, um doce de pessoa que morou por mais de um ano nessa “Cidade Maravilhosa da Ásia”, mandou um email com uma lista do que seria fundamental fazer por lá em poucos dias. Não deu pra fazer tudo por falta de tempo, mas a travessia à noite pela baía de Victoria para o Kowloon vendo os prédios iluminados… ah! Isso eu fiz, e recomendo a todos! Respirar a brisa do mar de modernidade…

De dia e de noite, um minúsculo pedaço dos arranha-céus, cartão postal da cidade. Detalhe: esse prédio em verde à noite troca de cores em degradê. Simplesmente perfeito.

Das atividades recomendadas pela Liliana, também conseguimos fazer a subida ao Pico Victoria (ou Victoria’s Peak) pra ver o pôr-do-sol – além de andar em uma trilha por lá atrás dos melhores ângulos fotográficos da cidade -, a subida nas escadas rolantes entre a cidade baixa e a cidade média, e os passeios de barco pela marina. Fomos também à rua Des-Voeux, famosa pelas lojinhas de produtos exóticos/medicinais chineses (à la repórter-denúncia: fomos atrás de barbatanas, é claro), onde encontramos cavalo-marinho seco, chifres dos mais diferentes animais, inúmeros tipos de cogumelos, abalones, pepinos-do-mar à venda… enfim, um mar inteiro de bizarrices gastronômicas para satisfazer o exigente mercado honkonguense (isso aí tá certo em português?).

Contra-indicada a quem tem medo de altura.

Também fomos ao Ocean Park, um centro de lazer aquático do outro lado da ilha, com uma montanha russa instável como aquelas de parquinho em cidade do interior. Esse parque vale a pena pela harmonia de todas as edificações com a vegetação do morro – o parque é o morro inteiro! E pelas escadas rolantes gigantes que nos levam até o topo do morro (como escada rolante é uma eficiência urbanística!), e pelos diferentes aquários, com peixes de todos os tamanhos e modelos, vindos das águas de todos os lugares tropicais do planeta. Muito organizado.

Passarelas para pedestres servindo de calçadas (à esquerda da foto) e desengarrafando o trânsito. Abaixo, iluminação dos prédios para o Ano Novo Chinês.

Organização não falta em Hong Kong. Acho que todos os administradores do Rio de Janeiro deveriam passar um tempinho por lá, para aprender a construir em morros sem destruir a vegetação, para ver como se organiza uma cidade em níveis sem caotizar o trânsito – que em Hong Kong flui tranqüilo, pois os pedestres andam muito em passarelas especiais, diminuindo o número de semáforos/sinais para os carros e agilizando o tráfego.

Eu poderia continuar desfiando um mundo de palavras aqui, descrevendo cada minuto mágico e delicioso pelas ruas de Hong Kong. Mas eu só passei uns poucos dias, minhas impressões de turista casual são poucas. Aprofundamento no assunto, quem quiser, vai correndo visitar o blog da Liliana e dê uma lida meticulosa e com carinho nos excelentes textos que ela pôs por lá, em um tempão de experiência nessa pérola de cidade – sortuda!!

E no fim fica a pergunta: em Hong Kong, eu estava mesmo na China? Tirando pelos letreiros em chinês, mal dava pra perceber sinais da velha China comunista! Pessoas de todas as etnias, lojas de todas as grifes famosas e caras, custo de vida alto, ônibus e bondes de 2 andares… É, os britânicos souberam direitinho colonizar e modernizar o velho entreposto comercial deles! Mesmo depois de devolverem aos chineses no fim da década de 90, o capitalismo do lugar não tem volta: é fato, e a China de Mao que se adapte a ele.

Tudo de bom sempre.

Viajando na maionese…

– A culinária de Hong Kong é um capítulo à parte em qualquer texto sobre a cidade – de ninho de passarinho à bexiga de urso, come-se de tudo exótico por aqui. O sabor? As coisas que eu provei foram todas deliciosas com aquele tempero chinês acentuado: noodles frito, carnes agridoces, frutos-do-mar bem feitos. E não! Eu NÃO comi sopa de barbatana de tubarão, a iguaria mais valorizada do mercado (mais de 100 dólares um prato!): vai contra os meus princípios eco-bio-político-tubaro-humanísticos. Aliás, detalhes dessa “sopa” vêm num post pra frente aí…

– No dia 09/fevereiro, pleno Ano Novo Chinês, teve o jogo/pelada/treino de luxo Brasil X Hong Kong (placar 7 X 1), com Ronaldinho Gaúcho ídolo máximo e a estréia de Robinho. Não consegui assistir: ingressos a mais de 200 dólares/pessoa! Amigos, ainda não brota dinheiro na plantinha da minha sala, não! Foi melhor gastar muito menos e assistir num bar, tomando cerveja, comendo nachos e dando risada dos honkonguenses a cada gol do Brasilsilsil.

Pode ser uma besteira/burrice, mas até bem pouco tempo atrás, eu acreditava que Beijing e Pequim eram cidades diferentes da China. Custou para cair a ficha de que era a mesma coisa, e acho que isso aconteceu na época da escolha da sede das Olimpíadas de 2008.

(Beijing é o nome em mandarim, e Pequim é uma derivação britânica do nome em cantonês, idioma falado na parte sul da China.)

A chegada em Beijing já é em si estranha: senti uma sensação de “você está sendo vigiada” por todos os lados. Talvez psicológico, mas o fato é que já na saída do aeroporto vimos os famosos guardinhas do Mao Tsé Tung com seus uniformes descoloridos e postura disciplinada. E era apenas o começo.

A Muralha da China em uma pequena parte de seus mais de 6,000 km, obra sem igual no planeta. Abaixo, prédio governamental na Praça da Paz Celestial.

No dia seguinte, em nosso passeio pela praça da Paz Celestial (ou Tianamen Square), em meio ao mar de turistas, lá estavam eles de novo, os guardinhas do Mao, cuidando da foto do líder “querido”. E na foto, Mao é como a “Monalisa” de Da Vinci: pra onde você olha, ele está te encarando, ou melhor te vigiando. A praça é a maior do mundo, do tamanho de vários campos de futebol, e muito ampla. Aliás, Beijing é toda ampla. A cidade tem avenidas largas, ruas enormes e muitos espaços abertos. Ideal para um regime ditatorial: não há como concentrar pessoas em lugares amplos – vide Brasília. Pode ter 1 milhão de pessoas ali, vai parecer na TV que só tem 20.000. Ótima propaganda contra os “inimigos do sistema”, não?

A foto de Mao Tsé Tung “vigiando” o guarda que vigiava os turistas na Praça da Paz Celestial.

Continuamos a caminhada entrando nas vias da Cidade Proibida, maravilha arquitetônica da época das dinastias chinesas. Era considerada “proibida” porque todos precisavam de autorização do Imperador para adentrar-se por lá em épocas passadas. Vários palácios enormes feitos de madeira e sem nenhum prego de sustentação, com telhados amarelos (cor da realeza) e paredes vermelhas (cor da felicidade). Os pilares dos castelos feitos com madeira de uma árvore já extinta devido ao grande uso humano – extinguir não é novidade em se tratando de humanos. Em outra área, no Palácio de Verão, um impressionante barco me chamou a atenção: a embarcação foi toda feita com uma peca única de mármore! Inacreditável. E todos os palácios, tanto na Cidade Probida como no Parque de Verão, de costas para a montanha, no mais perfeito feng-shui.

Feng-shui é uma instituição na China, e eles afirmam que, acreditando ou não, ele funciona. Interessante notar que a idéia do feng-shui é de que o fluxo de energia (vinda da água) corre da montanha para o mar, e no caso de Beijing isso acontece no sentido norte-sul. Mas no Brasil, por exemplo, obviamente não seria assim: o tal fluxo seria oeste-leste. Não acredito muito nisso, mas acho interessante e divertida toda a concepção da coisa. E principalmente acho interessante quando leio em sites brasileiros que você precisa manter o sentido norte-sul para manter o “bom feng-shui”: imagino a “bagunça energética” que isso causa para os pseudocrédulos sem eles nem desconfiarem da razão.

Dragão na entrada de um dos palácios de Verão. 

Entretanto, ao andar pelas ruas de Beijing, a sensação de enormidade vazia é constante. Será o feng-shui do lugar? Muitos prédios modernos de corporações que se infiltraram com a abertura político-econômica, com propagandas ainda tímidas, mas já existentes. Em alguns momentos, não me sentia num país ainda socialista, mas bastava olhar com mais cuidado para qualquer lugar para ver os guardinhas do Mao ali, observando tudo, fiscalizando nossos passos. E ver as bicicletas. Pouco trânsito em geral na cidade – talvez por causa do feriadao do Ano Novo Chinês.

Adaptações e diferentes versões de bicicletas, o veículo chinês por excelência em idos passados. 

China Beijing

Detalhe de um dos muros da Cidade Proibida.

E como qualquer país que se inicia nas entranhas do capitalismo, a desigualdade é latente, mas está lá. A maioria muito pobre, uns poucos donos de tudo – e desconfio que a nova elite milionária é derivada dos ex-primeiro-escalão do comunismo, mas isso é apenas desconfiança. Fato é que a média salarial é de 300 dólares por mês em Beijing. Não sei quanto é em São Paulo, por exemplo (vergonhoso para mim, eu sei), mas para qualquer relatório da ONU, isso é pouco e problemático. Entretanto, o custo de vida em Beijing é baixo, mas vem lentamente aumentando, de acordo com os locais com quem conversamos.

Há uma hora e meia de Beijing, está a atração mais popular da China: a Muralha, esse paredão no topo das montanhas, com mais de 6,000 km de extensão feito há mais de 2,000 anos (!) para proteger o antigo império de invasões mongóis. Os tijolos foram postos com uma cola feita de arroz e ervas – haja arroz! Arquitetonicamente falando, é uma obra impressionante. Não haveria pior terreno para pôr tal edificação, e eles não só o fizeram, como cobriram toda a extensão limítrofe do antigo território. Coisa de maravilha do mundo mesmo, pra babar e tirar o chapéu.

O impressionante Barco de Mármore no Palácio de Verão. Abaixo, um dos palácios da Cidade Proibida.

Não saí de Beijing sem comer o famoso “pato de Pequim”, uma delícia que derrete na boca, de tão macio. Que torresmo! E pra terminar toda a estranheza do contraste entre esse tradicionalismo e a modernidade dos edifícios, outdoors com a pitada socialista da experiência, esse pseudo-capitalismo-pseudo-comunismo confuso, disse “Xié xié” (“obrigada”, em mandarim) pro guardinha de Mao da imigração, antes dele confiscar meu vinho português que tinha comprado em Macau com tanto carinho pra saborear na Coréia. Afinal, se estou sendo vigiada mesmo, que eu sorria na foto, pelo menos.

Tudo de bom sempre.

Viajando na maionese…

– A pirataria é invencível: como resistir a DVDs de lançamentos de filmes a 1 dólar?

– Beijing está construindo vários estádios para as Olimpíadas de 2008, e as construções estarão todas prontas em 2006, para que haja 2 anos de tempo suficiente para as árvores e gramados crescerem!! Essa preocupação foi a mais inesperada que eu ouvi. Comentei que se fosse nos EUA, as obras se completariam um dia antes, pois poriam grama e árvores sintéticas, que dão o mesmo efeito na TV. André completou: “Ou terminariam 2 anos antes para vender o espaço publicitário”. É, viva o capitalismo selvagem.

Postado em 14/02/2005 por em Ásia, China, Viagens
Página 151 de 157« Primeira...149150151152153...Última »