Não há muito o que falar sobre Macau, pois fiz apenas um day trip para lá, a partir de Hong Kong. Portanto, minhas impressões podem estar bem equivocadas, pois foram coletadas rapidamente, em um dia. Mas aí vão elas, de qualquer forma.

Ao chegar em Macau de ferry boat, é inevitável a comparação com a “prima-rica” Hong Kong: afinal, a rica HK era entreposto comercial inglês até bem pouco tempo atrás, e a “prima-pobre” Macau foi entreposto lusitano. E lusitano, no mais sarcástico humor, é a melhor definição para o clima geral de Macau.

A arquitetura de influência portuguesa no centro de Macau, e principalmente o português presente no estilo relaxado e bucólico das pessoas em Macau, exemplificado pelo costume de ficar sentado em pracinhas jogando conversa fora como nas boas cidades do interior brasileiras…

A influência portuguesa é vista em cada esquina, em cada placa, em cada recanto da cidade: na arquitetura, nos costumes alimentares, no ritmo da cidade. MAS… são chineses (!!), estamos na Ásia, e a maioria das pessoas nem português direito fala! Inusitado, pelo menos. De acordo com o que um brasileiro em Macau disse, o governo chinês está contratando pessoas que tenham como primeira língua o português para lá trabalharem, numa tentativa final de revitalizar a língua que dominou as trocas comerciais (pelo menos) nos últimos séculos daquele pedacinho de continente. Mas só as trocas comerciais, pelo visto. Qualquer tentativa de comunicação em português por lá foi logo descartada: inglês é a língua universal, não adianta.

E isso tudo gera uma certa confusão na cabeça da gente, principalmente daqueles que vêm de um país dominado por tanto tempo pelos mesmos portugueses. A sensação que eu tive foi que os mesmos erros de visão e administração que os portugueses tiveram ao lidar com o Brasil (e onde os ingleses tiveram sucesso nas colônias do Norte) é repetido na comparação Hong Kong/ Macau. Eu sei, é uma visão ultra-super-simplista da situação, mas é tão gritante a olhos nus que Macau foi “usada e abusada” como entreposto, e nunca pensada como um lugar oficial para os portugueses, que infelizmente essa visão simplista toma conta e obscurece qualquer outra razão que possa ter existido. E se tivéssemos mantido a língua dos indígenas que aqui habitavam? Como dizia Oswald de Andrade, e se fosse um dia de sol quando os portugueses chegaram no Brasil? Será que o português também teria esvaecido, como aconteceu em Macau?

Aí estou eu, ao lado da placa de um largo no centro de Macau. Todos os sinais e placas da cidade são bilíngues, embora a população chinesa pouco saiba de português! Abaixo, pra dar risadas: uma loja de “quinquilharias” – o velho armarinho “vende-tudo” do Brasil…

Igreja de São Paulo, com o detalhe de um galo em frente à mesma (resquício de celebração do Ano Novo Chinês) e um pedaço de um largo em Macau. Estamos ou não em uma Parati da Ásia?

Entretanto, além das observações de “cidade”, deu pra passearmos em alguns pontos turísticos de lá, como as ruínas da Igreja de São Paulo, no largo da Companhia de Jesus. Uma igreja muito similar as de Ouro Preto e afins, embora apenas a frente tenha sobrado. Existe também uma fortificação portuguesa ao lado dessa igreja, onde hoje funciona o museu de Macau, e de onde canhões no passado miravam o porto tão valioso. Hoje apontam pro vazio, para a ausência de disputa e futuro.

Minha feijoada em Macau!! I couldn’t believe!!! E abaixo, um passeio pelo calçadão central de Macau, onde uma feira de produtos para o Ano Novo Chinês estava acontecendo: não parece que estamos no centro do Rio antigo?

China - Macau

Um templo budista chinês… Onde a cultura do dominador não prevaleceu tanto assim entre o povo…

De qualquer forma, fomos a Macau para sentir essa “estranheza”, e eu, particularmente, fui lá para comer feijoada. Sim!!! Meu prato predileto, servido com toques da culinária macauense, simplesmente perfeito! Tracei a feijoada sem dó nem piedade – acho que só quem já morou no exterior sabe das dificuldades para se encontrarem alguns ingredientes simples para brasileiros às vezes, portanto, comer uma feijoada é um prêmio que eu prezo muito. O mesmo para o pastel de pizza da feira da Mourato Coelho, mas aí já é outra história…

Tudo de bom sempre.

PS: Devo dizer que andar por Macau é como andar por Parati ou Ouro Preto, mas com traduções em chinês para todos os lados. Achou estranho? Vai lá conferir essa doideira. É de dar nó no cérebro…

Postado em 18/02/2005 por em Ásia, China, Viagens

Visão geral (e vertical) de uma das muitas avenidas de Hong Kong.

Para os amantes de cidades, metrópoles e todos os aspectos de uma urbe imensa, visite Hong Kong. Para os que querem segurança e eficiência numa cidade, visite Hong Kong. Para os que dependem de uma natureza exuberante e bela por perto, visite Hong Kong. Para os que gostam de comer bem, visite Hong Kong. Para os arquitetos, urbanistas, amantes dos trópicos… visite Hong Kong. Precisa dizer mais? A cidade é incrível. Eu me apaixonei por Hong Kong, e foi amor à primeira vista. Minha sensação? Um Rio de Janeiro menor, sem violência e bem mais organizado. Organização inglesa, diga-se. Embora a cidade não seja enorme, tem espírito cosmopolita no melhor sentido da palavra.

Chegamos em Hong Kong num dia ensolarado, e a visão da janelinha do avião já prometia, pois a paisagem natural da ilha era fantástica. Uma pequena Angra dos Reis com ilhotas e praias recortadas. Mas é quando você desembarca naquele aeroporto modernérrimo e se encaminha para o centro da cidade que percebe o quanto Hong Kong é uma cidade pra lá de especial. Hong Kong é vertical.

Hong Kong

Olha a iluminação desse arranha-céu, que maravilha!!!

Cercada de verde e morros, os arranha-céus cortam o visual. Mas não é qualquer arranha-céu, não! É o conjunto de prédios mais bonito que eu já vi, todos de arquitetura e design arrojado, funcionais, e disputando à noite qual deles faz o melhor show de iluminação. E que show na noite do Ano Novo Chinês! Luzes de todas as cores, prédios mudando de tons, uma pintura em monumentos de vidro e aço refletida nas águas da baía de Victoria. A Liliana, um doce de pessoa que morou por mais de um ano nessa “Cidade Maravilhosa da Ásia”, mandou um email com uma lista do que seria fundamental fazer por lá em poucos dias. Não deu pra fazer tudo por falta de tempo, mas a travessia à noite pela baía de Victoria para o Kowloon vendo os prédios iluminados… ah! Isso eu fiz, e recomendo a todos! Respirar a brisa do mar de modernidade…

De dia e de noite, um minúsculo pedaço dos arranha-céus, cartão postal da cidade. Detalhe: esse prédio em verde à noite troca de cores em degradê. Simplesmente perfeito.

Das atividades recomendadas pela Liliana, também conseguimos fazer a subida ao Pico Victoria (ou Victoria’s Peak) pra ver o pôr-do-sol – além de andar em uma trilha por lá atrás dos melhores ângulos fotográficos da cidade -, a subida nas escadas rolantes entre a cidade baixa e a cidade média, e os passeios de barco pela marina. Fomos também à rua Des-Voeux, famosa pelas lojinhas de produtos exóticos/medicinais chineses (à la repórter-denúncia: fomos atrás de barbatanas, é claro), onde encontramos cavalo-marinho seco, chifres dos mais diferentes animais, inúmeros tipos de cogumelos, abalones, pepinos-do-mar à venda… enfim, um mar inteiro de bizarrices gastronômicas para satisfazer o exigente mercado honkonguense (isso aí tá certo em português?).

Contra-indicada a quem tem medo de altura.

Também fomos ao Ocean Park, um centro de lazer aquático do outro lado da ilha, com uma montanha russa instável como aquelas de parquinho em cidade do interior. Esse parque vale a pena pela harmonia de todas as edificações com a vegetação do morro – o parque é o morro inteiro! E pelas escadas rolantes gigantes que nos levam até o topo do morro (como escada rolante é uma eficiência urbanística!), e pelos diferentes aquários, com peixes de todos os tamanhos e modelos, vindos das águas de todos os lugares tropicais do planeta. Muito organizado.

Passarelas para pedestres servindo de calçadas (à esquerda da foto) e desengarrafando o trânsito. Abaixo, iluminação dos prédios para o Ano Novo Chinês.

Organização não falta em Hong Kong. Acho que todos os administradores do Rio de Janeiro deveriam passar um tempinho por lá, para aprender a construir em morros sem destruir a vegetação, para ver como se organiza uma cidade em níveis sem caotizar o trânsito – que em Hong Kong flui tranqüilo, pois os pedestres andam muito em passarelas especiais, diminuindo o número de semáforos/sinais para os carros e agilizando o tráfego.

Eu poderia continuar desfiando um mundo de palavras aqui, descrevendo cada minuto mágico e delicioso pelas ruas de Hong Kong. Mas eu só passei uns poucos dias, minhas impressões de turista casual são poucas. Aprofundamento no assunto, quem quiser, vai correndo visitar o blog da Liliana e dê uma lida meticulosa e com carinho nos excelentes textos que ela pôs por lá, em um tempão de experiência nessa pérola de cidade – sortuda!!

E no fim fica a pergunta: em Hong Kong, eu estava mesmo na China? Tirando pelos letreiros em chinês, mal dava pra perceber sinais da velha China comunista! Pessoas de todas as etnias, lojas de todas as grifes famosas e caras, custo de vida alto, ônibus e bondes de 2 andares… É, os britânicos souberam direitinho colonizar e modernizar o velho entreposto comercial deles! Mesmo depois de devolverem aos chineses no fim da década de 90, o capitalismo do lugar não tem volta: é fato, e a China de Mao que se adapte a ele.

Tudo de bom sempre.

Viajando na maionese…

– A culinária de Hong Kong é um capítulo à parte em qualquer texto sobre a cidade – de ninho de passarinho à bexiga de urso, come-se de tudo exótico por aqui. O sabor? As coisas que eu provei foram todas deliciosas com aquele tempero chinês acentuado: noodles frito, carnes agridoces, frutos-do-mar bem feitos. E não! Eu NÃO comi sopa de barbatana de tubarão, a iguaria mais valorizada do mercado (mais de 100 dólares um prato!): vai contra os meus princípios eco-bio-político-tubaro-humanísticos. Aliás, detalhes dessa “sopa” vêm num post pra frente aí…

– No dia 09/fevereiro, pleno Ano Novo Chinês, teve o jogo/pelada/treino de luxo Brasil X Hong Kong (placar 7 X 1), com Ronaldinho Gaúcho ídolo máximo e a estréia de Robinho. Não consegui assistir: ingressos a mais de 200 dólares/pessoa! Amigos, ainda não brota dinheiro na plantinha da minha sala, não! Foi melhor gastar muito menos e assistir num bar, tomando cerveja, comendo nachos e dando risada dos honkonguenses a cada gol do Brasilsilsil.

Pode ser uma besteira/burrice, mas até bem pouco tempo atrás, eu acreditava que Beijing e Pequim eram cidades diferentes da China. Custou para cair a ficha de que era a mesma coisa, e acho que isso aconteceu na época da escolha da sede das Olimpíadas de 2008.

(Beijing é o nome em mandarim, e Pequim é uma derivação britânica do nome em cantonês, idioma falado na parte sul da China.)

A chegada em Beijing já é em si estranha: senti uma sensação de “você está sendo vigiada” por todos os lados. Talvez psicológico, mas o fato é que já na saída do aeroporto vimos os famosos guardinhas do Mao Tsé Tung com seus uniformes descoloridos e postura disciplinada. E era apenas o começo.

A Muralha da China em uma pequena parte de seus mais de 6,000 km, obra sem igual no planeta. Abaixo, prédio governamental na Praça da Paz Celestial.

No dia seguinte, em nosso passeio pela praça da Paz Celestial (ou Tianamen Square), em meio ao mar de turistas, lá estavam eles de novo, os guardinhas do Mao, cuidando da foto do líder “querido”. E na foto, Mao é como a “Monalisa” de Da Vinci: pra onde você olha, ele está te encarando, ou melhor te vigiando. A praça é a maior do mundo, do tamanho de vários campos de futebol, e muito ampla. Aliás, Beijing é toda ampla. A cidade tem avenidas largas, ruas enormes e muitos espaços abertos. Ideal para um regime ditatorial: não há como concentrar pessoas em lugares amplos – vide Brasília. Pode ter 1 milhão de pessoas ali, vai parecer na TV que só tem 20.000. Ótima propaganda contra os “inimigos do sistema”, não?

A foto de Mao Tsé Tung “vigiando” o guarda que vigiava os turistas na Praça da Paz Celestial.

Continuamos a caminhada entrando nas vias da Cidade Proibida, maravilha arquitetônica da época das dinastias chinesas. Era considerada “proibida” porque todos precisavam de autorização do Imperador para adentrar-se por lá em épocas passadas. Vários palácios enormes feitos de madeira e sem nenhum prego de sustentação, com telhados amarelos (cor da realeza) e paredes vermelhas (cor da felicidade). Os pilares dos castelos feitos com madeira de uma árvore já extinta devido ao grande uso humano – extinguir não é novidade em se tratando de humanos. Em outra área, no Palácio de Verão, um impressionante barco me chamou a atenção: a embarcação foi toda feita com uma peca única de mármore! Inacreditável. E todos os palácios, tanto na Cidade Probida como no Parque de Verão, de costas para a montanha, no mais perfeito feng-shui.

Feng-shui é uma instituição na China, e eles afirmam que, acreditando ou não, ele funciona. Interessante notar que a idéia do feng-shui é de que o fluxo de energia (vinda da água) corre da montanha para o mar, e no caso de Beijing isso acontece no sentido norte-sul. Mas no Brasil, por exemplo, obviamente não seria assim: o tal fluxo seria oeste-leste. Não acredito muito nisso, mas acho interessante e divertida toda a concepção da coisa. E principalmente acho interessante quando leio em sites brasileiros que você precisa manter o sentido norte-sul para manter o “bom feng-shui”: imagino a “bagunça energética” que isso causa para os pseudocrédulos sem eles nem desconfiarem da razão.

Dragão na entrada de um dos palácios de Verão. 

Entretanto, ao andar pelas ruas de Beijing, a sensação de enormidade vazia é constante. Será o feng-shui do lugar? Muitos prédios modernos de corporações que se infiltraram com a abertura político-econômica, com propagandas ainda tímidas, mas já existentes. Em alguns momentos, não me sentia num país ainda socialista, mas bastava olhar com mais cuidado para qualquer lugar para ver os guardinhas do Mao ali, observando tudo, fiscalizando nossos passos. E ver as bicicletas. Pouco trânsito em geral na cidade – talvez por causa do feriadao do Ano Novo Chinês.

Adaptações e diferentes versões de bicicletas, o veículo chinês por excelência em idos passados. 

China Beijing

Detalhe de um dos muros da Cidade Proibida.

E como qualquer país que se inicia nas entranhas do capitalismo, a desigualdade é latente, mas está lá. A maioria muito pobre, uns poucos donos de tudo – e desconfio que a nova elite milionária é derivada dos ex-primeiro-escalão do comunismo, mas isso é apenas desconfiança. Fato é que a média salarial é de 300 dólares por mês em Beijing. Não sei quanto é em São Paulo, por exemplo (vergonhoso para mim, eu sei), mas para qualquer relatório da ONU, isso é pouco e problemático. Entretanto, o custo de vida em Beijing é baixo, mas vem lentamente aumentando, de acordo com os locais com quem conversamos.

Há uma hora e meia de Beijing, está a atração mais popular da China: a Muralha, esse paredão no topo das montanhas, com mais de 6,000 km de extensão feito há mais de 2,000 anos (!) para proteger o antigo império de invasões mongóis. Os tijolos foram postos com uma cola feita de arroz e ervas – haja arroz! Arquitetonicamente falando, é uma obra impressionante. Não haveria pior terreno para pôr tal edificação, e eles não só o fizeram, como cobriram toda a extensão limítrofe do antigo território. Coisa de maravilha do mundo mesmo, pra babar e tirar o chapéu.

O impressionante Barco de Mármore no Palácio de Verão. Abaixo, um dos palácios da Cidade Proibida.

Não saí de Beijing sem comer o famoso “pato de Pequim”, uma delícia que derrete na boca, de tão macio. Que torresmo! E pra terminar toda a estranheza do contraste entre esse tradicionalismo e a modernidade dos edifícios, outdoors com a pitada socialista da experiência, esse pseudo-capitalismo-pseudo-comunismo confuso, disse “Xié xié” (“obrigada”, em mandarim) pro guardinha de Mao da imigração, antes dele confiscar meu vinho português que tinha comprado em Macau com tanto carinho pra saborear na Coréia. Afinal, se estou sendo vigiada mesmo, que eu sorria na foto, pelo menos.

Tudo de bom sempre.

Viajando na maionese…

– A pirataria é invencível: como resistir a DVDs de lançamentos de filmes a 1 dólar?

– Beijing está construindo vários estádios para as Olimpíadas de 2008, e as construções estarão todas prontas em 2006, para que haja 2 anos de tempo suficiente para as árvores e gramados crescerem!! Essa preocupação foi a mais inesperada que eu ouvi. Comentei que se fosse nos EUA, as obras se completariam um dia antes, pois poriam grama e árvores sintéticas, que dão o mesmo efeito na TV. André completou: “Ou terminariam 2 anos antes para vender o espaço publicitário”. É, viva o capitalismo selvagem.

Postado em 14/02/2005 por em Ásia, China, Viagens

Uma viagem de uma semana (9 dias, vai…) que valeu por um mês. Sim, foi assim minha última semana na China. E foi tanta informação, tanta curiosidade, tanto deslumbramento, tanta reflexão, que eu concluí que não daria pra escrever um post sobre a China. Um post é muito pouco pra tanta coisa.

E como uso esse blog também para “armazenar” minhas impressões, decidi escrever 7 posts sobre a China. Isso mesmo, 7. Durante os próximos 10 dias (?), estarei dando uma overdose de China em todos. Aos que não estiverem a fim dessa loucura asiática, apertem o X vermelho do cantinho. Aos que encararem essa maratona… bem, que cheguemos vivos no final! Eu cheguei, pelo menos.

Meu roteiro de viagem foi: 3 dias em Taipei (Taiwan), 3 dias em Hong Kong e 3 dias em Beijing/Pequim (China). Seguindo a sugestão do André, decidi não seguir a ordem cronológica da viagem, mas dividir a China em 3 e falar um pouco de cada uma delas nos 3 primeiros posts:

“China-mãe”: Beijing/Pequim
China capitalista: Hong Kong
China rebelde: Taiwan

Mas como muitas reflexões brotaram da viagem, sobrou assunto pra mais post. Na realidade, impressões e perspectivas que eu gostaria de escrever um pouco, discutir, colocar no “papel virtual”. E ficaram pros 4 posts seguintes:

China portuguesa: Macau
Ciclo de vida de um tubarão na China (eu não podia deixar de fora essa polêmica…)
Alimentar um bilhão de pessoas
– Dilemas, curiosidades, idéias, percepções extras, enfim, o que faltar escrever sobre a viagem da China. Principalmente do Ano Novo Chinês!

Tem mais um monte de viagens na maionese. Aos poucos vou colocando o que lembrar. Mas gostaria de adiantar um “recadinho”: Liliana e Verena, vocês foram muito sortudas de morar em Hong Kong!

Agora vou lá desarrumar a mala da Malla, descarregar as fotos da máquina e descansar, que amanhã começa a viagem pelo blog.

Tudo de bom sempre.

PS: Nenhum post está escrito ainda. Pode ser que esse prazo de 10 dias seja apenas utópico, de acordo com o caos nosso de cada dia. E pode ser que eu reformule algumas coisas. Ou então termine postando menos, não sei. Mas que sai algo, sai!

Postado em 13/02/2005 por em Ásia, China, Viagens

Todo mundo já deve ter escutado (se não já falou) que a próxima grande potência mundial será a China. Será, não: já é. Afinal, um país que passou da marca de um bilhão de habitantes exerce uma pressão danada em cima dos demais por recursos, sejam eles quais forem. E pode produzir muito mais, pois mão-de-obra a preço de banana é o que não falta. Ouvi uma vez alguém comentando que se você é um empresário qualquer e vende um produto a 1 dólar, se esse produto for necessário aos chineses, e você colocá-lo nas mãos de cada um de lá, você arrecada 1 bilhão de dólares. É… nada mal pensar assim, né? Os novos bilionários da China. (Tudo bem esquecer do dinheiro gasto pra produzir esses 1 bilhão de produtos, mas até lá, morreu Neves…) Acho que esse é o sofisma básico atrás de todo mundo que quer “fazer negócio” com os chineses.

Por outro lado, a China sempre foi um império, desde os idos de milênios atrás, quando seu território ainda expandia-se desde o norte da Rússia até a península coreana. E toda essa tradição que continua firme e forte, mantendo a máquina da modernidade que vem trabalhando sem parar por lá. A cultura chinesa é riquíssima, cheia de nuances e novidades aos olhos ocidentais. É um lugar a ser desvendado ainda.

Na mentalidade anti-americana vigente, é realmente muito bom que apareça uma super-potência imperialista para rivalizar com os EUA: um concorrente – e lá vamos nós de volta à era da Guerra Fria. Mas, não sei, acho esse pensamento muito ingênuo. A China não rivalizaria com os EUA; ela teria 2 opções na atual conjuntura: 1) juntar-se aos EUA e fazer um mega-império (coisa pra Hollywood divagar sobre) ou 2) sobrepôr-se aos EUA, e se tornar hegemônica. A existência de ambos como super-potências, a história nos mostra, é improvável.

Entretanto, por mais crítica à política, ao modo de vida, às surrealidades e idiotices bushianas que eu seja, eu tenho medo da China. Medo não, receio. Porque, para os chineses, existe uma certa flexibilidade geral, o mundo tende a aceitar melhor as besteiras que eles já fazem – “ora, eles têm que alimentar um bilhão! Ora, eles não são arrogantes como os americanos! Ora, eles trabalham duro! Ora, eles têm uma tradição milenar!” E em nome dessa tradição, me mostre: o que aconteceu?

Primeiro, eles praticamente extinguiram várias espécies de animais, entre eles o panda e outros ursos: porque “fígado de urso faz muito bem pra saúde! Come-se na China há tanto tempo!” Outro exemplo? A malfadada barbatana de tubarão. Os chineses usam, abusam e destróem o ecossistema marinho nas ilhas do Pacífico e adjacências (amparados por governos locais corruptos) para pescar os tubarões, porque “sopa de barbatana é afrodisíaco há mais de mil anos!”. E não é de se estranhar que o maior porto de chegada e comércio clandestino de animais raros e exóticos para consumo humano esteja na China – e que esse lugar seja o pesadelo de qualquer ONG ou instituição séria de defesa do ambiente.

Em segundo lugar, uma economia que se baseia na opressão à liberdade de imprensa me dá receio. Essa é a característica, aliás, que mais me incomoda. Daremos lugar a uma super-potência, mandando e desmandando nos caminhos do mundo (é isso que os EUA fazem hoje…) que controla a informação que flui no próprio país? E se um belo dia eles decidirem controlar a informação de outros lugares? Além do mais, como estão sendo formados os cérebros chineses? A sensação que dá é que esses estão espalhados pelo mundo, isentando-se da máquina opressora estatal.

Terceiro, a exploração dos recursos naturais acelerada, tudo em nome do progresso. Afinal, mais uma vez, a mesma história: precisamos dar boas condições de vida a todos os nossos 1 bilhão de chineses. Recentemente, vi uma reportagem da construção da maior usina hidroelétrica do mundo, que será na China. O lago da usina inundará uma área de preservação, inúmeras cidades ribeirinhas, e gerará um impacto ambiental inimaginável – mas eles precisam de energia, não é mesmo? Desculpe-me, mas essa mentalidade “malufista” é bem atrasada, alguns países da Europa já mostram formas alternativas de desenvolvimento sustentável muito mais limpas, sem prejuízo humano nem ambiental.

Assusta-me a falta de preocupação ambiental chinesa, a inflexibilidade da tradição milenar deles, o desrespeito latente quando o assunto é se dar bem: eles estão reinventando o “jeitinho brasileiro”, multiplicado por seus 1 bilhão de habitantes. A China é hoje para o mundo o que o Paraguai foi há um tempo atrás para o Brasil: fonte de produtos piratas mais baratos, área livre para compra de contrabando.

Não sei, tenho todas essas questões em mente quando penso na China. Entretanto, nunca estive lá, e todas essas informações são advindas da minha curiosidade em ler, procurar saber, fuçar sobre o assunto e polemizar um pouco.

Mas a partir de amanhã, a história é outra. Dia 09/fev é o dia do Ano Novo Chinês, feriadão importantíssimo na Coréia e China. Enquanto os brasileiros se divertem atrás do trio elétrico, eu estarei embarcando nessa viagem milenar introspectiva de volta à “terra-mãe”, de onde supostamente quase tudo saiu, desde o macarrão até o futebol. Uma semana na China: não vai me responder todas as questões que já tenho em mente, mas vai me mostrar um pouquinho da realidade deles. E, com certeza, vai me ajudar a formular melhor minhas opiniões sobre esse gigante.

Tudo de bom sempre pra todos, e bom Carnaval pros que pulam!

Viajando na maionese…

– Vale ressaltar que quando eu falo em China, eu penso na realidade em 2 países: China e Taiwan. Embora sejam considerados 2 países (brasileiros precisam de visto de entrada pros 2), a China continental não reconhece, e aí fica aquela confusão geográfica. Ok, pra efeitos de destruição ambiental, é tudo a mesma coisa: ambos destróem sem dó.

– Se é pra ter uma potência populacional no comando do mundo (que papo mais vilão de desenho animado!), acho que eu prefiro a Índia, que já chegou também na casa do 1 bilhão de habitantes.

– Para aqueles que estiverem sem fazer nada na manhã de quarta-feira de cinzas (7:00), assistam ao jogo da seleção brasileira de futebol X Hong Kong – um “clássico”. Se vocês enxergarem na arquibancada um pontinho azul pulando feito louca com uma camisa verde-amarela por baixo… sou eu de casaco! Existe uma remota possibilidade de que eu esteja lá vendo o jogo, tudo vai depender de conseguirmos ingressos a preços camaradas dos cambistas – viva a China.

– Volto dia 14/fev. Até lá: Vanessa, Dmitri, Fernando e Vander: feliz aniversário!

Crime e castigoComo previsto, não terminei de ler “Crime e Castigo” pro Clube de Leituras do blog do Alexandre. Estou lá pela página 160, mais ou menos no meio da segunda parte do livro. E estou gostando muito. Já fui uma boa leitora de clássicos na adolescência, mas depois que mergulhei na ciência de cabeça, meu tempo para tal delícia se resumiu muito – e passou a faltar paciência, às vezes.

Nesse ponto, o clube de leituras foi um incentivo perfeito para que eu voltasse a ler clássicos. Valeu demais, Alexandre! Mesmo sem terminar, vai aí minha opinião pelas metades. E para os que estiverem a fim de ver o que está rolando, visite o fórum de discussão do livro: diversão e cultura certa.

*******************************

Minha impressão de “Crime e Castigo”, do Dostoievsky, é boa. Estou lendo uma tradução em inglês (o que em parte justifica minha demora em ler), sem nenhuma nota do tradutor (tenebroso isso) e com umas frases meio “singulares” – não sei se Dostoievsky usava por exemplo o termo “niggers on plantation” visto que escravos negros não eram comuns na Rússia daquela época – ou eram, não sei. O livro começa meio monótono – embora eu tenha gostado do capítulo de abertura, o segundo e o terceiro foram bem chatos. A leitura comecou a fluir mais a partir do recebimento da carta da mãe do personagem principal, Raskolnikov. Mas quando você chega na segunda parte, fica um ar meio “Alice no País das Maravilhas”, meio alucinação, delírio. Ainda estou tentando entender se o cara é louco varrido ou se é muito looser mesmo.

De qualquer forma, embora “Crime e Castigo” se passe na Rússia do século XIX, não me senti totalmente levada para lá. Achei a composição dos personagens, cenas e todo o resto muito mais “universalizada” que localizada. Não dá pra viajar pra Rússia, mas dá pra viajar na maionese da cabeça do Dostoievski e seus personagens.

*****************************

Eu sempre achei os povos do Leste Europeu tristes. Não tristes de horríveis, não. Tristes de melancolia, um ar de quem está em depressão sistêmica. Já morei com uma búlgara, namorei um russo, trabalhei com outros russos, húngaros e cazaquistaneses (está certo isso?), e conheci checos e croatas. Todos, sem exceção, têm um ar triste. Na minha santa ingenuidade, eu creditava essa característica à vivência sob o regime socialista que todos passaram e/ou herdaram de suas respectivas famílias, que os fazia temer as críticas e desconfiar de todos. E na minha cabecinha de minhoca o socialismo entristecia.

Depois que achei um estudo da ONU ranqueando os 10 países com pessoas mais tristes, e 7 deles eram no Leste Europeu, o que era antes uma mera impressão fixou-se na minha cabeça como realidade. Mas por quê? Por que eram todos tristes? Agora, lendo sobre a vida de Dostoievsky (na versão que estou lendo tem uma pequena biografia de 20 páginas no início) e lendo “Crime e Castigo”, despertei a percepção de que a tristeza dessas pessoas não pode ser por causa do comunismo, porque parece que ela já existia naquela época, quando socialismo ainda era um sonho a ser realizado. E aí a busca pela razão dessa tristeza ficou mais complexa. Será que é genética ou memética? A forma como as pessoas do Leste Europeu encaram os obstáculos da vida, será que tem a ver com menor produção de serotonina, ou algo do gênero? Pode ser besteira, mas no momento, quero me convencer que é uma diferença genética que gera essa tristeza generalizada. Porque se for genético, vai apenas fazer parte da maravilhosa diversidade da espécie humana, e de alguma forma essa característica teve um valor adaptativo e pôde ser mantida na população – então confere alguma vantagem, sei lá eu qual. Mas se for apenas cultural… qual a vantagem seletiva que isso traria?

*****************************

Fiz esse post sem ler o comentário de absolutamente nenhum participante do Clube de Leituras sobre o livro. Agora, vou comecar meu passeio dostoievskiano pela cabeça dos outros…

Tudo de bom sempre.

Lendo o post do Idelber há uns dias atrás, me peguei fazendo algo que não gosto, mas fazendo: ranqueando as 5 cidades (metrópoles, diria) que considero as melhores do mundo – entre as que já visitei, é claro!

Como qualquer outro ranking, é a coisa mais sem noção e difícil de fazer, pois cada cidade tem suas peculiaridades e esconderijos, o que dificulta o julgamento em si – cientistas querem todas as variáveis controladas, e isso é difícil num caso subjetivo! Pra mim, perder-se em todas elas é algo fundamental. Mas tem umas que têm mais a oferecer, outras têm mais pra te tirar (principalmente dinheiro $$$$…), outras mantêm-se indecifráveis mesmo e essa é a beleza delas. Também tem o fator “tempo”, pois uma coisa é visitar, e outra é viver na urbe. E nesse ponto, percebi que meu ranking mal e porcamente refletia o tempo variável que passei em cada cidade.

De qualquer forma, aí vai meu ranking (em ordem de favoritismo, da melhor pra pior), passível de muitas refutações da parte de qualquer um que leia isso.

1) Berlim!!!!

2) Barcelona

3) Paris

4) Nova Iorque

5) São Paulo

E aí comecei a viajar mais ainda na maionese e fiz uma lista das 5 cidades/vilarejos minúsculos e desconhecidos (nem tanto, vai) “da grande massa” que conheci e que mais simpatizei, por razões que nem mesmo a própria razão explica:

1) Annecy

2) Waimanalo

3) Verona

4) Malapascua

5) Dodong

6) Raul Soares

E vou confessar: pensar no ranking das menores foi muito mais difícil que no das metrópoles, tanto que chutei o pau da barraca e pus 6. E tem uma lista enorme que está de fora. Lugares, lugares…

Dodong, na ilha de Ulleung-do, Coréia do Sul, e Makapu’u Beach, a caminho de Waimanalo, Hawai’i. Fofuras de lugares pequenininhos!

Tudo de bom sempre.

Show do Sting

No palco do Olympic Park, Sting e seu baterista semi-metal, em momento pop do show.

Hoje realizei um pequeno sonho: vi o Sting cantando ao vivo em Seul “Englishman in New York” e “Message in a bottle” – e ele pela primeira vez apresentou-se na Coréia. Além dessas 2 músicas, eu tenho uma terceira predileta dele, “They dance alone”, que por ser menos popular, não esperava mesmo que fosse tocada.

Mas enfim, o show foi bom, mas não dos melhores que eu já fui. Sem dúvida, eu preferia ter visto tocando a banda do “Bring on the night”, com Branford Marsalis no saxofone. Mas o show tinha a cara do Sting: recatado, simples e cheio de hombridade. Um show gentleman, seja lá o que for a definição disso. Então, sem reclamações.

E assim a vida continua: um pequeno sonho que já não está mais na imensa lista que tenho ainda a realizar. E não é de pequenos sonhos que construímos os maiores sonhos?

Pra realizar os grandes sonhos, há de prestar atenção e valorizar os pequenos…

Tudo de bom sempre.

São Paulo

Eu adoro São Paulo. Com todos os defeitos, problemas e esquinas. Sou execrada pela minha família carioca (eu também sou carioca de nascimento), que acha que eu sou louca ao mencionar essa frase. E me chamam de “carioca falsa”, “carioca do Paraguai” e etc. Imagina a cara de todos quando dediquei minha tese à cidade que me acolheu com tanta poluição e ensinamentos – sim, eu fiz isso. Ontem foi o aniversário da cidade mais cosmopolita do Brasil e eu deixo aqui a minha declaração de amor. Morei na Vila Madalena por 2 anos, e só tenho boas recordações da cidade. É claro que coisas ruins também aconteceram nesse período, mas evanesceram perante a magnitude dos bons momentos. Cinemas na Paulista, filmes de graça no Ibirapuera, shows maravilhosos de música instrumental, a pizza de rúcula com tomate seco da Oficina, o pastel da feira da Mourato Coelho, o Blen Blen Brasil, o Grazie a Dio, o menta-chopp do Elefante, a Bienal de Arte e do Livro, os SESCs, o bandeijão da USP com o suco multiplicado, o ônibus Barra Funda… e principalmente, as amizades que fiz na cidade. Aos meus amigos paulistas e à cidade de São Paulo, meus parabéns ontem, hoje e sempre.

“Na grande cidade, me realizar, morando no BNH.”

Tudo de bom sempre.

O meu amigo Túlio finalmente foi seduzido pelo mundo dos blogs. Ele é um biólogo brasiliense que adora uma colagem musical, vai agora fazer colagens bloguísticas também, e sabe-se lá da onde serão as fontes – talvez da sua cabeça super-criativa. Vale a pena ficar de olho.

***********************************

Tem 2 coisas que não irritam, mas incomodam nesse blog, e que devido ao meu analfabetismo informático em HTML, não consigo consertar:
1) o fato de que alguns links “desaparecem” e só “reaparecem” quando passo o mouse por cima;
2) a desuniformização das cores nos links – é pra ser tudo azul-piscina! Por que em alguns links ela insiste em se manter mais escura?

Se alguém souber o que eu faço pra consertar esses detalhes minúsculos, não se acanhe em ajudar! Desde já, agradeço.

***********************************

Acho que não vai dar pra terminar “Crime e Castigo” a tempo pro cross-talk do Alexandre. Que droga!

***********************************

Se você não leu a coluna do New York Times (com tradução do UOL) comparando o Bush ao Bob Esponja (o “Bush Esponja”), precisa ler. Para os fãs do invertebrado marinho como eu, é de se perguntar como algumas pessoas conseguem ser tão criativas.

***********************************

Existe algo mais legal, fofo e carinhoso do que uma amiga virtual te enviar um cd de um grupo musical que eu nunca comentei com ninguém que adorava (acho que ela deve ter uma bola de cristal lá em Portugal, quem sabe?) e com uma carta/filosofia escrita à mão em plena era da comunicação virtual? Isso sim dá uma luz diferente pro nosso dia… Estou speechless, não sei nem como agradecer esse carinho todo. Muito legal mesmo!!!
🙂

************************************

O Bia perguntou nos comentários do post anterior a este o que eu achava do Stephen Jay Gould… eu respondi lá, mas vou repetir aqui porque adorei ressuscitar essa lembrança: os textos do Gould mudaram a minha visão de mundo e de mim mesma. O Gould era um desses caras que eu queria abraçar na vida e dizer: “Você é o máximo, meu ídolo!” Quando fui morar em Boston, um dos meus sonhos era um dia “esbarrar” sem querer com ele ou assistir a uma palestra dele (ele era curador do Museu de História Natural da Harvard). Uma noite, em pleno Harvard Yard, ele passou em frente ao banco onde eu estava sentada – e eu perdi a voz ao vê-lo. Patética a situação, e simplesmente ele continuou andando, eu de olhos arregalados e ele nem reparou. Faltando 2 dias pra eu me mudar de vez de Boston, ele morreu, de uma patologia que na época eu estava fuçando um pouco: mesotelioma, um tipo de câncer agressivo e que em geral leva à morte em menos de um ano após diagnose. Ele viveu 20 anos depois de diagnosticado (!), e serviu de cobaia para vários testes: um dos médicos que o tratava chorou muito ao saber da sua morte, pois muito mais que um mero paciente, ele foi um cientista iluminado ajudando com conclusões brilhantes a desvendar um problema sério. Ele trabalhava com os médicos elaborando hipóteses e experimentos, o que é um raro evento. Após sua morte, fui fazer minha “reverência final” a ele visitando mais uma vez a coleção do Museu que ele tanto ajudou, e tanto enriqueceu a história biológica, e cuja coleção paleontológica ele tinha tanto orgulho. E eu percebi egoisticamente que meu ciclo em Boston tinha acabado: uma das minhas “razões” de estar lá tinha morrido.

Se quiser sacar um pouco da genialidade do Gould, leia esse texto sobre a sua visão do mesotelioma e as conclusões estatísticas a que ele chegou. E se gostar desse texto, viaje mais ainda lendo “Vida Maravilhosa”, “O Polegar do Panda”, “A Galinha e seus Dentes”, e tantos outros livros/ ensaios biológicos de peso.

*************************************

Tudo de bom sempre.

Página 150 de 156« Primeira...148149150151152...Última »