O Fernando escreveu um texto entitulado “Devolution”, eu venho discutindo isso com amigos de faculdade via fórum de emails já há muitos meses, discuto em casa com meu namorado constantemente sobre o assunto, e hoje foi a gota d’água quando eu li essa reportagem do New York Times. A invasão de alienação chegou até nos deliciosos cinemas 180 graus!

Ando muito mal-humorada com várias coisas no macroambiente: política americana impositória ao lidar com a Coréia do Norte (Dona Arroz só abre a boca pra falar besteira, como fez ontem em sua visita ao Japão); o aval do governo Bush para perfuração em busca de petróleo numa reserva ecológica do Alaska de natureza única – tudo para manter o consumismo exagerado do american way of life; e a notícia de que mesmo se parássemos AGORA de consumir combustíveis fósseis, os efeitos desse abuso poluído pros próximos séculos serão sentidos – ou seja, entramos num nível de comprometimento do clima mundial que só mesmo um desneuronizado não entenderia como real. (Tá lá na Nature dessa semana, pesquisa séria de renome, feita com a mais clara metodologia científica popperiana, hipótese testável e passível de discussão sensata com argumentos embasados.)

Isso tudo já me deixou irritada. Agora, pra mim, bióloga de carteirinha e coração, o pior de tudo é deixar esse povo que mora em Jesusland querer mandar no ensino de Evolução. Não há nada pior do que interferir a ciência com religião, duas temáticas distintas em sua base de construção do raciocínio. Como bem disse o Fernando, por que o “Design Inteligente” nunca leva em consideração a “inteligência” de Maomé, Buda, ou que seja a galinha dos ovos azuis com bolinha laranja que sustenta o Universo? Por que sempre a “inteligência suprema” – agora permeada de falácias e sofismas filósofico-científicos – é esse ente supranatural cristão? Por que eles conseguem publicar mentiras e os bons cientistas, com sua cautela sublime, não conseguem replicar à altura, de forma que de vez em quando esse embate desnecessário volta à arena irritando meus neurônios? E em que universidade se graduaram esses cientistas que não se lembram de como um olho foi formado, esquecem da diferença evolutiva entre estrutura análoga e homóloga, jogam fora todo e qualquer estudo de replicação de DNA, para defender uma idéia sem pé nem cabeça que é sustentada pela presença de uma entidade antropomórfica? Qual o problema filosófico-existencial de não sermos os reis todo-poderosos no lugar em que vivemos?

E quando é que as pessoas entenderão que evolução não é teoria: é FATO. Darwin apenas lançou uma teoria que explicasse o FATO da evolução!

Um copo de água com açúcar, por favor, que eu estou muito irritada, e esse não é o meu normal. Desculpa o desabafo, mas alienação e desrespeito ao método da ciência me tiram do sério.

P.S. Eu havia me auto-prometido não escrever sobre esse assunto. Mudei de idéia e desopilei meu fígado, pelo menos um pouco. Foi bom.

Aceitar um fato

Aceitar um fato

Olho: a estrutura anatômica que mais grita aos ouvidos de um biólogo: eu sou fruto de um processo evolutivo! Esses olhos aí pertencem a uma sépia e a um peixe. Não são lindos?

*Mais fotos de olhos de peixe aqui.

Existem 3 tensões políticas acontecendo nesse momento aqui na Ásia, que recentemente foram manchetes de jornal:

1) A China aprovou a lei Anti-secessão, que dá direito, num modo curto e grosso de dizer, a tomar a ilha de Taiwan de volta para si. A existência de Taiwan como um país “independente” é um desses limbos políticos que ocorrem. Numa comparação não muito boa, é algo como se o Rio Grande do Sul tivesse decidido virar um país separado, e o governo brasileiro tivesse “deixado” por um prazo de x anos, como “teste”. Foi isso mais ou menos que aconteceu, e agora a China aprovou a não-aceitação de Taiwan como estado independente. Primeiro detalhe: para retomar Taiwan, eles podem ATÉ usar meios não-pacíficos – entenda-se, uma pequena guerra pode ser travada na ilha. Segundo detalhe: o país que mais suporta Taiwan independente é os EUA. Nesse momento, os EUA tem cerca de 30,000 soldados estacionados na península coreana, mais um monte no Iraque e no Afeganistão – ou seja, um exército desgastado, que pouco poderá fazer por Taiwan. Pensando em estratégica também, os EUA não querem um confronto com a China. Ninguém quer brigar com um exército de mais de um milhão.

2) A Coréia do Norte agora quer fazer suas próprias regras na conversa com os outros países vizinhos sobre suas armas nucleares. Foi só Sra. Rice há algumas semanas abrir a boca comentando mais uma vez que a ditadura do Seu Kim do Norte não seria mais suportada pelo “democrático” estado americano, que o governante do Norte se revoltou. Bom, até agora ele não fez muito. Mais uma vez, talvez os 30,000 soldados americanos que aqui residem façam o Seu Kim do Norte pensar duas vezes antes de qualquer ação, ou talvez não. Mas vale lembrar que Seul tem cerca 10 milhões de habitantes e está a um pequeno míssel de distância de Pyongyang.

3) Recentemente, nos jornais coreanos, a notícia que mais tem chamado a atenção diz respeito à pequena ilha de Dokdo. Eu já expliquei a situação política daquele monte de pedras antes (e já estive lá). A ilha está mais próxima geograficamente do Japão que da Coréia do Sul, mas é território coreano, assim como Ulleung-do, um local lindo e com mais recursos e potencial turístico enorme. Pois bem, o Japão recentemente decretou um feriado, o “Dia de Takeshima” (Takeshima é o nome japonês para Dokdo), e os jornais aqui têm mostrado que nos livros didáticos japoneses, eles já mostram a ilha de Dokdo como um território japonês. Isso mexe com os brios da soberania coreana, e a situação tem estado tensa com os japoneses nesses dias. Algo talvez como se a Inglaterra quisesse o atol das Rocas para si, a grosso modo. Um punhado de pedras no meio do mar que pode detonar um pequeno conflito. Inacreditável, mas “welcome to the real world, Lucia”.

É aguardar os acontecimentos políticos se desenrolarem.

Tudo de bom sempre.

Postado em 17/03/2005 por em Ásia, Política

Hoje, 15 de março, começam as discussões no Clube de Leituras do blog LLL, via fórum. É o segundo round – no primeiro o russo Dostoiévsky reinou absoluto – e dessa vez, os livros de discussão foram “O Processo” e “A Metamorfose”, ambos de Franz Kafka, autor tcheco.

Eu tenho poucas coisas a dizer sobre Kafka em si: quando estive em Praga visitei a casa-museu em que ele viveu por um período de sua vida neurótica; e quem esteve lá, na casa azul de número 22 do Beco do Ouro, consegue talvez entender um pouco a razão de toda a angústia que ele passa nesses dois romances. Sua casa era um cubículo onde uma pessoa de estatura mediana não consegue ficar em pé – o pé-direito é extremamente baixo. Dentro de casa, o mínimo para sobrevivência, mas com sinceridade, estive poucas vezes em ambiente mais claustrofóbico que aquele. Talvez uma solitária de prisão de segurança máxima de filmes seja o mais próximo daquele quartinho. Não consegui permanecer por mais de 1 minuto no lugar, me senti nervosa, sufocada.

E se uma pessoa sobrevivia ali (recuso-me a dizer vivia, ele apenas sobrevivia), realmente, ele deveria se sentir uma barata como o personagem de “A metamorfose”. Kafka, o neurótico barata. Freud explicaria, com certeza (ou tentaria, pelo menos).

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Poucos livros de ficção me impressionaram tanto quanto “O Processo”. Li em 1993, numa edição do Círculo do Livro que existia na biblioteca da faculdade. Não o reli para essa análise, portanto consolido nessas linhas o que ficou em meus neurônios depois de tanto tempo. O que posso dizer é que toda a história de Joseph K., e a angústia que ele sofre, sem ao menos saber do que está sendo acusado… aquela situação indescritível de impotência perante a lei, a justiça e principalmente a consciência. Por mais que vasculhasse, K. não encontra e não encontrou o motivo de sua culpa. E só a angústia da procura já me deixaram louca por uns bons momentos degustando o livro. A maneira como Kafka carrega a história pra um desfecho (?), sua aparente inocência de palavras e principalmente, as cenas em que Joseph K. está correndo pelas ruas (será de Praga? Não lembro) fugindo… de quê? De quem? Da angústia de não saber. E vale aquela afirmação: mais vale uma verdade dolorosa do que uma mentira bem-feita. Será mesmo? Kafka explora isso, de forma genial, sublime.

Semi-decepcionei-me com “A metamorfose”, que li uns 6 meses depois de “O Processo”. Como essa é sem dúvida a metáfora mais conhecida de Kafka (o homem que se transforma em barata da noite pro dia), li o livro na esperança de uma grandiosidade hollywoodiana inexistente. (Como eu sou ingênua pra leitura às vezes…) Não veio, é claro. Apenas a mesma angústia, dessa vez nojentamente maior porque envolvia esse inseto horrendo ao qual eu tenho pânico. Confesso que à época cheguei a ter pesadelo com uma mistura de metamorfose com o filme “A mosca”: sonhei que tinha dado à luz a uma larva e que ela corria atrás de mim como barata. Argh só de lembrar!

E talvez o mais angustiante de tudo que Kafka mostra nos dois livros é a irreversibilidade da situação, é a nossa impotência como leitor que torce pro momento em que o personagem vai se beliscar e ver que está sonhando – não, esse momento nunca chega. E pra falar a verdade, o personagem principal em ambos os livros é meramente ilustrativo. Não interessa nome, idade, nada. O que interessa é o fato, a angústia, a alucinação real com que aquela mente se confronta. O que interessa é sua fraqueza intrínseca como ser humano.

Acho que, de certa forma viajante transcendental, Kafka deve ter sido, sem saber, o primeiro paciente de Freud.

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Vista da cidade de Praga hoje, e o bar que eu mais curti ir na Europa (por razões óbvias): onde mais no planeta você pode escolher no menu não só a bebida como a vidraria de laboratório em que vai querer tomar sua bebida? Esse é o mote do bar de estudantes “Alchemy”, um lugar escondidésimo na periferia de Praga. Na foto, eu e minha proveta de 1L de cerveja de cereja.

Praga é uma cidade que não merece o nome que tem – pelo menos em português. Já foi Cortina de Ferro, e das pesadas. A herança comunista ainda está lá, agora apenas dando charme ao local. De qualquer forma, Praga literal só se for de cultura hoje em dia.

Tive a imensa sorte de conhecer previamente a Zuzka, uma amiga tcheca que me acomodou nos dormitórios da universidade e me ciceroneou pela Praga turística e pela Praga dos tchecos, durante minha estadia por lá em 1997. A visita foi a mais inusitada de toda a Europa, pois vivi Praga como um morador da região – uma estudante, pra ser mais sincera. Como turista-chavão, andei pelas ruas da Cidade Velha, visitei o Castelo de Praga, admirei o Museu Nacional, botei um pé em cada lado do meridiano que corta a cidade na praça central, vi o Relógio Astronômico maravilhoso mostrando rotação da lua, estrelas e afins, cruzei a Ponte Charles e seus mil e um artistas de rua, e principalmente, aprendi a falar a famosa frase sem vogais que só em tcheco existe:

Strc prst skrz krk. (“Ponha seu dedo na garganta” – é o significado. No primeiro C tem um circunflexo invertido, que o meu teclado romano-coreano me permite esquecer.)

Como “tcheca do Paraguai”, fomos numa casa de chá numa ruela que jamais lembrarei como chegar de novo, onde era necessário uma senha em tcheco para entrar – nesse lugar, minha amiga me recomendou não abrir a boca em momento algum, pois se eles percebessem que uma estrangeira estava ali, poderiam nos expulsar. O local era um antigo reduto de reuniões da esquerda contrária à opressão do regime comunista, e como havia pouco tempo o regime tinha se esfacelado, muitas pessoas continuaram se reunindo da mesma forma, com senha pra entrar, e o lugar virou algo meio mitológico entre a juventude praguense. Fotos desse lugar nem pensar – pra que fotos quando a memória pode ser nossa melhor máquina em alguns momentos? Praga era então pra mim essa transição de socialismo para um regime novo, essa juventude esperançosa de mudança. Praga, para as pessoas que frequentavam aquela casa de chá, era uma metamorfose não-kafkaniana, nada angustiante.

Na Ponte Charles com Zuzka, e o fatídico e surreal submarino amarelo navegando no Rio Vltava.

E eu tinha lido em algum guia que existia um “John Lennon Wall” que era um local de protesto ainda sob a égide do comunismo: o muro era branco e alguém pichou o rosto de John Lennon como ícone do “sonho eterno da mudança”. Obviamente, a polícia apagou a pintura, mas algum revoltado voltou e pintou de novo. Sucessivas vezes a mesma ladainha aconteceu, até que após a queda do regime socialista, pintaram o rosto de John Lennon e deixaram de vez. Hoje é ponto turístico. Não é nada de mais, apenas um escondido muro pichado, mas com uma simbologia interessante. Eu encafifei que tinha que ir ver esse muro, e a Zuzka, com relutância, aceitou. Ok, qual a surpresa? Após ver o muro, tirar fotos, etc. fomos andar na beira do Rio Vltava (ou Moldávia, em português) para cortar caminho pra um outro lugar turístico, e no rio tinha um submarino amarelo servindo como propaganda para uma festa que ia haver na cidade. Um submarino amarelo perto do muro John Lennon: quer coincidência mais conveniente para uma razoável fã dos Beatles? Surrealidades da caminhada.

Deixei Praga com a estranha sensação de que lá tinha vivido um tempo – e eu só ficara 3 dias! Mas foram dias intensos, acompanhada de uma guia local supimpa. Pude retribuir a gentileza de Zuzka quando ela e o namorado foram ao Brasil mochilar. Alojei-os em minha casa em São Paulo e fiz a mesma coisa com ela: levei-a para a São Paulo dos brasileiros, aquela fora da rota do Frommer’s, a desconhecida pelos gringos e cheia de vida enraizada tupiniquim.

E São Paulo pôde se metamorfosear em Praga por alguns dias.

Tudo de bom sempre.

Há uns dias atrás, eu recebi por email um texto retirado desse site, contando sobre a política que o governo dos EUA aplicaram nas Ilhas Marshall, um grupo de atóis minúsculos (atol = topo de uma cadeia vulcânica submersa no oceano) no meio do Pacífico. Difícil imaginar que no meio de um “paraíso tropical” daqueles tantos problemas brotaram dessa forma.

Vista aérea de parte do atol de Rongelap, onde as cinzas da bomba atômica caíram.

Habitação típica das enormes famílias de Majuro: containers.

As Ilhas Marshall são um país desconhecido para a maioria dos mortais do planeta. Em plena zona equatorial, a altitude máxima do conjunto de atóis é de 3 metros – isso mesmo, 3 metros. Será o primeiro país a desaparecer caso as previsões de degelo das calotas polares se tornem reais – e já estão se tornando. Em um espaço de 70 km quadrados, espremem-se 60,000 pessoas, sendo que a maioria delas no atol-capital, Majuro. O país é dotado de praias de areia branca e recifes de corais de biodiversidade estonteante, ilhotas remotas e coqueiros mil, em plena Micronésia, características que transformariam o país num excelente destino turístico de milionários, como é Fiji, o Taiti ou as Maldivas. Mas não é bem assim, graças ao tio Sam. Eu explico.

Na década de 50, em plena guerra fria, os EUA projetavam suas bombas atômicas contra os comunistas da vez. Para testar a eficiência de tal armamento, “decidiram” (entenda-se como quiser a forma como essa decisão foi feita) realizar os testes no atol de Bikini – esse mesmo que deu nome à peça mais aclamada do vestuário das brasileiras. Bikini fica ao norte do país, e sua população lá vivia tranquilamente, em situação de subsistência. Pescavam em quantidades normais sem destruição do ambiente. Os americanos por razões estratégicas (“defenderem as ilhas Marshall contra os japoneses invasores”) fizeram uma base militar no atol de Kwajalein, maior atol do país. E de lá começaram a arquitetar os testes em Bikini, um lugar remoto dos demais lugares do planeta, onde provavelmente ninguém reclamaria de tal evento bombástico.

(Parênteses: o atol de Kwajalein é todo ele uma base americana. Ainda hoje, testes de escudos antimísseis são realizados em “Kwaji” – como é carinhosamente chamado pelos militares de plantão. Lá, americanos vivem como em uma cidade nos EUA, com todo o conforto possível. Os marshalheses que lá viviam anteriormente foram praticamente expulsos, e hoje habitam um atol minúsculo vizinho, onde se amontoam em casebres menores ainda, sem perspectiva de vida, e trabalham em sua maioria, na base, como subempregados dos americanos. Fim do parênteses.)

2 bombas atômicas foram detonadas em Bikini na década de 50. Em uma delas, devido aos ventos reinantes no momento da explosão, as cinzas caíram todas sobre o vizinho atol de Rongelap, que por sua vez também teve que ser evacuado a posteriori – a população local foi drasticamente afetada por altos índices de câncer de tiróide, efeito da radiação da bomba. E todas essas pessoas que lá estavam sendo bombardeadas por radiação foram transferidas para o atol-capital, Majuro, onde a maioria se encontra até hoje. De repente, todos tiveram que ir morar em Majuro.

Vista aérea de um resquício limpo do atol de Majuro, e o lixo que é jogado no lago central do atol, dentro do recife de coral, sem dó nem piedade.

Pois bem, imagine um atol de 30 milhas de extensão e menos de 100 m de largura – uma tripa de país, basicamente. Isso é Majuro. E como bem ressalta o texto do email, lixo é o que se vê por toda parte, fruto da política americana pós-Bikini. Para compensar a realocação das pessoas de um atol para outro, os EUA mandaram (e ainda mandam) substanciais quantias de dinheiro para o povo marshalhês, como forma de “perdão” (?) pelo que foi feito com seus atóis durante os testes atômicos – dinheiro que hoje já se estende à presença de uma base militar, ao uso do atol como depósito, etc. E o povo marshalhês, por sua vez, cheio de dindin no bolso e sem aconselhamento adequado, foi devorado pelo capitalismo selvagem americano: começaram a comprar e consumir de tudo, gerando lixo em quantidades alucinadas. E onde jogar todo esse lixo? Bem, num país minúsculo, sobra pouco espaço – o lago central do atol foi a opção mais lógica. Transformaram uma área de recifes de corais pristinos em lixão. E hoje ainda recebem também lixo urbano americano, devido a um acordo assinado com os EUA, o maior parceiro de “comércio” dos marshalheses. Tudo por dinheiro, já dizia o Sílvio Santos.

Só que a degradação ambiental gerada pela presença em massa do lixo, a desestruturação do seu modo de vida anterior, mais a super-população numa área tão restrita, e a fácil entrada de renda americana (ah! Acrescente a isso também a presença mórmon impedindo uso de métodos contraceptivos para as mulheres), tornaram os marshalheses um povo sem perspectiva, sem visão de futuro, cheio de filhos sem empregos e educação decente. Índices de suicídio que em nada lembram os de um país nos trópicos, dito paradisíaco. Não há recursos de sobrevivência para todos, e a solução rápida é: fazer mais filhos para aumentar a possibilidade de angariar mão-de-obra para mais caça a recursos. Como já me foi dito por uma pesquisadora italiana que lá trabalha, se você der 3 galinhas e um galo para eles, eles terão comida para uma semana. Ninguém vai pensar em a partir dessas galinhas, guardar os ovos para ter mais galinhas no futuro, reproduzi-las, comercializá-las ou coisa que o valha. Vão simplesmente matar e comer. Porque foram acostumados assim, era isso que faziam com os peixes coletados em seus atóis em situação sustentada no passado. E estenderam essa “regrinha de vivência” para a era pós-Bikini, com a população aglomerada em casas de caixote. Estão quase sem esperança de viver e não sabem disso. Mas a que isso nos interessa, não é mesmo? “Apenas” mais uma cultura destruída nesse mundão, nada de mais.

E o que mais impressiona é que a fauna marinha também luta por sua sobrevivência ali, no monte de lixo, mesmo nessas condições, e muitas vezes ainda vence – aos trancos e barrancos.

Será que essas crianças sabem do futuro (ou da falta de) que as aguarda?

Esse é um relato de uma experiência americana que não deu muito certo.

Tudo de bom sempre.

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Viajando na maionese…

– De acordo com estudos recentes, os índices de radiação em Rongelap são menores que em Nova Iorque.

– As Ilhas Marshall são o único país do planeta onde o limite de águas internacionais é de apenas 5 milhas. Em geral, até 200 milhas a partir do litoral é considerado território de um país, mas lá o limite é bem menor. Isso permite que embarcações de diversas bandeiras (asiáticas principalmente) pesquem à vontade e depletem na maioria das vezes os recifes de corais da região.

– Um grupo de pesquisadores de diversos países luta pelo estabelecimento de alguns desses atóis como área de proteção ambiental. Correndo contra o relógio para salvar o ecossistema único do lugar, antes que o lixo tome conta de tudo.

– Mais fotos das Ilhas Marshall nas seguintes galerias da ArteSub: atol de Namu, atol de Rongelap e atol de Ailuk.

Meados de março chegando, e para os portadores da febre do Everest (como eu) começa a época de ficar ligado diariamente nos updates e notícias vindas do Nepal – via EverestNews, é claro, o site oficial agregador das expedições. Aos poucos, os grupos de montanhistas que tentarão chegar ao topo vão tomando conta da região. Como todos os anos desde que a escalada se comercializou, muitas bizarrices podem acontecer… Afinal, a festa no acampamento-base não pode parar!

Além dos irmãos americanos que tentarão subir juntos, da expedição de mulheres chinesas, das iranianas que estão tentando pela segunda vez (da primeira vez por razões sócio-políticas foram impedidas de sair do país), da expedição catalã, dos já tradicionais-comerciais como Mountain Madness, e da expedição em prol da cura para o câncer, entre outras mais, meu destaque pessoal vai para a tentativa de Will Cross.

Will Cross é diabético tipo 1 (ou seja, dependente de insulina para sobrevivência) e foi o primeiro diabético a chegar ao Pólo Sul. Bom montanhista, ano passado tentou subir o Everest, mas voltou a menos de 500m do topo, por problemas em seu estoque de oxigênio pessoal, e de uma hemorragia na retina em seu companheiro de escalada. Ou seja, ele praticamente chegou lá já no ano passado! Este ano, tentará mais uma vez, com a diferença de que levará consigo uma bomba de insulina – não confiará apenas nas injeções, visto que se for acometido de qualquer “mal da montanha” na região acima dos 8,000m (conhecida como “Zona da Morte”), ele não pode se dar ao luxo de viajar na maionese e delirar se precisa de insulina ou não. Precisa estar com ela já injetada em sua corrente sangüínea, e pronto. A diabetes não pode em momento algum ser um problema para ele lá em cima, visto que a mais de 8,000m para qualquer ser humano a vida já é bem cheia de problemas e dificuldades.

A ida de um diabético tipo 1 ao topo do mundo só reforça a idéia de que diabetes não é doença: é condição. (Eu já havia dito isso nesse post anterior e volto a reforçar a idéia de que depende de cada um transformar a diabetes em doença.) Sabendo controlá-la direitinho, a vida pode seguir em frente, livre, leve e solta – até a 8,848m de altura, no topo do mundo.

Tudo de bom sempre para os aventureiros deste ano no Everest. E ficarei ligada, torcendo.

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PS: Embora escalada para este ano a comemoração dos 10 anos do Brasil no Everest com a tentativa de Waldemar Niclevicz e Irivan Gustavo Burda, o EverestNews nada noticiou até agora dessa expedição. Será que vai ou não vai? É esperar pra ver.

Eu ia escrever algo diferente, mas ao ler essa notícia, não pude deixar de me orgulhar: uma cientista brasileira, Belita Koiller, ganhou o prêmio L’Oreal-Unesco dado a mulheres de destaque na ciência mundial. Eu já sabia da existência desse prêmio de outros carnavais, uma excelente iniciativa de uma empresa de cosméticos – melhor que financiar propagandas com modelos esqueléticas que não são a realidade da maioria das pessoas… (Sobre isso, a DaniCast fez um excelente post ontem.) O prêmio L’oreal-Unesco já havia sido recebido por outras 2 brasileiras anteriormente, uma delas a Mayana Zatz, que defendeu com unhas e dentes o uso de células-tronco em pesquisas no Brasil, e há poucos dias atrás, conseguiu aprovação no Congresso. Uma vitória sem precedentes para a pesquisa brasileira. E no Ano Internacional da Física, nada mais legal que presentear físicas de renome…

Belita Koiller, professora da tão “falada falida” UFRJ, física de Matéria Condensada e Nanocondutores, nossa laureada neste ano, se “descondensará” em sorrisos por essa conquista representativa da ciência brasileira. Orgulho nacional.

Parabéns, Belita! Parabéns da mais profunda e diminuta nanopartícula quântica do órgão central do meu aparelho cardiovascular!

Postado em 09/03/2005 por em Ciência

Sou uma apaixonada pela cultura das ilhas do Pacífico. Não conheço muito, e talvez venha daí o meu fascínio, mas o pouco que conheço coletado no meu 1 ano e meio morando no Hawai’i, valeu para aprender muito e me apaixonar de verdade.

Assim que cheguei em Honolulu em maio/2002 e descobri que tinha direito a fazer uma disciplina por semestre na Universidade totalmente de graça, não pensei duas vezes: matriculei-me num curso de língua havaiana. A maioria das pessoas a quem eu comentava isso, perguntavam a mesma coisa: “pra quê? Havaiano é uma língua que ninguém mais no mundo fala, você vai colocar isso no seu currículo? Por que não aproveita a oportunidade e faz aula de uma disciplina da sua área de interesse?” Sou teimosa e sigo minhas paixões. Embora apaixonada por ciência, eu já lidava com aquilo no meu trabalho. Tinha que aproveitar o Hawai’i de outra forma. Eu adoro estudar línguas, a diversidade fonética e sonora dos habitantes desse planetinha azul. Então, foi batata: essa era A oportunidade de aprender uma língua de características tão exóticas.

O havaiano é o menor alfabeto do mundo: tem 13 letras sendo uma delas o ‘okina, representado pela apóstrofe, que para nós é apenas uma sinalização qualquer. Pra eles, não, é fonética, e está presente acima de tudo, na palavra Hawai’i – quer melhor aceitação do apóstrofe como letra que essa? Havaiano também é uma língua vocálica: tem encontros vocálicos de deixar qualquer um maluco – um dos bairros da ilha de Oahu chama-se Aiea.

Voltando à aula. O semestre começou, e para minha extrema surpresa, a classe em que eu estava matriculada era composta na maioria por estudantes havaianos (kama’ainas), ou seja, poucos americanos do continente efetivamente se interessavam em aprender. Além de mim, uma menina de Boston e outra do Texas. E só. O professor, um surfista renomado que nas horas vagas e sem ondas, fez mestrado em Havaiano. Mas isso não me desanimou, pelo contrário: era a minha oportunidade de ouro de interagir com pessoas que realmente VIVEM o Hawai’i.

Logo percebi que a disciplina era fácil para todos os locais, que obviamente haviam crescido ouvindo havaiano por todos os lados, e eu tive que na verdade estudar bastante para acompanhar o ritmo da turma. Mas muito mais que apenas a língua, o professor estava interessado em reintroduzir um pouco da cultura havaiana do passado na cabeça daquele monte de neo-havaianos. Afinal, o Hawai’i padece da perda de sua cultura para os pseudo-invasores americanos. Perfeito: eu ia aprender cultura havaiana também.

O professor no primeiro dia de aula havia dito que uma vez por semana (a aula era todo dia 7 às 8 da matina) não teríamos aula na sala, e sim num terreno (Lo’i) pertencente ao departamento de Estudos Havaianos onde construiríamos uma casa aos moldes havaianos. Como é que é? Eu fiquei meio cabreira com essa história de construção, mas topei o desafio e não tranquei matrícula. E todas as quartas-feiras, íamos todos pra esse terreno trabalhar na “casinha”: fazíamos separação da palha certa, políamos a madeira, assentávamos o terreno, etc. Sem discriminação alguma entre homens e mulheres. Ritmo de aloha e detalhe: utilizando ferramentas antigas havaianas. Nada de polir com lixa comprada no WalMart – o negócio era com pedra de lava mesmo. Eu, brasileiríssima, pensei: a casa só fica pronta daqui a uns 5 anos. E essa foi a primeira lição: todos iam ali determinados a trabalhar e chafurdar na lama para cumprir um objetivo, todos éramos uma família (‘ohana) e eu nunca havia presenciado tamanho sentimento de time e união. Primeira lição aprendida: os havaianos são uma imensa família.

Aos poucos, percebíamos que a casinha tomava forma, e o professor já traçava planos do que seria ali, ao lado daquela plantação de inhame (taro, a planta mais tradicional da culinária havaiana) – provavelmente um local para reunião entre os professores aos moldes havaianos tradicionais, todos sentados no chão. E aí a segunda lição veio. Embora até então estivéssemos trabalhando todos juntos, na hora da divisão de trabalho depois da casa pronta, os homens se reuniriam enquanto as mulheres fariam os leis. “Como é que é???” “Sim, homens não fazem leis, é a tradição. Homens não têm mãos delicadas, não sabem colocar a magia das flores de forma harmoniosa.”

Dançarinas de hula se apresentam em um hotel em Oahu com seus respectivos leis de dança.

Leis são aqueles colares de flores que ficaram famosos em cadernos de turismo, símbolos de um paraíso tropical. A idéia é você chega num lugar desses e ganha um colar de flores. Não é bem assim. É realmente muito agradável e bonito receber flores na sua chegada, e as agências de turismo fazem isso para os turistas de pacote, mas a idéia real por trás de cada lei é diferente. Tem o lei da guerra, o lei da mulher grávida, o lei da dança de agradecimento da colheita, o lei do homem forte, o lei de aniversário… e cada ilha havaiana tem também o seu lei específico, feito de flores diferentes. E os cheiros! Cada um mais delicioso que o outro. O lei de flor de gengibre era o meu predileto, branco e o cheiro ficava pela casa por vários dias, aliviando as tensões (?) do ambiente. E como para cada ocasião há um lei específico, as mulheres estavam sempre trabalhando duro, na antiga sociedade havaiana, cuidando da casa e fazendo os leis de todos da família. O lei é peça fundamental para qualquer um interessado em entender a cultura havaiana, e nos dias atuais, para os moradores das ilhas, continua preservado como uma identidade única, uma marca registrada do lugar deles. Exemplo? A foto que tenho no perfil deste blog exibe o lei de orquídeas, típico de turistas – eu tirei essa foto num luau comercial, para gringos. Se você aparece num bar com um lei de aniversário, qualquer havaiano legítimo imediatamente reconhece, e pode até vir a te oferecer um brinde “cortesia da casa”. Isso aconteceu comigo, e eu vi acontecendo várias vezes, nos lugares onde somente havaianos vão. O lei é o símbolo máximo de um objetivo conquistado, ou ainda a ser alcançado. É a realização de um sonho, é a concretização do sucesso, é a foma de desejar boa sorte. O lei é aloha. Portanto, muito mais significado existe por trás de cada um daqueles colares de flores do que sonha nossa vã filosofia…

Fiz a disciplina por 1 ano (passei pro nível 2!), e no final desse ano de trabalho às quartas, não é que a casinha estava pronta? De acordo com o professor, graças ao “aloha spirit” da turma. E eu aprendi a lição: mesmo fazendo muito pouco, todos nós somos importantes para o alcance de um objetivo comum. E se cada um faz a sua parte de maneira dedicada e feliz, o objetivo será alcançado. Já sabiam disso os antigos havaianos.

Maika’i mau i po’e. (Vocês podem imaginar o que isso significa…)

Minha turma de havaiano, em sala de aula (o professor Keoki de blusa azul na frente), e no terreno da Universidade, onde trabalhávamos na construção da casinha.

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PS.: A casinha, após tanto amor e carinho de construção, foi parcialmente destruída numa enchente enorme no Halloween do ano passado. Não preciso comentar minha tristeza. Mas ao mesmo tempo, sei que novas turmas de Havaiano 101 virão – e poderão desfrutar da mesma experiência maravilhosa que eu tive. Aloha para os novos construtores.

“The flowers may last only a few hours, but the memory of having a lei placed on your shoulders lasts forever.” (Marsha Heckman, uma fazedora de leis)

(Dedicado a todas as mulheres que fazem todos os tipos de “leis” diariamente, onde quer que seja no planeta…)

Eu já havia comentado antes o quanto eu adoro detestar listas e rankings, por saber o quão volúveis e passíveis de erros elas são. E essa é a graça profunda da brincadeira, essa discussão infinita onde no fundo ninguém está certo, porque é uma questão de gosto pessoal.

Pois bem, aí vem o Idelber e sugere uma blogada coletiva com a lista dos 15 melhores discos de música brasileira pós-1950 (!) e com direito a prêmio e tudo o mais. Complicou demais para mim. Música é parte integral da minha alma, é algo tão importante quanto o ato de viajar, no meu universo! É pra lá de difícil fazer uma lista SÓ com 15 discos, porque eu sei que vou deixar muito disco que eu adoro de fora. Mas pensando melhor, até que o Idelber foi bonzinho e facilitou a escolha colocando a restrição da música brasileira, porque se fossem discos em geral, aí mesmo que eu estaria lascada. Não ia poder deixar de fora uns 5 discos do Miles Davis, mais uns 3 do Zappa, o meu Stockhausen querido e todos do Jaco Pastorius, do Charlie Parker e do Pat Metheny – até o minimalista “Zero tolerance for silence” entra na minha lista. Música é um assunto complicado.

Enfim, depois de pouco pensar – decidi que ia fazer meu ranking de sopetão, pra evitar divagações que me levariam a aumentar em mais de 1000% o conteúdo da mesma – estou imediatamente postando. Sim, porque se eu deixar até segunda-feira, o mesmo problema acima citado volta: eu vou querer incluir mais uns trocentos discos. E depois da lista pronta, eu cheguei a uma constatação inegável: eu realmente tenho um gosto musical muito estranho.

Aí vão meus 15 discos selecionados como melhores da música brasileira:

1) “Festa dos Deuses” (Hermeto Pascoal e Grupo) – Eu chamo esse disco de “disco-ilha deserta”. É aquele que eu levaria comigo pra uma ilha deserta se só pudesse levar um cd nesse delírio. É o melhor disco do planeta, arranjo, composição, músicos, genialidade do Hermeto, o discurso final, a improvisação, tudo, tudo, tudo, tudo!

2) “Água” (Trio Água) – O Trio Água é formado por Chico Saraiva, Edu Ribeiro e José Nigro, e oferece a mais promissora música instrumental da década. O carinho e a delicadeza do encarte, a poesia dos arranjos, a sutileza do Edu Ribeiro na batera… aliás, ele é o maior baterista que surgiu nos últimos tempos no Brasil, e a gente ainda vai ouvir falar muito dele, tenho certeza. O disco todo é superbo, mas em particular eu gosto da música “Ano Novo”.

3) “João” (João Gilberto) – Eu sei, ele é o chato do século, mas é um gênio, inovou em tudo na época, e para mim, esse disco é a síntese de uma carreira sólida e criativa. Eu o valorizo demais, e tenho uma verdadeira paixão por esse disco em particular.

4) “O tempo não pára” (Cazuza) – A versão ao vivo é simplesmente perfeita. Todas as músicas são notavelmente cruas, cheias da acidez puntual de Cazuza. Ideologia, eu quero uma pra viver.

5) “O silêncio” (Arnaldo Antunes) – A voz do Arnaldo Antunes é orgasmática. O meu poeta predileto da atual geração, que fez um showzaço desse cd em Ouro Preto, com direito a poema sobre a cidade e tudo o mais, e uma banda mais 10 ainda, com Pedro Ito na batera e Edgar Scandurra em sua guitarra canhota. Minha música favorita nesse disco é “E estamos conversados”.

6) “Babel” (Pau-Brasil) – Que projeto musical mais delicioso foi o Pau-Brasil! Rodolfo Stroeter e Marlui Miranda juntaram-se a Teco Cardoso, Lelo e Ze Eduardo Nazario para nos presentear com uma das maiores riquezas musicais do Brasil enraizado, o Brasil esquecido, o Brasil cheio de tons e sons naturais. Emocionante esse disco.

7) “Raio X” (Fernanda Abreu) – Eu adoro a Fernanda Abreu, acho que ela tem toda a vibração do Rio de Janeiro e um swing que ninguém mais tem. Ela é a única que consegue afirmar categoricamente “Sou carioca” e fazer você sentir isso lá no fundo do coração. Nesse disco, parece que ela pôs todo o swing pra fora de uma vez só, e conseguiu homenagear de forma mais calorosa ainda essa cidade maravilhosa, dando de lambuja um dos melhores representantes da música pop de qualidade da minha cdteca.

8) “Quarteto Novo Ao Vivo” (Quarteto Novo) – Essa foi a primeira banda “grande” do Hermeto Pascoal, e é nesse disco que está o meu clássico dos clássicos “O Ovo”. O disco foi recentemente relançado, e não dá pra não sentir a genialidade dos músicos. Ali nascia para o mundo o sertão universal de Hermeto Pascoal, o maior nome dos intrumentos de todos os tempos. E ponto final.

9) “Samblues” (Juarez Moreira) – Esse ilustre desconhecido guitarrista juntou grandes instrumentistas do Brasil todo e produziu essa obra-prima cheia de ginga e emoção. Eu ouvi esse disco uma vez, me apaixonei, comprei e nunca mais me separei dele. Essa história de amor já dura 10 anos, e eu tenho minhas dúvidas se um dia acabará. Duvido.

10) “Abrigo” (Marina Lima) – Os amantes de Tom Jobim (eu incluída) que me perdoem, mas a versão de “Samba do Avião” desse disco é a melhor existente. Completamente antenada, esse disco é alegre, cheio de vida, uma Marina recuperada das trevas do ostracismo. Vários arranjos legais, uma voz deliciosa. Nota 10.

11) “Alma” (Egberto Gismonti) – Esse disco é maravilhoso. Não simpatizo com o Egberto Gismonti, suas frescurites no palco são quase sempre irritantes, mas não há como negar que esse disco é um clássico, é todo bom, e de uma sonoridade brasileira de tirar o chapéu. “Palhaço” é a melhor de todas.

12) “Clara Crocodilo” (Arrigo Barnabé) – Como não colocar o cantor do “balcão de fórmica vermelha”? Clara Crocodilo é uma ópera (pós)-moderna, genial. É difícil não comparar o Arrigo com o Zappa de “Uncle Meat” nesse disco. E pra mim, que tive o prazer de participar lá, berrando e delirando no chão do SESC Ipiranga, da regravação ao vivo desse clássico, é impossível não fazê-lo constar entre esses 15.

13) “Moro no Brasil” (Farofa Carioca) – Um frescor de swing novo na área. Foi com essa percepção que eu ouvi pela primeira vez o Farofa Carioca, que imediatamente foi pra minha lista de favoritos, de onde até hoje não saiu. Muitos detestam o Farofa, mas eu achei o trabalho único deles fantástico. Retrataram o Rio de Janeiro como só a mestra Fernanda sabe, sendo que com mais pitadas de humor e sarcasmo.

14) “A Sétima Efervescência” (Júpiter Maçã) – Como deixar de fora meu “ídalo” trash lisérgico total? (Trash lisérgico é uma definição minha, não consta nas enciclopédias musicais.) Não dá, Júpiter Maçã (ou seria Jupiter Apple?) é detentor da vaga de melhor psicodélico do Brasil. “Miss Lexotan”, “As Tortas e as Cucas”, “The Freaking Alice”, “Querida Superhist X Mr. Frog”, “Eu e minha ex”… nossa, todas as músicas desse disco são muito trash – e muito legais!! Assisti ao Júpiter Maçã duas vezes ao vivo em Sampa (em uma delas foi no meio dos delírios londrinos dele) e só quem conhece a figura pode entender o quanto ele é uma demonstração da música brasileira que quer ser e não é. Eu adoro o Júpiter Maçã, com toda a sua irreverência.

15) “Carne Crua” (Barão Vermelho) – Esse é um dos melhores discos de rock’n roll do Brasil. Eu não consigo imaginar outro que tenha tido tal impacto no meu ouvido. Seremos macacos de novo.

Tenho ou não tenho um gosto musical pra lá de estranho? Será que tem conserto pra isso?

Tudo de bom sempre pra todos sonoramente ligados.

Muitos fatos e situações interessantes aconteceram na semana que passei na China, em fevereiro. Viagem deliciosa, aprendi muito. Mas algo que me chamou a atenção, obviamente, foram os letreiros e avisos de alguns lugares em especial… Letreiros já são motivos de risadas e espanto na Coréia, pois o inglês capenga e/ou a estética do mesmo, mostram que os asiáticos realmente têm uma noção diferente do tema. E na China não seria diferente. Selecionei 2 letreiros e 2 avisos de rua hilários pra apreciação de todos, que podem até não ser os melhores, mas são os que me chamaram a atenção de alguma forma. Espero que valha uma risadinha, mesmo que sem graça.

Letreiros:

Uma cidade nunca tem cafés suficientes para sua população cafeinômana, por isso em Macau existe mais um café, o Another Café. Como “coffe freak” assumida, eu adorei o nome e o trocadilho: lembrou-me alguns originais nomes de botecos no Brasil. Já em Beijing, essa placa enganadora: a loja é um restaurante de comida chinesa, mas ao olhar rapidamente, não parece o velhinho do KFC? Parece, mas não é. O velhinho chinês engana, mas aproveita-se da semelhança e amealha clientes.

Avisos de rua:

Tudo bem que a imagem que o mundo tem da China é de um país sujo com pessoas porcas – não é bem assim, mas tudo bem. Mas precisa do governo dar essa bola-dentro? Ter que classificar os banheiros públicos dessa forma… foi muito engraçado quando eu li essa placa na Cidade Proibida, centro de Beijing. Fico imaginando o banheiro 1 estrela… (Reparem que ainda teve um engraçadinho pra colocar mais uma estrela na classificação oficial!) E abaixo, um aviso que pode detonar num primeiro momento com a reputação de lugar seguro de Macau: precisa mesmo avisar do perigo dos trombadinhas? Bom, melhor prevenir que remediar, né? Já pensou se a moda pega no Brasil?

Tudo de bom sempre.

Postado em 04/03/2005 por em Ásia, China, Viagens

Cidade maravilha

Não, eu não esqueci. Foi aniversário do Rio de Janeiro, minha cidade maravilha natal. Embora com um pé em cada lugar do mundo que visito, foi na Cidade Maravilhosa que minha saga andarilha começou. Não dá para negligenciar a beleza dessa cidade, muito menos seus problemas. A cada vez que eu visito, é uma novidade, um novo ritual fashion, uma nova sacada malandra genial.

Pra mim, é difícil alguém ter mais cara de Rio de Janeiro que a Fernanda Abreu, em sua alcunha: Cidade maravilha mutante. Afinal, “eu quero meu crachá: sou carioca!”

Mudando a mil por hora, mas continuando sempre bela e descontraída.

Eu amo o Rio, cidade-natal que eu tanto renego e reclamo – apontar os podres é uma esperança de que um dia eles se resolvam.

Bateu uma saudade do calçadão de Ipanema! Ah…

Tudo de bom sempre.

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