Na Coréia existe uma subespécie humana chamada Homo sapiens ajumensis, ou no dito popular, a ajumá. Não subespécie na forma diminuída ou pejorativa, pelo contrário; subespécie como categoria taxonômica mesmo: reproduz-se com outros da mesma espécie, e sua existência é fruto do isolamento geográfico/cultural que a Coréia enfrenta, sendo portanto discutida a sua existência em si como subespécie.

Ajumá
Ajumá acocorada (claro!) trabalhando em uma pilha de peixes que serão ressecados e daí virarão sopa ou pacotinhos de peixe seco que serão consumidos como batatas fritas. Na foto abaixo, também acocorada com a típica viseira e vendendo frutos-do-mar num mercado de peixe.

Eu explico: ajumá é a denominação dada às matriarcas da família típica coreana. Eu criei essa tradução, porque obviamente não existe tradução – a palavra existe apenas em coreano e é escrita assim: 아 주 마. Embora ajumá seja um tratamento formal e educado de chamá-las em coreano, eu e André (como bons brasileiros) descambamos o termo pra mais pífia brincadeira, referindo-se a essa mulher de características peculiares que beiram um personagem de “A Grande Família”.

A ajumá em geral tem mais de 40 anos, mas para os coreanos, qualquer mulher casada já está em vias de se tornar uma ajumá. Ser ajumá é um processo. Quanto mais velha, mais ajumice. É ela quem detém o poder absoluto de organização da vida familiar. Ela quem cuida da casa, dos filhos e netos, cozinha, enfim, a gerente geral do lar. E não é só isso. A ajumá tem uma função muito forte dentro da família, função esta que os homens coreanos fazem questão de minimizar – para a contentação do machismo puro e simples. Enquanto o marido pesca, ela vende o peixe. De sol a sol, ela ajuda na colheita da lavoura. Está sempre atrás dos balcões das lojas, gerenciando os negócios da família. Sua participação é intensa em todos os níveis da organização conjugal. E de quebra, tem que ter uma receita única de kimchi (repolho fermentado em pimenta) passada de geração para geração – se não tiver, não é ajumá ainda, está apenas aprendendo. Apenas essa descrição, levaria à modesta conclusão de que ajumá pode ser qualquer dona-de-casa, mas não se engane: há algumas peculiaridades….

Exemplos? O cabelo enroladinho curto, fruto de um permanente barato; a viseira gigante cobrindo todo o rosto e a mochilinha nas costas recheada com tupperwares de kimchi e outros pratos coreanos, ou então um saquinho de lula seca para “mastigar nas horas de lazer no metrô” – aqui Ruffles não é famoso, o negócio é comer lula seca da ilha de Ulleung-do, um must. Outro ponto certo: a maneira de literalmente “voar” atrás de um assento em qualquer transporte público, não interessando se a vizinha é outra aprendiz de ajumá grávida. Ajumá de verdade senta no metrô, e ponto. E se não tem banco vazio, acocora-se no chão. Aliás, a posição mais comum de se encontrar uma ajumá pelas ruas é acocorada, por horas a fio. Como já percebi, isso leva a um sério problema de coluna com o avançar da idade, pois a maioria das senhoras idosas aqui são muito curvas, escoliose e cifose em grau avançado.

Ajumá também gosta de música, e para os momentos de reunião com outras ajumás, ouve “trot”, uma espécie de música breganeja + pagode tipo Negritude Júnior + bandinhas marciais do coreto da esquina + som de gaita de fole desafinada. A oitava maravilha sonora, como podem imaginar. Aparentemente, os cantores de trot falam em suas canções de coisas da vida de ajumá, o que favorece o sucesso entre as mesmas. Mas atenção, leigos em Coréia de plantão! Não tentem fazer uma viagem de 3 horas com as ajumás (como fizemos em maio de ferry-boat para Ulleung-do): seus ouvidos agradecerão deveras a não-exposição ao trot. (Os jovens coreanos em geral detestam trot, e dizem exatamente isso: é música de ajumá.)

E pra falar a verdade, embora a gente brinque, caricature e dê risadas, eu tenho que confessar: elas são super-mulheres numa sociedade tão hierarquicamente estruturada e rígida. Porque pra fazer tudo isso, agüentar as ranzizices machistas dos homens coreanos, e ainda por cima rir e dançar ao som do trot… é mulher-macho, sim senhor!

Tudo de bom sempre.

Tinha várias outras coisas para serem escritas, mas nos últimos 3 dias, sei lá eu por que razão, todos os caminhos virtuais que trilhei levaram ao Aconcágua. Essa massa enorme de rocha e gelo que sobe até 6,962 m nos Andes na Argentina. E como portadora da febre do Everest, não poderia de comentar pelo menos 3 cositas sobre montanhismo que li por aí.

1) O “casal Aventura”

Notícias tristes primeiro. A morte do dentista Daniel e a quase-morte de sua esposa na descida pós-cume do Aconcágua. Até no blog do Alexandre (que é mais sobre literatura) tinha uma notinha sobre esse fato – que sinceramente chamou minha atenção, mas não tanto. Quem tem a febre do montanhismo sabe que a montanha é quem manda em qualquer escalada, por mais “simples” que você pense que ela será. Por incrível que pareça, morrer faz parte, e nesse caso uma parte razoavelmente grande do risco. Dominar a montanha, chegar ao cume, é para gigantes, não reles mortais como eu ou você. Aparentemente, pelo que li na Folha e em outros jornais, o casal de Sorocaba não tinha lá essas experiências com montanhismo e durante a escalada não tinha um guia local, fatores que colaboram e muito para o sucesso em uma subida. Sequer tentaram fazer apenas o trekking por lá antes. Uma coisa é aventurar-se em cavalgadas, rafting, paraquedismo, mergulho, etc. Outra coisa é dominar o gigante… Montanhismo é o esporte radical que mais mata de longe em qualquer estatística. Sem treinamento pesado, não se chega nem no sopé de uma dessas fortalezas desoxigenadas. Enfim, a notícia me chamou atenção mas considerei “normal”, visto que eles meio que precipitaram-se em vários aspectos. Acho que a notícia também não abalou o mundo montanhista, visto que o EverestNews (link aí ao lado), que é o site mais visitado entre alpinistas profissionais para informações de todas as montanhas do mundo, nem notificou nada sobre a morte deles. Mas taí meu comentário.

2) O Projeto diabetes-8,000m

Notícia meio velha, mas achei essa semana fuçando pela rede, e considero interessantíssima. Aliás, repassei pros meus amigos diabéticos através do Orkut, Yahoo e afins. Patrick Hoss, alpinista profissional de Luxemburgo, descobriu-se diabético tipo 1 em 1999. Após o tradicional período de “aclimatação” à doença, resolveu que deveria provar a si mesmo que conseguiria continuar suas aventuras montanhistas mesmo diabético. E começou… adivinhem? Pelo Aconcágua. Treinou e controlou glicose e insulina ao máximo, acompanhado de uma equipe preparada. Chegou ao cume do Aconcágua com hiperglicemia, mas feliz. Não excedeu seu limite em momento algum, e provou que podia continuar sua vida normalmente com a diabetes. Como a notícia é velha, Patrick Hoss subiu o Aconcágua em 2002. Desde então, subiu o Mount McKinley, a mais alta montanha do Alasca, local inóspito e de condições climáticas extremas. Sempre mostrando que diabetes não é doença, é condição. Você é o responsável em transformá-la (ou não) em doença. E Patrick tentou a escalada do Cho Oyu, um dos gigantes de 8,000m do Nepal, mas sua diabetes aliada aos já comuns problemas da altitude e da hipóxia, falaram mais alto, e ele teve que retornar do acampamento I, a uns bons 6,000m de altitude. Patrick Hoss é um gigante em vários sentidos. Ele pode dominar a montanha.

3) Waldemar de volta ao topo do mundo

Waldemar Niclevicz e Mozart Catão foram os primeiros brasileiros a chegar ao topo do Everest, em 1995, pelo Tibet. Desde então, uma tragédia no (mesmo) Aconcágua levou Mozart, um profissional do montanhismo. Waldemar continuou subindo montanhas e dando palestras. E nesse ano de 2005, já anunciou sua tentativa de subir o Everest e o Lhotse (que fica ao lado) no que chama de “10 anos do Brasil no Everest”. Celebração da conquista da grande montanha Sagarmatha. Dessa vez, subirá pelo lado nepalês com seu amigo Irivan Gustavo Burda, também alpinista de respeito. Desde o momento em que li a notícia há alguns dias, estou torcendo pelo sucesso dos 2! Mais motivação para ler os dispatches deste ano. Brasil-sil-sil-sil!!!

Tudo de bom sempre. A qualquer altura.

1 ano de hangul

Hoje faz um ano que chegamos na Coréia do Sul. Parabéns para nós, que desde então fazemos parte dessa minoria constituída por cerca de 250 tupiniquins (a maioria jogadores de futebol) que moramos nesse país longínquo e totalmente diferente da nossa pátria-mãe. Diferente MESMO, de uma forma que ninguém que nunca pisou na Ásia tem a menor idéia. Eu já morei em outros países, portanto choque cultural era algo que eu ACHAVA que sabia lidar. Nada mais enganoso: foi numa pequena cidade da Ásia que o choque cultural falou mais alto. É aqui que você fica “lost in translation” por completo, dá risadas e chora por isso. É aqui onde não adianta você falar inglês, francês, alemão, italiano, japonês, português, havaiano, espanhol… nada, nenhuma dessas línguas te ajudará se você não lê (pelo menos) o Hangul, o alfabeto coreano. Porque até quando eles escrevem em inglês, usam os caracteres coreanos do hangul. Portanto, camarada, se qualquer um quiser um dia vir para essas bandas, que faça como eu fiz: entre num cursinho de coreano para pelo menos saber ler os desenhinhos que eles fazem. Isso ajuda e muito.

E o choque não parou por aí: continuou – e ainda continua. Aliás, é isso que ele é: CONTÍNUO. Estou provando a mim mesma que posso ir onde quero, que o choque cultural ensina muito mais que qualquer enciclopédia ou livro, que tenho força para enfrentar grandes dificuldades e aprender na adversidade. Aprender muito. Está valendo. E vai valer por mais um tempo. E nesse período…

Tudo de bom sempre!

Acabei de inventar essa palavra: contra-voz. Pode até ser que ela já exista, mas eu nunca ouvi, e nunca li. Então, no meu mundinho mundano, ela não existia e eu criei. Significado: a ausência de voz – característica que eu admiro deveras na música.

Ontem estava eu no metrô em Seul ouvindo música no mp3 player – Yamandú Costa ao vivo, mais especificamente – e comecei a matutar com meus botões: por que as pessoas em geral não gostam de música instrumental? Por que a música instrumental não vende? Por que é considerada elitista? Bom, tentar entender o gosto de cada um não é tarefa de ninguém, mas gostaria de entender por que a voz é um aspecto tão fundamental para o sucesso sonoro. A voz é preponderante! Parece que as pessoas gostam de ouvir os demais falando, cantando, expressando verbalmente o que sentem e pensam.

Prefiro música instrumental. Isso remonta à minha adolescência, quando andava no meu bairro com um grupo de (futuros) músicos. Enquanto todos se embalavam com lambadas, Legião Urbana e afins, lembro-me claramente do Dudu arquitetando uma maneira de ter um trio elétrico no Carnaval pra colocar uma banda de jazz que tocasse Chick Corea em bom e alto som. Esses meus amigos ouviam música instrumental de forma alucinada, devoradora. E de ouvir Pat Metheny pra começar a ouvir Miles Davis é um pulinho à toa. E quando você menos percebe, já está impregnada de John Coltrane até o último fio de cabelo.

Meu primeiro contato com esse mundo viciante foi “First Circle” do Pat Metheny, ainda hoje uma música muito especial para mim. (Chamo-a de “música do céu”, pois se o céu existe mesmo, pra mim é essa música que os anjinhos tocam lá no portão de entrada recepcionando a galera que chega requisitando paz eterna.) Depois vieram as inúmeras tardes ouvindo Chick Corea Acoustic Band, Allan Holdsworth, Jaco Pastorius.

Até que um belo dia, alguém me emprestou um disco do Hermeto Pascoal. Pronto, não deu mais pra parar de ouvir. (Li em algum lugar que a vida musical de certas pessoas divide-se em AH e DH: antes e depois do Hermeto. A minha com certeza foi dividida assim.) Mas a questão principal sempre martelava na minha cabeça: por que a maioria das pessoas pra quem eu mostro isso não gosta? Acha um som distorcido, chato, irritante? Será que eu estou errada? Porque essas pessoas são a maioria!! Devo estar necessitada de um bom psiquiatra, só pode. Bom, como a música faz tão parte da minha vida quanto as roupas que eu uso, comecei a me rodear de músicos e pessoas que também curtiam o mesmo som. Semelhante atrai semelhante, a velha lei.

Contra-voz

Toninho Horta e guitarra em jam session no seu bar (Aqui Ó, em Belo Horizonte).

O Brasil tem sons dos mais qualificados e refinados do planeta. Em lugar algum em minhas andanças por aí achei a criatividade e a qualidade musical que é polida e esmeirada pelos instrumentistas tupiniquins. Nomes desconhecidos da maioria, mas que enriquecem a nossa música, multiplicam fatorialmente o impacto que temos no exterior e se escondem calados na alma de estrangeiros. E não falo de bossa nova, não! A bossa foi a forma melosa com que a música de qualidade conseguiu atravessar a fronteira. Mas a música instrumental brasileira (MIB ) atravessa diariamente, calada, de mansinho, e ninguém valoriza, ninguém se lembra dela.

Gabriel e Carol, seus sortudos! Com Hermeto Pascoal (lindo!!) num backstage no Brasil…

Pois eu valorizo, e muito. Viva àqueles que nos mostram diariamente que a voz é dispensável quando se trata de penetrar na alma das pessoas por ondas sonoras! Viva Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Yamandú, Guinga, Chico Saraiva, Edu Ribeiro, Pascoal Meirelles, Toninho Horta, Juarez Moreira, Robertinho Silva, Arismar do Espírito Santo (e seu filho Thiago), Vitor Assis Brasil, Nivaldo Ornellas, Sizão Machado, Cláudio Dauelsberg, Duofel, Carlos Bala, Marco Antonio Araújo, Proveta, Nei Conceição, Márcio Montarroyos, Naná Vasconcelos, Nenê, Jovino Neto, Itiberê, Vinicius Dorin, Família Morelenbaum, Alberto Continentino, Lelo Nazario, Rodolfo Stroeter, Raphael rabello, Paulo Moura, Nico Assumpção, Yuri Popof, e tantos outros que estão (ou estavam) por aí provando que o brasileiro não é só bom de samba, não!!

Tudo de bom sempre, sempre, sempre, sempre, pra música instrumental brasileira!

Eu amo esse pessoal: Edu Ribeiro, Thiago do Espírito Santo e Yamandú Costa. Pra mim, eles fazem pela música brasileira um trabalho incomparável de excelente qualidade. 

PS: E a questão continua… por que não instituímos a contra-voz como instrumento em 2005?

Postado em 07/01/2005 por em Música

Não, não é mesmo só o MST que ainda briga por pedaços de terra nesse planeta. Muito menos palestinos e israelenses. Para aqueles que nunca ouviram falar – como eu, até vir por essas bandas orientais – a Coréia do Sul tem uma disputa tão insana quanto a travada com a Coréia do Norte com, nada mais nada menos, que o Japão. E é por esse pedacinho de terra de nada aí da foto, no meio do mar do Japão – que os coreanos recusam-se terminantemente a chamar de mar do Japão, para eles é o mar do Leste.

Chama-se Dokdo (ou Tokdo, dependendo de como o ocidental entendeu o idioma coreano para traduzir), uma ilha inóspita onde habitam meia dúzia de indivíduos (soldados e/ou pesquisadores), nada se planta, nada se colhe, nada se tira de lá, e onde toda vez que um navio ou barquinho japonês aproxima-se, uma enorme bandeira coreana é hasteada. Pra mostrar que esse pedaço ainda é deles.

Se vocês forem procurar no mapa, Dokdo (que os japoneses por sua vez chamam de Takeshima) está teoricamente mais próxima do Japão. Mas como Coréia do Sul e Japão são dois bicudos que NÃO se beijam, esse monte de pedras no meio do mar gera momentos de tensão de vez em quando na mídia. Tensão que às vezes beirou a disputa armada! O Japão acha que, por estar mais próximo deles, então é deles. A Coréia, por sua vez, acha que se entregar pros japoneses, em breve perdem Ulleung-do, outra ilha próxima, essa bem mais interessante e com recursos pesqueiros valiosos. E podem perder a soberania, quem sabe. É uma questão de honra por aqui manter Dokdo. E não se discute isso.

E eu continuo perguntando ao meu umbigo: Dokdo vale o quê? Aparentemente, a soberania de um país. Dokdo é estratégico. Talvez a pesca na região valha algo. Mas o que me espanta é saber como são incríveis as disputas que ainda rolam em pleno 2005 e que a gente nem faz idéia. Nos confins do mundo. Ô, raça humana, viu…

Tudo de bom sempre.

As viagens de cada um

As pessoas desejam, cada um no seu pensamento mais viajante, por um 2005 melhor. E a revista Nature (da qual sou fã de carteirinha, pela qualidade da ciência que publica) fez a pergunta: “O que você deseja para 2005?” e publicou ontem as respostas. É impressionante a variedade, a diversidade e a hilariedade humana, principalmente em relação à ciência. Selecionei algumas respostas que me chamaram a atenção, ou pela seriedade ou pelas risadas que dei – em alguns desejos consigo ver claramente um estudante de doutorado com todos os prazos acabando e sem resultado algum para publicar, no total desespero típico dessa carreira. Outras respostas são de um egoísmo latente, embora a maioria seja de boas expectativas ou sonhos. Tem desejos comuns, chamaríamos de “normais” (embora alguém já disse que “de perto, ninguém é normal”), mas tem umas viagens… na maionese total!

Aí vão os desejos, com seus respectivos desejadores: (em inglês, galera, não sou boa de traduções, ia terminar perdendo o sentido de algumas dessas frases. Desculpa aí!)

I wish for a tsunami early alert system for the Indian Ocean, so that future tsunamis can visit deserted beaches, lands and buildings.
Biji T. Kurien
Oklahoma Medical Research Foundation, Oklahoma City, USA

I wish that one day I could see the stars clearly in the city.
Name not supplied
Postgraduate, Chinese Academy of Sciences, Beijing, China

I wish people could understand that the whole Universe is like a spider web, and that everything is linked. What we do to a tree or to another man we are doing to ourselves.
Eliardo Franca
Painter and illustrator, Brazil

I wish that China would use its huge revenue to provide better medical care to its vast numbers of poor people, especially those who suffer from AIDS.
Fon-Jou Hsieh
Professor of obstetrics and gynaecology, National Taiwan University, Taipei, Taiwan

I wish I could shrink myself to the size of an atom and dive into my eppendorf tube, to view the mechanisms of molecular and cellular biology in real time.
Simon Fredriksson
Stanford Genome Technology Center, California, USA

I would like all developed countries to agree to Kyoto protocol, and also to begin to destroy their nuclear arsenals so that clear and present dangers to Earth can be avoided.
Vinay Gupta
Researcher working on supercapacitors, Kyushu University, Fukuoka, Japan

I wish that scientists would work towards implementing photosynthesis in higher organisms, ultimately in humans.
Subrata Biswas
Graduate student, University of Campinas, São Paulo, Brazil

I would like a highly volatile, non-odorous truth serum, packaged in breath-sweetener-style dispensers, to be surreptitiously sprayed at Pentagon briefings and presidential press conferences.
Martin Richard, Food & beverage director
Riverside Country Club, Bozeman, Montana, USA

Science has brought us so many advances and so much understanding. This is something that scientists intrinsically understand. It is a way of viewing the world that is rational and realistic, not based on ideology or popularity contests. My wish is that the political leaders of the world would begin to look at the world from a scientific point of view.
Todd Whitcombe
Associate professor of chemistry, University of Northern British Columbia, Canada

I’d like to see more research on vegetable oil as fuel. Right now, vegetable oil is nearly the same price as diesel. What are green activists waiting for? Oh, and I would like a PDA in my watch, too.
Emmanuel Maicas
Moncton, Canada

I would like to see all scientific journals freely accessible online to senior scientists, most of whom spent their career years plodding in the lab, working at low salaries.
Naina Marbus
Visiting scholar, University of Washington, Seattle, USA

So many unknown genes, so little time. I just wish to understand one or two in 2005.
Mudjekeewis D. Santos
Postgraduate student, characterizing immune-related genes in the flounder, Tokyo University of Marine Science and Technology, Japan

I would wish upon a star
to not need gas to run my car
and any fuel cell my heart desires
will be on sale for me.

Brian Barnes
Chemistry PhD student, Washington University in St Louis, Missouri, USA

I would like to put forward a new theory of superconductivity.
Mohammad Shaz
Lecturer in physics, Banaras Hindu University, Varanasi, India

I wish that the global scientific community would launch a campaign to ensure that the system of patenting for the pharmaceutical sector is designed in such a way that new drugs are available at a price affordable for all. ‘Health for all’ and not ‘profits for a few giant companies’ needs to be the guiding principle for pharmaceutical research.
P. Sunderarajan
Special correspondent of The Hindu newspaper, India

I wish for the people of the world, especially Americans, to become more conscious of the impact that their actions have on the environment.
Gary Walker
Manager of clinical research, Guidant, Santa Clara, California, USA

I wish for less scientific discrimination, so that my colleagues in Eastern Europe, in developing and undeveloped countries, can seriously participate in international research projects while working in their own countries.
Nevena Nagl
Research scientist, Institute of Field and Vegetable Crops, Novi Sad, Serbia and Montenegro

I wish to see the world’s children moving at light-speed daily, so they can take classes in different countries and become more open-minded than their parents.
Fabio Salamanca-Buentello
University of Toronto Joint Centre for Bioethics, Canada

I’d like to make a botanical garden in some desert area, powered by fuel cells and solar energy, and live there with macaws.
Noriko Shimamura
Tokyo, Japan

I wish for a time machine to go back to the period when people used to do research because they loved it, and not just to increase the number of publications on their CVs.
Raheel Qamar
Research director, Shifa College of Medicine, Islamabad, Pakistan

I wish that, by the end of 2005, we will have saved hundreds of species from extinction, reduced our dependence on oil and cut back on the population growth rate. That would allow me to wish reasonably for 2006.
Giri Athrey
Department of Biology, University of Louisiana at Lafayette, USA

I wish to survive.
Stefano Biffo
Associate professor of cell biology, University of Eastern Piedmont, Novara, Italy

I wish that I could publish my work in Nature!
Name not supplied
Graduate student, Tsinghua University, China

I want young researchers – those without egos, and thus those who can put their necks on the line to investigate new and fresh ideas – to get a little federal money. And a little support from their elders in the field.
Patrick Flanagan
Molecular biologist, National Institutes of Health, Bethesda, Maryland, USA

É… que essas viagens se concretizem! Sonhar não custa nada, não é mesmo?

(As análises desses desejos eu deixo a critério de cada um.)

Tudo de bom sempre.

Finalmente viramos o ano. Balanço? Já fiz o meu pessoal, profissional e “artístico”. 2004 ficou marcado pela nova vida na Coréia do Sul, pelo desafio da língua e do choque cultural, pela submersão na diabetes, pela entrada no mundo blogueiro, pelos novos amigos – e pela manutenção dos antigos com muito mais carinho. Detalhes maiores aos poucos vão aparecendo nos posts futuros.

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Nossa festa de Ano Novo foi super-light, tranqüila no quentinho do lar aquecido. Champanhe, maçãs e a tão sonhada pasta a 4 queijos (queijo é uma raridade para esses lados orientais). Não fomos a uma festa a qual fomos convidados, e resolvemos que o dinheiro que seria gasto na mesma teria outro destino. Minha consciência agradeceu.

Quanto a tradições coreanas de Ano Novo, uma parte dos coreanos se amontoa em engarrafamentos a caminho do mar do Japão (que eles chamam de Mar do Leste) para ver o nascer do Sol no dia 01/jan e rezar para um melhor ano que se inicia. O Homem do Tempo garante que estará nublado, portanto com visibilidade ruim para o nascer do sol. Alternativa? No centro de Seul à meia-noite, um grupo de figurões toca um gongo gigante, bem tradicional. Shows ao vivo de artistas famosos coreanos também rolam nessa cerimônia do gongo. Mas os -8 C (sem o fator vento) não me animaram: vimos pela TV. Minha consciência agradeceu de novo.

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Ano Novo, blog novo. Nem tanto, vai. As coisas não mudam tanto assim de um dia pro outro. Apenas adicionei alguns links novos na barra aí do lado, por razões totalmente subjetivas:

1) Alexandre (LLL), pois estou participando do Clube de Leituras dele – esse mês estamos lendo “Crime e Castigo”, do Dostoievsky. Ainda não comecei e tenho esperanças de que conseguirei acabar a tempo. Além do mais, considero o LLL quase um portal de literatura.
2) Felicia Luisa, pois tenho visitado bastante a dona do blog
3) Mad Tea Party, um blog para românticos, como a própria DaniCast sugere – e eu sou uma romântica.
4) Explorador deitado na rede, um blog novo de aventuras náuticas à la Amyr Klink – precisa dizer mais?

Ou seja: nada de muito novo no front. Ou quase nada.

E a promessa de pelo menos 2 interessantes viagens em 2005. Aguardem cenas dos próximos capítulos durante o ano!

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Um 2005 que se inicia cheio de paz, experiências novas e saúde para todos. Tin-tin!

E muitos sonhos, pois sem sonhos não viajamos – e sem viagens, não vivemos.

Tudo de bom sempre.

Depois de muitas tentativas no laboratório, eis que hoje meu presente de fim de ano chegou. Agora 2005 pode começar à vontade.

Microscópicas - adipócitos

Acima: células pré-adipócitas de camundongo vistas sob microscópio, aumento de 40X. Abaixo: as mesmas células, já como adipócitos (ou carinhosamente apelidados por mim de “gordócitos”), aumento de 600X. Tudo que está em vermelho é gota de gordura dentro da célula. Apesar de parecerem que não, foram tratadas com o mesmo corante vermelho.

Só para explicar um pouco essa viagem (Se achar que é biologia demais para sua cabeça, pule imediatamente para o próximo parágrafo.): adipócitos são células que acumulam gordura. Quando nascemos, temos em grande parte pré-adipócitos (imaturos), que com o passar do tempo e da ação de uma série de hormônios, transformam-se em adipócitos maduros e começam a acumular gordura naturalmente. Todos nós, sem exceção, mesmo magros, temos uma camada de gordura necessária sob a pele, que ajuda principalmente no isolamento térmico. E quando comemos demais… bem, todos sabem o que acontece com o excesso de gordura: eles entram nos seus “gordócitos”, que se enchem – para tristeza da maioria das pessoas! Mas essas células também são um excelente modelo para estudos de diabetes tipo 2, pois as células de gordura são um dos alvos de ação da insulina, por onde normalmente inicia-se a deficiência metabólica característica da diabetes… E eu trabalho no meio dessa confusão de conceitos e idéias. Esse processo de maturação (que é feito por adição de um coquetel de substâncias e onde estávamos quebrando a cabeça) faz parte do início do projeto. (Finalmente conseguimos que o processo de maturacao funcionasse!) Obesidade – e consequente aparecimento de diabetes tipo 2 – é uma situação infelizmente corriqueira, fruto em geral do nosso sedentarismo e dos nossos hábitos alimentares esdrúxulos. Nem todo obeso será diabético, e nem todo diabético é obeso, que isso fique bem claro também.

Ciência é isso aí. Tentativas frustradas mil, um acerto: uma vibração de alegria dos seus (2) neurônios, um sorriso no rosto e energia para continuar – e bola pra frente que um novo ano vem aí, cheio de mais experiências e perguntas para serem vividas. E com suor e sorte, boas respostas também.

(Pelo menos nesse – literalmente – maremoto de más notícias e tragédias bombásticas de fim de ano, uma boa notícia no meu mundinho particular asiático.)

Tudo de bom sempre.

E feliz 2005 para todos, caso eu só apareça agora em janeiro!

P.S.: Tem maluco pra tudo nessa vida mesmo…


Mapa do Anel de Fogo do Pacífico e placas tectônicas adjacentes, mostrando a área atingida pelo terremoto de domingo. (Papi e mami, como podem ver, estamos bem longe!)

No último domingo, o sul da Ásia foi atingido por um terremoto de 8.9 (update: magnitude 9.0) na escala Richter, e desde o momento em que aconteceu, começamos a acompanhar as notícias da tragédia. No meio daquele mar de informações fluindo ao mesmo tempo, lendo alguns jornais brasileiros e americanos, comecei a perceber uma confusão generalizada sobre a causa do terremoto e seus tsunamis, e principalmente, sobre a localização do problema. Vários jornais referiram-se à região de Sumatra como parte do “Anel de Fogo do Pacífico”, uma região instável e de intensa atividade sísmica e vulcânica. Já tinha um post mais ou menos pronto sobre o assunto ANTES da tragédia, mas reformulei-o e adiantei a “publicação” bloguística – se é que podemos classificar uma curiosidade exacerbada por vulcões e eventos sísmicos como “publicação”. Acho que o que melhor explica essa curiosidade é que eu sou de sagitário (signo do fogo) e embora não acredite em astrologia, pode ser que o mito do homem-centauro seja o responsável pelo meu fascínio por vulcões. Quem sabe…

Chama-se “Anel de Fogo” à região de intensa atividade vulcânica e sísmica que circunda a placa tectônica do Oceano Pacífico (veja o mapa acima). Essa placa é circundada pelas placas de Nazca, Filipina, de Cocos, Antártica, Indo-australiana, Norte-americana e uma pequena (mas importante) borda com a placa da Eurásia. (Alguns geólogos e afins incluem a região de Java como parte do Anel de Fogo, embora não necessariamente na fronteira com a placa do Pacífico. Enfim, problemas de conceito, que existem aos montes na ciência.) As placas, juntas, formam um quebra-cabeça montado e em movimento sobre a superfície da Terra. Em toda essa região de encontro de placas tectônicas, a fissura da junção das mesmas gera vulcões em atividade, terremotos com frequência acima do normal, e as pessoas que moram por ali estão sempre ameaçadas por essa atividade natural, esperando o próximo grande evento. Uma instabilidade vinda direto do centro da Terra em ebulição e a qual, por mais que nossa superioridade cerebral queira, não temos controle absolutamente algum. Acho instigante viver assim, sabendo que de nada adianta nesse caso o poderio bélico do sr. Bush, a puxa-saquice patente do sr. Blair, ou as investidas terrorismo-fantástico do sr. Bin Laden. Nem mesmo as orações do Papa ou preces budistas. O Anel de Fogo do Pacífico não liga para nenhum deles, e continua sua atividade de acordo com suas próprias leis… (Sim, eu provavelmente tenho alguns parafusos a menos.)

No domingo (26/dezembro), aconteceu imprevisivelmente um terremoto de 9.0 na escala Richter na ilha de Sumatra, Indonésia – o quinto maior deste século. O terremoto deixou muitos mortos na Indonésia e em outros 6 países asiáticos. A vibração do tremor gerou ondas enormes (os famosos tsunamis, que na costa viram maremotos) que viajaram pelo oceano Índico e devastaram com força total ilhas na Tailândia, na costa da Índia, na Malásia, Bangladesh, ilhas Maldivas e principalmente o Sri Lanka. Milhares de pessoas mortas e mais um sem número desabrigadas. Fico triste pelas pessoas que são pegas de surpresa num evento desses, mas sabemos o quão inevitáveis são terremotos e explosões vulcânicas na região do Anel de Fogo e adjacências. Na fronteira da placa do Pacífico ocorrem o maior número de erupções e terremotos do planeta – na região do Kamchatka (norte da Rússia, que um dia ainda sonho visitar), das ilhas Aleutian (Alasca), na costa oeste do Canadá e EUA, os vulcões da ilha Norte da Nova Zelândia, da Papua Nova Guiné, a fossa das ilhas Marianas e os vulcões do Japão. Entretanto, Sumatra, no conceito que escolhi para definir o Anel de Fogo nesse blog (nossa, agora eu me senti uma garota super-poderosa: Powerpuff save the world!) NÃO está no Anel de Fogo, e sim sobre a fissura entre a placa da Eurásia e a placa Indo-australiana. E por quê ela tremeu tão forte no domingo?

A razão real é desconhecida. Pode ter sido um efeito indireto da pressão da placa do Pacífico em expansão, afinal é essa atividade expansiva para o lado do Kamchatcka/ Japão que gera instabilidade na região de fronteira entre placas por todo o Anel de Fogo. (A placa do Pacífico nessa região está submergindo na placa da Eurásia.) Provavelmente, o terremoto de domingo foi mais um “assentamento” (dos grandes, dessa vez) de placas refletindo indiretamente a expansão da placa do Pacífico. Mas veja bem, PROVAVELMENTE. Pode ter sido também uma movimentação das placas locais, uma tensão entre a Eurásia e a Indo-Austrália simplesmente. (Update: O deslize entre as placas foi de 15m e a placa da Indo-Austrália está submergindo na da Eurásia.) A ciência não responde a isso com precisão no momento. Mas responderá em breve, após o acontecido. Prever, difícil ainda.

Entretanto, muitas vezes existem indícios de explosões vulcânicas ou grandes tremores, através de alguns sinais na crosta. Mas, mais importante que isso no caso do terremoto de domingo, foi o poder de percepção da formação do tsunami – infelizmente pobre, no sul da Ásia. No Pacífico, a maioria dos países diretamente ligados com problemas constantes de terremotos, vulcões e tsunamis possuem sistema de alarme geral, e quando um terremoto acontece no mar, rapidamente já se localiza a direção do tsunami e as cidades costeiras são avisadas. Isso pode dar de alguns minutos a horas de evacuação – um tempo precioso que pode salvar muitas vidas. Lembro que no Hawai’i todas as primeiras segundas-feiras do mês entre 10h e meio-dia um alarme ensurdecedor tocava (e ainda toca) por todas as ilhas, treinando para uma possível situação de emergência. Mas enfim, esse sistema não existia no Índico, e acrescente a isso uma das áreas mais densamente povoadas do planeta, e temos a receita perfeita para uma catástrofe.

A Terra ainda não é um planeta totalmente formado, e embora habitemos quase todos os recantos desse mundinho, ele ainda precisa de “espaço e liberdade” para terminar de desenvolver-se. Como um adolescente sendo pressionado a fazer vestibular para Direito quando quer mesmo é fazer para Música e ser um popstar. Pressionamos o planeta de todas as formas, extinguindo espécies, alterando ecossistemas, poluindo e gerando mais gente, tudo em nome de nossa melhor qualidade de vida. E é essa mensagem que, como o adolescente pressionado, os terremotos, vulcões e tsunamis dão de revide: ainda estão no controle do que acontece em nossas vidas tão pequenas, e eles ainda serão popstar por muito tempo. Pelo menos no Anel de Fogo do Pacífico.

A força que mata é a mesma que constrói… Lava escorrendo do vulcão Kilauea, no Hawai’i, que está no centro da placa do Pacífico, mas não é do anel de fogo!

E muitos se perguntam: se sabemos que vulcões e terremotos causam destruição e morte em níveis catastróficos, por que pessoas ainda moram em regiões próximas a eles???

A resposta é simples. Catástrofe é o lado que a mídia se ocupa de mostrar das regiões vulcânicas ou em atividade tectônica – o lado “mau”. (É preciso deixar claro que vulcões e atividades sísmicas andam lado a lado, de mãos dadas.) Entretanto, regiões próximas a vulcões inevitavelmente:

– Têm solos mais férteis, pois as erupções fazem ressurgir à superfície toneladas de lava, com elementos químicos e riquezas minerais que tornam o solo rico e melhor para a agricultura.

– São potenciais áreas de turismo. Muitas fontes geotermais de “água quente” espalhadas pelo mundo e que atraem turistas para banhar-se e chafurdar-se nas lamas “milagrosas”, estão na realidade em locais de fissura de placas. E as montanhas vulcânicas são um local único para caminhadas e montanhismo, pelo formato peculiar e pela geologia local.

– Geram mais empregos. Onde há potencial turístico e solos aráveis, pessoas estarão mais propensas a assentarem-se e produzir mais, portanto essas regiões terão mais comércio, formação de cidades e atrairão mais pessoas. Dinheiro, sempre dinheiro…

– São fonte de energia. Alguns países utilizam-se de usinas geotermais para produção de energia elétrica, uma fonte limpa (Nova Zelândia e Islândia, por exemplo), vinda direta da fonte de calor intermitente existente na região do encontro de placas.

E esse é o lado “bom” dos vulcões.

Tudo de bom sempre…

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Viajando na maionese…

– No Anel de Fogo estão situados 75% dos vulcões dormentes e em atividade do planeta.

– Existem aproximadamente 1500 vulcões em atividade no planeta.

– Para os “lava junkies” como eu, o website Volcano World tem uma lista atualizada dos vulcões em erupção na Terra. Vale dar uma olhadinha por lá antes de planejar uma viagem… quem sabe você não será brindado com um banho de lava para sair bem na foto?

– Morávamos na borda da cratera dormente do Punchbowl por um ano, no Hawai’i. Aliás, muitas pessoas ainda moram lá, pois é um bairro como outro qualquer no centro de Honolulu. O vulcão Punchbowl é classificado como “dormente em vias de extinção”, portanto oferece risco quase zero para a população local. Milhões de pessoas no planeta vivem ao redor de crateras, cones e caldeiras vulcânicas – muitas sem nem saber.

– A formação dos vulcões do Hawai’i é um processo único no mundo, chamado “Hot Spot”: um buraco no meio da placa do Pacífico que libera magma intermitantemente e foi o formador em tempo geológico das ilhas havaianas. Uma nova ilha já está em formação submersa no Oceano, aos sul da Grande Ilha do Hawai’i, mostrando aos cientistas o local exato do “Hot Spot”. Isso é lindo! – Tremores secundários ainda estão acontecendo na área do terremoto de domingo.

– O que é a boa informação… A Wikipedia está com tudo sobre o terremoto de domingo atualizado e em momento algum fala do Anel de Fogo do Pacífico! Jornais brasileiros, aprendam a ler e buscar informações em fontes como essa!

Update do update em 31 de dezembro: alguém acrescentou na mesma Wikipedia a informação de que a Indonésia faz parte, sim, do Anel de Fogo do Pacífico, baseado em outro mapa, que não leva em consideração as placas tectônicas, e sim as regiões de intensa atividade vulcânica da região. Eu já não sei mais nada. Cada um decide qual conceito mais lhe apetece, com bom senso e lógica, por favor.

Ano passado, há exatos 365 dias, estava eu tendo meu primeiro contato com o Mato Grosso do Sul. Uma viagem dessas sonhadas, e planejadas, e desenhadas, e tudo o mais. Queríamos ver bichos pantaneiros, a vegetação, fazer snorkel nos rios cristalinos de Bonito, ver a raia (Potamotrygon reticulatus) que por uma dessas maravilhas da evolução é de água doce. Queríamos aproveitar o máximo desse pedaço do Brasil antes de submergir na cultura coreana. Imagine o choque: saímos praticamente do Pantanal para Seul. Lembro ainda chegando a Seul cheia de picadas de mosquito nas pernas (mais de 50, com certeza) e muito queimada de sol.

Bonito? Lindo!

Aquário Natural do Rio Sucuri, um verdadeiro jardim embaixo d’água, e o choque de dois mundos: terrestre e aquático na descida do Rio da Prata.

Nossa primeira parada foi Bonito, no Mato Grosso do Sul, onde eu estava ansiosa para mergulhar nos rios da região. Bonito não faz parte da bacia pantaneira, estando na serra da Bodoquena, e devido ao alto índice de calcário no solo, as impurezas presentes na água precipitam junto ao calcário, num processo de filtragem natural que nos presenteia com as águas cristalinas que vimos lá. Visibilidade de dezenas de metros! Em água doce no Brasil?? Raridade total. A flutuação pelos rios Sucuri e da Prata foi uma das experiências aquáticas mais inesquecíveis que passei, e depois de visitar um número razoável de lugares pelo planeta, considero Bonito um caso único no mundo. A vegetação aquática, adicionada ao número de peixes, transformam a região num mega-aquário natural, onde ecoturistas podem sentir-se como um peixe por algumas horas. Ao fim da descida do rio da Prata, ainda pudemos ficar de queixo caído com o “vulcão”, uma nascente borbulhante enorme há uns 5 metros de profundidade, onde ao pormos a mão temos a sensação vibrante de um mini-vulcão em erupção. Bonito não só é lindo, como também é um exemplo de organização turística e ecológica. Os guias locais são treinados com perfeição biológica e explicam a todos as peculiaridades daquele frágil ecossistema. Uma pérola da qual os brasileiros podem se vangloriar perante qualquer turista mundial. Temos Bonito, e vale a pena.

De Bonito, fomos ao Pantanal sul, em Mato Grosso do Sul, já na borda da imensa bacia que é o ecossistema pantaneiro. Confesso que, desde os tempos de colégio até as aulas de Ecologia pesadas da faculdade, nunca tinha entendido bem a idéia do que era o Pantanal, suas estações de cheia e vazante, todo aquele alagadiço. Precisei ir, ver pra crer e entender porque a planície depende do regime de chuvas, depende do rio Paraná, depende de uma linha super-tênue de equilíbrio que mantém tudo em perfeita harmonia. As interações ecológicas são frágeis por aquelas bandas. Qualquer deslize do clima ou da intervenção humana pode ser fatal para um grupo qualquer de animais e/ou plantas da região.

Pôr-do-sol no Pantanal Sul, com o cambará, a palmeira-símbolo do Pantanal, e os jacarés passeando no quintal da fazenda Baía Grande, onde ficamos…

No Pantanal, tomamos conhecimento de problemas típicos, e o primeiro foi a provável abertura do rio Paraná à navegação. Querem tornar o rio Paraná 100% navegável, para que a produção agrícola da região mato-grossense (principalmente a soja) possa escoar para os portos do sul mais facilmente. Se isso acontecer, o ecossistema do Pantanal inteiro estará ameaçado, pois a bacia DEPENDE do regime do rio Paraná para sua saúde ambiental – a bacia secará, basicamente. O velho dilema: razões econômicas X razões ambientais, como de praxe. É ver quem vence essa parada.

Outro problema (esse inusitado) foi-nos comentado por um pantaneiro – aquele homem típico das planícies pantaneiras que sabe cavalgar melhor que muito hipista: o coreano Reverendo Moon (vocês lembram dele? O “dono” de uma seita religiosa na década de 80/90…) tem uma propriedade enoooorme na divisa com o Paraguai onde pretende construir um hotel/resort para turistas asiáticos. Ele espertamente há pouco tempo comprou uma propriedade enooorme do outro lado da fronteira, no Paraguai. Somadas as duas propriedades, ele possui uma área de fronteira entre Brasil e Paraguai que não possui leis alfandegárias e muito menos vigilância, pois é propriedade privada!!! Não é uma loucura isso? Em tese, ele pode passar o que quiser para dentro dos 2 países, cruzando por sua fazenda. Essa história me deixou estupefata por um tempo – ainda me deixa, quando páro pra pensar.

Os aguapés verde-intenso da região pantaneira, e a raia de água doce, beleza que o isolamento geográfico permitiu florescer nas águas brasileiras…

Tirando esses problemas, tivemos momentos divertidos por aquelas bandas, principalmente gastronômicos… A melhor costela que já comi na vida, uma cachaça deliciosa, a comida caseira que tanto sentimos falta no momento. Aquele tempero que só o pessoal na roça sabe fazer. Engordei uns bons quilos por lá, feliz da vida. Que dieta, que nada! Eu quero é comer bem…

E vimos alguns animais típicos: tuiuiús, jacarés, piranhas, sapos, pererecas, insetos, e a tão sonhada raia. E as plantas: ipês, ninféias, aguapés… Uma diversidade estonteante, um clima de paz e sossego, um lugar sagrado, um templo darwinista. O Brasil tem o Pantanal, e isso já vale a pena.

Tudo de bom sempre.

PS: A foto-banner deste blog já foi um dia euzinha descendo o rio Sucuri… Explorando o desconhecido…

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