“Meu amor, o que você faria/ se só te restasse esse dia?”

Paulinho Moska fez esta filosófica pergunta em sua música “O último dia” há algumas décadas. Pois ontem, 13 de janeiro de 2018, esta singela frase martelou por 15 minutos na minha cabeça da maneira mais cruel e assustadora possível.

Ainda estávamos acordando de manhã quando, às 8:07, meu celular e o do André tocaram o bipe de emergência. No Havaí, a Defesa Civil de Emergência tem uma ferramenta capaz de alertar para um perigo imediato o estado inteiro, por celular, rádio, TV e email. Todas as pessoas recebem a mensagem. Se o perigo for algo iminente, as sirenes tocam. Em geral, os alertas que recebemos são de inundação de chuva (flash flood) para que as pessoas evitem áreas próximas a riachos, ou de tsunami – já passei por dois aqui. Mas é raríssimo recebermos mensagem deles, já que o sistema só é ativado nas emergências que podem gerar catástrofes e perdas humanas sérias.

Então quando eu olhei pro celular e vi esta mensagem de alarme, meu coração veio na boca.

Alarme Falso

A frase “This is not a drill” – “Isto não é um teste” – foi a que mais ressoou na minha cabeça naquele segundo pavoroso em que você de repente percebe que hoje pode ser seu último dia no planeta. E eu gosto de viver. Mas não havia tempo para melancolia.

Meu instinto natural entrou em modo “sobrevivência” e fui fazer… um litro de café. #prioridades Parece loucura, mas me veio logo o pensamento de que os estoques de água se contaminariam de radioatividade se este fosse um míssel nuclear, e eu ficaria por um longo tempo sem poder tomar café limpo. Nesta mesma levada de pensamento, André e eu começamos a encher todos os containers de água pela casa, incluindo a banheira. Fechei todas as janelas da casa. E ligamos a TV e o twitter para saber mais. Um silêncio mortal pela vizinhança. Pouquíssimos carros nas ruas.

André ainda estava meio cético de tudo aquilo – a racionalização científica dele é muito incrível, mesmo em momentos de pavor. Na TV, passava um jogo de basquete – e nenhum sinal de nenhum canal de TV falando do tal míssel. Achamos aquilo suspeito. Começamos a achar que podia ser um alarme falso.

No twitter, na minha timeline do Havaí, muitas mensagens de pânico e desentendimento. Até que, uns 15 minutos depois da mensagem do míssel, a deputada federal Tulsi Gabbard postou que a mensagem da Defesa Civil era um alarme falso.

Como Tulsi é uma ex-militar, assumi que falar com “officials” era contactar alguém do vasto comando militar no Havaí para saber mais detalhes da tal ameaça de míssel. A mensagem dela começou o burburinho de que o alarme da Defesa Civil era falso. O problema: muita gente já relatava pânico, pessoas se escondendo em garagens, nos banheiros e no basement das casas, confusão nas ruas.

Mas oficialmente, a Defesa Civil não cancelara a mensagem anterior. Isto gerou uma confusão incrível – na era do fake news e da verdade alternativa, em quem você acredita?

(E que tempos vivemos, em que uma mensagem destas tem chances de ser séria. Tempos em que há a possibilidade real de uma hecatombe, em várias partes do mundo. Tempos em que dois supostos líderes do mundo ficam adolescentemente medindo quem tem o maior botão nuclear. Realmente, tempos estranhos.)

Em casa, eu já estava um pouco mais aliviada. Havia uma grande chance de ser alarme falso.

Mas não parava de pensar. Em 15 longuíssimos e assustadores minutos, minha vida inteira passou como um filme na minha cabeça, os momentos mais marcantes, as pessoas que mais amo, os locais mais lindos que visitei. Era claro que eu não estava preparada para que aquele fosse meu último dia na Terra – há ainda muito a fazer, a ver, a contribuir, muitas pessoas sensacionais para abraçar e conversar, muitos lugares maravilhosos a conhecer (Kamchatka, I’m looking at you!).

38 minutos depois do alarme falso ter tocado em nossos celulares, a mensagem foi oficialmente desmentida. Aparentemente, um funcionário em troca de turno apertou o botão errado e enviou a mensagem para todo mundo – cabeças rolarão na Defesa Civil com um erro destes, isto é certeza.

Mas de uma certa forma, o tal alarme falso serviu um pouco como uma checagem da realidade. Não só se estamos preparados para um inverno nuclear, mas se estamos aproveitando a vida de maneira completa aqui na Terra. Será que em nosso último dia teríamos aproveitado e curtido tudo que queríamos fazer na vida? Passei o dia inteiro pensando nesta pergunta.

A resposta veio logo. Apesar da quantidade enorme de trabalho que tenho pra fazer, dos vários prazos circundando minha rotina acadêmica, não pensei duas vezes quando André falou: “vamos no North Shore ver as ondas?” Sim, vamos ver as ondas e aproveitar que a gente está aqui, vivo e saudável, e como diz a hashtag famosa, #LuckyWeLiveHawaii.

Em Waimea, um swell de 30-50 pés, com sets de ondas inacreditavelmente fortes, que vão ficar por todo o fim de semana. Depois de um dia que começou com ameaça de bomba e fim do mundo, terminar o dia com um pôr-do-sol espetacular, daqueles que só o North Shore de Oahu pode oferecer. Felizmente as únicas bombas que vimos foram as ondas gigantescas quebrando nas rochas, com seus tubos incríveis anunciando que a força da natureza ainda reina soberana no nosso planeta. E que a nossa vida humana é muito preciosa – e frágil.

No caminho de volta do North Shore, depois desse dia pra lá de bizarro, coincidentemente outro verso brasileiro famoso ecoou no carro:

“Vida louca vida/ vida breve/ já que eu não posso te levar/ quero que você me leve.”

E não é?

Tudo de vida sempre.