No Natal de 2011, André e eu fizemos uma viagem de uma semana para a ilha de Wallis, no país chamado Wallis & Futuna. Mexendo nos meus arquivos antigos no computador por estes dias, reencontrei um artigo enorme sobre esta viagem, que nenhum veículo de comunicação nacional teve interesse em publicar – who cares about Wallis e Futuna, não é mesmo? Bom, eu me interesso por recantos do planeta diferentes e deixo aqui em quatro partes e formato blog para quem também se interessar em um dia conhecer esta ilha interessantíssima – e curiosíssima – do Pacífico sul. Esta é a PARTE 1.

Wallis & Futuna é assim.

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Wallis & Futuna

A chegada ao Aeroporto Internacional de Hihifo, em Wallis Island.

Desembarcar no pequeno e simpático aeroporto de Hihifo na ilha de Wallis mais parece chegar numa festa. Uma multidão de pessoas de semblante misturado melanésio-polinésio aguarda os passageiros saídos do vôo da AirCalin, única empresa aérea comercial a voar para o país, duas vezes por semana.

Wallisianos no aeroporto de Hihifo.

O vôo vem da vizinha cidade de Noumea, na Nova Caledônia, país com o qual os wallisianos, como são chamados os habitantes da ilha de Wallis, mantém mais conexão e contato.

A ilha de Wallis é parte do arquipélago chamado Wallis & Futuna, uma esquecida coletividade ultramarina francesa (ou COM, sigla francesa) no sul do Pacífico. São menos de 14.000 moradores no país; entretanto, cerca de 16.000 wallisianos vivem na Nova Caledônia, para onde migram em busca de empregos e uma perspectiva de vida mais urbana e agitada, o oposto do que se encontra na pacata ilha de Wallis. Um rumor comum na ilha conta que se todos os wallisianos que estão na Nova Caledônia um dia decidissem voltar para a terra natal de uma vez só, não haveria como sustentá-los em Wallis.

Wallis e Futuna, no sul do Pacífico. Entre Fiji e Samoa.

Por ser ainda um território ultramarino da França, uma quantia considerável de dinheiro é injetada pela França para manter Wallis & Futuna funcionando, em troca da manutenção de seu acesso irrestrito à zona de exclusividade econômica ao redor das ilhas. Estratégia político-econômica que vem dando certo: um plebiscito realizado há alguns anos em Wallis & Futuna decidiu pela manutenção do arquipélago como um território francês.

Rumo a Mata Utu, pela rodovia principal da ilha de Wallis.

Os subsídios franceses, aliados ao dinheiro conseguido pela venda dos direitos de pesca a países como Japão e Coréia do Sul, sustentam a economia de Wallis & Futuna, e são suficientes para manter sua sociedade com tranqulidade. Apesar de ter o menor GDP dentre os territórios franceses, Wallis & Futuna não depende de outro setor da economia para sobreviver, e a idéia geral entre os habitantes locais é manter este pedaço de paraíso isolado.

Mata-Utu.

Há uma sensação forte quando andamos pelas ruas da capital Mata-Utu de que, ao sair dali, o melhor é que esqueçamos que Wallis & Futuna existe.

A avenida beira-mar de Mata-Utu, onde o trânsito é praticamente inexistente.

A dominação francesa é parte fundamental da vida em Wallis & Futuna. Vêm de lá muitas regulamentações e costumes: o sistema de saúde é universal, a educação é pública e a língua oficial a francesa – embora a língua wallisiana também seja usada no cotidiano. A moeda é a mesma da Nova Caledônia e Polinésia Francesa, o franco do Pacífico (XPF). O país é uma ilha polinésia no sul do Pacífico – o que significa com mar lindo e potencial turístico enorme – mas não tem resorts nem albergues, apenas quatro hotéis de qualidade beira de estrada, cuja classificação em qualquer outro lugar do mundo não passaria de duas estrelas. Dada a falta de opção, entretanto, até o Rei de Tonga já se hospedou em um destes estabelecimentos – uma foto dele estava estampada no lobby do hotel Lomipeau, o primeiro em que nos hospedamos em Mata-Utu.

Na parede do hotel Lomipeau, a foto que comprova: o Rei e a Rainha de Tonga estiveram aqui.

À medida que o viajante incauto se desvencilha da multidão no aeroporto, também percebe que muitos dos moradores de Wallis estão na saída do aeroporto por outro motivo: a chegada do avião é um evento da ilha. Assim como a missa de domingo, ninguém quer perdê-lo, parte que são do burburinho que movimenta o seu tradicional cotidiano pacato.

Hotel Moana Hou, o segundo hotel em que nos hospedamos, mais perto do “burburinho” da cidade – e dos motus para mergulhar. 

Nos guias e blogs espalhados pela web, sempre lemos a mesma indicação: avise com antecedência ao seu hotel para buscá-lo, ou pegue uma carona com uma das pessoas no aeroporto – o que não é difícil, já que está estampado na testa do visitante que ele não é dali e que precisa de ajuda. Não há táxi em Wallis & Futuna, e são algumas boas milhas do aeroporto de Hihifo até Mata-Utu, onde ficam a maioria dos hotéis.

O arquipélago-país de Wallis & Futuna é composto de três ilhas principais: Wallis, Futuna e Alofi. Wallis é a principal e mais populosa, também chamada de ‘Uvea na língua wallisiana, falada por 60% dos habitantes. Como todos também aprendem e falam francês, o que se houve nas ruas de Mata-Utu é uma interessantíssima mistura de francês com pegadas de wallisiano – ou vice-versa.

Importante discriminar na prateleira do supermercado o que veio mais rápido de avião e o que chegou de barco.

O custo de vida é dos mais caros imagináveis – você vai achar a Polinésia Francesa uma pechincha depois de visitar Wallis & Futuna. Nos supermercados e lojas, os produtos são separados em duas categorias, indicativas de sua sensibilidade e preço: os que chegaram de navio e os que chegaram de avião. Como praticamente tudo que é consumido vem de fora, é raro encontrar frutas e vegetais frescos, assim como carne vermelha. Nos dias de hoje, os habitantes de Wallis ainda se sustentam muito com o que é produzido no quintal de suas casas.

Setor do supermercado com os queijos e defumados franceses que chegaram de avião.

O país deve ser um dos poucos do mundo que não possui uma filial de nenhuma rede de marca famosa que estamos tão acostumados a ver nos centros urbanos – nada de McDonald’s, Starbucks, etc. Entretanto, padarias e lojas de vinhos e queijos franceses são fáceis de se encontrar, assim como perfumes franceses – que estavam à venda no mesmo local onde se alugam carros.

Wallis é: onde as crianças ainda brincam de coletar muitas conchinhas (ou conchões!) na praia… porque elas ainda existem ali.

Ironicamente, uma curiosa onipresença caracteriza a Wallis atual. Sem sinal de celular, mas com internet, nas repartições públicas e balcões da cidade o Facebook está sempre ligado; sinal de que a vida virtual do país anda agitada, em um contraste curioso com a vida offline, em que as pessoas ainda se guiam pelo ritmo da maré.

A falta de celular também gera algo ainda mais inusitado: as pessoas interagem sem desvios de atenção, o que nos nossos dias atuais de real-time oversharing parece incrivelmente único. Na TV, os programas predominantes são da França ou de seus demais territórios, como a Nova Caledônia, St. Pierre & Miquelon, Guiana Francesa ou ilhas Reunião.

Coincidentemente, quando lá estivemos, uma novela brasileira das mais novas (não lembro o título) era a campeã de audiência na hora do almoço, dublada em francês – e “Pantanal” estava sendo anunciada para substituí-la em breve.

Assistimos um pouco de TV nos primeiros dias de nossa estadia em Wallis, porque choveu bastante. Tentamos fazer atividades marinhas menos demandantes enquanto o sol não vinha. Mas aí, depois de 4 dias de chuva intensa, o céu abriu – e pudemos aproveitar mais deste pedaço remoto do Pacífico.

[Stay tuned. Próximo post e parte 2: atrações de Wallis.]