Meu amigo queridíssimo Nash tem um espírito aventureiro-mochileiro, e adora fazer trilhas desafiadoras. Fez recentemente as trilhas de Ka’aha e Pepeiao dentro do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí na Big Island. Foram 3 dias de caminhada em área remota. Abriu um blog só pra registrar as aventuras desta trilha. E generosamente me deixou fazer uma tradução livre para o português, compartilhando seu post-guia detalhadinho desta ~jornada. Aos aventureiros de plantão que estão a fim de encarar um hike no meio dos campos de lava em completo isolamento… enjoy!

**Todas as fotos deste post foram gentilmente cedidas pelo Nash. 🙂

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Na trilha de Pepeiao

Flor de ohia do lado de fora da Cabana Pepeiao ao entardecer.

Resumão

Caminhamos por: Trilha do Ka’u Desert do ponto cênico de Hilina Pali até a Pepeiao Cabin; trilha de Ka’aha da Pepeiao Cabin até Ka’aha; trilha de Ka’aha até a volta ao Hilina Pali.

Onde dormir: Pepeiao Cabin por uma noite; Abrigo Ka’aha na outra noite.

Distância percorrida: ~14,4 milhas ou 23.2 km.

Prós: Trilha vazia na maior parte do tempo, não cruzei com ninguém no caminho até a subida da volta ao Hilina Pali. Os dois pontos de acampamento estão com novas privadas de compostagem. Paisagens lindas. A praia em Ka’aha.

Contras: Milhões de formigas-fogo em Pepeiao, e muitas baratas no abrigo de Ka’aha. Água potável com um cheiro estranho na Pepeiao Cabin. O calor é extremo da Pepeiao Cabin até Ka’aha quanto na subida da volta, de Kaaha até o Hilina Pali Lookout.

Faria de novo? Provavelmente não. Ticada da minha lista de desejos!

Mapa da trilha de Pepeiao. À esquerda, a vista geral do parque Nacional dos Vulcões do Havaí. O quadrado vermelho está ampliado no mapa à direita. Tirado do ©Google Maps.

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A ideia

A primeira vez que ouvi falar das trilhas remotas do Parque Nacional dos Vulcões do Havaí foi pela minha amiga Susie. As histórias dela sobre o camping em Halape e Keahou me animaram a me aventurar fora dos meus pontos usuais de acampamento e explorar a encosta sul do Mauna Loa. Depois de pesquisar sobre os vários pontos remotos de camping na costa do Parque dos Vulcões, logo concluí que ninguém estaria interessado em embarcar comigo nesta aventura. Estórias de escorpiões, formigas-fogo, baratas, centopéias e calor extremo eram os desafios que encontrei em diversos blogs sobre a trilha, apesar dos mais recentes serem de 2010 ou antes. Desanimariam a maior parte dos aventureiros comuns a se adentrarem nestas áreas remotas do Parque. Entretanto, com apenas 5 semanas de férias entre a formatura e o início da minha residência médica, decidi que tentaria tirar da minha lista de desejos pelo menos alguns pontos de acampamento destas trilhas remotas.

Logística

Algumas das dificuldades logísticas que tive:

  • Achar alguém que me acompanhasse que tivesse tempo livre ou dinheiro suficiente para esta empreitada.
  • Achar alguém em boa forma física para carregar uma mochila de ~20kg por milhas e milhas de campos de lava.
  • Assegurar a autorização para mochilar pelo Parque por 3 dias, já que de acordo com o site do Parque, você só pode pagar pela autorização com UM dia de antecedência antes de começar a caminhar pela área remota. Levando em consideração que a gente teria que voar de Oahu para a Big Island só para assegurar a autorização (e talvez não consegui-la), isto poderia ser um problema.

Depois de convidar um monte de amigos, no final apenas uma alma corajosa se animou a me acompanhar nesta aventura: Maxine. Com alguém para me acompanhar, comecei então a encarar a logística: comprar as passagens aéreas, reservar o carro alugado, achar uma acomodação para ficar, e fazer uma lista de itens necessários para a aventura. Uma vez que esta logística estivesse finalizada, só sobraria esperar até a hora do vôo de Honolulu para Hilo.

Compra da Autorização de Camping

Cheguei um dia antes da Maxine na Big Island, para dirigir até o escritório de trilhas remotas (Backcountry) do Parque dos Vulcões e comprar a autorização. O super-prestativo ranger Greg foi muito atencioso, e me passou uma série de updates das quantidades de água potável durante a trilha, status dos banheiros e da trilha em si para cada um dos pontos de pernoite. Infelizmente, como ele me explicou, o sistema de coleta de água de um dos pontos, em Halape, estava quebrado, portanto sem opção de água potável naquele ponto, o que impediria a gente de pernoitar lá. Depois de um pouco de discussão, terminei reservando uma noite na Pepeiao Cabin, seguida de uma noite no abrigo de Ka’aha, e terceira e quarta noites em Keahou, já que Halape não era mais uma opção. Baseado no título deste post, vocês podem concluir que nós não chegamos a Keahou, e explicarei adiante por que não.

Um update muito importante do ranger Greg foi de que o Parque está reestruturando seu sistema de compra de autorização para acampar, mudando tudo para um sistema online. Eu já havia percebido a seguinte nota no site do Parque sobre compra de autorização:

“Autorizações devem ser obtidas com não mais que 24 horas de antecedência no escritório de Backcountry, aberto diariamente das 8:00-16:00h. Taxas de autorização podem ser pagas pessoalmente no escritório em cartão de crédito, cheque pessoal americano, dinheiro exato (não damos troco!), ou online pelo link pay.gov. Pagamentos feitos pelo pay.gov requerem a aquisição adiantada de um número de protocolo, feita através de ligação telefônica ou email para o escritório de Backcountry. Você entrará este número de protocolo no site do pay.gov na hora de comprar a autorização.”

De acordo com Greg, as autorizações podem ser compradas com até UMA SEMANA de antecedência do início da sua caminhada pelo Parque, na seguinte sequência: 1) ligar para o escritório (+1-808-985-6178); 2) pegar um número de protocolo para autorização de trilha diretamente com ele, ranger; 3) pagamento da autorização (US$10,00) na compra online; e 4) ligar de volta para o escritório confirmando o recebimento do pagamento. Esta opção teria me economizado ir com um dia de antecedência para Hilo. Enfim.

Dia 1 – De Hilina Pali até Pepeiao Cabin (7,7 km)

Primeira impressão da Cabana Pepeiao vista da trilha que corta o deserto de Ka’u.

Antes de começarmos a caminhada no Hilina Pali.

Na manhã seguinte peguei a Maxine no aeroporto internacional de Hilo, fizemos nosso ritual pré-caminhada com um brunch reforçado no Hawaiian Style Cafe, e seguimos para o Parque Nacional dos Vulcões para começar a caminhada. Paramos o carro no estacionamento do ponto cênico Hilina Pali e começamos a andar até a Pepeiao Cabin, por um pedaço da trilha desértica de Ka’u: 7,7 km, descendo 183 m de elevação, estimativa de 2 horas de descida de acordo com o ranger. Greg havia nos avisado que a trilha NÃO estava em boas condições de manutenção, e ele estava certo; apesar de alguns momentos de “Onde está a marcação da trilha?”, conseguimos chegar na Pepeiao Cabin em exatamente 2 horas.

Início da trilha. Estacionamos o carro aqui enquanto fazíamos a caminhada.

Como dito por outros blogs que achei online, a cabana era “rústica”, com duas camas de campanha cobertas por uma fina prancha de madeira e um tecido cobrindo as molas. Também havia uma mesa para preparar comida, uma estante de livros com o caderno de visitas da cabana, um extintor de incêndio, alguns livros randômicos deixados por visitantes anteriores, um chapéu e uma vassoura. A cabana tinha 5 janelas de vidro sem tela, sendo que 4 delas ainda abriam bem, além de uma porta de madeira que fechava direitinho. Apesar das janelas e porta funcionais, os infinitos buracos no telhado e nas paredes da cabana tornavam praticamente impossível que se impedisse que insetos e roedores entrassem na cabana. Depois de abrir a janela para arejar, nós varremos o chão, limpamos e rearranjamos as camas de campanha, de modo que nossa barraca pudesse caber dentro da cabana, caso ninguém mais aparecesse até o fim do dia. Fomos então explorar a área, achamos os (aparentemente) novos vasos sanitários de compostagem, e comemos boa parte dos muitos quilos de lichia que nos foi dado pelos Hamiltons.

Assim que a noite chegou, estava claro que ninguém apareceria por ali mais, então nós montamos nossa barraca REI 2 Man Dome dentro da cabana, o que ajudaria na proteção caso chovesse, já que os buracos do teto de metal com certeza não protegeriam. Usamos um pequeno fogão de propano para ferver água e dividir uma refeição desidratada da Blue Mountain de strogonof de carne, e comemos mais lichia de sobremesa. No geral, a noite na cabana foi um pouco fria, apesar de ser maio (primavera), e nenhum grande problema apareceu durante a noite.

PRÓS DE PEPEIAO

  • Um tanque de 10.000 galões de água coletada da chuva, que estava bem cheio;
  • 2 horas de caminhada relativamente fácil;
  • Ponto de acampamento escondido, sem ninguém ao redor;
  • Ter uma cabana para montar a barraca dentro da mesma (caso ninguém aparecesse);
  • Novos vasos sanitários de compostagem.

Cabana Pepeiao.

CONTRAS DE PEPEIAO

  • A água do galão de coleta da chuva tinha um cheiro péssimo, de esgoto, mas era potável;
  •  A torneira estava entupida, porque tinha muita terra dentro do encanamento, o que, de acordo com o ranger Greg, explicava porque apenas um filete de água saia;
  • Toneladas de formigas-fogo por todos os lados ao redor da cabana, algumas dentro da cabana, e elas começavam a subir em qualquer coisa que aparecesse por ali;
  • Vimos UM camundongo que não deu problema durante a noite.

Banheiro de compostagem na Cabana Pepeiao.

Sistema de coleta de água da chuva na Cabana Pepeiao.

Tanque de coleta de água.

Cama de campanha da Cabana Pepeiao.

Estante de livros com coisas randômicas dentro da cabana.

 

 

Vista lateral da janela da Cabana Pepeiao com os diversos buracos no teto de zinco.

Muitas ohias ao redor da cabana.

Dia 2 – Da Pepeiao Cabin até Ka’aha (9,7 km)

Cabana Pepeiao está em algum lugar no topo desta imagem para o lado direito. A trilha desce por este caminho da lava. A vista do mar acompanha esta trilha pela costa até Ka’aha.

De acordo com o site do Parque Nacional dos Vulcões, a caminhada da Pepeiao Cabin até Ka’aha, chamada trilha de Ka’aha, é de 9,7km, em descida de 512m de altitude, com estimativa de 3 horas para ser feita. Nós começamos a caminhada às 9:00 depois de dar acordarmos com calma, limparmos tudo e dar uma espiada nos arredores da cabana. Descendo pelo lado sul do Hilina Pali na direção do oceano, a vista é muito bonita. De novo, a trilha per se é sem muitos atrativos além da chavão busca pela sua marcação. Chegamos mais ou menos às 10:00 da manhã perto da costa, quando o calor extremo começou a incomodar, e nós dois nos sentimos gratos por estarmos com chapéus, camisetas de manga comprida e calça. Chegamos em Ka’aha em 2 horas e 45 minutos, menos que o tempo estimado, e de novo ficamos felizes de não encontrar ninguém no acampamento. Depois de almoçarmos, bebemos mais água e fomos explorar a costa numa caminhada curta de 10 minutos do abrigo de Ka’aha. Embora nós dois tivéssemos roupas de praia para Keahou, o fato de não haver fonte de água doce ali e os muitos quilômetros de trilha que separavam a gente da água doce no abrigo fez com que decidimos não nadar em Ka’aha. Durante a caminhada pela costa, nós vimos muitos peixes nas piscininhas, além de lixo marinho acima da marca da maré, e curtimos o visual daquela costa.

Vista da Trilha de Ka’aha nesta direção à medida que descemos da Cabana Pepeiao em direção à costa.

Um dos melhores ahu que encontramos pelo caminho.

Como é a maior parte da trilha de Ka’aha.

Fomos recebidos por um arco de lava na costa onde a trilha começa a rumar para a costa de Ka’aha.

Muito lixo de deriva na praia de Ka’aha.

A areia preta na prainha em Ka’aha.

Olhando para trás de Ka’aha, a partir da prainha.

Depois de explorarmos a praia, fomos verificar as possibilidades de banheiro do abrigo: o mais próximo (e mais antigo) não tinha porta, o que o tornava inutilizável. O segundo era depois de uma escadaria e parecia relativamente novo. Infelizmente, não havia nenhum tipo de material absorvente de cheiro nos banheiros, exceto um bizarro saco plástico lotade de tampões. O abrigo de Ka’aha também parecia novo, com varios pregos para pendurar coisas para secar, uma mesa para cozinhar no canto direito, e uma caixa com o caderno de visitas do acampamento.

Abrigo de Ka’aha só com nossa barraca já que ninguém mais apareceu para acampar ali.

Tanque de coleta de água no abrigo de Ka’aha.

Banheiro antigo de compostagem sem porta.

O novo banheiro de compostagem, muito melhor.

Esperamos até de tardinha antes de montarmos nossa barraca no abrigo, sem necessidade de ajeitar o abrigo de chuva, já que ninguém mais apareceu no acampamento. Já estávamos a 24h sem ver ninguém, e um dos motivos pelo qual decidimos fazer esta caminhada na área remota do Parque dos Vulcões, e felizmente nenhum dos abrigos tinha outra pessoa. Nosso segundo jantar foi outra refeição desidratada Blue Mountain de macarrão apimentado, e sobremesa foram balas. Embora eu esperasse tirar algumas fotos em longa exposição das estrelas ao longo da costa, a noite ficou nublada e não deu pra ver as estrelas. Assim que o sol se pôs, o que era até então um agradável dia de caminhada para a gente se tornou um pesadelo para Maxine, pois inúmeras baratas começaram a aparecer pelos buracos da parede do abrigo e ao redor da nossa barraca. Eu não sabia que Maxine tinha fobia de baratas, e a quantidade gigantesca delas ali estragaram a noite em Ka’aha. Para mim, eu dormi tranquilamente como sempre faço em viagens de acampamento.

PRÓS DO ABRIGO DE KA’AHA

  • Um tanque de 10.000 galões de água coletada da chuva, relativamente novo, e sem cheiro ruim, assim como uma torneira desentupida;
  • Abrigo e banheiro relativamente novos;
  • De acordo com o caderno de visitas, um excelente ponto de pesca na praia da Pedra Preta logo em frente do abrigo.

CONTRAS DO ABRIGO DE KA’AHA

  • Nenhum material para absorver o cheiro no banheiro;
  • Banheiro antigo sem porta;
  • Toneladas de baratas no abrigo.

Vista da trilha de Ka’aha perto da costa.

MUITAS conchas de opihi [um gastrópode havaiano] perto da área de acampamento. Razão provável para a imensa quantidade de baratas ali.

Vista do abrigo de Ka’aha na direção de Halape ao amanhecer.

O Dilema & A Caminhada de Volta ao Hilina Pali

Baseado na autorização de trilha que comprei, naquele momento nós precisávamos caminhar 12,4 km até Kaehou para as próximas duas noites de acampamento. Depois de muita discussão sobre a quantidade de insetos nos dois acampamentos por onde passamos e sobre a subida de 15,6 km de Keahou de volta ao nosso carro no Hilina Pali, decidimos voltar pelo caminho que já tínhamos percorrido até o carro. Chegamos à conclusão que uma próxima viagem para Halape/Keahou seria mais indicada no futuro, quando o sistema de coleta de água de Halape estivesse instalado e funcionando.

Embora a gente tenha planejado subir de volta pela encosta do Hilina Pali, não imaginávamos o quão difícil seria…

Baseado em nosso mapa, o caminho de volta de Ka’aha até o carro no Hilina Pali seria de 6,1 km subindo do nível do mar até 690 metros de altitude, levando aproximadamente 2 horas (de acordo com o mapa de descida). Sinceramente, esta subida nos massacrou. Não sei se foi a falta de resistência física, ou as nossas mochilas pesadas ainda cheias de comida para mais duas noites, as diversas vezes em que perdemos a marcação da trilha, ou a subida tão íngreme. No final, levamos 2h e 25 minutos para subir de volta até o cume do Hilina Pali. A trilha foi marcada pela falta de marcações da costa até a base do Hilina, e de lá seguimos as indicações para o cume. Nós nos perdemos na subida e terminamos passando uns bons 10 minutos escalando o morro, numa situação nada ideal, mas no final conseguimos reencontrar a trilha, felizmente. Também encontramos os primeiros andarilhos enquanto subíamos, um casal que nos informou que faltavam cerca de 2/3 do nosso caminho pra cima (nós pensávamos que estávamos mais alto?!?!). O único problema na subida foi uma cãibra na coxa esquerda que me deixou mancando. No geral, uma subida extremamente extenuante que nos deixou super-aliviados ao chegarmos ao topo, no ponto cênico do Hilina Pali, onde pudemos finalmente tirar nossas mochilas das costas, beber mais água que estava no carro e relaxar.

De alguma forma andamos todo o terreno mostrado nesta foto, do distante final do Hilina Pali até a parte debaixo da Cabana Pepeiao, pela costa de Ka’aha no canto esquerdo, e subindo de novo pelo Hilina Pali.

Trilha de Ka’aha vista da Pepeiao Cabin à distância.

A marcação da trilha está escondida em algum lugar desta foto…

Subida brutal.

Olha a inclinação…

Olhando do ponto cênico do Hilina Pali para o que agora sabemos ser Ka’aha à distância. É incrível que daqui a gente não consegue ver nada do enorme platô de lava que percorremos nestes dias.

Foto de fim de trilha depois de termos sobrevivido à subida brutal da encosta do Hilina Pali.