Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Numa demonstração clara de que a UNEP, o braço da ambiental da ONU que organiza as celebrações da data, está extremamente antenada com as necessidades atuais de conservação, o tema deste ano para celebrar a data é “Conectando pessoas à natureza”.

2017 é também o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento.

E que melhor forma de conectar (ou reconectar) as pessoas à natureza que o turismo sustentável?

Embora eu tenha um pé atrás com o termo “sustentável” – porque as definições costumam ser beeeeem elásticas e a gente começa a notar pinceladas de “sustentabilidade” que na realidade são apenas o bom e velho greenwashing -, achei extremamente fortuita a conjunção destes dois temas para este ano. Sabemos que alguns dos desafios mais complexos do turismo passam exatamente pela conservação e proteção do meio ambiente, e contemplar esta realidade, fazer reflexões necessárias sobre esta conjunção, são passos positivos na solução dos problemas existentes.

Turismo sustentável não é só ecoturismo

Turismo sustentável é mais do que só apreciar a natureza de longe, como entidade abstrata externa à gente. É entender que cada uma destas pessoas é parte da natureza também – e sua visita precisa ser gerenciada de maneira sustentável em todos os aspectos.

Conservação e proteção da natureza vão muito além de criar parques nacionais ou fazer trilhas no meio do nada para ver um bicho/planta específica. Estas ações são muito importantes, partes de uma estratégia de conservação ambiental robusta e de real impacto no futuro do nosso ambiente. Mas estão longe de serem as únicas atitudes representativas de uma política de conservação atual.

Esquema ótimo retirado deste artigo.

Portanto, que fique claro: turismo sustentável não é só sinônimo de “ecoturismo” ou “turismo de natureza – precisamos desmantelar de uma vez por todas esta ideia estreita e antiquada. Turismo sustentável também não é só turismo verde, de economizar água e reusar toalhas – é isso também e mais um pouco. Turismo sustentável engloba turismo responsável, com ética e ecoconsciente, que pensa no recurso natural e humano, na responsabilidade social, cultural, política e econômica, na saúde de cada peça que o faz mover, na saúde do destino e do planeta, como o esqueminha acima demonstra claramente.

O ambiente nosso de cada destino escolhei hoje

Limites são fundamentais. A placa estava próxima ao lago de Tenno, na Itália, e diz: “Reserva de pesca. Pesca só com permissão, adquirida no Hotel Stella Alpina. Proibido pescar às sextas-feiras.”

Sabemos que numa visão mais abrangente, proteger o ambiente passa obrigatoriamente pelas atitudes que tomamos todos os dias a todo momento. Nossas escolhas de vida ajudam (ou não) a proteger o meio ambiente, seja em casa ou na China. Todas estas facetas entram nas nossas escolhas turísticas, consciente ou inconscientemente. As escolhas de vida que tomamos não se restringem à nossa casa e nossa rotina. Elas se estendem quando viajamos, quando saímos da rotina. Servem tanto quando estamos na China quanto quando acampamos em Ibitipoca.

São escolhas que diminuem a poluição, atmosférica, aquática, sonora ou visual, das nossas cidades. Que entendem os limites do patrimônio natural e/ou histórico. Que respeitam as pessoas locais, que estão ali dividindo sabedoria sobre a rotina dos lugares turísticos, onde você, turista, está apenas de passagem. Escolhas que levam em conta a realidade das mudanças climáticas. Escolhas que trazem melhorias e impactos positivos tanto para o turista quanto para a comunidade local – seja esta comunidade de pessoas, animais, plantas, ecossistemas e por aí vai.

Turismo sustentável é feito quando decidimos ir a Veneza ou a Nova Iorque, quando escolhemos uma companhia aérea, um hotel ou um passeio, quando alugamos um carro ou usamos um shuttle. Até quando desistimos de um destino, estamos fazendo uma escolha. Em absolutamente todos os aspectos de escolha de uma viagem, pode-se incorporar atos de sustentabilidade que ajudem de alguma forma na proteção do ambiente, da saúde dos ecossistemas à qualidade de vida das pessoas.

A multidão que se agrega todos os dias para ver o nascer do sol em Angkor Wat, no Camboja, já passou de qualquer limite de sustentabilidade ao patrimônio histórico.

A gente não viaja no vácuo

A gente viaja para relaxar. Ou para fazer negócios. Ou para competir num esporte. Ou para visitar amigos e parentes. Ou para experimentar sabores novos. Ou para realizar um sonho. Ou para se auto-conhecer mais. Ou para andar a esmo, sem hora marcada pra nada.

A gente viaja. Ponto.

Mas, uma coisa é certa: independente da razão que nos leva a viajar, a gente não viaja no vácuo. 

A gente viaja para um lugar do planeta que tem uma política, economia, sociedade e cultura. Que está inserido num contexto local e global. Que tem um ambiente. A gente viaja e faz escolhas para este ambiente.

Parece óbvio, mas entender as consequências desta inserção para o destino não são tão claras.

Para um destino turístico ser ambientalmente sustentável é preciso vê-lo como multifacetado, passando pelo entendimento, pelo menos parcial, dos mesmos aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais aos quais está inserido, local e globalmente, pela ética e responsabilidade de cada um dos elos que formam a corrente do turismo. Mais: sustentabilidade turística é temporal – um local pode estar viável no momento e não o ser no futuro, como é o caso de Miami que, apesar de estar fadada a afundar com o aumento do nível do mar, continua construindo prédios e hotéis à beira-mar, inserida que está num boom do turismo atualmente.

Como regra geral, toda vez que viajamos, independente da razão de nossa viagem, geramos um impacto. A resposta de cada destino para minimizar este impacto ou torná-lo positivo determina a sustentabilidade deste local como destino turístico.

Só que o turismo cresceu tanto nos últimos 10 anos, tantos pontos inacessíveis do globo se tornaram agora visitáveis por razões políticas, econômicas, sociais ou culturais, que este impacto tem sido cada vez mais claramente difícil de ser gerenciado de maneira apropriada – quiçá positiva. É cada vez mais claro que nossas escolhas turísticas muitas vezes comprometem a sustentabilidade do destino, e pedem limitações. Achar o meio-termo entre turistar e limitar é uma tarefa difícil, e destinos famosos como Veneza, Amsterdam e Barcelona vêm se desdobrando para enfrentar este meio-termo de maneira urgente, dada a situação que já beira o caos, com clara insatisfação da comunidade local.

Mas estas cidades não estão sozinhas e é muito fácil perceber este fenômeno. Multiplicam-se listasartigos, filmes e reportagens de lugares que não querem mais receber turistas – destinos exaustos, onde o turismo passou de benesse a maldição, onde as comunidades locais mais se estressam que se beneficiam desta atividade econômica. E é difícil achar uma solução para o excesso de turismo (“overtourism” em inglês), pois se por um lado viajar expande horizontes e traz benefícios concretos individuais e coletivos às pessoas e ao modo de agir delas, regras para colocar limites a esta atividade costumam soar elitistas e arrogantes – uma concepção errada, mas infelizmente a percepção ainda é essa.

Temos também o caso de destinos cuja economia é extremamente dependente do turismo, como o Camboja  (16% do PIB, de acordo com dados de 2006), mas cujo gerenciamento ainda é capenga (principalmente no nível de governo) e cujos benefícios não são compartilhados equitativamente com os moradores locais – existe o turismo, mas ele está longe de ser sustentável. Ou ainda o caso controverso do AirBnb, que muita gente não considera um problema de sustentabilidade, quando indiretamente é também: menos opções de moradia disponível para as pessoas locais e menos imposto de turismo arrecadado pode gerar dificuldade em implementar iniciativas ecoconscientes para todos da comunidade e que beneficiarão, no final das contas, o ambiente geral e a qualidade de vida. Falta responsabilidade social e accountability com a comunidade, também insustentável.

Praça de São Marcos, Veneza, no verão. É praticamente impossível não ter pelo menos duas dezenas de pessoas nas fotos – o local é dos mais visitados do planeta. (Só a Mari Campos consegue essa proeza…)

Ir ou não ir, eis a questão…

Eis aí um outro lado da moeda. Por que o lugar tem problemas de sustentabilidade… vamos deixar de ir? Para algumas pessoas, esta pode ser uma solução. Acho radical demais, entretanto. Repito: muitas vezes, a comunidade local não tem outra alternativa econômica, depende do lucro do turismo para seu desenvolvimento em áreas diversas, como saúde e educação – e sua decisão de não ir prejudicará muito mais que ajudará.

Alguns destinos impõem seu limite, e eles mesmos se fecham à visitação para evitar a degradação completa – ou enquanto uma estratégia de turismo sustentável ainda está no papel sendo discutida. É o caso de Koh Tachai, na Tailândia. Outros limitam o número de visitantes por dia, como é o caso de Hanauma Bay, no Havaí. Com isso, tanto o ecossistema respira quanto às pessoas ainda o visitam – mas de forma controlada.

Acho que a solução para melhorar a sustentabilidade dos destinos passa definitivamente por este caminho do meio, que requer muita conversa e negociação entre diversos membros do setor e a sociedade local. Passa também por uma análise específica pelos governos de cada destino que inclua o contexto político, econômico, social e cultural, para providenciarem soluções que acolham a comunidade local e não espantem de vez o turista. Mas, enquanto os governos não agem, o que podemos fazer?

Se o turista vai num lugar super-saturado e/ou mal-administrado e, ao invés de só reclamar, se esforça para fazer escolhas o mais ecoconscientes possíveis, talvez ele ajude a dar o exemplo, e aos poucos a própria comunidade local passe a incorporar opções de sustentabilidade, numa espiral pra cima. Por outro lado, se a comunidade local, apoiada ou não por seu governo, passa a oferecer opções ecoconscientes de turismo, o turista é positivamente educado a perceber o que e como se faz turismo voltado para a sustentabilidade. É o que já vem acontecendo por aí.

O turismo sustentável, a meu ver, precisa ser esse objetivo maior comum de turistas, moradores locais, governo e membros do trade. É o final de uma estrada. Mas, enquanto vamos dirigindo por esta rodovia, passamos por obstáculos e paisagens novas. A gente nem percebe, mas aos poucos, nessa estrada, vamos conectando as pessoas, turistas e moradores locais, ao seu ambiente.

Tudo de turismo sustentável sempre.

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  • Há diversos guias online práticos para quem quer ser mais ecoconsciente nas suas férias, que mostram desde hotéis mais verdes até como viajar light, sem despachar – o que influencia no gasto de combustível dos meios de transporte, by the way. Eu em geral não me contento só com estes guias, e me informo no grande oráculo quais os problemas que o turismo traz à comunidade local que visitarei (“problemas + turismo + lugar”). O conceito de comunidade aqui é largo, vai desde pessoas até ecossistemas inteiros. Em geral, os artigos que aparecem já geram ótimos insights sobre as políticas ambientais do lugar, sobre como o dinheiro do turismo flui e sobre como as pessoas locais estão se beneficiando com o turismo – sobre a sustentabilidade da atividade, afinal. De posse destes insights e informações, as escolhas ecoconscientes de viagem já se tornam bem mais fáceis de serem feitas. É um bom começo.

 

  • Este post surgiu da experiência com minha própria empresa de turismo. Achava que meus objetivos iniciais eram simples – tornar a viagem ao Havaí o mais sustentável possível. Mas não demorou muito para que eu percebesse que o conceito de “o mais sustentável possível” não era claro. “Turismo sustentável = ecoturismo ou turismo de natureza” ainda era a equação predominante. Ou seja, o buraco era bem mais embaixo. Felizmente percebo que aos poucos esta interpretação quebrada vai desaparecendo e o real conceito amplo de turismo sustentável vai se estabelecendo. Quero acreditar que esta educação ambiental trará boas novas reflexões e inovações turísticas pro futuro… 🙂

 

  • Lu, que texto maravilhoso, útil, necessário e oportuno!
    Minha tristeza é perceber que os seres humanos só se preocupam com seus próprios umbigos. Lucro para uns e prazer e conforto para outros parece ser mais importante que a preservação dos locais turísticos.
    Tomara que mais pessoas se conscientizem de que as mudanças são necessárias.
    beijo, menina

    • Mudanças são mais que necessárias nesse momento do planeta, né? Tempos de 409ppm de CO2… não é pra brincar mesmo. Tem muita coisa em jogo. :/
      Bjs, Dê!