O preço do turismo sustentável

É fácil e bonito a gente falar em turismo sustentável, em escolhas ambientalmente corretas e eticamente responsáveis, em ecoconsciência e afins, e não incluir a variável que mais pesa para 99,99% das pessoas na decisão de uma viagem: o custo. Em condições ideais de temperatura e pressão no vácuo, tudo funciona como calculamos na teoria e viajaríamos de maneira 100% ambientalmente, socialmente e politicamente correta. Só que sabemos, na prática, não é bem assim.

Na prática, ainda é o preço que define a maior parte das escolhas. Infelizmente, escolher um passeio ou um hotel sustentável ainda costuma ser mais caro, muitas vezes considerado até um luxo, algo que poucos podem pagar – e cria-se um status de exclusivismo ambiental entre os que podem ser “verdes” e os que não podem. Turismo gerando desigualdade, na prática.

E em tempos de crise e stress em diversos pontos do planeta, é ainda mais triste perceber que esta desigualdade fica mais difícil de ser combatida. É quando a opção massificada, mais barata e comumente menos ecoconsciente, se torna mais atrativa. Afinal, com todo estresse que uma crise traz, aí que a gente precisa mesmo daquelas férias pra relaxar, seja lá onde for. O crivo cai. É também quando o destino massificado, exaurido, começa a impor limites de visitantes, o que invariavelmente aumenta seu preço e valor, favorecendo quem pode pagar mais, aumentando a desigualdade.

Vejo duas soluções possíveis neste cenário: abaixar os preços das opções que prezam pela sustentabilidade, ou “esverdear” as opções massificadas. Minha opinião de economista de botequim é de que ambas são duas faces da mesma moeda e precisam acontecer em paralelo.

Num primeiro momento, seria essencial que uma opção sustentável fosse incentivada a ser mais barata – por meio de subsídios, deduções de imposto, redução de custos para produtos locais e advindos (ou utilizadores) de recursos sustentáveis, etc. Mecanismos de micro e macroeconomia que dessem o pontapé inicial em uma espiral para cima: quanto mais barata a opção sustentável, maior demanda, e mais incentivo para que fique mais barata, sucessivamente. Esta ideia está no centro da proliferação dos tours de bike nas cidades, por exemplo, que trazem sustentabilidade a um preço bem mais camarada pro turista.

Em paralelo, opções que hoje são consideradas massificadas poderiam receber outros tipos de mecanismos de incentivo para se tornarem mais verdes e socialmente justas. Por exemplo, um destino massificado cujo benefício financeiro é alto em detrimento à saúde e satisfação da população local, pode impôr restrições à entrada do turista de maneira transparente, que não envolva o clássico elitismo do “vai quem paga mais” – por exemplo, o  estado do Arizona tem uma loteria cheia de regras e com 4 meses obrigatórios de antecedência para escolher todo dia os 10 sortudos que visitarão a famosa formação geológica The Wave. requer um pouco mais de trabalho, mas é sem dúvida mais socialmente justa.

Um ponto chave, entretanto, nas duas soluções que sugeri é a fiscalização eficiente. As operadoras, hotéis, lojas e comércios que lidam com turismo precisam ser avaliadas constantemente em sua sustentabilidade. Este talvez seja um ponto nevrálgico da questão. Há atualmente certificados de sustentabilidade no turismo distribuídos por inúmeras ONGs, instituições e governos. O fato destes sistemas não serem unificados dificulta a vida do consumidor, criando mais confusão para se entender o quão verde é mesmo aquele passeio ou estadia. Neste ínterim, a criação em 2007 do Global Sustainable Tourism Council, com participação da UNEP e da UNWTO, estabeleceu critérios mais claros para a definição e avaliação do que é sustentável. O que falta ainda é uma ferramenta de busca de destinos, operadoras, hotéis e outros membros do turismo, que facilite ao consumidor verificar a certificação de sustentabilidade da opção escolhida.

Mas avaliar os prós e contras das nossas escolhas em um destino para a saúde do ambiente e para a qualidade de vida da comunidade local é tarefa árdua, laborosa, muitas vezes cansativa. Uma outra forma de ~fiscalização~ não tão oficial mas de impacto significativo é exercida pela mídia. Jornalistas e blogueiros de viagem, ao divulgarem um destino em qualquer dos seus aspectos, deveriam levar em consideração com muito carinho sua sustentabilidade e o preço que se paga para isso. Afinal, os posts em blogs de viagem, as reportagens, os diversos recantos da web são hoje em dia cada vez mais porta de entrada para o planejamento de uma viagem. Ser crítico mesmo, avaliando pontos positivos e negativos, pondo na balança as diferentes possibilidades e servindo de filtro que separa o joio do trigo sustentável. Isto gera uma responsabilidade intrínseca sobre o que escrevemos, algo que termina sendo valioso para o turista que planeja sua viagem (e não tem tempo para fazer as avaliações profundas de um destino de que falei no post anterior). Ele pode economizar tempo e dinheiro, se ler uma avaliação clara, calcada nos pontos mais importantes de sustentabilidade. Façam, portanto, bom uso desta opção econômica virtual. 😉

Tudo de bom sempre.

  • Virginia Lucia

    Lúcia, você agora falou diretamente comigo. Eu sempre gostaria de escolher destinos, passeios, hotéis sustentáveis, com o mínimo impacto para o meio ambiente, mas esbarro no $$. E não só no turismo, adoraria me alimentar utilizando apenas alimentos orgânicos, mas… Em Londres, perto do apart onde me hospedei, tinha um mercadinho de orgânicos, comprei bastante lá, mas bem carinho. Suas sugestões são ótimas. Poxa, mais jornalistas e blogueiros têm que fazer esse tipo de colocação. Quem sabe assim, daqui a alguns anos, consigamos? Beijos!

    • Eu acho que é fundamental, Virginia, envolver quem “vende” o turismo nessa empreitada. Os blogueiros deveriam prestar mais atenção ao referir um lugar para o custo ambiental, fazer uma balança entre sustentabilidade e preço. Pelo menos analisar. Raramente vejo isso em blogs ou artigos de revista. Gostaria definitivamente de ver mais. Aloha! 🙂