Hoje é Dia Mundial dos Oceanos, uma data que celebro desde os tempos jurássicos deste blog. Celebro porque o mar é parte de mim profunda, o lugar que me dá tranquilidade e vontade de viver, que me dá esperança para continuar a caminhada.

O tema deste ano é “Nossos oceanos, nosso futuro”, bem alinhado com o tema do dia mundial do meio ambiente de 2017, unificando ainda mais a mensagem da nossa conexão humana com o ecossistema azul.

Costumo dedicar parte significativa deste blog aos meus pitacos sobre a situação dos oceanos, em vários recantos do planeta. De um modo geral, há muitos motivos para se preocupar: o mar está sendo explorado, aquecido e poluído num ritmo acelerado demais para que possamos fazer algo.

Mas, como hoje é uma data ~celebratória~, queria aproveitar para semear um pouco de esperança. E falar dos hope spots.

O projeto de Hope Spots – os pontos de esperança – é uma iniciativa da ONG Mission Blue, capitaneada por ninguém menos que Her Deepness Sylvia Earle. Em 2009, em sua clássica palestra para o TED, ela sugeriu a iniciativa de se proteger áreas do oceano que precisam ser preservadas para que consigamos manter um mínimo de saúde para o ecossistema marinho. Locais que dariam/darão esperança para o mar e seu valor às próximas gerações. Basicamente, os pontos nevrálgicos do mar. O critério para ser um hope spot não é único; pode ser um local onde a biodiversidade é alta (como os recifes de corais), ou que sejam berçários de espécies ou corredores migratórios, ou que tenham o potencial para reverter impacto humano negativo (como os estuários), ou ainda que seja habitat de alguma espécie criticamente ameaçada de extinção ou importantes para uma comunidade humana.

Hope spots pelo mundo, em azul; os pontos em amarelo estão sendo avaliados para se tornarem (ou não) hope spots. Mapa tirado do site do Mission Blue.

Dado que menos de 4% do oceano conta com algum tipo de política de preservação/conservação ambiental, é mais que urgente que aumentemos esta porcentagem se quisermos levar a sério a manutenção dos mares. Os pontos de esperança são, portanto, uma forma de mapear prioridades, focar nas áreas mais críticas e necessárias de serem preservadas que ainda não o são (ou que precisam de mais proteção do que têm agora). É uma forma de apontar o dedo mundialmente para aquele ponto e dizer: precisamos fazer algo para conservar este pedaço azul do mundo.

Para que um ponto do oceano seja considerado como um hope spot, basta ser sugerido com uma argumentação plausível do por quê daquele ponto precisar ser preservado – a justificativa. Após a nomeação, o local é avaliado por um conselho de experts do mundo inteiro especialistas em diversos aspectos do ecossistema marinho e seu gerenciamento. Se o conselho acha plausível a sugestão, o local passa a ser um ponto de esperança. Com isso, a ONG divulga mais a importância daquele local e ajuda a focar nele para desenvolver políticas e regulamentações – ou quem sabe até transformá-lo num parque marinho…

Parede de peixes em Palau, na Micronésia, um dos hope spots.

Desde que ouvi falar nos hope spots, eu curti a ideia. Principalmente porque sendo o mar uma vastidão considerável, é difícil estabelecer prioridades. Tudo parece ser prioritário. A concepção do hope spot ajuda exatamente a focar os esforços de proteção nos pontos, dentre os milhares possíveis, considerados mais prioritários, baseado no quão crucial aquele ponto é para um pedaço maior do oceano, ou para uma população, ele merece ter seu território protegido, nem que seja parcialmente. E principalmente, o quanto ele traz esperança de ser recuperado para as gerações futuras.

E claro, isso não significa que outras áreas oceânicas importantes possam ser ignoradas. Pelo contrário, nada impede que uma área de preservação nova seja discutida por um país ou organização sem necessariamente ser um hope spot. A vantagem da designação, entretanto, é que ela já traz consigo toda a argumentação ecológica, social ou biológica para facilitar e até acelerar o estabelecimento da reserva marinha.

Abrolhos, único ponto de esperança no Brasil.

No Brasil, há apenas um hope spot, o parque de Abrolhos. Que já é um parque, mas que pelo visto, precisa de que mais seja feito para sua real conservação futura. Percebam que Fernando de Noronha não está lá na lista – talvez por falta de nomeação, talvez porque já seja um parque bem gerenciado (embora saibamos de problemas notórios).

Há uma esperança adicional que estes hope spots trazem: que aos poucos formemos uma rede de parques, que ao final das contas preserve uma porcentagem bem maior do mar – fala-se em 30% da área marinha idealmente transformada em área de preservação. Temos muita água pela frente ainda pra chegar nestes 30% – mas ter esperança não custa nada. E é isso que os hope spots trazem para os nossos oceanos: esperança.

Tudo de mar sempre.

*********************

P.S.: O filme do “Mission Blue” tem no netflix. Altamente recomendado. 🙂