Onde mora o arco-íris?

Este era o título de um livro infantil da Giselda Laporta Nicolelis, que eu lia praticamente toda semana no auge dos meus 6 anos de idade. Adorava. E o que eu mais curtia no livro era o título mesmo, meio que um convite à imaginação. Afinal, o arco-íris precisava morar em um lugar, com seu pote de ouro no final. Eu viajava nesta ~questão~ de suma importância da minha infância colorida.

Mas aí a gente cresce e aprende que o arco-íris nada mais é que um fenômeno óptico de refração da luz do sol nas gotas de chuva da atmosfera como se fosse um prisma, que se “decompõe” nas sete cores que vemos, com seus respectivos comprimentos de onda. Física atmosférica, pura e simples.

arco-íris

Baixo no horizonte, sinal de sol mais alto. Esse aí, fotografado no North Shore de Oahu.

Só que, como a Física nos explica, não é qualquer chuva, nem qualquer iluminação solar que consegue produzir um arco-íris. Vê-lo no céu depende de:

  • a) Posição do sol: O seu olho de observador deve estar num ângulo de 42º do sol e sua sombra para ver o arco-íris. Baseado neste valor de ângulo, quando o sol está mais perto do horizonte, mais “alto” estará o arco formado, e quanto mais longe do horizonte o sol está, mais “baixo” será o arco (ao meio-dia, teoricamente, o arco-íris estará voltado para o chão).
  • b) Qualidade do ar: Quanto mais limpo o ar, ou seja menos poluição, menos interferência na trajetória da luz do sol, o que permitirá melhor refração – o arco-íris será mais intenso. O ar limpo das regiões costeiras é o mais indicado.
  • c) Tipo de chuva: Quanto mais isolada é a chuva, abaixo das nuvens mais densas e estando na trajetória da luz solar, mais fácil de se formar o arco-íris no céu.

E é aí que entra o Havaí nesta história.

arco-íris

Na Na Pali Coast ao entardecer, o espetáculo das sete cores.

Considerado a capital mundial do arco-íris, o Havaí tem as melhores condições atmosféricas do mundo para a formação dos mesmos. O ar é limpo e oceânico, com pouca poluição, e é super-comum cair uma chuva fininha nas áreas de montanha das ilhas, enquanto o litoral está ensolarado. Inclusive, com facilidade para ver arcos duplos, espelho que são do principal quando as condições atmosféricas estão excepcionais para tal. Cientistas especialistas em arco-íris (!!!) vêm para cá tentar entender e estudar mais detalhadamente o fenômeno.

Ver um arco-íris é tão comum no Havaí que há dezenas de palavras na língua havaiana para designar este fenômeno físico, dependendo de condições especiais – ānuenue é o arco-íris “chavão” completo no céu, ‘ōnohi é quando só um pedaço do arco aparece, punakea é quando o arco-íris está bem clarinho, e assim vai. Lembra a história das dezenas de palavras que os esquimós têm para neve? É a mesma ideia.

No vale de Manoa, costumam aparecer alguns arco-íris épicos: duplos e super-intensos.

No dia-a-dia no Havaí, também somos constantemente lembrados da frequência dos arco-íris: ele está na placa dos carros e no nome do time oficial de futebol americano (“Rainbow Warriors”) e de vôlei feminino (“Rainbow Wahine”).

Para o turista que visita o estado, é fácil ver um arco-íris durante sua estadia – basta procurar no horário e lugar certo. E para ajudar a achar, há um app, o Rainbow App, onde estão marcados os rainbow stops, com os lugares e horários mais prováveis de arco-íris naquele dia… (Mas não adianta ficar lá esperando se as condições não estiverem propícias, né?)

Rainbow stops; mapa tirado daqui.

Mas já adianto: nos meses em que chove mais (fevereiro e março), praticamente todo dia tem um no céu, principalmente de manhã cedo e à tardinha.  Sabe aquele dito popular/ pseudo-auto-ajuda que fala: “No rain no rainbow”? Morando no Havaí, literalmente é assim: mal começa a choviscar e eu já começo a olhar pro céu atrás das sete cores. (E se olhar pros vales das montanhas então… quase certo ter um lá te esperando.) Cada um mais lindo que o outro, épicos.

O que volta à questão da minha infância. Concluo que, se o arco-íris não mora definitivamente no Havaí, é com certeza um visitante frequente e ilustre. E que portanto o pote de ouro dos sonhos de felicidade deve ficar em algum canto deste estado. 😉

Tudo de bom sempre.

***********************

Para viajar mais:

  • Junho é o mês do orgulho LGBTQ, cujo símbolo é o arco-íris. Nos EUA, felizmente o Havaí é considerado um estado bem gay-friendly. Será que a inspiração constante no céu ajuda? 😉
  • Sempre bom lembrar da música que é a cara do Havaí: “Somewhere over the rainbow”, cantada pelo inesquecível Israel Kamakawiwo’ole.

Postado em 13/06/2017 por em Ciência, Havaí
  • Daniella Maria

    Que post mais interessante, Lucia! Cientistas especializados em arco-iris gotta love their job!