Estamos na Museum Week, a Semana dos Museus, e para celebrar resolvi contar aqui um segredinho super-mal-guardado que tenho: o meu pequeno museu favorito do mundo. Que é o Bauhaus-Archiv Museum of Design. <3

Bauhaus Archiv

(Parênteses: Essa coisa de museu favorito é um pouco injusta, né? Porque é claro que o D’Orsay, o MoMa, o Tate, o Pergamon e afins são über-ultra-super-sensacionais, completos, e a maioria das pessoas vai terminar escolhendo um deles para ser seu favorito. Mas aí esquecem dos milhares de pequenos e médios museus, bem mais focados e de ambição mais modesta, que pincelam e celebram aspectos específicos da nossa vida. Não dá para comparar um museuzão de tudo com um pequeno museu aconchegante. A proposta é muito oposta. Então com este post queria também deixar registrado meu viva aos pequenos museus e galerias tão igualmente importantes que nos dão momentos singelos pelas esquinas do mundo. Fim do parênteses.

Quando morei próxima a Berlin, em 1997, um dos meus pontos prediletos de descanso e contemplação era no jardim próximo ao Bauhaus Archiv – e ficava olhando sua torre colorida e suspirando. Na época, xóvem ainda, eu me achava “a” intelectualóide pretensiosa da arte moderna e queria engolir e digerir tudo que a escola da Bauhaus trouxe ao mundo. Li livros e mais um monte de artigos, devorava filmes do tema e conversava muito com meus amigos da arquitetura, viajando na maionese sobre a Escola Bauhaus. (Sim, eu gostava do Bandeira e da Bauhaus, e de Van Gogh mas nunca engoli os Mutantes e Rimbaud me cansava. #EduardoeMônicaFeelings)

A torre colorida. <3

Então quando me mudei para Berlim e entrei pela primeira vez no Bauhaus Archiv, era a realização de um sonho há muito cobiçado. Ver as obras de Kandinsky e Klee, que emoção. As cadeiras, gente! Tudo emocionante. Passei inúmeras tardes ali, absorvendo cada centímetro da modernidade inorgânica que ele exalava.

Mas aí a gente cresce e (dizem) amadurece – nem sempre um processo de ângulos agudos como as construções da Bauhaus. E a funcionalidade pregada pelo movimento parece que floresce cada vez mais. Já não sou mais a intelectualóide de outrora; hoje tenho absoluta certeza da minha profunda ignorância sobre os meandros da arte. Ainda aprecio muito tudo que envolve arte, mas seu valor subjetivo agora é o que prevalece, mais do que sua importância em contexto artístico, histórico ou whatever.

De modo que em 2013, quando voltei a Berlim, já num outro momento do meu ~relacionamento~ com a Bauhaus, fiz questão de me hospedar por alguns dias pelo menos num hotel próximo ao museu, o Berlin Berlin. E apreciar o máximo possível a torre colorida da Bauhaus. Claro, fui algumas vezes ao museu, rever aquele espaço que tanto me abrigou em tardes descontraídas do passado. Fiquei horas no café, sentada e lendo.

O famoso telhado, marca registrada do Bauhaus-Archiv de Gropius.

O Bauhaus Archiv continuava o mesmo, pequeno, lindo, colorido, inorgânico e inspirador. Cheio de obras imortais. Depois de caminhar por seus corredores, apreciar mais uma vez as peças e móveis tão “simples” e incríveis que influenciaram quase tudo que houve depois no design e na arquitetura, saí do Bauhaus-Archiv mais leve. Ele ainda era meu pequeno museu favorito – pela viagem de vida que me instigou.

Eu mudei. Mas a admiração pela arte moderna de linhas retas e simplificadas que este pequeno museu invocou em mim, felizmente, continua a mesma. A Bauhaus significou mais que um momento da minha vida; passou a ser o que provavelmente Walter Gropius, seu criador, almejava: a arte pela arte, abrangente, sem amarras, simples assim. O contexto mudou. Mas o Bauhaus-Archiv ainda está lá, num lugar aconchegante das vivências quentinhas ao meu coração. Pretendo voltar sempre.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • O museu no momento está aberto, mas em processo de renovação para as comemorações dos 100 anos da Bauhaus em 2019. Um novo prédio será acoplado ao antigo do Gropius. Já estou curiosa por antecipação!
  • O Bauhaus-Archiv fica aberto das 10:00 às 17:00 todos os dias, exceto às terças. Custa 8 euros para entrar. Não vá apenas para “ticá-lo” de sua lista – mergulhe nele. A visita bacana para quem não tem uma fixação emocional com o lugar, deve levar menos de 1 hora – nunca consigo ficar menos de 2 horas, entretanto. 😀
Postado em 21/06/2017 por em Alemanha, Europa