SapiensSão raras as vezes em que um livro não me anima. Afinal, sou da turma über-otimista que acredita que sempre existe algo novo a se aprender, mesmo nas mais toscas pataquadas. Mas, preciso dizer, “Sapiens – A Brief History of Humankind” (“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”) , de Yuval Noah Harari, bateu recordes: foram muitos parágrafos instigantes, tantos que fiquei impressionada. Não houve sequer uma página de leitura em que uma idéia ou reflexão não tenha me deixado meio introspectiva, inundada por ondas de serotonina ou dopamina. A toda hora, a sensação de insights ou conexões inusitadas (óbvias, mas até então não feitas) na história dão ao livro uma cadência rara de se ter hoje em dia.

O mais interessante de tudo: não é uma história desconhecida. Afinal, o que é contado neste livro sensacional é a nossa história, a história da humanidade, que aprendemos desde cedo em aulas de ciências, história e geografia. Num formato de saga, estando todos envolvidos de alguma forma em todos os capítulos desta história. No entanto, o constante questionamento da visão clássica debate com a pesquisa feita por Harari para o livro, e termina trazendo ideias inovadoras muito instigantes para a mesa deste debate humanitário. E preciso confessar: em tempos de hecatombe climática, hipotetizar que talvez sejamos as últimas gerações de Homo sapiens me deixou um pouco mais tranquila. #VaiEntender

O ritmo, entretanto, que Harari põe ao livro me deixou em certos momentos incomodada. Achei frenético demais, overwhelming, passando por diversos pontos de maneira bem en passant e enviezada para que consiga fazer seu argumento colar – e cola, não precisa de muito, ora pois. Mal você reflete sobre um parágrafo e já tem um outro parágrafo te puxando pela camisa e dizendo: “venha me decifrar também”. Uma hora, a brincadeira de esfinge começa a cansar o leitor, infelizmente.

Como bióloga, vi esta superficialidade em diversos momentos relacionados à genética ou bioquímica, um foco destorcido ou uma martelação exagerada de certas ideias sem a profundidade necessária e sem o devido cuidado. Entretanto, ao mesmo tempo que o ritmo frenético me deixou incomodada, admito que a aparente superficialidade que ele gera como necessária – afinal, só a tentativa de explicar e refletir “profundamente” em algumas centenas de páginas toda a história da humanidade, dos Neanderthais ao futuro robótico, passando por história das comunidades e conceito das religiões, dos impérios, da agricultura, da evolução, da felicidade e todos os meandros e filosofices que isso trouxe e traz, já é um desafio que poucos encarariam. Fico feliz que Harari tenha o feito e compartilhado com a gente este resumão complexo e fascinante… da história da gente.

E mais: que no caminho da construção deste resumão, como bom escritor, Harari deixou espaço para diversos questionamentos fundamentais sobre o nosso próprio viver, nossa espécie e os caminhos do futuro que vem aí. Este instigar constante foi definitivamente minha parte favorita da leitura.

É um livro para se ler com a mente o mais aberta possível, despida de qualquer pré-conceito, seja positivo ou negativo – porque a ideia é jogar as ideias ali, e te fazer repensar a existência completa da espécie humana sapiens. Por exemplo, muitas das resenhas que li sobre o livro refletem mais os pré-conceitos de quem as escreve do que as intenções de Harari – e este meu post não foge desta regra.

Mas, no mundo polarizado de hoje, este exercício intelectual de introspecção e auto-reflexão despreconceituada sobre nossa teia biológica, social, emocional e global se faz muito necessário, e eleva, em minha opinião, o livro à categoria de must-read para os membros desta espécie dominadora e cheia de contradições. Encare esta viagem humanística e niilista sem medo; o aprendizado vale a pena.

Tudo de bom sempre.