O que é o Havaí

Uma ilha no Pacífico.

Na semana passada, a população do estado do Havaí ficou em polvorosa, bastante ofendida com recentes frases toscas pronunciadas por aí. Então que os jornalistas Patrick Laforge e Christine Hauser, do NYTimes, resolveram investir em um artigo na sua seção de Travel que era um verdadeiro crash course sobre Havaí. Quem sabe agora os ~desavisados~ em DC entendem melhor, né não?

Achei o artigo engraçado e, ao mesmo tempo, muito útil, dadas algumas dúvidas normais que as pessoas têm e que recebo por email. Então decidi traduzi-lo e adaptá-lo livremente aqui no blog, usando o mesmo formato que o NYTimes utilizou e fazendo alguns comentários mallas para ajudar. Fica como registro, como se fosse um rápido FAQ sobre o Havaí para os incautos leitores mais curiosos. Vamos lá.

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PERGUNTAS FREQUENTES

É possível dirigir até o Havaí?

Não. O Havaí é um arquipélago no meio do oceano Pacífico (veja mapa abaixo; em azul o oceano). Há oito ilhas principais que compõem este arquipélago: Ilha do Havaí (ou Big Island), Maui, Oahu, Kauai, Molokai, Lanai, Kahoolawe e Niihau.

Já recebi esta pergunta sobre vir de carro pro Havaí em emails (repare o plural), então não custa ~esclarecer. É que a palavra “mapa” foi removida do dicionário de alguns Homo sapiens, gente, relevem… #RIPGeografia

Um arquipélago cercado pelo Oceano Pacífico por todos os lados.

O Havaí é um estado?

Sim. Foi um reino independente de economia mercantil com a Europa até a chegada do Capitão James Cook em 1778; foi anexado pelos Estados Unidos em 1898, depois de um golpe econômico liderado por estrangeiros (incluindo 162 marinheiros e vários comerciantes) que retirou do poder a Rainha Liliuokalani. O #ForaLiliuokalani foi notícia de primeira página nos jornais da época.

Primeira página do jornal local Honolulu Star-Bulletin no dia 21 de agosto de 1959.

A primeira tentativa legal de tornar o Havaí um estado americano foi introduzida para votação pelo Congresso em 1921 – e os representantes do legislativo insistiram na pauta todos os anos por mais 48 anos, até que em 21 de agosto de 1959 conseguiram finalmente que o Havaí se tornasse um estado dos EUA. O presidente da época era Eisenhower.

Alguém mora no Havaí?

Sim. Cerca de 1 milhão e 360 mil pessoas – mais que outros 10 estados americanos. O Havaí tem mais extensão territorial terrestre que o estado de Connecticut e, se incluirmos a área oceânica, é maior que Massachusetts ou Nova Jérsei – e vale lembrar que ainda cresce todos os dias em área terrestre. Em termos brasileiros, o Havaí é maior que o estado do Acre ou de Alagoas.

Honolulu – uma metrópole no meio do Pacífico.

Oahu é a ilha mais populosa, com mais de 953.000 pessoas, de acordo com o censo de 2010. Honolulu é a capital do estado do Havaí e fica nesta ilha.

O Havaí também é o estado mais diverso dos Estados Unidos. Mais de 60% da população é de ascendência asiática, sendo o maior grupo os filipino-americanos. Considero que o Havaí está para a Ásia assim como Miami está para a América Latina – são os EUA mais perto deles, por isso a predominância populacional.

Em 2010 (último censo), cerca de 350.000 moradores se classificaram como nativos do Havaí ou de outras ilhas do Pacífico, sendo que 20% deste grupo é capaz de rastrear sua ancestralidade até um membro da população original, pré-homem branco.

E alguma coisa importante já aconteceu no Havaí?

No dia 7 de dezembro de 1941, “um dia de infâmia marcado para sempre na história”, o presidente da época Franklin Roosevelt disse ao país: “Os EUA foram atacados de surpresa e deliberadamente por forças aéreas e navais do Império Japonês.”

Rascunho original do discurso de Roosevelt sobre 7 de dezembro de 1941, rabiscado pelo próprio. Em exposição no Parque Nacional Histórico de Pearl Harbor.

O ataque a Pearl Harbor em Oahu marcou a entrada dos EUA na 2a Guerra Mundial e levou à ascensão americana como superpotência por décadas. Portanto, sim, alguma coisa importante aconteceu no Havaí.

Arizona Memorial, em homenagem aos americanos que pereceram durante o ataque a Pearl Harbor.

O que move a economia havaiana?

Por séculos, a cana-de-açúcar foi o principal produto de comércio e exportação da economia havaiana, atividade esta que modelou a história das ilhas nos últimos 200 anos. Entretanto, a última usina de cana-de-açúcar foi desativada no ano passado (2016), em Maui.

Era uma vez uma indústria de açúcar.

Atualmente, as principais atividades econômicas do estado são o turismo e a indústria militar. A base de Pearl Harbor ainda é ativa e operante, central do Comando do Pacífico das Forças Armadas Americanas. Esse moço trabalhava na sucursal havaiana da Agência de Segurança Nacional antes de se tornar um exilado político. A média de renda anual no Havaí é a 5a mais alta dos EUA, a US$63.030 por ano (censo de 2010).

Quais são as contribuições culturais do Havaí?

Dentre as ricas contribuições na dança e música, estão os movimentos únicos e graciosos de mãos e pés da hula, o instrumento musical ‘ukulele e o método slack-key, uma variação de estilo para se tocar violão.

Hula: a dança que é a cara de “uma ilha no Pacífico”.

Os músicos mais tradicionais do Havaí são Eddie Kamae e Israel Kamakawiwo’ole (ou Brother Iz).  Ambos contribuíram para um renascimento da cultura havaiana tanto no modo de tocar ‘ukulele quanto no refletir sobre suas raízes. Kamae morreu em janeiro passado; Iz morreu em 1997, antes de ver seu álbum “Over the Rainbow” se tornar mundialmente famoso e o mais importante da música contemporânea havaiana.

‘Ukuleles para todos os gostos.

Em termos de cultura audiovisual, o seriado “Hawaii 5-0” foi popular por décadas, acabou em 1980, e foi ressuscitado em 2010 com novos atores e outro ritmo. O Havaí também foi pano de fundo do famoso seriado “Magnum”, com Tom Selleck, e do filme “Os Descendentes”, que ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado em 2012. Em 2016, a Disney lançou o desenho animado “Moana”, uma verdadeira ode às culturas das ilhas do Pacífico, e cuja voz da personagem principal é narrada pela moradora havaiana Auli’i Cravalho, de 16 anos.

O NYTimes esqueceu, mas o Havaí também viveu 6 anos intensos de gravações do surreal seriado de TV e fenômeno de público “Lost”, que trouxe um lucro estimado de US$400 milhões pro estado.

E acrescento uma curiosidade cultural e linguística: o alfabeto havaiano é o menor do mundo, com  apenas 13 letras.

E essa obsessão toda com spam?

Um artigo da Vice em 2016 chamou o spam, esta carne enlatada (e para mim intragável) que domina a culinária havaiana, de “tanto uma bênção quanto uma maldição”. O Havaí consome 7 milhões de latas de spam por ano. Há inclusive o festival anual do spam, o Spam Jam, que no ano passado contou com a visita de 25.000 pessoas (eu inclusa).

Juro solenemente que não abracei o spam. 😀

O Havaí nunca sai nos jornais?

O Havaí é a terra de nascimento do ex-presidente Barack Obama (“Obama Ohana”), o 44º presidente americano. Ele passa férias no Havaí. Até um tempo atrás alguns servidores públicos se mobilizaram para liberar a certidão de nascimento dele no Kapiolani Hospital, em Honolulu, para que se acabasse de vez com uma conspiração maluca de que ele não teria nascido nos Estados Unidos. Isso gerou bastante headlines na época. (Nos EUA, a certidão de nascimento é um documento inviolável da pessoa, que não pode ser retirado de um órgão oficial sem mandado judicial.)

Kama’aina Obama.

Mais recentemente, um juiz havaiano bloqueou a tentativa do atual governo federal de banir a entrada de pessoas de 6 países de maioria muçulmana. Parece que foi este bloqueio que gerou os comentários toscos de que falei no início do post.

Pipe Masters, a última etapa do mundial de surfe. Nas páginas de esporte de alguns jornais.

E o NYTimes esqueceu do que, a meu ver, é o principal: o surfe. Terra de dois dos maiores surfistas de todos os tempos, Eddie Aikau e Duke Kahanamoku, todo ano o Havaí está nas páginas de esporte dos jornais qualificados, já que são nas ondas de Pipeline que os maiores nomes do surfe mundial se debatem durante a final do Mundial de Surfe. Todo. Santo. Ano.

Pelo menos aparecem uns gatos pingados para assitir ao mundial de surfe, néam?

Mais dúvidas? Caixa de comentários aberta à vontade, sintam-se em casa! 🙂

Tudo de Havaí sempre.

 



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  • allanrpj

    Bom, com tanta gente morando no Hawaii deve ter muito carro, né? E se não dá pra ir de carro, como eles chegaram até aí? Aposto que foi surfando.

    Brincadeirinha 🙂

    Nossa simpática e idosa vizinha nos perguntou de onde vínhamos, quando nos mudamos pra Itália. Quando ouviu “Brasil” como resposta, perguntou se era muito longe e respondi “quinze mil quilômetros”. Ela esclareceu.que não não tinha noção de distância e perguntou a quantas horas de trem ficava.

    O que me vem à mente quando penso no Hawaii são o surf, o hula, abacaxi e os sobrenomes quilométricos.
    …Além da Lucia Malla e do André Seale.

    🙂

    • Sobrenomes quilométricos: um dia escreverei sobre isso. Muito comum mesmo.

      E os carros… devem ter vindo pela California-Hawaii Transpacific Road, né? 😀 😀 😀 😀 #IAmJoking

  • Mônica

    Que delícia de post, Mallinha querida!
    Só aumenta minha vontade de conhecer!
    Beijo!

    • Obrigada, Mô!! Venha quando quiser, a casa está às ordens pra você! 🙂 🙂 🙂

  • Marcus Nascimento

    Que post massa! Arrebentou Malla!