Mural dos artistas Risk e Sonny Boy.

Quando cheguei em Honolulu pela primeira vez em 2002, o bairro de Kaka’ako era praticamente inexistente. Quer dizer, ele existia, mas era formado apenas por galpões de estoque de lojas e outros empreendimentos comerciais. Uma área industrial, quase uma extensão do porto no meio da cidade. A meio caminho entre Waikiki, o bairro do turismo, e o downtown Honolulu, o Kaka’ako era então sumariamente ignorado – apenas um local de passagem e olhe lá, entre a Ala Moana Boulevard e a Kapiolani Ave.

Isso mudou – e muito. De uns 10 anos para cá, a cidade construiu um plano de revitalização do Kaka’ako, baseado nas ideias urbanísticas de retomada da cidade para as pessoas. Hoje, diversos condomínios e áreas agradáveis de caminhada estão se consolidando na região, com outros tantos projetos de construção começando a aparecer. Com isso, o Kaka’ako se tornou um dos bairros mais cobiçados pelos hipsters e artistas locais, com restaurantes e bares ótimos surgindo a cada dia.

Mural pintado pelos artistas de Melbourne Wonderlust e Rone.

Este mural chama-se “Hapa” e é permanente, na Ward Ave. Feito pelo artista local Kamea Hadar, em homenagem ao filho ilustre do estado, ex-Presidente Obama. Hapa é a palavra havaiana para pessoa de origem étnica misturada, diversa. Passo por este mural todos os dias indo pro trabalho. Dá uma saudade…

Apesar dos preços astronômicos do mercado imobiliário ali, a cidade tem tentado evitar a gentrificação, com propostas interessantes como obrigar os condomínios de luxo a terem algumas unidades em preços camaradas, vender apenas para residentes do Havaí com uma faixa de salário baixa ou mediana (para evitar compra imobiliária por estrangeiros apenas para investimento, o que descaracterizaria a comunidade), ou um prédio inteiro com apartamentos para artistas de low-income.

Mural dos artistas Patch Whiskey e Ghostbeard.

(Óbvio que ainda há muitos desafios, principalmente relacionados à gentrificação, mas pelo menos a gente percebe que a cidade e a prefeitura têm trabalhado para tentar solucionar os problemas que aparecem…)

Mural pintado pela artista Tara McPherson.

Esta visão da importância da arte na formação do bairro e a intenção de manter o Kaka’ako com este crowd é o que hoje chama mais a atenção. Iniciativas como o Pow! Wow! tornaram o Kaka’ako um ímã de arte urbana, grafite e street art. E a cada ano o bairro ressurge com uma nova cara – pinturas vem e vão, mensagens políticas, filosofices e afins são modificadas pelos murais, e a atmosfera criativa vai se espalhando pela cidade.

Paredes, muros e telhados populados descaradamente por obras divertidas, reflexivas, desafiadoras, transformando o Kaka’ako num dos bairros mais coloridos e interessantes de se andar em Honolulu. É uma sensação deliciosa em si andar a esmo pelo bairro, e de repente você vira a esquina, entra num beco e – bum! – um mural sensacional na sua cara. Além disso, uma geração de artistas de rua locais vem se fortificando, com seu portfólio e talento à vista por quem se aventura pelas calçadas do bairro.

Mural do artista 1010.

Não é uma novidade em termos de urbanismo ter áreas assim – várias outras cidades do mundo, como NY, San Francisco, Melbourne, etc. têm uma cultura de grafite e urban art fortíssima, que já faz parte do circuito de turismo das mesmas. E a moçada de Honolulu, uma capital essencialmente turística, também decidiu deixar sua marca pela cidade, e transformá-la em mais uma atração imperdível do Havaí.

Mural pintado pelo artista Mr. Jago.

Deixo aqui espalhado neste post algumas das minhas peças de arte urbana e grafite preferidas do Kaka’ako – quase um ~vintage~ fotolog. O nome do artista por trás dos murais está na legenda – infelizmente nem todas as autorias consegui achar . (Por alguma razão ~inexplicável~, sempre acho as mais legais as que envolvem… tubarões. 😀 )

Mural do artista Kai Kailukukui.

Quem me segue no instagram provavelmente já viu muitas delas, porque quando eu tomo um destes “sustos criativos” numa rua do bairro, geralmente posto por lá.  Algumas destas pinturas/obras já desapareceram – como falei acima, o caráter volátil da “exposição” é parte do conceito do bairro, de galeria a céu aberto, para que outros artistas também ganhem seu lugar ao sol.

Kaka'ako

Esse mural era incrível, porque era feito em tricô! Existiu como tapume de uma obra. Infelizmente, não sei o nome do artista responsável.

Enjoy!

Até a caixinha do jornal virou tela…

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Fora do bairro de Kaka’ako, mas ainda em Honolulu como parte do Pow! Wow!, dois outros murais interessantíssimos.

Mural feito pelo artista Apex, numa parede do bairro de Chinatown.

Mural do artista D’Face, na avenida Dillingham (bairro de Iwilei).

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Para andar mais pelo Kaka’ako:

  • um tour de – bicicleta? pedalinho urbano? caravana? – que vai pelas ruas do bairro explicando alguns dos murais mais badalados, oferecido pela Paradise Pedals.
  • Este artigo do Daily Herald conta um pouco do início da mudança do Kaka’ako de bairro esquecido a hotspot artístico da cidade.
  • Mais murais do bairro você pode ver no site da Pow! Wow! Hawaii.