Acabei de chegar da sessão de encerramento do Hawaii International Film Festival – Spring 2017*, cujos filmes projetados foram o curta-metragem “Reefs at Risk” e o longa “Chasing Coral”. Ambos com a temática “recifes de corais”. Como apaixonada pelos corais do mundo, ambos impactaram-me muito, e ainda estou com os olhos vermelhos de tanto chorar depois de assisti-los. Tentarei expôr minhas impressões de ambos, extremamente passionais e pessoais.

Comecemos com o curta.

A delicada fragilidade dos corais.

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“Reefs at Risk” é um projeto cinematográfico caseiro incrível de mãe e filha havaianas sobre o problema do composto químico oxibenzona, presente na maioria dos filtros solares e maquiagens. A oxibenzona é um análogo do estrogênio (um endocrine disruptor), e quando dissolvido na água do mar, afeta a saúde dos corais, diminuindo sua resistência a temperaturas e sua capacidade reprodutiva. (Além dos riscos a longo prazo que não sabemos causar em humanos…)

O filme descorre sobre o quanto de oxibenzona entra na água diariamente em Waikiki, uma praia super-turística do Havaí, e na maior parte das praias do estado, já que praticamente todos usam filtro solar. Também comenta o quanto o filtro solar em spray é pior que o creme, e de todas as iniciativas para se banir completamente a venda de produtos que contenham oxibenzona no estado, com o intuito final de evitar danos ao ecossistema dos corais. Ao final da apresentação, as duas produtoras comentaram sobre alternativas ao uso de oxibenzona e distribuíram algumas amostras de filtros solares que não possuem o produto.

Lição maior: ao invés de filtro solar, use uma camiseta e boné. Pela saúde dos corais.

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Chasing Coral“Chasing Coral” é um documentário sobre o futuro deprimente dos recifes de corais do planeta. Do mesmo diretor de “Chasing Ice”, Jeff Orlowski, tem o mesmo estilo e linha de roteiro: uma equipe de fotógrafos/ambientalistas que criam e adaptam uma máquina fotográfica em time-lapse para registrar o processo de branqueamento dos corais de diferentes regiões do planeta. Como em Chasing Ice, o primeiro experimento não funciona – a câmera dá pau. Mas depois, o grupo consegue filmar o time-lapse – e a mensagem do filme é de cortar o coração. (Chorei de soluçar.)

Chasing Ice, o filme anterior, já tinha me deixado de coração na mão. Mas era sobre geleiras e áreas nevadas, um ambiente por si bastante “exótico” para mim. Chorei porque a mensagem era clara e cristalina: naquele ambiente tão distante o quanto nós, em qualquer lugar do planeta, o afetamos.

O problema de Chasing Coral é diametralmente oposto… porque os recifes de corais são sem dúvida um dos meus lugares favoritos no mundo, onde encontro a minha paz interior. Tenho  uma conexão tão grande com eles que não dá nem pra explicar direito, é coisa de paixão mesmo, de amor incondicional. Por esse sentimento tão intenso e próximo, mal o filme começou e a perspectiva do que se anunciava ficou clara, eu já estava chorando. De soluçar. (E estou chorando escrevendo isso. #Manteiga)

Esta foto é de 2012. Tem uma cena no filme neste exato coral em Samoa Americana, o Airport Reef. Só que no filme… #sentaechora

Por mais que o filme tente manter uma linha de bom humor e um pouco de esperança, com um figuraça coral nerd até divertido, a mensagem que o conduz e que deixa reverberar na nossa cabeça é tão trágica, tão profundamente triste e deprimente, que não tem como sair do cinema sem uma sensação de falta de esperança total na humanidade. Para mim, uma otimista de carteirinha, isto talvez seja o aspecto que mais me consumiu: a constatação de que não há mais jeito, praticamente, de salvar os recifes de corais do mundo. A que ponto chegamos como (des)humanidade.

Estamos nos últimos segundos para salvar este ecossistema. O filme diz que, a manter-se o estado atual das emissões de CO2, em 30 anos poderemos ter um mundo sem recifes de corais. 30 ANOS. 30 freaking years. É um nada! É praticamente agora; é o seu filho ou filha que nasceu nos últimos anos não podendo ver mais corais em seu ambiente natural na vida adulta. Vocês têm noção do quanto isso é estarrecedor para este planeta – e para a nossa saúde geral?

Admirando os corais (à época, saudáveis) da Nova Caledônia. Foto de 2011.

Me deu uma dor no coração também ao ver que locais onde estivemos há pouco tempo, como Heron Island e Nova Caledônia, cujos corais me emocionaram e me cativaram tanto, estão praticamente esperando para morrer em breve, na próxima onda global de temperatura alta do mar – tivemos 2 eventos de aquecimento dramático num intervalo de 5 anos e a terceira onda já está em andamento. Nestas ondas de aquecimento, os corais morrem por asfixia e desnutrição: primeiro a temperatura da água do mar sobe e expulsa do coral as algas microscópicas simbiontes e fotossintetizantes que o alimentam; aí o coral branqueia e fica como se fosse uma rocha exposta, até que é coberto por outras algas, estas macroscópicas e que o sufocam para sempre.

Corais de espécies que estão no planeta há mais tempo que nós e todos os mamíferos, aves e répteis; espécies extremamente complexas e cujo entendimento atual é parcial, que ainda têm tanto a nos ensinar. A elas em sua maioria avassaladora, um epitáfio já está escrito.

Os corais de Kaneohe, no Havaí. Foto de 2010.

Chasing Coral tem um adicional maior de proximidade e intensidade para mim: a conexão enorme com o Havaí, minha escolhida casa. Os testes das câmeras subaquáticas do filme foram feitos na Baía de Kaneohe, o congresso onde foi anunciado o resultado final do time-lapse dos corais foi aqui em Honolulu, as cenas de coral no microscópio são as mesmas que já vi com os meus olhos naquele mesmo microscópio ao vivo e a muitas cores. E o filme torna-se finalmente próximo mesmo quando você vê na tela alguns conhecidos nossos aqui do Havaí, pessoas com quem você já esteve em festas e seminários. Ou quando um dos responsáveis pelas filmagens sub é um amigo nosso de outras expedições – por corais do mundo, claro. Ou quando na platéia assistindo estão vários conhecidos e amigos que lutam diariamente pelos recifes de corais, cada um a sua maneira, cada um na sua urgência.

Um pequeno cabeço de coral-dedo saudável em Heron Island, na Grande Barreira Australiana. Foto de 2015.

Com todos esses aspectos que gritam tão alto no âmago do meu ser, tão absurdamente pessoais, fica difícil que eu faça uma análise objetiva e racional do quanto Chasing Coral é fundamental, must-see do ano, quiçá do século – e se for possível enviar umas cópias também para Washington…

Tudo que posso dizer é: assista. E se emocione. E mergulhe nele. E repasse, e recomende aos amigos a assistir. E faça a sua parte: diminua o consumo de tudo, principalmente de combustíveis fósseis.

Com o mais profundo desejo (quase utópico) de tudo de corais lindos e saudáveis, sempre.

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Para mergulhar mais nos corais:

*Da série “Só no Havaí”: onde mais no mundo um festival de cinema internacional, cheio de filmes-bambambam-de-terror-zombie-diretor-estrelado-uórever, tem numa de suas mais importantes noites a exibição de um documentário ambientalista desse nível. <3 I love this place…

**De acordo com a produtora do filme, o mesmo estará em breve no Netflix. E ficará por um período gratuito a todos, mesmo os que não têm conta no netflix. Afinal, o objetivo é espalhar esta informação ao máximo. Já falei que recomendo a todos, né…

***Meu conselho viajante a todos os amigos, mesmo aos que não curtem tanto o mar: vá o mais rápido possível ver corais pelo mundo. Em qualquer lugar tropical. Para eternizar em sua memória de humanidade essa beleza que expira.

****Em 2008, eu dei a louca aqui no blog e publiquei obsessivamente por uma semana posts só sobre recifes de corais. Foi a “Semana do Coral”. Deixo abaixo o link dos posts da época, para quem quiser conhecer um pouco mais do meu ecossistema favorito do planeta:

Semana de Recifes de Corais 2008

Os corais de Bikini

Procurando (e encontrando) Nemo

Mar de cores

O trabalho no recife

Sherman’s Lagoon

 

  • lufreitas

    divinha quem tem uma xará emocionada antes mesmo de ver o filme? o que fazer, xará, o que fazer? (ok, filtro solar nunca mais, prometo – pelo menos qdo for pro mar). tão triste tudo isso. beijos do outro lado do mundo

    • É extremamente triste. Eu tô com meu coração cortado há tempos por conta desta situação. Difícil ter esperanças… Beijos!