Bienal de Honolulu

Está acontecendo até o dia 8 de maio a Bienal de Honolulu 2017, evento de arte contemporânea ultra-focado nas culturas do Pacífico. O tema deste ano é sensacional: “Middle of Now|Here” – além da contemporaneidade, alude à antiga visão de que as ilhas eram o meio do nada, e hoje vêm renascendo como quase ground zerofront essencial em grandes problemas atuais da nossa humanidade, como mudanças climáticas e futuro nuclear.

Mais: no mundo atual de extrema instabilidade política, financeira, ambiental e emocional, a arte é o palco ideal e fundamental para reflexão destes tantos desafios e incômodos planetários. Integrar e ouvir os povos do Pacífico nesta discussão artística é, a meu ver, fundamental.

“Above the wall under the rainbow, free air”, mural do artista indonésio Eko Nugroho.

As obras da Bienal estão espalhadas pela cidade de Honolulu, do Honolulu Art Museum ao Foster Botanical Garden. O pavilhão principal, onde estão a maior parte dos trabalhos, fica na Ward Avenue e chama-se The Hub. Ali, o foco é bastante na desocidentalização necessária das culturas ilhéus do Pacífico, principalmente condenando os anos de uso e abuso destes paraísos naturais para testes nucleares – a instalação sobre as bombas detonadas em Bikini da artista marshalhesa Kathy Jetnil-Kijiner, é de arrepiar a espinha.

“The Great goddess Pere”, murais de Alexander Lee.

“Target Island”.

Outra obra que tocou nesse tema foram os murais de Alexander Lee, do Taiti, que aludem ao impacto explosivo dos testes franceses em Moorea numa disposição quase como “azulejo” e cujo título em taitiano traduz-se para “A Grande Deusa do Fogo Pere”; e “Target Island”, do neozelandês Brett Graham, que reflete sobre o uso pelo exército americano da ilha havaiana de Kaho’olawe, terreno sagrado dos antigos havaianos, como área de treinamento e artilharia, deixando-a inabitável.

Algumas obras ainda relacionadas ao tema nuclear me chamaram bastante a atenção, como “Crystal Palace: the great exhibition of the works of industry of all nuclear nations”, que eram várias luminárias de vidro de urânio e luz UV, dos artistas Ken & Julia Yonetani.

E no contexto de obras sobre a “desocidentalização” do Pacífico, talvez a mais inspiradora tenha sido uma “homenagem” a meu ídolo Marcel Duchamp feita por Yuki Kihara, usando fotos e vídeo de um samoano descendo a escada, em “Maui Descending a Staircase II”. (Sou parcial: qualquer exposição que mencione Duchamp, no meu caderninho, já ganha muitos pontos…)

“Maui Descending a Staircase II”.

Outro destaque: a sala que o grupo de arte colaborativa teamLab organizou, chamada “Graffiti Nature”, com projeções coloridas e psicodélicas de animais tropicais pelo chão, tudo super-orgânico e atraente para as crianças – na hora em que estava lá, tinham vários meninos sentados no chão desenhando enquanto as projeções de baleias, jacarés e afins passavam por cima deles. Um barato!

“Graffiti Nature”

No histórico prédio da IBM no bairro do Kaka’ako, está para mim a preciosidade desta Bienal: a obra/instalação “I’m here, but nothing” da artista japonesa Yayoi Kusama. Kusama montou esta instalação especialmente para esta Bienal: um quarto/sala de plantation house havaiano, com toda a mobília e artefatos típicos daqui, e tudo marcado com adesivos coloridos que brilham no escuro – o ambiente está iluminado com luz negra e, como as bolinhas não são uma projeção e sim adesivos, você tem uma sensação bem mais integrada. Kusama é famosa por seu mundo visto com bolinhas, e o uso dos adesivos é um direcionamento muito interessante em termos de uso de materiais pela artista.

(E o IBM Building entrou na onda da arte colorida de Kusama e vem sendo iluminado como arco-íris enquanto a Bienal ocorre. #MuitoAmorÀArte )

Fica então a dica: se você estiver pelo Havaí neste mês, não deixe de visitar, pelo menos o “quarto” da Kusama – é gratuita (as exposições nos demais pontos da cidade têm ingresso a US$10,00/pessoa).

A mala da Kusama. 🙂

Tudo de arte sempre.

Artista local Chris Ritson (e seu fiel companheiro canino) comentando sua obra de arte bioregenerativa, feita com fungos e algas vivas.