Caiu-me em mãos esta semana um artigo de divulgação publicado pela Universidade do Havaí sobre a intrusão de água salgada nos lençóis de água doce do solo em Waikiki, em decorrência da elevação dos níveis dos mares (com um vídeo acompanhando). Muito como está acontecendo em Miami, Waikiki também está extremamente vulnerável a esse processo.

Waikiki em tempos de elevação dos mares

(Na realidade o estudo analisa toda a cidade de Honolulu, mas Waikiki é o bairro mais turístico do Havaí, ou seja, o que movimenta a economia do estado. Portanto, muitas das perdas avaliadas são em sua maioria decorrentes do prejuízo com o turismo, calculado em torno de $5 bilhões de dólares só em imóveis.)

(Imagem da projeção do bairro com um metro de elevação dos mares retirada da animação linkada abaixo.)

Interessantemente, no ano passado assisti a uma palestra de um dos autores deste artigo, o Dr. Chip Fletcher. Ele é o líder do grupo de Geologia Costeira da Universidade do Havaí, e na ocasião a palestra era direcionada aos membros do Hawaii Tourism Authority, a Secretaria de Turismo do estado. Na palestra, Chip mostrou uma animação do Oahu South Shore (dá pra ver só o pedaço de Waikiki neste link) e de como será toda a região costeira da ilha de Oahu caso o mar se eleve apenas 1 metro – veja bem, esse já é muito próximo do valor de elevação que teremos [link em pdf], por conta do CO2 que já está na atmosfera e por conta de que este mesmo CO2 não para de subir – ou seja, estamos fazendo muito pouco (pra não dizer praticamente nada) para mitigar as emissões no momento. A palestra deixava cristalino a todos da platéia que a costa de Waikiki será muito diferente daqui a algumas décadas. Portanto, o estado do Havaí, e particularmente os que dependem do turismo nesta região, precisa começar urgentemente a pensar e executar projetos de mitigação criativos.

(Parênteses: Um dos comentários que mais me impressionou durante a palestra foi a dúvida de um gerente de hotel em Waikiki, que queria saber o que Chip sugeria para os hotéis da beira-mar a partir destas previsões. Chip foi bem direto: comecem a pensar em perder o primeiro andar de sua propriedade. Transfiram o lobby de entrada para o segundo andar dos prédios. O.O )

(Parênteses 2: Um outro senhor perguntou sobre a ideia de se explorar Waikiki como Veneza (!!!), com canais, etc. Chip Fletcher logo descartou esta ideia por causa da profundidade – temos ruas, não canais. A inundação das ruas não será funda o suficiente para permitir esse tipo de viagem na maionese.)

Dá para imaginar o ~climão~ no auditório quando ele terminou a palestra, né? Porque aquela mensagem chocante desceu mais entalado que ovo podre entre os stakeholders que vivem do turismo e que estavam ali, basicamente ouvindo que o futuro deles estará no sal – literalmente. Que eles perderão muito com a elevação dos mares.

Mas veja bem: o artigo que li semana passada falava que já ocorre intrusão de água salgada em Waikiki – os poucos milímetros de elevação dos mares que já tivemos neste século foram suficientes para contaminar algumas áreas de água doce. O que definitivamente não é uma boa notícia. Ainda de acordo com o artigo, construir quebra-mar não é uma alternativa viável.

Quebra-mar não vai segurar a onda de Waikiki.

E o que fazer então? A realidade é que ainda não temos a resposta – e não haverá uma resposta única para todos os casos. Em Waikiki, assim como em Miami, a mitigação ao aumento do nível do mar e ao desaparecimento da costa do jeito que ela é hoje dependerão de condições específicas para cada caso, cada construção, cada empreitada. A única certeza é de esta mitigação necessitará ser em conjunto: governo, propriedade privada, órgãos de turismo e comunidade. Para que soluções menos danosas e mais efetivas sejam as que prevaleçam.

Um desafio inacreditavelmente enorme. Minha sugestão a quem visita o Havaí? Aproveite a praia de Waikiki – enquanto ela ainda existe do jeito que é. Porque o futuro parece que será uma verdadeira caixinha de surpresas desagradáveis.

Tudo de mar sempre.