cartaz before the floodNo último domingo ocorreu a premiere mundial do documentário Before the Flood, feito por Leonardo DiCaprio e Fisher Stevens, no canal da National Geographic. Dada a importância e a urgência de agirmos sobre mudanças climáticas, e a necessidade de conscientização urgente para mudanças de atitude globais, o filme já está disponível gratuitamente – recomendo assistirem.

O ator Leonardo DiCaprio é sem dúvida uma das mais influentes ecocelebridades atuais, com um impacto enorme quando fala sobre ambiente. Como fã de filmes sobre mudanças climáticas e meio ambiente, eu não poderia deixar de assistir a este documentário. Quero deixar aqui meus pitacos e sentimentos sobre o filme.

Achei o filme muito bom. Bastante efetivo e didático em mostrar os principais problemas ambientais atuais do mundo. Comenta em linhas gerais todos os “grandes temas” que circundam diariamente quem se interessa por mudanças climáticas: acidificação dos oceanos, campos de tar sands de Alberta e o escoamento deste petróleo, extinção de espécies biológicas e conflitos atuais consequentes de eventos climáticos, degelo e exploração do Ártico, elevação dos mares, poluição na China, o futuro submerso de Miami, entre outros. Navega por estes temas de maneira eficaz, ouvindo cientistas de peso e principais nomes e influências da conservação. Para ser eficaz, Before the Flood é conduzido como uma peregrinação de Leonardo DiCaprio por estes problemas, o que de certa forma, é chover no molhado – outros filmes o fizeram também. Mas, ao imprimir sua jornada pessoal de descoberta do tema, acho que o filme se torna ainda mais… interessante.

Tudo que uma celebridade põe numa tela (seja ela de cinema, de TV ou de celular) é pensado, repensado e tripensado; ninguém pode ser ingênuo de pensar o contrário. DiCaprio sabe disso. E sabendo disso, escolheu conscientemente abrir o jogo para a platéia, mostrando seus questionamentos mais internos, suas dúvidas e incômodos existenciais com sua própria jornada pessoal ambientalista – como se interessou pelo assunto e a que isso o levou (o quadro “O Jardim das Delícias Terrenas” de Bosch e a experiência com The Revenant são sensacionais para conduzir o roteiro). Temos a oportunidade de caminhar com DiCaprio nesta jornada atrás do conhecimento, aprendemos, nos surpreendemos e refletimos juntos. DiCaprio se mostra muitas vezes pessimista, introspecto, com self-doubt sobre seu próprio comportamento consumista, e mostra uma genuína dificuldade em apaziguar a ciência hardcore da climatologia com a realidade tecnológica disponível/possível para resolver problema tão gigantesco. Está ciente de que o tempo está se esgotando, que o momento de agir caso queiramos um planeta saudável pras gerações futuras é agora. Como “personagem”, DiCaprio honestamente quer colocar seu último fio de esperança por um futuro melhor em algum lugar, mas está tendo dificuldades em saber onde.

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(Imagem do flickr da NASA, por Rebecca Roth.)

Agir para desacelerar as mudanças climáticas requer uma mudança muito-muito-muito-muito radical no comportamento humano. Requer que repensemos o modelo econômico que temos, nossa dinâmica de transporte e consumo, que invistamos numa infra-estrutura energética diferente a nível planetário. É absolutamente assustador quando paramos profundamente para pensar nisso.

(Só falar em diminuição do consumo já deixa a maioria das pessoas desconfortáveis, com muita reticência – e vem daí o estado geral de negação que DiCaprio menciona logo no início de Before the Flood, que acontece quando falamos de mudanças climáticas para 99.99% das pessoas. Faz parte da psicologia do ser humano: ninguém quer ouvir que estamos doomed.)

DiCaprio também sabe muito bem as críticas que recebe diariamente, muitas delas vindas do próprio movimento ambiental. Eric Holthaus, um meteorologista que parou de viajar de avião, exemplificou em seu twitter a mais comum delas: DiCaprio não dá o exemplo. Afinal, enquanto prega com seu discurso ambientalista pelos 4 cantos do planeta, ele continua uma celebridade jet setter, viajando de avião, consumindo mais que a média das pessoas, e consequentemente emitindo CO2 a torto e a direito (e quem não está?). Educar seu público sobre este problema urgente e gravíssimo não serviria como boa justificativa para seus atos.

Concordo parcialmente com Holthaus nesta crítica. Sim, atitudes pessoais que tomamos são importantes, e quando vindas de uma celebridade de peso, teriam mais chances de serem propagadas por outras pessoas. Ele poderia terminar o filme com uma promessa pessoal, e usar a si mesmo como exemplo. Mas não seria honesto de sua parte – por não ser realista nesta sociedade que ele e nós vivemos. Realista é a dicotomia tão humana entre a teoria e a prática, que DiCaprio intencionalmente deixa transparecer. O documentário prefere sugerir ações políticas e sociais necessárias (divestment, imposto de carbono, votar em políticos comprometidos com questões ambientais, etc.) para que uma mudança econômica social mais abrangente se faça. Às soluções varejistas de Al Gore adicionamos as ações atacadistas de DiCaprio – na atual urgência, precisamos de ambas. Usando sua jornada de pessimismo-que-gostaria-de-ser-otimismo como pano de fundo, DiCaprio escancara em Before the Flood que o problema somos nós todos, inclusive ele. Porque estamos todos inseridos no mesmo modelo econômico que precisa ser repensado. Nossa forma atual de encarar o mundo e nossa resistência a sair da zona de conforto são o problema. Ninguém está isento desta responsabilidade – e de agir para mudar.

Ao compartilharmos a culpa, interessantemente, abrimos espaço para oportunidades de solução mais balanceadas. Repensar toda nossa existência é tarefa gigantesca e assustadora – daunting. Ao permitir que estas questões existenciais pessoais extravazem para seu público, sem receio de gerar incômo  do, DiCaprio abre as portas para que todos deitemos nesse divã, e comecemos a terapia global necessária perante os dados e fatos científicos, que são claríssimos. A construção dos mecanismos de defesa e de resiliência cultural, inclusivos e pragmáticos, que gerarão soluções duradouras e eficientes, depende de todos nós como sociedade. A solução está em nós todos.

A meu ver, este parece ser o objetivo de Before the Flood: alertar sobre a universalidade do trauma e das soluções que as mudanças climáticas trarão. Todos nós teremos que suportar um período de adaptação brutal nesta batalha psicológica. Afinal, é a existência da espécie humana que está em jogo. Estamos preparados para tal batalha? Como boa poliana e sabendo que desta resposta depende o futuro da nossa espécie, eu gostaria de achar que sim.

Tudo de ambiente sempre.

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“The Garden of Earthly Delights”, pintura tríptica do holandês Hieronymus Bosch, século XV-XVI.

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P.S.: – Este “divã planetário” é um dos maiores desafios identificados pelos grandes grupos de conservação mundiais para agir em relação às mudanças climáticas. Permeou todas as discussões do Congresso Mundial da IUCN que ocorreu em setembro passado, do qual participei.

Uma outra ótima resenha do filme, escrita pelo Rob Hopkins para o Post Carbon Institute.

– Sugestão malla: veja também a discussão conduzida por DiCaprio com o Presidente Obama e a climatologista Katharine Hayhoe, na premiere de Before the Flood na Casa Branca.