Um dos points mais épicos do Havaí para quem curte surfe está, sem dúvida, em Maui: as ondas de Peahi (com ‘okina em havaiano: Pe’ahi), também conhecida pelo sugestivo nome de JAWS. O apelido “Jaws” vem do impacto causado pela onda que ali quebra,  levando a pessoa a ser praticamente “comida” por esta muralha de água salgada cheia de “dentes”.

Aventura Peahi

Ali, no North Shore de Maui, esta que é uma das maiores e mais violentas ondas do mundo quebra a alturas inacreditáveis, com um volume de água de deixar qualquer um nervoso. Para surfar esse pico, a dose de adrenalina da pessoa precisa ser multiplicada por 1000 – ou melhor, elevada a milésima potência. Muitos já morreram ali. Ou seja, o point-aventura não é mesmo para principiantes.


Jaws: a onda fechando para te “mastigar”.

Jaws fica à beira de um precipício, não tem necessariamente uma “praia”, apenas um monte de rochas, e é difícil chegar lá se você não está a fim de encarar uma estrada de terra péssima, penhascos, trilhas e afins. Mas o espetáculo que oferece em dias de swell alto… faz a aventura valer cada segundo do seu sacrifício.

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No último 06 de dezembro, estive com duas amigas em Maui para ver o primeiro ever Pe’ahi Challenge, campeonato que aconteceria devido a um swell monstro de nordeste que se encaminhava na direção do Havaí. A combinação deste swell com o vento certo permitiu a realização do campeonato-desafio, que já foi incorporado ao circuito de ondas gigantes do mundo, e colocará a ilha de Maui definitivamente na rota do surfe mundial (para os loucos poucos que achavam que ainda não estava).

Afinal, Peahi/Jaws é algo como o Everest do surfe de ondas gigantes.

A “aventura Peahi”, como eu chamo as visitas ao local, começa no trajeto: Peahi fica no final de uma estrada de terra péssima, que sai da Hana Highway entre os marcos de 13 e 14 milhas da estrada após a cidadezinha de Pa’ia. Sinalização não existe. O mais fácil é colocar as coordenadas no GPS (20°56′36″N, 156°17′52″W). Depois de dirigir quase 2 milhas na estrada de terra em meio a um canavial/capinzal alto, você chega à beira do penhasco – e lá de cima pode admirar as ondas. Não há possibilidade de entrar na água dali para reles mortais; só os mais experientes conseguem descer o penhasco, atravessar os pedregulhos enormes e encarar Peahi. Esta dificuldade de chegada e de descer o precipício é a forma que o pessoal local chegou para evitar uma invasão de haoles – e torna a localização de Peahi o segredo mais mal guardado do Havaí inteiro. (Outra forma um pouco mais radical pode ser vista nesta foto.)

Para o Pe’ahi Challenge de dezembro, entretanto, houve um balde de água fria: o campeonato seria fechado ao público. Minhas amigas e eu pensamos em cancelar nossa “aventura Peahi” do fim de semana, porque ir até Maui para ver pela TV o campeonato não fazia sentido. Mas felizmente resolvemos arriscar assim mesmo.


Dos perigos em Peahi: dois jet skis tentam resgatar um surfista depois de um caixote monstro. Tudo correu bem, mas… que susto.

Minha esperança ao chegar em Maui naquele domingo era de que a polícia estivesse fechando a estrada principal até Peahi, mas permitindo acesso pela estrada-pior-ainda que vai pelo lado direito do penhasco. Infelizmente, a polícia tinha fechado as duas estradas.

Foi aí que decidimos seguir o pessoal local. Percebemos que muita gente tinha parado na estrada perto de uma fazenda. Estacionamos o carro e começamos a seguir a galera pela trilha – eram facilmente mais de 200 pessoas. A trilha era no meio de uma plantação, sem sinalização. Depois de cerca de uma hora andando em mato alto, chegamos a um ponto do penhasco extremamente perigoso, com várias árvores podres que poderiam cair do barranco a qualquer momento – mas de onde podíamos ver o campeonato.


Panorâmica do matagal de onde vimos o campeonato.

Mesmo estando um pouco mais longe, numa posição extremamente desconfortável em meio a um matagal de dar coceira, a emoção a cada ugido estrondoso de Jaws quebrando, o “circo” de barcos e jet skis de apoio, e a adrenalina correndo forte a cada drop e manobra desses surfistas incríveis… nossa, valeram cada segundo da aventura! E ficamos ali mais de 4 horas seguidas em estado de nirvana surfístico, admirando aqueles 50 pés de pura EMOÇÃO.


O colorido da onda de Jaws.

No final, o vencedor do Pe’ahi Challenge foi Billy Kemper, nativo de Maui. Ou seja, alguém que conhece aquela onda “desde garotinho”. O segundo lugar também foi de Maui, Albee Layer. Mas sinceramente, para nós espectadores, todos que se arriscaram na água, na base da remada de braço e com dose tripla de coragem em Jaws já são mais que vencedores. São heróis mesmo.

Tudo de surfe sempre.

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  • P.S.: Na maior parte do ano, Peahi parece inofensiva, pois só rolam marolinhas. Se você chega até a beira do penhasco num dia sem swell, vai achar que o hype é absurdo – e não diga que não avisei. Mas… sai de baixo se você chega ali em dia que o swell bate com força! Nestes raros momentos do ano, a aventura pra chegar ali vale cada poça de lama navegada.
  • Dicas para chegar em Peahi: aconselho um 4×4 – pense em off-road. As locadoras de carro podem multar quem pega a estrada de Peahi em carro econômico, portanto desaconselho o risco – você pode andar até lá. Se a estrada principal não estiver fechada, é uma caminhada de ~40 minutos no sol, factível. Por menor que seja o trajeto, tem umas ladeiras bem chatas de serem feitas. Esqueça se tiver chovido muito no dia anterior, a estrada vira lama. Também esqueça se não houver swell decente (norte-noroeste) com o vento certo (sudeste-sul) – cheque antes no Surfline. Se estas condições não existirem, você não verá muita coisa. Além desta estrada de terra, a outra maneira de chegar até o point é pela água, vindo de barco ou jetski de Ho’okipa ou Pa’ia.


Mapa para chegar em Peahi, “cortesia” do Google Maps.

  • Nesta reportagem, há uma foto com a visão aérea do “estacionamento” de Peahi, assim como da trilha do penhasco e da “praia”.