O paraíso existe.

Claro, a gente sabe que a definição de “paraíso” é aquela construção individual, super-pessoal, etc. e tal (até rimou!). Mas, desde que me entendo por gente adulta, o meu ideal de paraíso sempre foi estar uma ilha tropical, com muito sol, acompanhada da pessoa que amo, e com um recife de coral coloridérrimo maravilhoso de fácil acesso, para mergulhar a qualquer hora, e cheio de tubarões de muitas espécies para se apreciar.

Paradise is Heron

Pois nas minhas últimas férias em julho/2015, finalmente achei o meu paraíso: a Ilha de Heron, na costa do estado de Queensland, na Austrália. Situada na parte sul da Grande Barreira de Corais, a pequena ilha se mostrou a materialização de todas as características que fazem o meu paraíso pessoal. Heron está em cima do Trópico de Capricórnio, dentro da Grande Barreira de Corais, e tem  ao redor toda a biodiversidade marinha que só a Grande Barreira de Corais pode oferecer.

Não precisa dizer que foi amor ao primeiro mergulho, né? <3

Mas, como bem disse Dante Alighieri, “o caminho para o paraíso começa no inferno”. E o inferno aqui atende pelo nome de Gladstone, uma cidadezinha industrial sem personalidade, de onde sai o ferry que leva até Heron Island. Ficamos só uma noite em Gladstone, e acho sinceramente que mais não precisava.


A chegada na ilha de Heron.

O ferry sai pela manhã de Gladstone. Nosso trajeto de 2 horas até Heron foi tranquilo, sem muito balanço. Dentro do ferry, passava na TV um filme espetacular de 2hrs sobre a vida marinha na Grande Barreira, o que nos entreteu por toda a travessia. Já no meio do caminho, começamos a ver ilhas paradisíacas desabitadas, de areia branquinha e coqueiros. Até que no horizonte, aparece Heron.

A chegada no píer já é uma festa. O barco ainda nem atracara na ilha e meu coração já começou a bater mais forte: um grupo de raias nadava pertinho de um coral próximo à superfície. Na recepção do hotel, a informação mais fundamental nos foi passada entre sorrisos e sucos de manga: o resort não tem internet nem TV nos quartos. Caso seja um viciado em internet queira conexão virtual, precisa ir ao bar pagar uma taxa salgadíssima por poucas horas. Como nosso objetivo era ficar uma semana offline, aquilo soou como música pros nossos ouvidos.

A ilha de Heron em si é pequena, dividida em 3 áreas: um resort (reservas), uma estação de pesquisa científica (com estudos sobre corais e mudanças climáticas!), e uma área de conservação. Com menos de 1 km de extensão e 300m de largura, é possível andar ao redor da ilha inteira com calma em poucas horas.

A estação de pesquisa tem alojamento para até 150 pessoas, e as escolas da região fazem excursões de campo para lá – que sonho! Os visitantes do resort têm acesso à estação de pesquisa durante os passeios guiados, que mostram um pouco de como a ilha se sustenta, e as diversas pesquisas científicas realizadas ali.

Um martim-pescador-sagrado (Todiramphus sanctus).

A área de conservação em terra faz parte do Capricornia Cays National Park (link em pdf), e está protegida por ser área de desova de tartarugas marinhas, e conter muitas aves ameaçadas – não é à toa que a ilha se chama Heron. 19 espécies de aves vivem ou passam por Heron, incluindo o passarinho nativo zosterópido silver eye (Zosterops lateralis), cuja subespécie capricornius só é encontrada ali. Vimos quase todos os dias, da varanda da nossa cabana, um silver eye destes.

Como escolha de férias, o resort foi perfeito: bem simples, sem luxo, comida decente (não espere nada 5 estrelas), mas com uma preocupação ambiental fortíssima, que para mim é definitivamente o que importa. Água vem de coleta da chuva e é um recurso extremamente limitado ali. Por isso, durante a estadia somos lembrados a todo momento de que precisamos economizar água ao máximo (os banhos, por exemplo, devem ser no máximo de 3 minutos e evitados entre 5 e 7 da noite, que é o horário de pico de consumo d’água). A eletricidade também é gerada ali, mistura de painéis solares, vento e um gerador local. O esgoto é tratado ali mesmo. Absolutamente tudo na ilha é pensado em termos de sustentabilidade – mas sem perder a ternura. Um paraíso em terra.


No píer, para o pôr-do-sol.

Mas a peculiaridade de Heron mesmo está submersa: um parque nacional desde 1943, há muitas décadas sem atividade pesqueira ou de caça ao redor. E por causa deste histórico incrível de preservação, uma das maiores emoções que tive foi, ao mergulhar, perceber que havia garoupas enormes e outros peixes idosos entre os corais – nos demais locais do mundo, quase não se vêem peixes velhos, porque eles já foram todos pescados. Saber que os peixes ali vivem seu ciclo de vida completo, sem intervenção alguma a não ser do próprio ecossistema ao redor, me fez chorar de alegria embaixo d’água.


Uma garoupa idosa! Dá até pra ver as rugas… #viajeinamaionese

A rotina na ilha é guiada pelo movimento da maré, e apenas o barulho do mar e dos passarinhos está presente. Quando a maré está alta, é hora de snorkelar à vontade; na maré baixa, hora de caminhar entre os cabeços de coral, para tentar achar o tubarão epaulette (Hemiscyllium ocellatum).

Paradise is Heron Island

As atividades organizadas pelo resort são bem espaçadas, todas dependentes da maré e relacionadas ao ambiente.


Durante uma das caminhadas guiadas pelos recifes de corais.

Durante nossa estadia, fizemos o “Reef Walk”, o “Research Walk” (que visita a estação de pesquisa de Heron), e – claro! – fui ver a “Shark Talk”, em que o guia explica tudo sobre os tubarões e raias que podemos avistar em Heron –  10 espécies ao total, incluindo o fofíssimo tubarão wobbegong (Eucrossorhinus dasypogon). E, de vez em quando, cochilei sobre rochas na praia, ainda vestida de neoprene, horas e horas de relax total.


O tubarão wobbegong! <3

Em geral, acordávamos cedo para fazer snorkel no píer até às 8am, quando este fechava aos nadadores, e abria-se aos barcos. Como o píer é um dos lugares de Heron onde os tubarões a-d-o-r-a-m passear, ficávamos esperando pontualmente até às 5 da tarde, quando o tráfego de barcos parava e o mesmo reabria para as atividades de snorkel. Na entrada do píer, o navio HMCS Protector faz às vezes de “naufrágio da casa” para agregar peixes e garantir um snorkel sensacional. O navio naufragou em Gladstone em 1943, e realocada para Heron em 1945 pelo Capitão Poulsen, para fazer dali uma barreira ao canal do píer.


Shark Bay – uma semana olhando para este paraíso…

Em um dos dias, fomos durante a maré alta snorkelar em Shark Bay, que fica no extremo leste da ilha. A trilha de 20 minutos até lá vai por dentro da mata. Em Shark Bay, além dos inúmeros corais maravilhosos típicos da Grande Barreira, um grupo enorme de raias-cor-de-rosa (Himantura fai) descansava no fundo, umas por cima das outras. Praticamente ao lado, um tubarão-viola-gigante (Rhinobatos tipus) também descansava, camuflado na areia branca do fundo. Só tê-los vistos já era uma emoção incrível, mas aí continuando o snorkel a gente acha… mais um monte de raias-de-cauda-plumosa (Pastnachus sephen). Era uma festa de raias tão grande a uma profundidade de menos de 1 metro que a vontade era nunca mais sair dali!


Tubarão-viola-gigante.

Julho é época das baleias jubarte, e embora elas não sejam tão fáceis de ver como em Maui, de vez em quando um respiro aparecia perto da barreira de corais, para lembrarmos de sua presença.


Fim de tarde, ainda na água.

Aliás, mergulhar em Heron Island é um sonho total. Só de saber que você está ali, no meio de um patrimônio mundial natural da UNESCO, já é de dar arrepios. Mas aí quando você cai na água com seu cilindro, e vê a qualidade e a saúde do recife de coral ao redor… de entrar em delírio completo! A operação de mergulho em Heron é bastante organizada, e eles saem 3 vezes por dia em pontos ao redor da ilha. As distâncias são pequenas, nada fica a mais de 20 minutos de barco. Embora fosse inverno e a água estivesse um pouco mais fria que o normal, ainda assim foi totalmente possível para mim, friorenta, aproveitar os mergulhos.


No Heron Bommie, praticamente deitada no fundo com o dive master, vendo um camarãozinho. Reparem no tamanho deste cabeço de coral!! Ah, a Grande Barreira… <3

E, dos points que visitei, o Heron Bommie foi o mais espetacular de todos. Vi ali pela primeira vez um cardume de peixes-unicórnio! Tartarugas eram tantas que já viravam rotina: “mas outra tartaruga?” A gente nem se importava mais tanto com elas. A biodiversidade impressionante naquele cenário inacreditável super-saudável… ah, paraíso!


Quantas tartarugas você vê na foto?

Para corroborar a definição de paraíso, o amanhecer e o entardecer em Heron paradisíacos também eram espetaculares, cada um deles mais impressionante que o outro. Aliás, a cada dia estava mais difícil escolher: o pôr-do-sol ou o nascer do sol eram mais lindos? Nestes momentos críticos de luminosidade, parecia que o recife de coral ali, da beiradinha da água se transformava, e ficava ainda mais misterioso e maravilhoso. Uma tarde, íamos para o píer ver os tubarões-galha preta (Carcharhinus melanopterus); outra tarde, fazíamos caminhada – e snorkel – até o naufrágio; numa outra, passeávamos pela praia do Gantry, onde uma estrutura de madeira erguida dentro d’água forma a moldura perfeita para ser instagramada.


O que é mais lindo: um amanhecer com arco-íris…


…ou um entardecer em que o horizonte parece pegar fogo? Escolha difícil…

Depois que o sol se punha, dourando poeticamente tudo ao redor, o bar do resort se animava, com música ao vivo. A comida era simples, mas honesta, e preferimos diversas noites jantar pelo bar ao invés de irmos comer no restaurante.


Snorkel no píer.

E os dias se passaram assim, ao sabor da maré, com muita água, sal e sol. Nada a ser feito, e um mar inteiro à nossa frente.

Ficamos apenas uma semana em Heron Island, mas se pudéssemos, teríamos ficado muito mais. Na hora de ir embora, não contive as lágrimas – os melhores dias deste ano de 2015 foram passados ali, desconectada da realidade do mundo, submersa na realidade da vida marinha. Enquanto o barco partia e Heron virava uma linha no horizonte, parafraseei Tina Turner em meu caderninho de viagens:

“Paradise is Here. Paradise is Heron.”

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • Heron Island é um destino perfeito para crianças. Vimos inúmeras famílias durante nossa estadia. A facilidade de acesso a inúmeras espécies de corais e afins, além da competência dos guias, torna a estadia em Heron uma grande aula de biologia, conservação e ecologia ao ar livre. E como as praias são todas mansinhas, os pais podem ficar tranquilos na areia descansando…
  • Todos os dias, no café da manhã, eles publicam o “Heron Times”, um panfletinho com as dicas do dia, horários de maré, condições climáticas etc. Não deixe de dar uma olhada, para não resolver fazer snorkel na hora errada, da maré super-baixa.
  • Dá para chegar e/ou sair de Heron de seaplane. A passagem custa caro, mas a vista aérea… deve ser de tirar o fôlego!
  • Há um caixa eletrônico apenas na ilha. Como a internet é capenguíssima e só funciona perto da recepção, cartões de crédito são uma dificuldade para se conectarem também. A melhor solução é dinheiro vivo, ou acumular todas as despesas para pagar tudo de uma vez no final – é o que a maioria faz.
  • A lojinha do resort tem alguns artigos de primeira necessidade, mas não conte com ela. Leve absolutamente tudo que precisa para lá, principalmente remédios, para não ficar na mão.
  • Se você olhar no TripAdvisor, as resenhas sobre Heron são estilo “ame ou odeie”. Acho que é uma questão de expectativa: se você vai para lá esperando todas as benesses de um resort de luxo, funcionários a mercê das suas vontades mais esdrúxulas, vai se decepcionar. (A equipe do resort te deixa à vontade, sem muitos paparicos.) Mas se luxo para você é estar hospedado dentro da Grande Barreira de Corais, com acesso facílimo a todas as maravilhas que ela tem, então você vai amar. 🙂
  • As décadas de preservação fazem de Heron Island um local perfeito para monitorar a acidificação dos corais causada pelas mudanças climáticas. Os visitantes têm a oportunidade de ouvir e discutir sobre alguns dos estudos feitos ali, cujos resultados são alarmantes (pra variar…).
Postado em 06/09/2015 por em Austrália, Corais, Ilhas
  • denise rangel

    Uau! De tirar o fôlego! Fascinante mesmo. Viajei com você!
    Beijo, menina

  • Tô indo pra Austrália em janeiro, se a alta temporada deixar ($$$) vou encaixar no roteiro junto com a Fraser Island!

    • Ah, Paulo! Não deixe mesmo de ir! Essa ilha é muito relax!! Mas não espere nada muito luxo – a coisa é simples, mas a natureza… afe! De tirar o fôlego 10 vezes!