Serei sincera: a princípio, não gostei de Melbourne.

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Estive lá no final de junho por 10 dias, para um workshop sobre “Exercício, síndrome metabólica e diabetes”, organizado em conjunto pela americana East Carolina University e a australiana Victoria University, e com visitas de campo em Sydney e Canberra. No workshop, alguns dos mais respeitados cientistas do exercício da atualidade. Foi sensacional, as discussões extremamente fascinantes, e saí de lá tendo aprendido muito sobre uma faceta dos meus estudos metabólicos a qual conhecia pouquíssimo.

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Entretanto, mesmo com a companhia agradável de pessoas super-bacanas tão ligadas ao exercício em Melbourne, foi difícil tirar a primeira impressão negativa da cidade.

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Frio. Andar na praia, só encasacado.

Talvez tenha sido o frio que nos recepcionara de maneira tão cortante. Era inverno e a temperatura ficou próxima de zero na maior parte da nossa estadia – um frio com vento atípico, de acordo com o que todos diziam. Eu não gosto de frio, e andar nestas condições, cheia de cachecóis e meias, me drena demais.

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Compostagem gratuita nas ruas de Melbourne: solução criativa de sustentabilidade.

Talvez fosse o fato de que cada vez que algum morador de Melbourne vinha conversar com nosso grupo de pesquisadores estrangeiros, a primeira coisa que mencionavam era que Melbourne havia sido eleita a cidade com melhor qualidade de vida para se viver do mundo – pela quinta vez seguida. E ficávamos todos os estrangeiros, experientes de tantas outras urbes pelo mundo, com aquela cara de interrogação, já que não conseguíamos ver ali muitas das características enaltecidas nos artigos. Claro, um ranking destes vai muito além do que um simples turista de 10 dias pode perceber; contam-se número de médicos per capita, de assassinatos, quantidade e diversidade das atividades culturais, qualidade do transporte público (que, aliás, é gratuito por toda a área central de Melbourne), além de muitos outras características que só morando podemos vivenciar. Mas mesmo assim, a cidade parecia escondida da gente: “como pode ser considerada uma cidade com qualidade de vida onde os restaurantes fecham às 10 da noite?” “E sem transporte público 24hrs non-stop?” “Cadê as ciclovias bem sinalizadas?” Tsc-tsc, e coçávamos a cabeça sem entendê-la.

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Prédio da Victoria University, onde aconteceu o workshop.

Ou talvez minha decepção como caloura de Melbourne tenha sido devido à grande expectativa que acumulei depois de assistir “The Human Scale”, documentário urbanístico sensacional. Este filme conta, em um de seus capítulos, como Melbourne foi “reinventada” por um grupo de urbanistas exclusivamente para o bem-estar de seus habitantes. Principalmente, como as pequenas vielas imundas e perigosas se transformaram no coração da cidade, pulsantes de cultura, entretenimento e vida. (Parênteses: não canso de recomendar este filme, “The Human Scale”. Já o fiz em outro post sobre Christchurch, e reafirmo – dos melhores filmes sobre humanidade em ambientes urbanos já feitos.) 

Por causa do filme, fui para Melbourne esperando encontrar a realização de uma utopia urbanística escancarada a cada centímetro de calçada. E este, meus caros, foi meu grande erro.

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Melbourne típica: grafite em ruazinha escura.

Porque Melbourne não é escancarada em nada. É dessas cidades que você precisa “lutar” para descobrir. Não é uma cidade que te arrebata, nem se apresenta de dia e te ajuda a atravessar a rua – é uma cidade que se esconde, que te ignora a princípio. Cabe a você, turista limitado, trabalhar durante sua curta estadia para decifrá-la em seus enigmas perdidos a cada viela pelas madrugadas da cidade. E 10 dias super-carregados em workshop talvez não tenham sido suficientes para tal.

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Viajando com um grupo de millenials, hospedei-me num albergue da juventude na região perto da maior estação de Melbourne, a Southern Cross, de onde o acesso a muitas das atrações tradicionais dos guias era fácil – e nas que não eram, o transporte público é eficaz. Fui, a priori, fazendo o básico, aquilo que – dizem – faz de Melbourne uma cidade fundamental da Austrália.

Fui à pé para o Melbourne Sea Life Aquarium (que achei okzinho).

Passeei pelo Southbank, às margens do rio Yarra, e jantei 2 vezes em restaurantes muito bons daquela região (apesar do preço meio salgado).

Subi com a moçada do workshop no Eureka Skydeck, a torre de Melbourne, para ver a cidade de cima ao entardecer, quase morrer de pânico no Edge Experience, e tirar fotos jeca simulando queda.

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Fotos jeca de viagem: trabalhamos.

Visitei a Catedral de St. Paul e andei pelo Chinatown. Comi comidas de rua com temperos africanos em Footscray. Tomei café da manhã cada dia em um novo café moderninho nos entornos da Flinders Lane. (Meu predileto foi sem dúvida o Filter by Small Batch, no CBD.)

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Filter by Small Batch, um must para cafeinômanos.

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“Chloe”, a personagem que, nua, a todos ignora. Como Melbourne.

Vi a famosa pintura “Chloe”, de Jules Lefebre, ícone de Melbourne exposta no bar do Hotel Young & Jackson, cuja fascinante história de criação ouvi de um dos nossos colegas de workshop enquanto tomava uma das muitas craft beers locais.

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Craft beer no pub.

Vi um jogo de footie australiano na TV, cujas regras acho que jamais entenderei. Jantei em casa de amigos feitos no curso (thanks, Andy and Steve!), comendo carne de canguru, bebendo um dos muitos bons vinhos tintos do estado de Victoria e olhando pela varanda a micada roda gigante de Melbourne.

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Igreja em St. Kilda.

Passei por St. Kilda no caminho da ilha de Phillips, para  assitir à “Parada dos Pingüins”, uma atração ao entardecer em que se esperam os pingüins-pequenos (Eudyptula minor), a menor espécie do mundo desta ave, voltarem do seu dia de pesca em alto-mar. A colônia ali contém alguns milhares de pingüins – mas eles detestam iluminação, e por isso é terminantemente proibido fotografá-los à noite.

Mas, apesar de visitar estes pontos, parecia que a cidade não se revelava, apenas me ignorava.

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Canguru: mais cara de Austrália tradicional, não tem.

Foi aí que me deu um estalo. E, ao invés de dedicar meu tempo ao turismo convencional dos guias de viagem, com parques, atrações e afins, decidi passar os últimos dias em Melbourne perambulando sem rumo certo por diversas vielas e ruelas coloridas, que se tornaram marca registrada de Melbourne, e que a transformaram no caso acadêmico de urbanismo que deu certo que tanto vi no filme – que ironia, o filme já dizia isso, e até então eu apenas não tinha captado o espírito da coisa. Porque nestas vielas florescem inúmeros bares, restaurantes e cafés, que à noite desabrocham. E, se tem algo que você não pode deixar de aproveitar em Melbourne, é conhecer pelo menos um dentre as centenas de opções de rooftop bars – e foi ali, misturada aos moradores da cidade, no alto de um prédio entre música, drinks e hipsters, que senti Melbourne finalmente começando a se desvendar para mim. Onde finalmente encontrei a vibrante cidade que se escondia a todo custo, vívida, cheia de cores e animação. A cidade com vida bem-vivida. Pena que, quando esta descoberta aconteceu, faltavam poucos dias para que eu fosse embora.

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Um dos vários Rooftop Bars de Melbourne.

E fiquei pensando: santa minha ingenuidade, Bátima! Uma cidade é um conceito tão amplo, e o conceito que o turista formula em alguns dias tão… restrito. Viajante experiente de tantas décadas, foi fascinante ao final da estadia perceber o quão ludibriada fui, avaliando a cidade com a minha perspectiva tão filtrada, tão unilateral, tão turista, tão… diurna.

Melbourne é uma gema preciosa da Austrália – em estado bruto, ainda dentro da mina escura. Você, joalheiro turista, vai lapidando a cidade em cada café, a cada grafite na parede. Ao fim, termina contemplando uma jóia estilosa, cheia de intricados detalhes e muitas escadarias, exposta no mais novo rooftop bar da cidade em noite de lua cheia. É ali, no meio da noite, que Melbourne está, sorrindo e te esperando para mais uma rodada de cocktails e papos alternativos, para te contar com coração aberto e relaxado qual a boa da vez. Melbourne pulsa e não te escapa.

Cheers!

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Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

    • Não recomendo fazer o passeio para ver os pingüins na Phillip Island. Apesar de soar interessante para crianças, a forma como é gerenciada, com mais de 1000 pessoas sentadas numa arena na praia falando sem parar é totalmente o oposto do que se espera numa atividade com animais em seu habitat natural. Acostumada que sou com passeios assim, de encontro com animais selvagens, achei este particularmente uma roubada sem fim. Entretanto, os pacotes para ver os pingüins costumam incluir uma passagem pela Seal Rocks e pela “Pirâmide”, ambos pontos muito bacanas desta ilha. O passeio valeu a pena por estas duas paradas, IMHO.

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Programa roubada: ver os pingüins.

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Seal Rocks: trilha bem bacaninha.

    • Cada pessoa que conheci em Melbourne, independente da idade e identidade cultural, tinha o seu rooftop bar predileto. Parecia aos meus olhos algo como time de futebol para os brasileiros: você sempre tem o seu de coração. Há rooftop bar para todos os gostos e sons, cada um com sua peculiaridade e ambience. Sugiro fortemente começar sua visita a Melbourne com um pub crawling, para descobrir algum com o qual você se identifique. Uma boa lista você encontra neste link. Meu favorito dentre os que visitei foi o Ferdydurke, na Tattersalls Lane.

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Não gosto de fotografar comida, mas registrei essa entrada de dips no restaurante grego, com o intuito de nunca mais esquecê-la.

  • Comida grega: por conta do grande influxo de gregos na região de Victoria, Melbourne tem alguns dos melhores restaurantes do mundo de comida grega fora da Grécia, perto da Lonsdale St. Fui com uma amiga jantar no Dion, onde fomos servidas pelo super-simpático proprietário e presidente da Associação de Businesses do Greek Precinct, Ignatios Karasavvidis. Ali, saboreei a melhor entrada de patês e dips que já comi na vida. De dar água na boca só de lembrar.
  • Todas as fotos deste post foram tiradas com a câmera do celular, repletas de filtros e outras artimanhas digitais com que adoro brincar.
  • Marina Vidigal Brandileone

    Que delícia de post! Adorei suas descrições, e o fato da cidade se revelar um lugares menos esperados. Tbm não vejo a hora de testar as comidinhas e roof top bars.

    Beijos

    • Oi Marina, não deixe de ir em MUITOS rooftop bars! Cada um deles tem um estilo e um público diferente. É muito legal ver esta diversidade!!

  • aiaiai

    amiga, vc é um perigo para a minha lista de lugares que quero ir. nem nunca tinha pensado e melbourne. e agora tá lá na lista. 🙂

  • Pingback: Cidades Incríveis: Melbourne - a melhor cidade do mundo para se viver fica na Austrália » Segredos de Viagem()

  • Claudia

    Engraçado que a minha impressão de Melbourne foi diferente… Desde o primeiro dia, senti que seria um lugar que eu moraria fácil!! Não sei se era deslumbramento de pessoa pouco viajada para o exterior, porque em 2010, a Austrália foi o meu primeiro destino não-EUA da vida. O clima cosmopolita, pessoas de diversas origens, turbantes orientais, ouvir muitas línguas diferentes nas ruas, ver restaurantes com menus em linguas ininteligíveis, árvores e animais tão diferentes do que eu já tinha visto, tudo isso marcou profundamente minha alma viajante e só aumentou minha sede de ver e viver coisas diferentes!! Estou morando na California atualmente mas ainda alimento o sonho de morar na Austrália por um tempo, e Melbourne é um candidato forte no meu coração!!

    • Olá Claudia, eu no final das contas gostei de Melbourne, mas realmente não foi logo de cara… e acho que tb não tive sorte, porque fui no inverno e a temperatura congelante era bem atípica, de acordo com os próprios moradores. Morar na Austrália deve ser demais!!!!! Espero que realize seu sonho! <3 Aloha!

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