É Flórida
Miami Beach: fadada ao desaparecimento.

Em abril, assisti aqui na Universidade do Havaí a uma palestra de Jeremy Jackson, um ecólogo marinho e professor do Instituto Scripps de Oceanografia, na Califórnia. A palestra se chamava “Ocean Apocalypse Now”, uma espécie de “Aumento do nível dos Oceanos para Dummies” com diversos conceitos básicos do tema explicados. Esta palestra foi ministrada de maneira clara e sucinta, com dados, gráficos e mapas num simpósio científico, portanto, a uma platéia basicamente constituída de biólogos, oceanógrafos e afins – ou seja, pessoas que não discutem mais SE mudanças climáticas ocorrerão, e sim QUANDO e COMO mitigaremos os problemas decorrentes disso. (Como se diz em inglês: preaching to the converted.)

Mas Jackson também ministra esta mesma palestra para diversas outras platéias, e na internet você pode vê-la praticamente na íntegra ministrada para um segmento das Forças Armadas americanas – porque, afinal, mudanças climáticas gerarão diversos problemas na segurança nacional dos países. Assistam à palestra (em inglês, infelizmente sem legendas em português).

Enfim, dos números e inúmeros comentários que Jackson fez, uma observação me chamou imensa atenção: o quão cristalina é a previsão – quase uma certeza – que a Flórida é talvez a área dos EUA (e talvez do mundo) mais condenada a sofrer impactos catastróficos com a elevação do nível dos mares, por conta da densidade de pessoas que ali moram e da economia forte que ali existe. Tanto que, respondendo a uma das perguntas sobre o que fazer com Miami ao final da palestra do link acima, ele diz:

“Miami is hopeless, we should only abandon it.”

Vários razões existem para essa certeza de que Miami está no sal, literalmente. Uma das principais é o fato da cidade estar em área muito baixa (altura máxima: 3m), onde poucos metros de aumento do nível do mar já inundam boa parte – as projeções mais conservadoras falam em uma média de 1m de elevação, o que já inundaria 94% de Miami Beach (veja como Miami viraria uma Veneza aqui). Além disso, a geologia não colabora: boa parte do sul da Flórida está sobre terreno calcário, que se dissolve à medida que a água infiltra. Intrusão de água salgada nos reservatórios de água doce na Flórida já é uma realidade, assim como o aparecimento de sink holes, que nada mais são que o terreno calcário cedendo pela penetração de água. Fora, claro, a complexa política conservadora no estado, onde é oficialmente proibido mencionar o termo “mudanças climáticas”.

Neste cenário que muitos consideram apocalíptico – mas que os cientistas entendem apenas como realista – me pego pensando no impacto desta realidade… para o Brasil.

A Flórida sempre foi um destino sólido de viagem dos brasileiros. Nos últimos anos, porém, muitos brasileiros e brasileiras desiludidos com a situação política e/ou econômica do país buscaram – e ainda buscam – refúgio na Flórida não só nas férias, mas como residência permanente ou semi-permanente.

Os altos investimentos dos brasileiros e outros sul-americanos, principalmente em Miami, refletem em minha opinião a falta de conhecimento disseminado e eficaz sobre mudanças climáticas na sociedade em geral. Exemplo: este artigo da Exame. Após explicar tintim por tintim como investir em um imóvel em Miami, ele cita láááá no final um dos pontos negativos do investimento: risco de catástrofes naturais. Tive vontade de chorar quando vi o quão amenizado este problema é no artigo…

Porque o problema é que, à medida que continuamos colocando CO2 na atmosfera, isto é cada vez mais uma realidade futura próxima – no caso de intrusão de água salgada, realidade presente – e menos um “risco”. Outro problema que o artigo não comenta, e que Jackson comenta na sua palestra, é que o seguro dos imóveis é coberto pelo governo estadual da Flórida – porque nem as empresas seguradoras particulares fazem mais apólices de seguro para imóveis ali. Porque estas empresas sabem que perderão muito dinheiro num futuro próximo. (E o governo da Flórida não tem dinheiro suficiente para cobrir todo os imóveis segurados, os trilhões de dólares em perdas, no evento de um furacão categoria 3 combinado ao aumento do nível do mar.)

Ou seja, os brasileiros estão investindo apenas no curto prazocom hipotecas que são ironicamente pagas em até 30 anos – quando Miami estará provavelmente sendo inundada. Se você investe sabendo disso, beleza, problema seu – a questão é que, me parece pelas conversas que a gente ouve pelas internets da vida, que a maioria está investindo sem saber das consequências. (E fico imaginando a quantidade de gente mais ambientalmente antenada que está feliz em se livrar de seus imóveis na Flórida a preços exorbitantes…) As consequências desta abordagem investidora de curto prazo podem ser também catastróficas para a economia, tanto americana quanto brasileira.

Confesso que tendo a concordar com o que sarcasticamente disse Jeff Goodell neste artigo:

“If you live in South Florida and you’re not building a boat, you’re not facing reality.”

Mas, penso além, no quanto este tipo de decisão financeira reflete a clara falta de conhecimento sobre a nossa realidade ambiental. Será que estas pessoas entendem que deixarão a seus filhos imóveis de valor irrisório? Que estes mesmos filhos não poderão mais passear no Everglades em poucas décadas? Que boa parte da infra-estrutura do estado da Flórida estará bastante comprometida por conta dos efeitos que as mudanças climáticas terão, tornando um pesadelo morar ali? Que na Flórida estão boa parte dos futuros refugiados do clima que os EUA terá – e não vem sendo discutidos planos realistas de evacuação destas pessoas dali? Não estamos falando de séculos, mas de décadas – se você tem um filho criança, por exemplo, é muito provável que ele, ao chegar a sua idade, estará a mercê de todas estas novas condições. Não foi coincidência que Obama fez seu discurso ambiental no Dia da Terra direto do Everglades, já que este é um dos parques mais ameaçados do país – e do regime de fluxo de água dele dependem a sobrevivência de muitas milhões de pessoas no sul da Flórida.

E a Disney? Atração número 1 da Flórida pros brasileiros, a Disney tem se mostrado empenhada em melhorar suas atitudes ambientais. Por estar um pouco mais pra dentro do estado, a cidade de Orlando, apesar do desenvolvimento enorme que teve nas últimas décadas, ainda é considerada “segura”. O problema, de novo, é a questão da infra-estrutura: como a cidade se adaptará aos novos desafios que as mudanças climáticas trarão, como lidará com cada vez mais intrusão de água salgada em seus reservatórios de água doce, como se precavirá de furacões cada vez mais fortes em intensidade. Mais: sendo Orlando tão dependente do turismo, o quanto estas questões relacionadas às mudanças climáticas afetarão o número de turistas na região, e em última instância, a economia local.

Não temos respostas para estas perguntas, mas tem muita gente competente se dedicando a respondê-las. Se houver vontade política e força econômica e social, pode ser que o cenário não seja tão apocalíptico. Mas, dada a precariedade de ações com que as lideranças mundiais têm atuado sobre as mudanças climáticas e a resistência que a maior parte da sociedade possui a mudanças de hábito que não danifiquem o ambiente , um futuro ambientalmente estável pode ser uma visão bem poliana, para não dizer uma utopia.

Fica aí minha reflexão.

Tudo de bom (quase) sempre.

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Para viajar mais:

  • Para os curiosos: você pode simular os efeitos da elevação do nível dos mares (quantos metros quiser…) em sua cidade favorita, usando o #DrownYourTown, um passo a passo para fazê-lo no Google Earth. Depois de inundar a cidade, você pode enviar para o tumblr deles, para que fique arquivado.
  • Jeremy Jackson tem uma palestra boa no TEDTalks sobre a destruição dos oceanos. Dá para assistir com legendas em português.
  • O incrível Alexandre tem um post em seu blog em que comenta sobre como ficariam as cidades de Salvador, Recife e Rio de Janeiro com uma elevação de 6m e 13m no nível dos mares. Lembrando que este aumento é uma previsão bem provável de acontecer se continuarmos não fazendo muito pelo ambiente.
  • Um bom artigo do Guardian sobre como Miami está se afogando.
  • João Carlos da Cunha Lima

    A Flórida certamente vai ter um impacto econômico enorme, mas o maior impacto humano vai ser em Bangladesh (não que alguns milhões de pobres que não falam inglês venham ao caso…) 🙁

  • Marcus Nascimento

    Aqui no nordeste brasileiro já vivemos isso na prática. A rua onde meu pai viveu na ilha de itaparica já “jaz” no fundo do mar.
    Recife e Fortaleza já possuem condomínios cada vez mais ameaçados pelo mar subindo.