Os pinheiros de Lanai.

Em janeiro passado, estive pela primeira vez na ilha de Lāna’i*, vizinha de Maui. Comentei antes sobre o aspecto que mais me interessa nela – seu compromisso com a sustentabilidade futura. E sobre o fato de ser 99% privada, e seu dono ser o bilionário Larry Ellison. Lanai é também uma ilha de paisagem curiosa, bastante seca, com predominância de pinheiros (na verdade, um tipo de araucária), trazidos da ilha de Norfolk no sul do Pacífico no início do século XIX. Com estes aspectos curiosos, Lanai entra na lista como um Havaí beeeeem diferente a ser visitado. Para complementar os roteiros “do-it-yourself” que já tenho no blog (Oahu, Maui, Kauai e Big Island), aproveito e deixo aqui minhas dicas em um roteiro de DOIS DIAS EM LANAI. Esse tempo é suficiente para você explorar boa parte da pequena, curiosa, exclusiva e lindíssima ilha. Vamos lá.


Maquete de Lanai, destacando o relevo da ilha. Esta maquete encontra-se no Lanai Culture and Heritage Center, em Lanai City.

LANAI – CHEGADA E ACOMODAÇÕES

Antes de mais nada, preciso alertar: o ritmo de Lanai é devagar-quase-parando, então não espere nenhuma agitação ou vida noturna. Ou seja, Lanai é perfeita para o relaxamento total e a desconexão completa do resto da humanidade. Se você quer descansar de verdade, esta é a sua ilha. Lanai também não tem muitas opções para a maioria das coisas turísticas, o que a torna mais cara que as demais ilhas havaianas. Só há um supermercado na ilha, mesmo assim pequeno; um hospital, uma escola. São ~3000 habitantes, vocês esperariam o quê? 🙂

Há apenas um aeroporto, a 5-10 minutos de carro de Lanai City. As empresas aéreas que voam para lá são a ‘Ohana (subsidiária da Hawaiian Airlines), a Island Air (de Larry Ellison, o “dono da ilha”) e a Mokulele Airlines. Não espere aviões imensos indo para Lanai: são todos de hélice ou minúsculos, porque a pista de pouso não comporta receber aviões maiores.


Píer de onde sai o ferry para Maui.

Outra possibilidade para chegar em Lanai: de ferry, saindo do píer de Lahaina, em Maui. São 5 horários por dia, de ida e volta. A passagem para cada trecho custa US$30.00 (adultos) e US$20.00 (crianças). O porto de onde sai/chega o ferry em Lanai fica super-perto de Hulopoe Beach (dá pra ir à pé), o que torna o ferry uma opção conveniente de passar um dia só na ilha para quem estiver visitando Maui. Entretanto, para ir do porto até Lanai City, você precisará de carro, que precisa ser reservado com antecedência. O shuttle do Fours Seasons também passa por lá, mas só atende aos clientes do hotel. Eu peguei o ferry no sentido Lanai-Maui, e adorei a travessia. Vimos diversas baleias durante o trajeto, e a paisagem da costa desértica de Lanai é simplesmente incrível. Recomendo.


Costa de Lanai vista do ferry.

É curioso notar que Lanai atrai em geral dois tipos de turista que são opostos ao extremo: apreciadores de alto luxo e aventureiros backpackers. Isso acontece porque as opções de hospedagem na ilha são limitadas a:

– dois hotéis Four Seasons, o Manele Bay e o The Lodge at Koele (os de Lanai estão entre os mais luxuosos da rede no mundo) a preços acima de US$500.00 por noite;

– um hotel/pousada em Lanai City, o Hotel Lanai, com pouquíssimos quartos e uma atmosfera interessantíssima de hospedagem do interior, de preço salgado para o serviço oferecido (quartos de US$149.00 a US$229.00/noite). O Hotel Lanai, por ser o único mais em conta na ilha e pequeno, costuma estar sempre lotado, exigindo que se faça reserva com (muita) antecedência. É onde as pessoas que moram nas demais ilhas havaianas costumam ficar quando vão a Lanai a negócios ou passeio de fim de semana;


Hotel Lanai, em Lanai City.

– uma ótima área de acampamento na praia de Hulopoe, que requer licença para acampamento, e custa US$30.00 a licença, + US$ 15.00/noite/pessoa. Reserva por telefone: +1(808) 215-1107.


Área de camping da praia de Hulopoe.

Se você for ficar mais de um dia na ilha, e quiser conhecer praias além de Hulopoe, precisará alugar um jipe – único tipo de carro que alugam em Lanai. A única locadora é a Dollar Lanai, e custa US$139.00 por dia de aluguel. A razão de se alugar apenas jipes é simples: a maior parte das estradas são de terra. A não ser que você se hospede no Four Seasons e só queira ficar dentro do hotel – ou no máximo, visitar o outro Four Seasons – você precisará de um carro para se deslocar. Se chover, as estradas de terra ficam intransitáveis, e você ficará limitado aos pontos onde a estrada de asfalto chega.

Em amarelo pontilhado: estradas de terra. 

Lanai City, a única cidade da ilha, é praticamente um vilarejo perdido no tempo. Está a 520m de altitude, no centro de Lanai, e o clima ali costuma ser ~10 graus a menos em relação ao litoral da ilha. Excetuando o cume dos vulcões (Haleakala, Mauna Kea e Mauna Loa), é comum a temperatura mais baixa do estado do Havaí ser registrada em Lanai City durante as previsões meteorológicas na TV. Portanto, um agasalho é uma boa pedida.


Nem parece que você está no Havaí, né?

LANAI – DIA 1

Você chegou em Lanai de manhãzinha, alugou seu carro. Sugiro começar pegando a highway em direção ao sul, para Hulopoe Beach e adjacências, onde fica o Four Seasons Manele Bay. A praia tem uma estrutura ótima, com diversas mesas de piquenique, área para camping, e dois banheiros públicos limpíssimos – mantidos pelo Four Seasons, daí vocês imaginam. Há uma barraca para aluguel de caiaques, SUPs e equipamento de snorkel, mas você precisa estar hospedado no Manele Bay para alugar. Dica: leve seu equipamento de snorkel. Motivo: a praia é onde os golfinhos rotadores gostam de descansar pelas manhãs, e eles chegam super-perto da arrebentação. Com um snorkel, você poderá apreciar inúmeros deles nadando ao seu redor. A área é protegida por lei, os peixes são típicos do Havaí, muito coloridos, e é proibido incomodar os golfinhos.


Sweetheart Rock, ao entardecer.

Aproveite também para explorar os arredores de Hulopoe. No canto esquerdo da praia, há inúmeras piscinas de maré, ideais para crianças, e uma rápida trilha que leva à paisagem mais conhecida de Lana’i: a Sweetheart Rock, ou Pu’u Pehe. Há uma lenda havaiana triste que conta como esta pedra se originou – basicamente uma história de amor na linha Romeu & Julieta: o guerreiro Makakehau se apaixonou por uma moça de Lahaina chamada Pehe, a levou para Lanai e aprisionou numa caverna, e um dia, depois de uma tempestade, descobriu que sua amada tinha morrido afogada na caverna inundada. O guerreiro pegou então seu corpo e enterrou onde hoje está a Sweetheart Rock, e depois ele mesmo se joga do penhasco. Diz a lenda que a rocha é seu corpo, que se transformou em pedra.

Apesar da história triste, a pedra e a praia em frente a ela são lindíssimas, entre as mais lindas do Havaí. Para chegar na praia, você deve esperar a maré baixa, porque se vai pelas piscinas de maré. Ou descer por um buraco na rocha, bastante íngreme e desaconselhado para quem não curte trechos hardcore.


Piscinas de maré de Hulopoe.

O almoço pode ser em um dos restaurantes do Four Seasons Manele Bay – todos excelentes, mas com preços salgadíssimos, é claro. O mais renomado é o Nobu Lanai, de comida japonesa. Outra opção é você dirigir até Lanai City e comer em um dos restaurantes caseiros da praça central. A praça central é facílima de ser reconhecida: é a que tem uma série de pinheiros enormes, de troncos avantajados, ao redor. Quando estivemos lá, almoçamos no Canoe’s, supostamente o melhor hambúrguer da cidade; foi bom, mas nada excepcional. Outra opção que me pareceu interessante foi o Blue Ginger Café.

À tarde, pegue a estrada pro norte, em direção a Shipwreck Beach. A sinalização para a praia é precária, mas quando a estrada de asfalto acabar e você vir uma estrada de terra saindo dela, é ali que você entra à esquerda. O nome da praia diz tudo: há nela um navio cargueiro enorme que naufragou na barreira do recife de coral. O navio está bastante enferrujado, e a ferragem fica no mar a poucos metros de distância da praia. A praia de Shipwreck é mansinha, com bastante alga crescendo nas rochas, o que há torna atrativa para as tartarugas marinhas, que vêm se alimentar com frequência ali. No dia que fomos, vimos pelo menos meia dúzia delas. Depois de curtir Shipwreck, se a estrada permitir, uma opção é voltar e continuar pela estrada de terra em direção a Naha. É uma longa estrada, e a qualidade da terra pode complicar as coisas. No caminho, dá pra ver alguns dos sistemas de aquacultura havaiana tradicionais que são mantidos na ilha. A paisagem vale a pena. Para voltar pra cidade, só tem um jeito: meia-volta e dirigir tudo de novo.

Para happy hour e jantar, se não quiser gastar muito, sugiro o Lanai City Grille, restaurante do Hotel Lanai, reconhecido por seu venison, que é carne de caça. Mas atenção: o restaurante fecha cedo, às 9pm. E só abre de quarta a domingo. Outra opção é o Pele’s Other Garden, um pequeno bistrô italiano no centro da cidade, que funciona de segunda a sábado.


Típica lotação da praia em Lanai.

LANAI – DIA 2

Que tal começar o dia com uma caminhada pela Munro Trail? A Munro trail é uma estrada antiga, histórica, hoje com um grande trecho fechado aos carros, que fica ao redor de um vale de floresta tropical/sub-tropical super-verde em Lanai. A saída para a Munro Trail fica depois do Four Seasons The Lodge, em Lanai City. A caminhada é de aproximadamente 5 milhas, com apenas um trecho bem íngreme, e leva em torno de 3 horas, se seu condicionamento físico é bom. Minha sugestão: procure a Hike Lanai para fazer a atividade.

Para almoçar, as opções são as mesmas do dia 1: explorar os pequenos restaurantes da praça central de Lanai.

Dois dias em Lanai

À tarde, se a estrada permitir, vá conhecer o Jardim dos Deuses, ou Garden of Gods, ou Keahi a kawelo. Basicamente é um jardim rochoso, uma área de erosão, que o tempo e o vento se encarregam de esculpir diaria e continuamente. Para chegar lá, pegue  a estrada que sai do Four Seasons The Lodge, ao lado dos estábulos, e siga em frente. O Garden of Gods fica a pouco menos de 1 hora de Lanai City, mas a estrada até lá é pauleira, e se chover também fica inacessível. As pedras esculpidas formam uma paisagem bastante lunar. É também possível fazer caminhadas guiadas pela região. A estrada que leva ao Garden of Gods vai até Polihua Beach, por muitos considerada a praia mais linda da ilha. O mar costuma ser bravo, portanto desaconselhável nadar nela se no dia o swell estiver batendo forte. Polihua é praticamente deserta o tempo todo, e ideal para um passeio romântico-aventureiro (chegar até ela é a parte aventura da história).

À noite, aproveite seus últimos momentos e se esbanje no Dining Room do Four Seasons The Lodge. A comida é excelente, no conceito farm-to-table, com o máximo de ingredientes frescos e/ou locais.


Jardins do Four Seasons The Lodge.

ALTERNATIVAS

Os apaixonados por praia talvez queiram voltar a Hulopoe Beach diversas vezes durante sua estadia. A área realmente merece quantas visitas forem necessárias. A praia é linda, os arredores maravilhosos e a possiblidade quase certeira de ver golfinhos de manhã cedinho é imperdível. Nos dias em que estivemos lá, fomos duas manhãs seguidas para Hulopoe. Não me arrependi em nada, pelo contrário: pretendemos voltar e ficar acampados ali um dia, para não perder um segundo da ação dos golfinhos. 🙂


No Lanai Culture and Heritage Center.

Outra opção, caso a estrada de terra esteja fechada, é aproveitar e explorar Lanai City. A cidade é muito peculiar, um Havaí que parou no tempo. Uma delícia. Aos interessados em história da ilha, aconselho a visita ao pequeno, simpático e ajeitado Lanai Culture and Heritage Center, que conta toda a história da ilha, desde sua formação geológica até os dias atuais do “reinado” de Larry Ellison, passando pelo período em que foi chamada “Pineapple Island” por ser uma das maiores produtoras de abacaxi do mundo – 3/4 do terreno arável de Lanai eram plantação de abacaxi. Em menos de meia hora, você vê todo o museu, que é bem pequenininho. Eu adorei, achei o museu aconchegante e o guia que estava naquele momento era super-interessado, explicou todas as dúvidas que tínhamos com a maior boa vontade. O Lanai Culture and Heritage Center fecha aos domingos.


Dentro do Lanai Culture and Heritage Center.

Para quem quer mergulhar com cilindro: a única operadora de mergulhos de Lanai é a Trilogy Ocean Sports Lanai. Há operadoras em Maui que oferecem mergulhos em Lanai, e o único porém neste caso é o traslado mais demorado. Os barcos de mergulho que vêm de Maui não desembarcam em Lanai.

Para quem curte golfe, os campos de golfe de Lanai são considerados excepcionais, os melhores do Havaí. O do Four Seasons Manele Bay foi projetado especialmente por Jack Nicklaus, um dos grandes nomes do golfe de todos os tempos. Golfe não é a minha praia mesmo, mas quando vi os campos do Manele até fiquei com vontade de aprender a dar uma tacada… pra vocês terem uma idéia do nível da coisa.

Para quem vem de Maui para passar apenas um dia em Lanai: não gaste seu tempo com aluguel de carro. Ande até Hulopoe Beach, e passe o dia lá, descansando na sombra das amendoeiras, explorando as piscinas de maré, e tendo uma ótima experiência gastronômica em um dos estrelados restaurantes do Four Seasons Manele Bay. Dá pra ir à pé da praia de Hulopoe até o Four Seasons.


Hulopoe Beach e o Four Seasons Manele Bay ao fundo.

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Tudo de Havaí sempre. 🙂

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*Em havaiano, a escrita correta do nome da ilha é Lānaʻi. Para facilitar, escrevemos apenas Lanai, sem a ʻokina e o acento kāhako. 

P.S.: Se este post lhe ajudou no planejamento da sua viagem ao Havaí e você gostaria de contribuir para a manutenção deste site, use este link ou reserve seu hotel usando este link do booking (recebo uma microcomissão a partir dele). A blogueira agradece seu interesse e colaboração! 🙂



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Postado em 07/04/2014 por em Havaí, Ilhas, Lanai
  • gabriel

    Terra linda, maravilhosa, com muito verde… Saudades dos amigos e do Hawaii…

    • E nós de vc e Carol! Você vai poder me ver em breve? Beijos!

  • Victoria

    Lucia estou indo para o Havai em julho com a minha familia. Gostaria de saber se para ir nesses passeios que voce recomenda nos outros post tem que pagar, se tem alguma taxa de meio ambiente. E sobre o snorkel, eu posso comprar e levar o meu? Tenho que pagar os passeios de snorkel ? Obrigada.

    • Olá Victoria, exceto Hanauma Bay, todos os demais passeios não têm taxa ambiental, não. Snorkel dá pra alugar em Hanauma Bay (para usar somente lá), mas se você pensa em fazer snorkel em outras praias, precisa ter o seu. Passeios de snorkel pagos são geralmente feitos em barcos (tipo nadar com os golfinhos em Oahu), mas há bons pontos de snorkel saindo da praia, que não precisam pagar. Espero ter ajudado. Aloha!

  • Marcela Vianna

    Oi Lúcia! Quanto tempo mais ou menos dura o trajeto da ferry de e para Maui? Procurei no site oficial e não achei “/

    • Oi Marcela, uns 40 minutos, eu acho. Não é muito.

      • Marcela Vianna

        Então mega tranquilo de fazer bate-volta… queria que vc desse uns pitacos no meu roteirinho de viagem, posso te mandar?

        • Manda pelo formulário de contato aqui do blog, Marcela! 🙂

          Aloha!

          • Marcela Vianna

            Mandei:)

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