Estive em setembro/outubro do ano passado em Berlim, para um congresso de minha área de pesquisa. Apesar de ser uma viagem a negócios, aproveitei para tirar uns dias de férias e curtir minha cidade preferida da Europa. E para fazer uma viagem de volta às muitas memórias que tive, desde aquele longínquo dezembro/1997, quando a deixei pela última vez.

Berlim é uma festa

Morei em Potsdam em 1997, e, aos 22 anos, fiz de Berlim meu quintal de festas e passeios. Todo fim de semana, quando não pegava o Wochenende ticket e ia para uma cidade qualquer da Alemanha, me via no trem S7 rumo a Berlim. Foi um período cheio de descobertas, aventuras e histórias, em que queria provar pra mim mesma que era capaz de viajar pelo mundo sozinha.

Mas a Berlim de 1997 era ainda um grande canteiro de obras. Potsdamer Platz era apenas um buraco no chão, o início das fundações em ferro pra todo lado. O Reichstag em reformas. Hauptbahnhof era um canteiro de obras. Não havia o Memorial Aos Judeus Mortos na Europa perto do Brandenburger Tor. Prenzlauer Berg era pura vida alternativa mesmo, sem yuppies nem cafés a cada esquina, mas com diversas feiras e shows pirados de música experimental que ficaram na minha memória jovem. Bahnhof Zoo ainda tinha um leve resquício do mundo junkie da Christiane F, mas a sensação era de que aquilo não duraria muito mais. E o Bauhaus Archiv já estava lá, com sua torre colorida linda. Era uma Berlim pós-queda do muro, mas já com uma atmosfera de mudança e (muita) vanguarda aparecendo. Uma revolução social, cultural e econômica acontecia. A população parecia inquieta e animada com todo aquele movimento de revitalização.

Então que quando soube que ia voltar a Berlim, tive que montar uma estratégia de visita para conseguir equilibrar: satisfazer minha memória afetiva e conhecer as novidades, ver no que a cidade se transformara 16 anos depois.

O congresso era no Hotel Seminaris, um hotel 100% de business eleito ano passado o melhor hotel para convenções na Alemanha. O hotel fica em Dahlem, perto da estação Dahlem-dorf (U3), e apesar do certo “isolamento” do burburinho central de Berlim, bastava atravessar a rua para chegar no Museu Etnológico, que estava na minha lista para visitar – um amigo aqui no Havaí comentara sobre a impressionante coleção deles de arte e artefatos polinésios. Aproveitei uma tarde livre para visitar esta coleção – que na realidade inclui objetos melanésios e micronésios também, ou seja, um excelente geralzão das culturas do Pacífico, minha paixão mor.

Durante o congresso, fizemos um passeio pelo lago Wannsee de barco, fomos ao Reichstag, tivemos um jantar de gala no Jardim Botânico de Berlim, andamos pela área Brandenburger Tor/Potsdamer Platz à noite, fomos a pubs em Neukölln, tudo acompanhada de um bando de selenólogos, sendo muitos moradores de Berlim, portanto, guias locais de tabela. Foi extremamente divertido.

Quando o congresso terminou, resolvi que ficaria uns dias a mais em Berlim, para matar minhas saudades da cidade. Nesta extensão da estadia, decidi ficar hospedada no Holiday Inn de Prenzlauer Berg, bem perto  das minhas memórias. Foi uma decisão mais que acertada. O hotel ficava perto da estação Prenzlauer Allee de S-bahn e da linha de bonde – ou seja, estava super-bem-conectada ao sistema de transporte público.

Como a Berlin Art Week começava naquela semana na cidade, fui na sua abertura um dia à noite, numa festa-exposição de arte num prédio-abandonado-convertido-a-galeria (conceito super-chavão de Berlin!) da Auguststrasse. A festa foi fantástica, com lounges, DJs, arte em impressora 3D, muitas idéias deliciosas e vanguardísticas a todo vapor. Eu amo arte contemporânea, e aquele ambiente todo de respirar a contemporaneidade plástica me fez um bem danado.

Também fui rever o famoso muro – na realidade ver a galeria de arte a céu aberto que ele se tornara. Ter vivido em Berlim me deu um pouco de “imunidade” viajante para não precisar fazer os lerês tradicionais, e deixei pra lá ver o muro na Bernauerstrasse e fui en passant ao Checkpoint Charlie, mas como as transformações e a arte não param na cidade, visitar a Galeria do Leste na Mühlenstrasse foi uma boa desculpa para rever o muro em si com mais calma e apreciação.

Visitei também o Dalí Museum, pertíssimo de Potsdamer Platz, na Leipzigerstrasse. Gostei bastante do museu, cheio de desenhos e trabalhos “comerciais” de Salvador Dalí. As capas mais absurdas de revistas, os folhetos mais surreais possíveis e imagináveis. E ainda: um vídeo sensacional de animação de Dalí em parceria com Walt Disney. Inesquecível.

Fui também (re)visitar o famoso Aquário de Berlin, um dos primeiros do mundo (de 1913) – e definitivamente o primeiro do mundo a ter uma área “aberta” de visitação (na realidade uma estufa), onde ficava a suposta região tropical, com jacarés e pássaros do calor. Hoje, depois de ter visitado tantos aquários pelo mundo, posso dizer que o de Berlin é okzinho. Tem algumas espécies interessantes e de valor educacional único, mas a qualidade dos tanques e da organização das espécies fica muito a desejar. Mas vale pelo peso histórico, e principalmente por seus vitrais coloridos com peixes e animais marinhos desenhados, vitrais estes que foram escondidos durante os bombardeios da Segunda Guerra, e voltaram intactos à estrutura na época da Guerra Fria, sem nenhum dano (para fotos melhores dos vitrais, aqui). Valem o ingresso, sem dúvida.

Neste período pós-congresso, tirei um dia também para visitar Potsdam, onde vivi. Refiz meus passos, peguei o S-7 e da Potsdam Hauptbahnhof, o mesmo ônibus 695, passei pelo prédio onde morava, desci para ver os palácios Sanssouci, Orangerie e Neues Palais, por onde cruzei tantas vezes de bicicleta. Foi emocionante. Depois andei pelo calçadão de Potsdam, onde tomei tantos gelattos com minhas amigas de laboratório. Achei uma loja de bijuterias maravilhosa (na realidade uma franquia de Berlin), e sentei num café para admirar e absorver o quanto a cidade ainda era a mesma, apesar dos 16 anos que me separaram dela. Uma delícia total.

Daí saí de Berlin e fui rodar por outros pontos da Europa (Itália & Portugal), mas teria que voltar a Berlin pro meu vôo de volta ao Havaí. Planejei ficar neste terceiro momento em outra área da cidade. E como queria deixar a visita ao Bauhaus Archiv por último – é meu “pequeno museu” preferido do mundo! – resolvi que queria ficar a uma distância à pé do museu, para ir quantas vezes quisesse. Fiquei no ótimo hotel Berlin, Berlin, a um quarteirão do Bauhaus. É o hotel em que os funcionários da Air Berlin ficam quando em conexão pela cidade. Valeu muito a escolha, porque tive acesso a Bauhaus do jeito que eu queria: quando sentisse vontade. Ver a torre colorida da janela do hotel… ah!!!

Já era outubro, e as folhas começavam a amarelar. O frio característico também já começara a dar sua cara. Apesar deste empecilho significativo, era o feriado da reunificação e uma mega-festa no Brandenburger Tor acontecia – aos moldes das inúmeras festas, festivais e shows que fui no mesmo ponto em 1997. Não podia perder mais essa viagem à memória afetiva.

Não me decepcionei. Era uma mega-rave, com shows de DJs e bandas eletrônicas, shows pirotécnicos e várias barraquinhas de comidas e bebidas tradicionais de rua, muita animação apesar do frio de quase zero. Uma roda gigante iluminava o Siegesäulle, o ponto onde os anjos de Wim Wenders moram.

Além de todos estes passeios e festas, meu objetivo maior era andar à toa e sem rumo pelas ruas de Berlin. Objetivo alcançado! Fiz isso inúmeras vezes, parei para cafés, sem lenço nem documento pelas esquinas da cidade. Respirando e absorvendo cada cheiro, cada gole de Berliner Weisse (grüne, immer), cada visual novo ou velho que a cidade exalava/emitia/emanava. Foi a volta dos corações que nunca foram embora, a re-realização de um sonho que dormiu por 16 anos e descobriu, deliciosamente, que era o melhor dos sonhos, aquele que chamamos de realidade.

Obrigada, Berlim, por cada momento maravilhoso neste outono da sua re-redescoberta em 2013.

Tudo de Berlin sempre.

  • Oscar | MauOscar Blog Viagem

    AMEI o post.. Fazem quase 5 anos que estivemos em Berlin pela última vez e não vejo a hora de voltar e tenho certeza que a cidade já deve estar super diferente/… Esse copos da Berliner Kindl foram parar no Hawaii não foram? rsrs

    Bjs

    • Tem que voltar, Oscar! A cidade merece cada volta!… Os copos vieram parar no Havaí da maneira mais simpática possível: eu ia comprá-los no dia seguinte, e a mocinha do bar do hotel me disse que podia me dar uma caixa! Aceitei, né? 😀

  • allanrpj

    Reviver, voltar e redescobrir.
    🙂

  • Pingback: #NoPlaceLikeHome - Uma Malla Pelo Mundo()