Já faz algum tempo que uma questão me martela a cabeça: o quão sustentável é a indústria do turismo.

(Parênteses: Particularmente, não gosto do termo “sustentável”. Foi esvaziado de significado real há tempos, por uso indiscriminado em situações altamente ecoduvidosas. Mas infelizmente não há outro ainda melhor reconhecido, cujo significado e principalmente abrangência seja tão claro para as pessoas – todo mundo sabe que sustentabilidade vai de ecologicamente a social e humanamente correto. Ou pelo menos eu gostaria de imaginar que sabem. Fim do parênteses.)

A discussão começou com a visita de uma amiga nossa aqui ao Havaí, que nos contou que um professor dela de ecologia tomou a radical decisão de não mais viajar. Sim, não viajar é uma decisão bastante radical, e eu tenho meu pé atrás com qualquer radicalismo. (Aliás, meu primeiro impulso é replicar: viver é liberar CO2 a todo momento – afinal, respiramos. Isso sim, uma visão extremamente radical. Mas sejamos razoáveis na lógica.) Ainda assim, acho um ponto válido de discussão essa coisa de não viajar, nem que seja para pensarmos nas possibilidades de uma solução em equilíbrio.

De acordo com ele, se você está realmente preocupado com mudanças climáticas e os problemas de sustentabilidade do planeta, pegar um avião que libera quantidades astronômicas de CO2 cada vez que levanta vôo realmente não é das atitudes mais louváveis pro ambiente (discuti isso em 2007 aqui no blog). Lembremos também que comprar créditos de carbono para cada viagem que você faz é uma maneira de apenas amenizar o sentimento individual de irresponsabilidade ambiental (#freudexplica), tendo valor muitas vezes minúsculo para a melhoria do ambiente em si, já que a real redução da emissão de CO2, que é o que efetivamente precisa acontecer, continua intocada.

E, para pôr mais lenha na fogueira, além da sustentabilidade do ato de viajar, de se locomover, existe também a questão da sustentabilidade no destino a que se vai. Nesse ponto, um artigo do Guardian de agosto deste ano pontua de maneira clara os problemas do turismo “de massa” – e massa aqui não é só aquele “turismo CVC”, inclui a nós todos que visitamos um lugar que não é o de nossa residência, empacotados ou independentes. O turismo de massa foi bastante facilitado nos últimos anos, resultado possivelmente  do aumento da oferta de passagens aéreas, do interesse dos governos locais em desenvolver o turismo, da propaganda mais eficiente dos mesmos, da facilidade de se organizar uma viagem que a vida digital propiciou, ou simplesmente de um despertar de mais pessoas para a curiosidade intrínseca humana de conhecer o mundo. Com isso, os destinos tiveram que se adaptar à nova demanda de visitantes, e nesse processo de adaptação, muitas lambanças e benesses têm surgido.

De modo que ver destinos turísticos crescerem e florescerem, e compartilharmos e alardearmos mais, querendo que eles sejam mais visitados e acessados por todos pode ser uma sinuca de bico das mais complicadas. Afinal, é uma real oportunidade de melhoria econômica e social das pessoas que moram no destino, os “locais”. E aos turistas, uma oportunidade de observação de novos hábitos e costumes, de confronto com uma realidade diferente da sua, de aprendizado ao vivo e a cores, enfim.

Entretanto, mesmo quando tentamos ser o menos intrusivo, o mais cuidadoso possível quando viajamos, ainda assim estamos perturbando a rotina “basal” dos locais – se de maneira positiva ou negativa, é uma questão subjetiva, tanto do turista quanto do local. Geramos lixo, aumentamos o consumo de água, comida e outros recursos, movimentamos o comércio, aumentamos a carga do saneamento básico, usamos ruas e estradas – além do que o destino está acostumado, ou muitos deles planejados a gastarem.

E aí, fica a questão: o que vale mais? O que é mais importante, para o indivíduo e para a sociedade?

Acho que há diversos lados nesta questão, e todos precisam ser intensamente discutidos por cada dono de operadora, hotel, restaurante, cada prefeitura, cada pessoa envolvida na atividade turística de um local. Principalmente, ouvindo o que a população local, que é quem mais afetado é, tem a dizer, acrescentar, sugerir e reclamar. A opinião deles é a mais importante na equação.

Uma das soluções comuns a que muitos destinos, principalmente aqueles ligados ao ecoturismo, chegaram para manter um certo nível de sustentabilidade do turismo local foi limitar o número de pessoas que visitam por dia/mês/ano, ou taxá-las, uma forma de limite financeiro. O exemplo mais clássico deste caso é Fernando de Noronha. É uma solução paliativa, mas como bem sabemos, não é 100% eficaz para a população local. Outras vezes, a solução passa por aumentar preços de maneira a desencorajar o excesso de visitantes –  de maneira indireta e não-declarada, o Havaí faz isso. No fundo, as estratégias dos destinos para se manterem “sustentáveis”, sejam elas quais forem, afetam a escolha do turista, deixando muitas vezes uma sensação agridoce de estar sendo “punido” do seu sagrado direito humano do artigo XIII, de se locomover livremente.

Se respeitar o direito de ir e vir em toda sua plenitude para as pessoas traz consigo a possibilidade de degradação de um ponto do nosso planeta, será que estas regras seriam tão inconvenientes mesmo? Será que se começarmos a viajar menos talvez alguns destinos pudessem até se recuperar do excesso de predação que sofreram (ou ainda sofrem)? Ou seria apenas a receita perfeita para o colapso econômico das cidades que dependem do turismo para sua economia saudável? O quanto esta economia realmente impacta a população local?

São questões que me passam pela cabeça, quando penso em sustentabilidade do turismo. Não tenho respostas para elas, mas continuo lendo, observando, angariando informações e, principalmente, adorando discuti-las, porque acho que boas soluções para deixar a indústria do turismo bem mais sustentável são possíveis, e é só discutindo, implementando-as, errando e consertando, que aprenderemos qual delas funciona melhor para cada caso. Talvez requeiram um certo esforço da gente, mas ainda assim, valerão a pena pro futuro da gente e das nossas tão queridas e sonhadas e valorizadas viagens.

Tudo de bom sempre.

*Este post é minha contribuição para o Blog Action Day 2013, a mega-blogagem mundial, cujo tema este ano são os Direitos Humanos. Aos curiosos, minhas contribuições no passado e os temas em parênteses: em 2007 (meio ambiente), 2009 (mudanças climáticas), e 2010 (água).

**Este ano, dos blogs que leio em português, estão participando com posts para o Blog Action Day: 

– Viaggiando: Direitos Humanos, Livros e Viagens

– Destino Provence: Que a história pare de se repetir

– Aventura Mango: Direitos de trabalho aos carregadores

– Janelas Abertas: Sobre migrações

– Disney4fun: Blog Action Day 2013

– Segredos de viagem: Blog Action Day 2013: Direitos Humanos

– Metano verde: Direitos Humanos, uma utopia ou uma conquista?

– Vida de turista: Direitos Humanos e o turismo

– Aventure-se: Blog Action Day – Direitos Humanos

Se você também blogou sobre o tema e não está na lista, por favor deixe o link aí nos comentários para eu poder adicionar. 🙂

  • Pingback: Blog Action Day: Sobre migrações | Janelas Abertas()

  • Camila Navarro

    Adorei sua reflexão, Lucia! Até porque esse é um assunto no qual eu tenho pensado bastante ultimamente (foi o tema do meu post para o Blog Action Day ano passado!). Parar de viajar é mesmo uma decisão muito radical e acho que traz também muitas desvantagens, mas podemos pelo menos tentar minimizar nosso impacto negativo nos destinos. Eu acabei tirando a Tailândia do meu roteiro pelo Sudeste Asiático porque fiquei chocada com a degradação das praias mais famosas e eu não queria fazer parte disso. Deixei a Tailândia para depois, para um momento em que eu tiver mais tempo para fazer um roteiro menos agressivo. Mas esse é só um exemplo e se paramos para pensar sobram poucos lugares para visitarmos. 🙁

    • Camila, mas é dificílimo tomar decisões nesse sentido, principalmente quando somos bombardeados de promoções, dicas, listas must-go, etc. Enfim, a idéia é realmente minimizar os impactos negativos. Eles sempre existirão, mas já é um começo. 🙂

  • Oi Lúcia,

    Excelente reflexão, instigante! É, quanto radicalismo do professor de sua amiga, sou leigo no assunto, mas se não me falha a memória e não lembro de onde li, o metano é o gás não CO2 mais impactante para o efeito estufa. E por sua vez, a fonte número um de metano no mundo todo é a criação de animais para o consumo. Acho que ele deveria seguir uma dieta vegetariana no caso. hehe
    Enfim, parabéns pelo texto. Quase sempre leio os seus posts (Que posts! me impressiona a riqueza de detalhes), mas peco em não comentar.
    Linkei teu texto no post que fiz, aliás, estava sem inspiração e atarefado ontem. Mas de qualquer forma publiquei, apesar que achei que ficou muito a desejar: http://aventure-se.com/2013/10/16/blog-action-day-direitos-humanos/
    Um grande abraço!

    • Opa, Rodrigo! Vou adicionar seu link no post pra já! Obrigada pelo comentário bacanudo! 🙂