Sharkweeklogo
Então que a Shark Week começou, e eu, animadíssima sobre tubarões, estava toda ansiosa para ver alguma ciência decente sobre estes animais educativamente espalhada na TV pro grande público. E o programa prometia: era sobre o C. megalodon, o maior tubarão que já existiu na face da Terra – atenção ao passado do verbo: EXISTIU. Charcharodon megalodon ou Carcharocles megalodon era um parente do tubarão-branco, cujo tamanho sugerido é de até 18 metros de comprimento, e que se extinguiu há aproximadamente 2 milhões de anos. Ou seja, MEGALODONS NÃO EXISTEM MAIS. Portanto, o que sabemos sobre a espécie hoje em dia vem do registro fóssil. O que, aliás, já é uma história pra lá de interessante, pois até áreas de berçários de megalodon já foram encontradas no registro fóssil.

E por ser um animal extinto, meu otimismo poliana acreditou que o programa de TV sobre ele teria diversos paleontólogos comentando e discutindo sobre aspectos da biologia do bicho, com viagens interessantes sobre a ecologia, o comportamento e afins da época pré-histórica em que o megalodon vivia. Até, sei lá, divagar sobre possíveis explicações sobre a extinção do animal. Tudo de uma forma digerível pro público leigo.

Quanta ingenuidade ainda a minha…

Tudo bem que a gente já sabia há anos que a Shark Week se restringe a algumas poucas espécies de tubarão (em geral as que mais atacam), e que o foco é sempre o pior: no lado predador-matador-destruidor do bicho, e não nos aspectos de proteção e conservação extremamente mais importantes que rondam toda a existência do grupo hoje em dia. Tudo bem que a ciência tem cada ano que passa se tornado mais secundária, e a geração de medo-pelo-medo venha sendo privilegiada porque parece dar mais ibope. Mas a Shark Week é a maior conversa online sobre uma espécie/causa marinha que acontece no ano – ano passado foram mais de um milhão e meio de tweets únicos sobre o tema, e desde hoje cedo #SharkWeek está nos trending topics mundiais do twitter. Uma oportunidade única de educação do público, de discussões importantes sobre conservação de espécies marinhas, de mudança positiva de opinião e conscientização, de aprendizado sobre biologia e ecologia e sua interface com nossa sociedade. Muitos grupos e organizações ligados à conservação de tubarões e oceanos realizam eventos especiais na Shark Week, para ajudar na causa (o que pra mim é a maior vitória real da semana, levar a discussão pro público de cada local, esse efeito ressonante e formiguinha sobre o tema).

Só que, a meu ver, o Discovery Channel hoje bateu recordes de sem-noçãozice, ao abrir a semana com um mockumentary, ou seja, um programa de ficção disfarçado de documentário real.

Claro, mockumentaries já rondam o cinema há décadas, e na TV, o recente caso do programa sobre sereias do Animal Planet (do mesmo grupo do Discovery Channel) foi amplamente discutido na blogosfera, mas já houve “certezas” de busca e avistagens de dragões ao Big Foot. Mas ao extrapolar o estilo para o episódio de abertura da Shark Week, o Discovery, um canal que muitos ainda consideram como “científico”, fez na minha opinião um mega-desserviço ao público, que se deseducou e agora fica com aquele ponto de interrogação desnecessário na cabeça – não há absolutamente NENHUMA evidência de que o megalodon ainda exista nos dias atuais, e o programa faz crer que sim, elas existem. NÃÃÃÃO! [facepalm]  Os “cientistas” que aparecem no programa são atores, estão ali interpretando um personagem; as imagens de megalodon atuais são photoshopadas na cara dura, as histórias de barco virado e baleia mordida por megalodons são inventadas. Uma tristeza sem fim.

(Se você acha que o Discovery não “deseducou” o telespectador médio, dá uma olhada no resultado da pesquisa ao fim do programa, que pergunta: “Você acredita que megalodons ainda podem existir?” Até o momento que olhei no site, apenas 19% das pessoas haviam respondido: “não”. Uma lástima.

Dica básica para a vida: ciência não combina com o verbo “acreditar” – no sentido transcendental da coisa. Ciência é a evidência compilada e discutida, a hipótese refutada com fatos, dados, não com achômetro. Jamais se apaixone loucamente por sua hipótese, diz a grande máxima.)

Talvez eu esteja apenas decepcionada com os rumos que o Discovery deu a Shark Week, com a surpresa de um mockumentary logo na abertura. Eu me preparei pro pior em termos de sensacionalismo, para ataques sangrentos a humanos e focas, e cenas over and over de tubarões-branco de boca aberta, mas não para mentiras deslavadas. Sei por alguns contatos do shark world que cientistas de verdade falarão nesta Shark Week sobre suas pesquisas encantadoras – e assistirei aos programas, porque ainda tenho espreranças de que alguns deles serão bons, interessantes e suscitarão pontos importantes para serem discutidos. Mas não dá pra não ficar decepcionada e desanimada que, com tantas histórias bacanas acontecendo no “mundo dos tubarões”, tantos desafios ainda enormes a serem vencidos na proteção deste grupo, a escolha do Discovery para a noite de estréia tenha sido a mais pobre possível.

Melhor seria que eles tivessem passado “Sharknado” de uma vez. Pelo menos, todo mundo sabe de cara que é um filme de ficção – e todos apenas nos divertimos, sem desserviços maiores.

Tudo de tubarões sempre.

******************

Para relaxar um pouco: o lema desta Shark Week é “It’s a bad week to be a seal”. Acho que a foca abaixo não está muito preocupada com a semana, não… :D

(Filmei esta foca havaiana no Aquário de Waikiki no último sábado e postei no meu instagram. “Ela” se chama Maka, e na verdade é um macho, resgatado ainda bebê – a mãe-foca abandonou-o numa praia em Molokai aos 3 dias de idade, e desde então ele vive no Aquário, há 29 anos. Maka é famoso na internet, exatamente por esse comportamento que ninguém sabe explicar direito por que acontece.)

UPDATE: Christie Wilcox também se manifestou sobre essa sem-noçãozice do Discovery Channel. Uma lástima total, mesmo.

Postado em 05/08/2013 por em Tubarões, TV
  • Mô Gribel

    Ah, Lúcia, acho muito triste essa mega tosquice do DC. Uma lástima mesmo.

    Para rir um pouco, você já assistiu um programa sobre aliens, ovnis e afins do History Channel chamado Alienígenas do Passado (só sei o nome que passa aqui)?

    É irritante a quantidade de baboseira que eles falam! É o pior programa da tv paga, pode apostar! Os caras atribuem aos aliens tudo: criação da roda, descoberta da penicilina, ataque às Torres Gêmeas, invenção do supersônico, quebra da bolsa, até a morte de Jesus. Tá, não é bem isso, mas é desse nível!

    E é do grupo do DC, o que nos leva a crer que as coisas estão menos ciência por lá e mais baboseira.

    Um beijo!

    • http://luciamalla.com/ Lucia Malla

      Oi Mô! Eu ouvi falar desse programa, mas confesso que não tenho muita atração pra coisas de OVNI, nem na TV nem na literatura. Nem na ficção. Acho muito chato! Mas deve dar vontade de rir: será que os aliens não salvam a minha conta corrente, também? :D

      Ouvi tb sobre um programa das sereias no Animal Planet, e sei do dano que causou pq no dia seguinte, minha estudante de mestrado perguntou SÉRIA: “mas será que não existem mesmo sereias?”. Eu fiz aquela cara de PQP ao quadrado, né? Um desserviço.

      Acho até que se eles quiserem investir nessa vertente, que o façam – mas precisa pôr uma mensagem no início avisando que é ficção, pelo menos nos canais que se auto-denominam de ciência.
      Beijos, Mô!

  • allanrpj

    Quero aprender a meditar como essa foquinha.

    :)

  • sufi mor

    Presa há 29 anos, Maka desenvolveu uma técnica especial de meditação, aprendida som os sufis turcos que a visitaram em 1991… ;)

    • http://luciamalla.com/ Lucia Malla

      Com certeza! :D

  • Fulano

    Céticos… povo mais chato e sem noção que existe. FATO!

  • Cleber

    Quanta IGNORÂNCIA a de algumas pessoas….