Eram quase duas da manhã de uma segunda pra terça-feira. E eu escrevendo projeto, cujo prazo é… hoje. Com os neurônios fervendo, em meio a tantos artigos sobre obesidade, nutrição e quejandos, decidi espairecer um pouco a cabeça. Abri meu Newsblur e lá estava um post salvo das Duas Fridas. A Helê contava que o “fechamento” do GReader significava pra ela também o fim da leitura do Filthy McNasty, um blog ácido e bem-humorado, de quem, como bem disse a Helê, eu curtia discordar. Porque eram textos muito bons, apesar do ponto-de-vista quase sempre oposto ao meu.

Aí nos comentários, alguém deixou o link pro webarchive, que “ressuscita” blogs velhos. Uma descoberta – eu não conhecia porque, né, sou semi-analfabytica. E aí, meus caros, quando eu percebi o que o webarchive potencializava… foi uma trip down the memory lane pra mim. Às 2 da manhã.

Comecei abrindo o óbvio, de quem mais sinto saudades: a Verbeat. E reli páginas e páginas de bereteios do Tiagón, escritos do qual tenho muita saudade. E esbarrei em um post em que ele desabafava seu descontentamento com a blogosfera atual – em 2007. Veja, o texto comentava sobre a falta de espontaneidade dos blogs em geral, não em um nicho – e até fui tentar reler o post daquela época do Biajoni sobre monetização, o melhor de todos por sinal, mas não o achei. 🙁

(Minha “monetização”, aqui.)

Mas aquele texto me deu saudade, e resolvi guardá-lo da forma que fazia antigamente: publicando-o com o seu link no blog. Uma homenagem saudosa a um amigo que está fora do grid virtual há algum tempo.

E aí vem a dinâmica deliciosa da blogosfera.

Fui dormir, e acordei no dia seguinte com um tsunami de comentários. O texto do Tiagón havia incitado um nicho da blogosfera, o de viagens, a um desabafo, a trazer à tona os desencantos com quem escreve um blog só pra ganhar dinheiro ou passagens de graça – eu diria que o desabafo foi liderado pelo Douglas, que chegou a expressar melhor seu descontentamento de 2013 num texto muito bacana, que vale ser lido. Mas várias pessoas se manifestaram, aqui, no facebook, twitter, por email. E no geral, um pessimismo pairava no ar.

Mas gente, desculpa, eu não consigo ser pessimista com blogs. Porque aqui é o espaço da liberdade por excelência, onde cada um faz o que quer, cada um com seus motivos. Como boa darwiniana, sei que blogs são como espécies, vêm, vão, alguns se adaptam e sobrevivem (aos trancos e barrancos ou bem-sucedidos, mas sobrevivem), outros se extinguem, por várias razões – Filthy McNasty se extinguiu para mim porque o GReader acabou, o Bereteando morreu porque Tiagón achou que já havia dito o que precisava naquele espaço, enfim, razões variam.

Porque não é fácil manter um blog por muitos anos, mesmo. Chega uma hora que você acha que já escreveu tudo que poderia – e se você se engessa num modelo de post, você realmente uma hora exaure sua animação (e a do leitor, diga-se de passagem). E eu não acho que blogs que abrem no modelo “copy/paste” sobrevivem por muito tempo – eles podem até virar dinossauros, mas estão a um passo do meteoro da realidade jurídica e mercadológica para extingui-los. Já vi vários se extinguir, diga-se de passagem. São predadores que demandam alta energia, e nesse ecossistema, é o comportamento altruísta ou de colaboração mútua que favorece a sobrevivência.

A chave da sobrevivência é, como na biologia clássica, mutação. Um blog sofre mutações ao longo do tempo. E muda, seja esteticamente ou filosoficamente ou em seu tom, a cada nuvem radioescritaativa que paira sobre ele. Porque a pessoa que o escreve muda ao longo dos anos. Eu já penso tão diferente em tanta coisa daquela que começou a escrever em 2004… a essência de mim é a mesma, mas há as nuances, e diria que quase todas estas nuances sofreram mutações no processo evolutivo de existência deste blog. Somos alterados diariamente pelo ambiente ao redor, chamados a nos adaptarmos cada vez mais.

Vocês vão me achar louca, mas… eu ainda acho que falta blog – de viagem, especificamente, falta muita coisa. (E se você acha que não, a foto de um pedacinho de recife de coral aí em cima pode te dar uma dica de como falta espécie, como só estamos vendo um pedacinho do cenário…) A saturação que vemos é de um tipo específico de blog de viagem. Porque uns poucos deram certo assim, e aí todos acham que agora pra dar certo precisam ser exatamente assim. Não acho mesmo. Acho que pra dar certo, você tem que ter primordialmente a sua voz clara, sincera, espontânea. E principalmente criativa. Independente inclusive da plataforma que escolher.

E como faltam vozes, faltam espécies, faltam comportamentos, o ecossistema ainda está longe de saturado nessa teia da vida blogal! O que vemos já é um mural colorido, diversas opiniões, sabores e estilos. Mas falta mais. Há um oceano de idéias pra serem desenvolvidas, e muitos recifes de coral ainda a se formar. Porque a conversa não para, nunca parou e acho que está longe de acabar. Porque todos mudamos com o tempo, e é esse dinamismo que garante que sempre faltarão vozes.

Por isso o post do Tiagón me tocou naquela madrugada. Porque o que tá faltando é só espontaneidade. É cada um achar sua voz mais sincera e profunda, pra quem sabe ocupar um destes nichos abertos do ecossistema blogal. O resto… estamos com o mundo na ponta dos dedos, no teclado, terabytes de aventuras. É so começar a escrever.

Tudo de bom sempre.