Hoje é o Dia Mundial dos Oceanos, e como já é de praxe, gostaria de deixar aqui algumas reflexões pessoais sobre os problemas que os mares do planeta vêm enfrentando. Tanto o tema da ONU (“Oceanos & Pessoas”) quanto da World Ocean Network ( “Juntos nós temos o poder para proteger o oceano”) incitam as pessoas a se engajarem – ou pelo menos, tentarem entender o problema que os mares e nós enfrentamos atualmente. É mais que necessário, dadas as condições dramáticas em que se encontram os oceanos do mundo.

Talvez a melhor representação possível dessa necessidade de engajamento das pessoas ao redor dos oceanos saiu do Havaí na semana passada: a jornada expedicionária da tradicional canoa havaiana Hōkūleʻa (em havaiano, “estrela de alegria”, nome dado a uma das estrelas do céu que aparecem na latitude em que está o Havaí).

Tomei conhecimento deste projeto inicialmente durante uma palestra no HIMB, em que os navegadores Nainoa Thompson e Jenna Ishi detalharam a história, o conceito, o compromisso e a logística da jornada que planejavam fazer pelos mares do mundo. Nainoa é um dos maiores navegadores polinésios vivos, que domina a arte de navegar numa canoa milhares de quilômetros sem auxílio de instrumentos. É considerado no Havaí uma lenda viva, e inspirador de um revival dos métodos tradicionais havaianos de navegar. Também foi um dos sobreviventes da triste 2a viagem do Hōkūleʻa, em que o célebre Eddie Aikau, considerado o melhor surfista havaiano de todos os tempos, morreu ao tentar resgatá-los quando a canoa virou em meio a uma tempestade. Nainoa ainda se emociona até hoje ao falar de Eddie e sua bravura, e sempre pede para que nunca esqueçamos sua memória.

O mundo em uma canoa havaiana

Nainoa Thompson a bordo do Hokule’a.

O Hōkūleʻa é uma canoa havaiana construída na década de 1970, quando a moral da cultura havaiana estava em baixa, e na época representou um acordar do povo havaiano pela sua cultura, arte, ensinamentos e modo de interagir tradicionais. A primeira viagem foi em 1975, de ida e volta ao Tahiti, quando, ao navegar sem instrumentos, 600 anos depois da última grande travessia em canoa polinésia, provou-se que era possível e factível aos povos polinésios antigos terem viajados estas enormes distâncias pelo Pacífico em suas canoas. O Hōkūleʻa se tornou então um marco do renascimento havaiano, e até hoje carrega  consigo uma carga histórica havaiana incomensurável. É a canoa havaiana que representou o renascimento dos valores havaianos. Não dá pra querer entender o Havaí de hoje sem passar pela história dessa jornada de auto-descoberta cultural que os havaianos tiveram na década de 70.

Então que depois da 2a jornada fracassada, em que Eddie desapareceu, o Hōkūleʻa não se intimidou, outras jornadas foram alcançadas, e esteve ativo até 2009, quando foi ao atol de Palmyra. A canoa, que já nasceu simbólica, virara mensageira deste simbolismo de renascimento das culturas ilhéus do Pacífico. Em 2010, depois desta última jornada, Hōkūleʻa entrou em dry dock, para ser recauchutada e poder ser preparada para a jornada atual, que já vinha sendo planejada desde 2007, chamada de Mālama Honua (em havaiano, “cuidar da Terra”).

Mālama Honua será uma viagem mundial do Hōkūleʻa, pelos mares do planeta. É uma jornada acima de tudo educacional, de reafirmação do compromisso humano de perpetuar nossos valores positivos e responsabilidade e cuidado pela natureza do planeta, principalmente os oceanos, às futuras gerações. O projeto é simplesmente fenomenal, de uma delicadeza e humanidade arrepiantes. Os 6 principais valores havaianos a serem espalhados pelo mundo são:

Mālama -> cuidado, atenção

Aloha -> amor, compaixão

ʻImi ʻIke -> procura do conhecimento, a busca do saber

Lokomaikaʻi -> compartilhar com o outro

Naʻau Pono -> profundo senso de justiça

Olakino Maikaʻi -> Viver saudável

O lema principal da jornada mundial é “Island wisdom, Ocean connections, Global lessons” – “Sabedoria ilhéu, Conexões Oceânicas, Lições Globais”. Trabalharam e trabalharão nele mais de 1000 voluntários, De acordo com o próprio Nainoa Thompson no dia do início da expedição:

“This is not our voyage. This voyage started long time ago. People are coming together for a vision, come together as humanity to take care of the ocean. To take care of the future of our keiki. And of the kids who are not even born yet.”

Por ser uma jornada educativa e para aguçar nosso senso de comunidade mundial, o Hokule’a viajará acompanhado de outra canoa havaiana, a Hikianalia, essa com instrumentos modernos, e o mais ecoconsciente possível para uma canoa. A parte da frente é toda de painéis cara captação de energia solar, que funciona para manter seu motor funcionando. A bordo do Hikianalia, um projeto de aquaponia em alto-mar, para que a alimentação dos membros da expedição seja o mais sustentável possível. Como teste, Hikianalia já navegou da Nova Zelândia até o Havaí, provando que é extremamente resistente às condições de navegação diversas que o Pacífico traz.


Os painéis solares que conduzirão a canoa Hikianalia pelos mares do mundo.

E é com a Hikianalia que essa jornada me toca mais profundamente ainda. Porque o Hikianalia é basicamente uma canoa de pesquisa científica. De acordo com o projeto da jornada, a tecnologia pode ser a ferramenta para nos levar ao caminho mais justo por um mundo melhor, e é trabalhando com avanços tecnológicos de melhoria ambiental que a tripulação das canoas atracará nos diferentes portos do mundo. Diversos grupos de pesquisa marinha do mundo estão ali representados, há experimentos científicos acontecendo enquanto ela viaja pelos mares do mundo, com coleta de dados para os mais diversos ramos da oceanografia – principalmente mudanças climáticas, acidificação dos oceanos e comportamento migratório de espécies. Por exemplo, a Alexis Rudd, do blog Bioacoustics e do laboratório de mamíferos marinhos aqui da UH, tem um experimento a bordo da Hikianalia sobre acústica de baleias e golfinhos.


Hikianalia ainda atracada em Sand Island, se preparando para o início da jornada mundial.

O governador atual do estado do Havaí, Neil Abercrombie.

A jornada do Hōkūleʻa começou semana passada, dia 27 de maio, em Honolulu, e terminará em 2017. Fiz questão de estar presente nesse momento histórico, e fui lá no Sand Island Harbor no meio de uma quinta-feira para ver a canoa começar sua longa jornada. Presentes, o governador do estado, o senador do estado, e inúmeras lideranças e patrocinadores.

No período de 2013-2017 de navegação, o Hōkūleʻa passará por 26 países em todos os continentes – de acordo com os planos, estará no Brasil em fevereiro de 2016 -, por todas as ilhas polinésias, por 22 sítios que são patrimônio da UNESCO, e em cada uma de suas pequenas pernas de viagem, terá diferentes tripulações, que sempre serão uma mistura de navegadores mais velhos, experientes, com mais jovens. A idéia é que a arte da navegação havaiana tradicional, seus valores embutidos e percepções, seja devidamente passada para novas gerações. Emocionante.


Nainoa Thompson e a nova geração de líderes da navegação tradicional havaiana. Não se engane com a falta de rugas: Nainoa disse que a moça da esquerda é a melhor navegadora havaiana atual, pois conseguiu chegar com a canoa a um atol minúsculo a 450 milhas de distância sem nenhum instrumento auxiliando.

O primeiro ano de navegação será todo ao redor do Havaí – é o Mālama Hawaiʻi. Nas diferentes ilhas havaianas e diferentes portos, inúmeros projetos educativos e científicos à espera, e vários testes a todo vapor, para que a uma vez que as canoas comecem a jornada pelo mundo, a fundação básica dos valores havaianos esteja completamente consolidada entre todos os participantes.

Plano de viagem do Hōkūleʻa pelo mundo, de 2013 a 2017. Tirado daqui.

O estado do Havaí, claro, abraçou a expedição do Hōkūleʻa + Hikianalia com todas as forças possíveis. E já estão, inclusive, trabalhando na modificação do método educacional utilizado nas escolas daqui. Ao detectarem que o método utilizado não estava preparando o cidadão do futuro para os desafios pertinentes do amanhã, a Secretaria de Educação do estado resolveu reestruturar o processo educativo, enfatizando o trabalho em grupo, os desafios compartilhados, a busca do conhecimento e da justiça comum para todos e o respeito ao vizinho. O método ainda está sendo discutido, mas basicamente se resume, em poucas palavras, a “a sala de aula é uma canoa”. Transformar a metáfora da canoa como via de aprendizado, como ferramenta na construção de cidadãos mais preparados. Todas as associações de professores do Havaí, de jardim de infância à universidade, estão extremamente animadas com essa visão.

E o simbolismo pode ir além. Como o Hōkūleʻa nos lembra e inspira, o mundo também é uma canoa. Cabe a nós trabalharmos juntos, com respeito ao próximo, compartilhar nosso conhecimento, para protegermos o planeta e não deixarmos que esta canoa azul vire na tempestade do futuro de mudanças climáticas que nos aguarda.

Tudo de oceanos sempre.

*****************

– Nas palavras do próprio Nainoa Thompson, existe uma terceira canoa viajando junto com o Hōkūleʻa: é a canoa da web. Toda a jornada será transmitida por satélite para o mundo, via site, blog, twitter, facebook, instagram e tudo mais que aparecer de rede social. A Hikianalia tem uma antena própria, que manterá as canoas ligadas com o mundo virtual pelo período em que estiverem navegando. É uma oportunidade de ouro para acompanhar, participar e interagir com essa expedição. E para nos unirmos ao redor da proteção dos oceanos, principal idéia que a canoa tenta espalhar pelo mundo.