Vênus em passagem pelo sol. Foto: TRACE/NASA.

Hoje, terça-feira 05/junho, de 12:09 até 6:17 da tarde horário do Hawaii, acontece um evento astronômico único que será observável da Terra: a passagem de Vênus em frente ao Sol. (Ou: o dia em que Vênus vira um pontinho preto na borda do sol). Fenômeno antecipado por Kepler no século XVII e por Edmund Halley (o mesmo do cometa homônimo) no século XVIII, foi utilizado como base para calcular a distância precisa entre o Sol e a Terra, através da observação e comparação em diversos pontos do nosso planeta. O Dulcídio explicou há poucos dias a história, a periodicidade e a relevância astronômica deste evento, enquanto o Bad Astronomy fez o post mais completo ever sobre a passagem de Vênus, inclusive com um “filme” de 1882 inacreditável, que só (l/v)endo pra entender a belezura toda da coisa. Simplesmente incrível!

Pois tal evento raro acontece hoje, e depois só ocorrerá novamente em 2117. Portanto, a hora de ver é AGORA.

Pontos da Terra onde a passagem de Vênus será visível (verde), parcialmente visível (amarelo) ou não-visível (vermelho). Imagem: Fred Espenak, NASA/GSFC.

O Hawaii desta vez está num dos pontos de melhor visibilidade da passagem de Vênus. A NASA vai mostrar em seu website um livestream direto do telescópio no topo do Mauna Kea, na Big Island. Se as condições do tempo continuarem maravilhosas como as de ontem, o fenômeno vai ser facilmente visto pelos moradores do arquipélago. Viva!!!

Para os que quiserem se aventurar “direto da fonte”, diversas regrinhas diferentes estarão em vigor para o cume do Mauna Kea hoje. Por exemplo, a estrada de acesso estará fechada aos carros de passeio, mas um serviço de shuttle estará disponível do posto de informações turísticas a meio caminho do topo. No próprio posto, que já está a uma altitude significativa na encosta da montanha, os telescópios para uso do público estarão montados para quem quiser acompanhar todo o trânsito de Vênus. A previsão é de MUITO vento para a região próxima ao cume – e o evento por ali vai ter então fundo musical de vendaval, pelo visto.

Telescópios no cume do Mauna Kea, Big Island of Hawai’i.

Em Oahu, diversas “festas de telescópio” estão sendo arranjadas, mas as atividades mais interessantes ocorrerão no Bishop Museum. O museu disponibilizará um telescópio para que o público presente possa apreciar a passagem de Vênus, enquanto assiste palestras de astrônomos que comentarão sobre o fenômeno. Vai rolar até a apresentação de um quinteto de sopro, o Ahuawa Place Brass Quintet, tocando a marcha chamada… “Venus“. Melhor fundo musical para tal visão espacial, impossível.

A mim, que estarei labutando por toda a tarde, me restou uma agradável surpresa: no prédio em que trabalho, um simpático funcionário do IT vai montar 2 telescópios no pátio principal do prédio, e ficará a tarde toda com eles à disposição para quem quiser apreciar Vênus e o sol. Como o passeio de Vênus demorará a tarde toda, poderei observar o evento entre um experimento e outro. Adorei! Vai ser a “festa do telescópio” versão Biolab (já parece nome de cd de banda techno-indie, não?)

Tudo de astronomia sempre.

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– Lembrando sempre que você JAMAIS deve olhar diretamente pro sol sem uma proteção especial. Óculos escuros não são suficientes para proteger.

– A festa da passagem de Vênus em frente ao Sol vai acontecer por todo o mundo. Pela web, além do livestream da NASA, você pode acompanhar os posts bacanas e informativos  do Transit of Venus, ou o livestream do espaço do Slooh Space Camera.

– Claro, there’s an app for that: Venus Transit.

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UPDATE À NOITE: Foi lindo. Mas, mais emocionante ainda que a passagem de Vênus em frente ao Sol, foi a dimensão da experiência educacional espontânea realizada.

Primeiro, pela generosidade do funcionário de IT da Escola de Medicina, Steven, que, entre levar seus telescópios de estimação para um resort chique da ilha e passar a tarde entretendo turistas (recebendo para tal…) ou dar a oportunidade aos colegas de trabalho bionerds de verem o fenômeno natural raro, optou pelo segundo. E com uma empolgação inigualável, daquelas de fazer a gente se arrepiar ao ver alguém com os olhos tão brilhantes, tão empolgado ao compartilhar seu hobby. Se deixar contaminar com essa paixão pelo espaço que o moço possuía foi parte da experiência.

Segundo, ao montar 3 telescópios diferentes no meio do pátio da Escola de Medicina, local público por natureza, se abriu a brecha para que todos, sem distinção de classe sócio-econômica ou escolaridade, apreciassem um pouco da beleza da ciência astronômica. Fiquei um tempão pelo local, só observando a diversidade de pessoas que apareceram uma vez que o rumor de que havia telescópios ali correu o bairro: de homeless a professores da faculdade, passando por crianças, técnicos de laboratório, seguranças e atletas de fim de tarde. TODOS sorriam e se encantavam ao ver Vênus e o Sol. TODOS ouviram com atenção as explicações empolgadas e científicas do Steven, sobre planetas, explosões solares e galáxias. E TODOS agradeceram muito à generosidade dele, por compartilhar os telescópios e permitir um sopro de aprendizado divertido no meio da rotina nossa ocupadésima de cada dia.

Eu me emocionei muito ao perceber a dimensão da divulgação científica ali conquistada, naquele nanocosmo do bairro. Ciência niveladora de uma atitude perante o desconhecido que a todos intriga e excita. Ciência como linguagem universal, que instrui, diverte, nos humaniza – e nos une.

Uma Malla vendo Vênus. Atrás, Steven.

Postado em 05/06/2012 por em Ciência, Havaí, Oahu