Mergulho com tubarões

The bull.

Pelo menos para mim, a oportunidade parecia especialmente incrível: mergulhar com os tubarões-touro (Carcharhinus leucas), também conhecidos como cabeça-chata. Estes tubarões são comuns nas águas costeiras tropicais e subtropicais, inclusive adentrando estuários e rios, já que conseguem tolerar diferenças de salinidade numa boa – para sobreviver na água doce, diminuem em até 50% a concentração de uréia no sangue, e fazem ~20 vezes mais xixi que quando estão na água salgada. São animais solitários, que se juntam apenas para procriar. Os adultos (> 6 anos) não possuem um predador natural – exceto nós, claro.

E por que era uma oportunidade especial de mergulho? Porque os números não mentem: por habitar regiões costeiras, muitas vezes vivendo próximo a cidades litorâneas de densa população, essa é uma das poucas espécies de tubarão que comumente ataca humanos. Pelo menos 139 ataques, sendo 60 fatais, envolvendo tubarões-touro já foram registrados oficialmente – e não-oficialmente, sabe-se lá quantos…

Portanto, pela lógica malla, oportunidade imperdível.

Para mergulhar com esse nível de adrenalina, entretanto, é fundamental uma operação de mergulho autônomo robusta, de extrema confiança e bem feita. Nesse quesito, ninguém melhor que o Mike para coordená-la.

Mike é o nome por trás da Beqa Adventure Divers (BAD), empresa que iniciou e conduz o mergulho com os tubarões-touro do Pacific Harbor, em Fiji. Pessoa fenomenalmente bacana, envolvido e auxiliando diversos projetos de pesquisa científica na região, dono de uma sinceridade visceral que pode incomodar aos de estômago fraco – que o diga as diversas polêmicas importantes na internet em que ele pitaca, como a chamada “golfinhação” do movimento (pseudo)conservacionista dos tubarões e suas confusões numéricas. (Alguém lembra dos “100 milhões de tubarões são massacrados anualmente”? Pois é, cadê os dados?)

Quando chegamos na loja do Mike, uma das primeiras frases dele foi: “esse mergulho você não faz com um buddy, você faz com um body guard”. Pôs abertamente na mesa a realidade da aventura que nos dispunhamos a encarar: o touro é um tubarão enorme (chega a medir 3.5m), que efetivamente mata e ele ali está no ambiente dele; é você quem está no lugar errado. Portanto, todo cuidado é pouco.

Apesar desse “medinho” natural que as pessoas tendem a ter, meu sentimento era mais de “ansiedade tranqüila”, empolgada que estava por ver pela primeira vez os tubarões-touro em seu ambiente natural.

Chegamos cedo e logo começamos a vestir o neoprene. Apesar do sol e calor abafado fijiano, a regra era clara: luvas e botas cobrindo qualquer área exposta do corpo (exceto o rosto). Como o mergulho é feito numa situação de alimentação do bicho, a possibilidade de, no meio do feeding frenzy, o tubarão se confundir com a sua canela não pode existir. Mais uma vez, todo cuidado é pouco.

E é aí que entra a qualidade de uma boa operação. Mike prepara e executa esse mergulho com muita preocupação em segurança. Não há uma potencial situação de risco que ele não tenha pensado, calculado e feito algo para precaver. Claro, o imprevisível sempre pode acontecer quando se lida com animais selvagens. Mas é uma questão de probabilidade e planejamento: quanto mais bem planejado, menor o risco do imprevisível se tornar um acidente.

O mergulho ocorre no Shark Reef, localizado na laguna entre Viti Levu, a ilha principal de Fiji, e a ilha de Beqa, no chamado canal de Beqa. Num pequeno drop-off a ~30m de profundidade, a chamada Shark Arena está armada. A população de tubarões-touro (e das outras espécies dali também) que visita o local é bastante conhecida (há diversos indivíduos que são habitués da região do mergulho), e a região vem sendo estudada há alguns anos por pesquisadores de diferentes instituições do mundo. É uma oportunidade única de estudo, já que esta população de tubarões-touro é reconhecida por nome próprio, e dados gerais de comportamento são coletados praticamente todo dia que tem operação de mergulho.

No barco antes de cair na água, o mapa que explica o mergulho.

No mergulho, enquanto um dos mergulhadores profissionais alimenta com cabeças de peixe os tubarões-touro, o grupo de mergulhadores recreacionais fica atrás de uma “mureta” de coral, observando a cena como numa TV azul-infinito. Isso gerou, aliás, a visão mais impressionante possível: ao olhar pra frente, na minha cara uma anêmona com uma família de peixes-palhaços enquanto mais uns metros adiante, os tubarões-touro. Eu quase chorei ao ver juntos num só enquadramento 2 das minhas imagens sub prediletas – pra ficar perfeito só faltava aparecer um nudibrânquio lindão. Simplesmente inesquecível.

O banquete para os tubarões leva cerca de 20 minutos. Depois disso, os mergulhadores são levados para a 2a Arena, mais rasa, em meio a um recife de coral MARAVILHOSO. Ali, os tubarões-touro não aparecem com tanta frequência (eles parecem apreciar áreas mais profundas). Em compensação, enquanto nos deslumbrávamos com as reentrâncias dos corais, pelo menos umas 4 outras espécies de tubarão passeavam entre a gente: galha-preta, galha-branca, tubarão-limão e -de-recife. Fantástico!

Duas espécies de tubarão numa mesma foto, galha-preta e galha-branca: não tem preço.

E isso tudo foi no 1º mergulho do dia. Depois do intervalo de superfície no barco, com aquele papo básico sobre conservacionismo de tubarão e mais um tanto de polêmicas, etc. com o Mike, você acha que o sonho acabou… mas não! Caímos de novo naquele paraíso na Arena. E lá vêm os tubarões-touro de novo… e os galhas-pretas, e os limões… Sinceramente, perdi as contas de quantos tubarões de espécies diferentes vi num mesmo mergulho. Era muito tubarão, uma emoção sem fim.

Chorei, claro. E quando saí da água, tudo que consegui escrever no meu logbook de mergulho foi:

“Sharks everywhere. This is truly the best shark dive ever.”

Foi talvez um dos maiores sorrisos que estampei em 2011.

Tudo de tubarões sempre.

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Para viajar mais:

– O título do post é uma homenagem ao blog do Mike “DaShark”, o The Best Shark Dive in the World, onde você encontra muitas informações, polêmicas e discussões sobre tubarões em geral. Se você curte tubarões (e temas correlatos), é leitura obrigatória mais que prazeirosa.

Estudos dessa população de tubarões-touro sugerem que eles se reproduzem em alguma área próxima dali e que sua presença na região é de certa forma sazonal – embora nunca desapareçam de vez. Desde que o feeding começou e a reserva foi criada, a população de tubarões-touro aumentou. E os benefícios econômicos que o turismo do “mergulho com tubarões” traz para a região também já foram calculados e analisados.

– O tubarão-touro é a única espécie capaz de sobreviver longos períodos em rios, na água doce. Dizem que já foi encontrado perto de Manaus. Em Fiji, o relato das comunidades ribeirinhas sobre a presença dele nos rios da região virou um artigo científico bacana [link em pdf].

– É uma questão simples de biologia: o tubarão é um animal selvagem. Mike deixa claro isso a todo segundo, o que é extremamente importante e crucial. Com ele, não há “passar a mão na cabeça” nem “tubarão fofinho” (#carapuçafeelings). Discutimos muito sobre o quanto as pessoas parecem precisar desse antropocentrismo desvairado ao tratar uma espécie animal para poder colaborar de maneira efetiva com a causa conservacionista, adorei muito a conversa. Muito dessa conversa ainda ressoa na minha cabeça, como possibilidade interessante para posts futuros. Principalmente, algumas crenças que, quando olhamos de perto, complicam e atrapalham mais ao trabalho de conservação que ajudam. Há de se exercitar mais escrutínio – pero sin perder la ternura. E há ainda tanto a se fazer… A gente vai vivendo, blogando e aprendendo.

A lot of food for thought after these dives. And the reminder to never lose sight nor hope. Thank you very very much, Mike, for sharing so much great information in such a small – and fun! – amount of time. 🙂

No Pacific Harbor, depois do melhor mergulho com tubarões que já fiz. 



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