Sábado à noite fomos ao cinema ver “Os Descendentes” (“The Descendants“), do Alexander Payne. Um filme que foi super-comentado aqui no Hawaii desde suas gravações, e agora ainda mais, depois dos prêmios no Golden Globe. E desde então, queria muito ver.

(Parênteses: as cenas internas foram feitas num galpão-estúdio improvisado (ex-Comp USA, hoje uma loja de automóveis) a um quarteirão de onde trabalho. Apesar de eu passar por lá todo dia – e pescoçar com força – não consegui esbarrar no meu ídolo-mor George Clooney, só vendo o entra e sai de vans e traillers e equipamentos. #mallaepicfail.)

Mas o detalhe: eu não sabia um “a” da história antes de ver. Não li sinopse, nem resenha, nem comentários. Absolutamente nada. Fui pro cinema apenas com: filmado no Havaí, com George Clooney. E olha, camaradas, que boa surpresa.

[ATENÇÃO: spoilers daqui pra frente!!!]

O discurso inicial de Clooney reflete palavra por palavra o que boa parte dos que moram aqui, os kama’ainas, têm vontade de comentar depois de ouvir pela enésima vez de algum conhecido: “ah, mas você mora no paraíso!”:

“My friends on the mainland think just because I live in Hawai’i, I live in paradise. Like a permanent vacation – we’re all just out here drinking mai-tais, shaking our hips, and catching waves. Are they nuts? How can they possibly think our families are less screwed up, our heart attacks and cancers are less fatal, our grief less devastating? Hell, I haven’t been on a surfboard in 15 years. (…) Paradise. Paradise can go fuck itself.” (Matt King, personagem de Clooney)

O filme já começa impactante, e o tom é o das letras miudinhas dos folhetos de turismo – ou melhor, o tom não está em folheto de turismo algum. Porque é de contraste, oposto à visão lugar-comum que o Havaí evoca naqueles que não vivem o cotidiano dentro da zona 808. O Havaí de “Os Descendentes” tem dias de chuva, cinzentos, sem o aloha spirit; é repleto de dilemas pessoais, de saúde, de família, de negócios; tem engarrafamento na H1, bullying na escola, briga por terra, Alzheimer. Não é um Havaí bonito de se ver. Mas é um Havaí necessário de se mostrar, de ser refletido, e que finalmente veio à tona.

“Os Descendentes” é um filme essencialmente triste, sobre a morte e os dilemas que ela traz. Sobre como as pessoas lidam com o luto, a saudade que virá. Seria um filme que poderia ser adaptado a qualquer lugar do planeta, certo? Talvez. Mas é aí que entra a beleza da história, pelo menos para mim.

Ao retratar todos esses dilemas e confusões usando como pano de fundo o Havaí, a escritora Kaui Hart Hemmings salpicou de nuances únicas do arquipélago os dilemas universais que todos temos como humanos. Ela enriqueceu a história com uma perspectiva até então jamais ouvida: o Havaí contemporâneo e paradoxal de quem vive aqui, mas não é “havaiano”, não tem um certificado de ancestralidade do Reino do Havaí, os chamados haoles. O personagem Matt King sumariza bem essa faceta:

“Even though we’re haole as shit and go to private schools and clubs and can’t even speak pidgin, let alone Hawaiian, (…) we’re still tied to this land.”

A confusão de divisão de terras, fruto de uma lei recente é parte crucial da narrativa – a estória da família de descendentes de King baseia-se na história real da família Robinson, que é dona da ilha de Ni’ihau, um caso que ainda é um imbroglio pro governo do estado. Há o eterno embate desenvolvimentista x conservacionista para transformar áreas perto da costa em resorts e afins.

Mas há também os detalhes. As músicas havaianas – incluindo um dos meus prediletos, Keola Beamer. O costume de deixar os sapatos na porta. A tranquilidade de não julgar as pessoas baseado apenas em seus looks, no filme explicitado na reunião entre primos no escritório de King – todos de chinelo, como manda a tradição em escritórios havaianos. (Já contei que os havaianos têm “chinelo de trabalhar” e “chinelo de festa”? Pois é.)

E há os mínimos detalhes. Talvez passem desapercebido às audiências pelo mundo, acostumadas ao Havaí dos folhetos. Mas foi nestes mínimos detalhes que o filme mais me tocou. Pelas nuances, pelo cuidado com cada recanto mostrado. A fala dos adolescentes carrega as gírias típicas daqui. Os personagens usam os termos coloquiais das ilhas – como o mainland, que postei acima, para designar os EUA continental, ou o uso burocrático do mahalo. King mora em Manoa, atrás da Universidade (dá pra ver claramente o prédio em que trabalhei em 2002 numa das cenas iniciais!), e sua filha estuda na Noelani. As casas que aparecem estão decoradas como as que vemos aqui, os personagens vestem aloha shirts, não camisas papagaiadas havaianas compradas em Waikiki. Mesmo quando a cena é filmada em Waikiki (quando as canoas havaianas estão treinando no Ala Wai), não é Waikiki que aparece: é o lado de lá do canal que é destacado, a cidade em si. Aliás, só me lembro de  uma cena do filme mostrar a Waikiki do cartão postal, porque a intenção é justamente se afastar do Havaí do turismo. Quando as cinzas da esposa são finalmente jogadas em Ala Moana, numa cerimônia familiar tocante a bordo de uma canoa havaiana com a tradicional oferta de leis (como se faz por aqui, aliás), a vista pro Diamond Head não é privilegiada, é apenas secundária. O que importa são as pessoas, a ohana.

Eu gostei de “Os Descendentes” à beça. Chorei, ri, me emocionei, me diverti, refleti. Adorei ver finalmente nas entrelinhas da tela pedaços do Havaí que eu vejo e vivo no dia-a-dia: simples, com problemas e aporrinhações, mas também cheio de sorrisos e emoções. Um Havaí real e humano. O Havaí de “Os Descendentes” é o Havaí dos pequenos prazeres e desprazeres cotidianos que alimentam e reforçam o espírito de aloha real que transborda aos turistas enfim. É o não-paraíso. Afinal, o paraíso não existe, todos sabemos; somos nós que o construímos a cada dia, onde quer que nosso coração assim decida ser e chamar.

Tudo de bom sempre.

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– Post dedicado à Viva. 🙂

– Do filme inteiro, reconheci mais de 95% das locações externas tanto em Oahu quanto no Kauai. As cenas de hospital, embora não devam ter sido gravadas dentro do Queen’s, estavam perfeitas: eu me operei no Queen’s em 2009, e o hospital por dentro é exatamente daquele jeito, nos mínimos detalhes, incluindo o avental dos pacientes e o design das plaquinhas. O único local que não reconheci mesmo foi o mais chave para a trama de “Os Descendentes”: a suposta “propriedade” de King, um cenário lindíssimo de praia e vale. Googlei. É na vida real parte do Kipu Ranch, na cidade de Lihue, no Kauai. Nunca fui, mas já entrou na lista para próxima viagem pra lá. 🙂

Trailler oficial do filme.

– Estou na torcida pelo Oscar para “The Descendants”, mas tenho noção de que na categoria “melhor ator”, George Clooney terá páreo duro: achei Leonardo Di Caprio simplesmente superbo em “J. Edgar”. Vamos ver…

UPDATE: A Karine avisou nos comentários que o Di Caprio não está concorrendo ao Oscar – era no Golden Globe que os dois estavam no mesmo páreo (para vocês verem como eu presto atenção em bastidores de cinema…). Então, agora é torcer pelo Clooney, yeah! \o/ (Mas uma pena, porque achei a atuação do Di Caprio em “J. Edgar” superior…)

– Aos curiosos, comentei antes por que vim parar aqui. E, apesar dos deadlines e da vida atropelando, de vez em quando eu tomo uns maitais e dou uns mergulhos à sombra do Diamond Head, pra lembrar que… bem, este é o paraíso que escolhi, afinal. 😉