Na 4a feira passada, véspera do feriado de Ação de Graças, fui convidada para participar de um luau com Imu, uma tradição da cultura havaiana. O imu é um tipo de forno debaixo da terra, usado para cozinhar carnes, peixes e vegetais. Cozinhar no imu era prática comum dos antepassados polinésios (incluindo o Havaí), que após a incorporação do arquipélago como estado americano em 1959 foi desaparecendo.

A partir da última década, com o aumento da valorização da cultura havaiana pelos próprios moradores do estado, o imu voltou a ser usado como método de cozimento em ocasiões especiais, como no dia de Ação de Graças, maior feriado americano. É uma forma de não deixar morrer um pouco da história dos costumes às novas gerações.

Mas, claro, agora o imu é conduzido com elementos da modernidade (tipo: papel alumínio no lugar dos pacotes enrolados em folha de bananeira), mas ainda assim, é bacana ver a empolgação da galera com a prática. É para eles, no fundo, uma grande celebração do ser havaiano, da manutenção da tradição de um povo. E uma experiência cultural muito bacana.

O imu era em Waimanalo, um dos bairros mais havaianos do Havaí, onde não há resorts nem drinks coloridos. Cada um levou o que gostaria que fosse cozido no imu – o cozimento é devagar, a uma temperatura constante bem alta e dura mais de 12h para chegar ao ponto. É ideal para cozinhar porco e peru, por exemplo, os tradicionais alimentos do dia de Ação de Graças nos EUA.

Quando chegamos às 4 da tarde no sítio em Waimanalo onde o luau aconteceria, eu achava que seria uma festa pequena, de poucos convidados, coordenada pela família de uma das minhas amigas. Entretanto, o fato de terem deixado um moleque na entrada com um panfletinho engraçado explicando as “regras” do imu, já era indicativo do que viria pela frente: um mega-luau.

E começaram então a chegar uma infinidade de bandejas de alumínio de diversas famílias, comidas, todas com etiquetas de identificação, que cozinhariam a noite toda no imu. Duvidei veementemente que caberia tudo dentro do imu – e obviamente estava errada. (Nós levamos um pedaço minúsculo de porco, e a minha amiga levou uma panela enorme de laulau, comida típica havaiana.)

O imu já estava cavado, cheio de pedras de rio desde o dia anterior, e fora acendido às 3 da manhã pelo dono do sítio. As pedras têm que ser escolhidas adequadamente, não podem ter “bolhas” de ar para evitar que explodam, estragando o imu – e a comida.

Às 5 da tarde, começaram os “trabalhos” para fechar o imu. Primeiro, cortaram umas bananeira verdes, e à medida que as bananeiras chegavam, o pessoal começava a descascar o caule. (Na verdade um pseudocaule, já que é na verdade formado pela bainha de diversas folhas. #mallicebiológica)

(É importante que a bananeira seja “fresca”, porque tem ainda muita água e pode gerar vapor quando exposta ao calor do imu. É um cozimento no vapor.)

Separadas as lascas de caule, forra-se a camada de pedras quentes com estas lascas.

Em cima das lascas, vão as panelas/formas enroladas em papel alumínio, que cozinharão a noite toda.

Depois que toda a comida foi colocada no imu, cobre-se tudo com as folhas das bananeiras cortadas.

Para “selar” o calor e o vapor, joga-se por cima um monte de sacos de juta molhados.

(Reparei onde a presença brasileira se fez fundamental neste imu…)

Aí tudo cobre com um plástico…

… e para finalizar, cobre o imu com areia.

Todo o processo foi realizado num ritmo de comunidade em festa, todos ajudando e conversando animadamente. Já era quase 7 da noite quando o imu foi lacrado. Para celebrar, um outro imu bem menor estava desde o dia anterior cozinhando. Deste imu menor, saíram um porquinho inteiro assado, um monte de laulau com taro (inhame), uns pratos com galinha e outros com carne. Os convidados também levaram diversos pratos, incluindo saladas, sobremesas, maioneses e afins. Ou seja, o banquete estava pronto.

A música (blueszeira!) começou enquanto estávamos nos servindo, e a festa foi até altas horas, regada à ótima comida, música e conversas, como um verdadeiro luau deve ser.

No dia seguinte, às 8 da manhã, o imu foi aberto e cada um tirou sua bandeja de comida. Nós chegamos um pouco mais tarde, e não vimos a abertura. As folhas de bananeira murcham com o calor, e provavelmente o buraco na terra deve ter “afundado”…

Mas ficou a experiência incrível da noite anterior, de ter participado e ajudado na confecção de um verdadeiro luau com imu, tradição mais festiva da cultura havaiana. Uma celebração de aloha ‘aina das mais bacanas e sinceras.

Tudo de bom sempre.

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– É possível ver um imu sendo aberto em um dos muitos luaus turísticos que são vendidos pelos resorts da ilha – já contei nossa passagem por um deles antes. Em geral, os funcionários fecham o imu de manhã cedo e na hora do luau, abrem para os convidados verem. Como são parte de um show, os imus dos resorts contam com pessoas vestidas em trajes havaianos e em geral, o invólucro do porco é feito de maneira mais tradicional, sem papel alumínio ou outras “mudernidades”. Não deixa de ser interessante ver, mas confesso que curti mais participar com a galera, jogando lasca de bananeira sobre o buraco. 🙂

– O laulau que saiu do imu aberto durante a noite do luau foi o melhor ever que já experimentei, com umas rodelas de inhame dentro – e olha que eu nem gosto de inhame… pra vocês terem uma idéia.

* Aloha ‘aina = amor/respeito à terra e/ou às suas raízes, em havaiano.