Gente vivendo de menos num lugar lindo demais.

Esta é a frase que sintetiza perfeitamente a dicotomia de Fernando de Noronha, o arquipélago mais ecoturístico do Brasil. Uma antítese exata para a dimensão dos problemas que a ilha sofre no dia-a-dia.

Lembro de conversar sobre isso com a Dra. Luluzita quando estivemos em sua casa no Paraná em 2008 (viagem aliás, que ainda consta na minha longa lista de relatos que faltam ser contados no blog…). Eu, André e ela, três mergulhadores que amam e reconhecem o paraíso que Fernando de Noronha é debaixo d’água, a riqueza de sua fauna e a necessidade de preservação do lugar. Mas com uma camada a mais de informação que os folhetos de agência de viagem. Luluzita, que já morou na ilha prestando serviços médicos; André, que por 2 vezes se hospedou na base militar da ilha e, entre um snorkel e outro, caminhava pelas favelas de zinco antenado com o arredor, sem dar muita bola para o auê turístico que se forma ao redor de cada paisagem paradisíaca. Ambos contando as mesmas mazelas, os mesmos problemas, que chegam minimizados aos olhos da maioria sob uma espessa camada de oceano lindo e paisagens deslumbrantes. E eu atônita e atenciosamente escutando, pois percebi que caíra polianamente na mesma armadilha do turismo que é reforçada over and over no arquipélago – e que não está de todo errada, mas que precisa ser repensada urgentemente. Revoltante constatar como ao turista é pintado o paraíso, e ao morador, sobram as migalhas do inferno.

Felizmente, uma equipe de reportagem do Jornal do Commercio foi mais fundo e pôs para fora toda a sujeira que envergonha Noronha. Ou pelo menos parte dela. A falta de estrutura hospitalar. A falta de recursos para educação. Os abusos oficiais. As condições habitacionais da população. A existência de uma pequena oligarquia, em que uma pessoa manda e desmanda sem lei que repreenda. A falta de transparência nas contas públicas. O problema do lixo, talvez o único que já tenha vazado com mais frequência pela imprensa brasileira. Mas principalmente, a falta de liberdade de expressão – ou como a reportagem brilhantemente coloca, a liberdade vigiada dos moradores.

Fernando de Noronha

Uma reportagem que deveria ser lida por todo turista antes de embarcar para lá, e por todo brasileiro que queira entender porque ecologia e sustentabilidade são conceitos muito mais amplos que apenas “salvar as tartarugas” e ponto. Eu aplaudo o trabalho de preservação ambiental feito em Noronha, pelo benefício biológico ao ecossistema, porque é realmente efetivo e porque engajam pelo menos parte da população local. Mas de nada adianta um ambiente preservado e exemplar, se os habitantes locais, embora engajados, pouco se beneficiem dele, do dinheiro gerado pela atividade para melhorar sua própria qualidade de vida. Se a eles só sobra humilhação. É preservação pra inglês ver, apenas.

“[…] uma ferida que só faz crescer na ilha. O sentimento de que quem menos desfruta do paraíso é quem mora nele.”

E fica como reflexão a mensagem da repórter Clara Carvalho, que escreveu tal reportagem, sobre a necessidade de se contar essa história que o Brasil da Copa não quer ver:

Gente vivendo de menos num lugar lindo demais. Foi desse oposto extremo, entre a beleza gritante da paisagem e a miséria contida do povo, que brotou o sentimento que dá sentido a este trabalho. Não é só a denúncia, o compromisso maior de revelar os abusos que ninguém vê. É o desejo de dar voz a uma esperança que, ilhada por uma eternidade de desmandos, insiste em amanhecer.”

Obrigada, Clara Carvalho e Ricardo Labastier (autor das imagens super-simbólicas em preto e branco que mostram os diversos tons de cinza que a ilha esconde por trás das paisagens de cartão postal). Parabéns pelo jornalismo investigativo e por tirar do cofre dos interesses escusos essa história tão necessária para todo o país.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Alguém pode dizer: “ah, mas estes problemas existem em todos os lugares do Brasil – quiçá do mundo! Por que tanta indignação com Fernando de Noronha?” Ao que eu já adianto aqui minha resposta: em qualquer lugar onde haja humilhação e desrespeito à condição básica de vida humana (Convenção da qual o Brasil é signatário desde sua incepção em 1948, vale lembrar), há um crime e ele merece ser no mínimo investigado. Mesmo que nossas retinas estejam calejadas de histórias similares, eu pelo menos, otimista poliana de carteirinha, me sinto intimamente na obrigação moral com as futuras gerações de não deixar que estas situações se tornem uma rotina a mais nas minhas retinas, quero que elas sempre choquem e que me façam no mínimo refletir, que não me anestesiem ao ponto da inércia. Em qualquer lugar do mundo que ocorram.

Em Noronha, especificamente, porque há um gritante descompasso do que é arrecadado pelo turismo, da forma como o turismo é organizado e bem orientado, com as migalhas desorganizadas que são deixadas para a população. Lamento informar, mas bom ecoturismo não é feito às custas da comunidade local, e sim com a participação ativa da comunidade local em todos os processos gerenciais, sociais, econômicos, culturais e logísticos. Inclusive nos lucros.

P.S. especial: Obrigada, Luluzita, por compartilhar a reportagem no twitter. 🙂

  • Lena

    Lúcia, quando estive em Noronha visitei a tia de uma amiga, que se casou com um morador e mudou para lá. Moravam em um cortiço. Aqui em São Paulo ela morava nos Jardins! Fiquei bem chocada como o que vi e ouvi. E mais ainda com a escolha dela…
    Muito boa a reportagem.
    Beijos!

  • Lena, são poucas pessoas q efetivamente vão à Noronha e vêm essa realidade. A reportagem é excelente, eu achei q merecia muito virar post. Exatamente pra mostrar esse lado tb. Beijão!

  • Leila

    Tambem acho que devia haver uma taxa turistica beneficiando os moradores, ou que o(s) resort(s) de luxo da ilha fizesse um trabalho assistencial para essa populacao.
    Passei uma semana em Fernando de Noronha em 1992, e nao cheguei a conhecer o lado triste da ilha. Mas a parte positiva que achei foi o cuidado, na epoca, em distribuir preservativos para todos os turistas (porque uma epidemia de AIDS seria fatal para uma populacao isolada de ilha) e nos fazer ver um video educativo sobre a colera, que era outra preocupacao naquele momento.

  • Pois é, Malla. Por isso recomendo as pessoas se hospedarem nas pousadas dos moradores da ilha e conversarem com eles. Lá está longe de ser o paraíso para os nativos.

  • juka balllllllla

    DEVEM verificar tambem as ambulancias que enves de levar pacientes levam fucionarios e fuliões para paceios e nos esquecem na lama puliciais igerem bebidas alcolicas em horario de serviço junto com o administrado enquanto passea pela ilha um tal de bosco toma conta da carteira do administrador en quanto o propio pode e tem prioridades a ter a quantidade de veiculos inlimitada dentro da ilha o governo ta uma vergonha junto com sua administração me aguardem para masssssss noticias desse lugar lindo que passa por esse tipo de fraude
    PS: merenda do colergio quem lucra é profesores com preços absurdos.

  • MARY

    Bem, tudo o que foi relatado na reportagem é a mais pura verdade. E digo ainda, que faltaram mais informações. As ruas estão um caos.Buracos, digo crateras crescem em frente às pousadas, como por exemplo na Floresta Nova; quando cheguei fiquei boqueaberta, pois havia apenas 3 anos da minha última viagem a FN. Por lá passei por 4vezes e vi e ouvi muitas coisas. Os funci da administração, eles tambem sofrem muito, atrves de perseguição e humilhação.A quantidade de veículos aumentou bastante, motos/motonetas acho que foram as recordistas, o que antes não era possivel, pois não estavam liberando licenças novas, apenas era aceito as permutas. Muitos animais errantes, dê uma chegadinha no Porto, os gatos mais parecem ratos, entocados nas pedras aguardando a hora da “bóia”. Enfim,essa é a Ilha de Noronha.

  • Nanda

    |Aqui em oronha só funciona pra quem tem dinheiro. teve uns pais de familia que foram presos em 2009 por querer da uma conforto melhor a familia já os empresarios de grande porte que estao com obra inrrregulares tipo pousada maravilha nãoa conteceu nada.

  • Wagner Teixeira

    Amigos, fico feliz com o brilho nos olhos quando se fala de FERNANDO DE NORONHA pela boca de voçês.Mas, nascido e criado a 36 anos dentro deste lugar é que posso falar da verdade. O lugar é lindo? sim! 16 praias belíssimas! Preservação? não, pergunto a todos que foram ou estiveram por lá mais tempo: quantos fiscais voç^rs viram ao não ser na praia do Ataláia ou na praia dosueste? se perguntem por que só nestes lugares!? Moradias, Saúde, Educação…Um lugar tão pequeno e rico para Pernambuco, taxas e mais taxas que são cobradas e não revertidas. e muitas coisas mais
    atc
    Wagner

  • Arthur

    Realmente, dessa eu não sabia. Ainda bem que os fatos começam a ser divulgados. Uma população pequena, que poderia desfrutar que um padrão de vida decente…
    Parece que em todo “paraíso” na terra há um lado negro. Basta procurar, por exemplo “dubai dark side” no Google, e ver a massa de imigrantes quase escravos que vivem num campo de trabalhadores no meio do deserto, e que constróem todos aqueles prédios bonitos.
    Abs!

  • Arthur, Dubai é um outro bom exemplo. Já ouvi umas histórias horríveis de Dubai. 🙁

  • Gisele Cruz

    Boa Noite, muito bom ler esse texto que para mim é tão atual. Fui à Fernando de Noronha em Janeiro de 2014, é belíssimo, mas fiquei muito inquieta com os fatos que presenciei e ouvi dos moradores. A falta do básico para a população, a falta de investimento, e os lamentos constantes de todos os moradores, guias e prestadores de serviços de lá! Não tem como não se inquietar e se chocar com os fatos!!!

    • Oi Gisele, fico feliz que tenha curtido esse texto. Tb me incomoda quando só vejo as pessoas comentando das belezas de Fernando de Noronha, e esquecem das pessoas que lá residem. Acho que é preciso uma discussão muito maior e complexa entre população e autoridades para começar a melhorar a situação…

    • Verônica Maliska Wagner

      Nossa…lendo esses posts fico a pensar se ainda quero ir visitar FN…e fico pensar mais, o governo federal deveria sim intervir e exigir que fosse mudado o tipo de comando ou mandato e destituir o poder da criatura escolhida pelo poder de pernambuco…afinal se a questão é preservar também deveriam pensar e valorizar os nativos e os que moram lá para trabalhar e cuidar da ilha…Fico muito triste com uma situação de desigualdade aqui apresentadas…acredito que alguém, com poder maior deveria se mobilizar para isso não se agravar!

      • Verônica, esse é o desejo comum de muita gente… incluindo eu mesma. Não é nada eficiente a situação que se avoluma em Noronha.