Nanmadol8

Em Pohnpei, há um mistério fascinante: o sítio arqueológico de Nan Madol.

Nunca ouviu falar? Eu também não, até começar a ler sobre a Micronésia para esta viagem. (E essa falta de conhecimento generalizado do mundo com tal preciosidade é indicativo do quanto ainda precisamos melhorar nosso senso histórico do que é importante ser preservado…) Pois Nan Madol foi uma cidade construída no meio do mar. Com ilhas artificiais e tudo. Há muitos séculos antes da chegada dos europeus na região. A área hoje é conhecida como a “Veneza do Pacífico”, pelo intricado labirinto de canais que circunda enormes construções de basalto onde um dia habitou uma civilização.

Nanmadol1

Civilização esta que devia ter um conhecimento tecnológico impressionante, pois não só conseguiram em pleno século XII construir no meio do Pacífico um dique de contenção impressionante, mas estabeleceram uma cidade inteira com prédios enormes estruturados em fundações de corais, algo ÚNICO arquitetonica e arqueologicamente no mundo. É uma espécie de Machu Pichu do meio do Pacífico, imponente e muito, mas MUITO, impressionante.

Nanmadol3

De acordo com este estudo sobre Nan Madol, essa forma de fazer paredões – com grandes pedaços de basalto intercalados por pequenos pedaços do mesmo basalto e enchimento de coral – é única no mundo.

O mapa abaixo, tirado da Wikipedia, nos dá uma idéia do que foi Nan Madol:

Mapa Nan Madol

Estudos geológicos feitos há muitas décadas mostraram que o basalto das construções em Nan Madol é de um tipo encontrado apenas no noroeste de Pohnpei – mas Nan Madol fica no sudeste, ou seja, do lado oposto da ilha, e começa aí o mistério: como essas pedras enormes, de muitas toneladas, foram levadas até o mar para fazer a construção? Não dá pra passar pelo centro super-montanhoso da ilha, que até hoje é desabitado – é uma barreira intransponível, sem túneis ou estradas. Ou seja, o transporte teve que ser feito pelo mar, ao redor da ilha. Mas como?

Há poucos anos, tentou-se fazer uma canoa típica da região para carregar apenas um pedaço de rocha equivalente aos maiores encontrados em Nan Madol, e… nada. Não conseguiram deslocar sequer uma pedra. Obviamente essas pedras foram carregadas de uma forma tecnológica pohnpeiana que se perdeu no tempo, infelizmente.

O início da construção de Nan Madol acredita-se ter acontecido no século VIII, mas a civilização dos Saudeleur (que supostamente habitava Nan Madol) floresceu mesmo do século XII ao XV. Depois disso, houve sua queda, e não sabemos se o contato com os europeus acelerou tal queda, ou se o império dos Saudeleur já estava mesmo enfraquecido por conflitos com outros povos da região – há estruturas menores no estilo de Nan Madol em Kosrae também. E… para que servia tal cidade? Era o povo Saudeleur grandes comerciantes, guerreiros ou apenas ali viviam? Como desapareceram? E por que nada sobrou de seu império a não ser a cidade? Por que os Pohnpeianos não gostam de falar deles, e acreditam que o lugar é amaldiçoado?

Eis aí a principal característica de Nan Madol: a quantidade de perguntas sem resposta é maior que a nossa própria curiosidade.

Fomos a Nan Madol na tarde de sábado passado. Há duas formas de visitar: entrando pelos fundos da cidade, numa trilha terrestre de algumas milhas e muita mata; ou de barco, entrando pela “rua” principal com a estrutura mais imponente logo na entrada, o que só é possível fazer na maré alta. Nós fomos de barco, e aproveitamos para passear pelos canais diversos, vendo um pouco da loucura e da complexidade que é esta “cidade” desaparecida.

Nanmadol6

Uma das “ruas” de Nan Madol.

A maré alta é realmente o momento ideal, porque em certas áreas o canal é bem raso. Os peixinhos abundam: afinal, há ali pertinho recifes de corais magníficos, e do outro lado, um manguezal de saúde avassaladora. A fauna é outra riqueza única deste sítio arqueológico.

Nanmadol4

A cidade está coberta de vegetação, dada a falta de recursos com que vem se tentando mantê-la. O mangue impera em meio às ruínas. É sem dúvida a maior ausência da lista de Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Nan Madol tem cerca de 1000 visitantes por ano – se compararmos com a Ilha de Páscoa, cujos moais esculturais atraem mais de 50,000 visitantes por ano, Nan Madol é realmente uma maravilha da história da humanidade totalmente esquecida, abandonada.

Nanmadol2

É como se estivéssemos dando as costas a tal maravilha, e esse sentimento gera uma certa revolta – pois se Nan Madol estivesse na Europa ou num ponto mais conhecido do planeta, já estaria há muito protegida. Mas está na Micronésia, terra esquecida da maior parte das pessoas, então… fadada talvez ao mesmo esquecimento. Uma lástima de deixar lágrimas nos olhos.

Tudo de bom sempre.

Nanmadol7

Mergulho em frente à estrutura principal das ruínas de Nan Madol, para refrescar do calor absurdo que fazia. Inesquecível.

*********

P.S.: Os pohnpeianos acreditam que Nan Madol foi resultado de magia. Incrível como para tudo que não conseguimos explicar de maneira racional, esta desculpa logo aparece, não é mesmo?

Postado em 14/01/2011 por em Uncategorized
  • Sheila Machado

    Eu vi um documentário na TV (não lembro se no Discovery ou History) uma vez sobre esse sítio! Fiquei com muita curiosidade de conhecer um dia.
    Adorei seu post!

  • Allan

    Sim, deveria estar na lista dos patrimônios da Unesco. Pelas fotos e pelo texto me parece um absurdo que ainda não o seja. A Pompeia de cá está ruindo. :/

  • Bicarato

    Putz, Lu, que história fantástica!
    Já repliquei lá no Feicebuk, ok?
    E muitíssimo obrigado por compartilhar. Demais mêsss!
    Beijabracíssimos =^)

  • http://luciamalla.com Lucia Malla

    Sheila, acho q passou na BBC… pelo menos meus amigos de Pohnpei disseram q foi até “engraçado” o jeito q eles reportaram, pq colocaram o rei de Madolenihmw (município onde está Nan Madol) para fazer as cerimônias tradicionais, etc.
    Allan, é um absurdo MESMO.
    Bica, q legal q vc curtiu assim! :)
    Beijão a todos.

  • Vidas Passadas

    Habitei esta cidade numa vida passada, a ilha era habitada por duas tribos que gerreavam sendo que a que vivia fora de Nan Madol era canibal e primitiva e a outra civilizada e organizada.
    Os blocos eram altos e se recolhiam as escadas feitas de corda, os primitivos acreditavam que alí viviam Deuses e os temiam e respeitavam, mas com a mudança das marés os blocos de pedra foram sendo encobertos pela água e assim os canibais caíram na descoberta de que eram homens comuns houve uma grande guerra, onde mulheres e crianças foram capturadas por estes canibais.
    Acredita-se que os blocos foram empilhados atravéz da energia taquiônica.