Island Air

Tem horas que só mesmo dando uma boa risada. Foi o caso da viagem de volta pra casa neste último domingo.

Nós voamos de Island Air, uma nano-empresa aérea que faz conexão entre as ilhas havaianas. A Island Air só tem aviões pequenos, tipo Dash com hélices, que só cabem 36 pessoas; uma frota muito modesta, entenda-se. 100% low-cost. O serviço é bem aloha style, super-amigável e sem frescuras, informal até o último fio de cabelo. E é a única empresa que voa para Moloka’i e Lana’i, ilhas havaianas menos “conhecidas”.

(Parênteses para falar de Lana’i: é a ilha das celebridades mais exclusivas, as celebridades “de verdade”. Tem 2 3 resorts na ilha e os preços de suítes são insanos (UPDATE: Um post do Gadling sobre o Natal em Lana’i). Boa parte de Lana’i pertence a David Murdock, bilionário do Dole Plantation que possui uma mansão invejável à beira de um penhasco lindíssimo. Foi em Lana’i que Bill Gates se casou em 1994 – na ocasião ele fechou a ilha para a cerimônia e pagou para que nenhum helicóptero de Maui levantasse vôo naquele dia, frustrando todos os paparazzis que se agregavam na região. Enfim, Lana’i, por causa da dificuldade de transporte, é sinônimo de privacidade máxima, algo que a maioria das top celebridades adoram.)

(Parênteses para falar de Moloka’i: é o oposto de Lana’i. Uma ilha onde praticamente só moram havaianos, pouco turismo, com um forte movimento separatista e um sentimento de parada no tempo. No passado, era onde havia uma colônia de leprosos, isolada pelos penhascos mais altos do mundo. Os guias de turismo são unânimes em dizer que a população de Moloka’i é a mais amigável do estado. Entretanto, há relatos de barcos de haoles que, ao se aproximarem da costa de Moloka’i, foram recebidos a tiro e gritos de “Go away” pelos nativos que lutam pela reinstituição do Reino do Havaí. Enfim, Moloka’i é a mais roots das ilhas. Eu não a conheço, mas… sou extremamente curiosa para ir lá.)

Enfim, fato é que chegamos no aeroporto de Kahului em Maui às 6 da tarde. Nosso vôo era às 7pm, então estávamos tranquilos, chegar em casa antes das 9, poderíamos dormir direito para começar a semana bem. Mas claro, começou aí o fim da festa: o vôo estava atrasado – também tivemos atraso na ida para Maui. O mocinho do guichê nos avisou: “Vôo sairá às 8:45”. Ok, então vamos sentar e tomar um leite quente (estava frio no aeroporto, principalmente para quem ficou molhada e salgada o dia inteiro, viajando de havaianas e bermuda). Ironicamente, sentamos no Starbucks ao lado de um casal de brasileiros que discutia sem pudor, então ficamos calados para não constranger os dois, que, se achando imunes pela barreira da língua, expunham ali suas fraturas.

Lá pelas 8 da noite, novo aviso: por causa das tempestades em Honolulu, o avião tinha ido pro Kauai (que fica no outro extremo do estado) e só chegaria em Maui às 10 da noite. Eu já começava a dar sinais de cansaço, afinal tínhamos passado o dia inteiro na farra de viagem/aniversário, snorkelando, vendo baías e peixinhos, dirigindo pela costa oeste, conhecendo alguns recantos lindíssimos e inusitados de Maui.

Minha pilha estava chegando ao fim. Mas, no melhor aloha style, apesar do atraso que já passava de 3 horas, ninguém reclamava, nem os 3 casais com crianças que ali estavam – e olha que as crianças pareciam bem impacientes, tadinhas. Uma paciência inacreditável reinava naquela sala de espera. Eu pingava de sono. Às 10:30 da noite, o mocinho da Island Air começa o embarque. Viva!

Vôo lotado. Nossa passagem tecnicamente era num vôo direto Kahului-Honolulu. Mas claro, depois dessa confusão de atrasos, desvios de rota e tempestades, o único avião disponível ia parar antes em Moloka’i. Para deixar alguns dos passageiros. Vôo partiu.

20 minutos depois, pousávamos no aeroporto de Moloka’i. Os passageiros que iam descer ali começaram a sair do avião. Foram saindo, saindo… de repente, eu e André percebemos que só tinha sobrado a gente no avião! Todo mundo que estava na sala de embarque em Maui na realidade estava indo pra Moloka’i. Só os dois sorvetes-na-testa inexperientes do esquema Island Air que ficaram para trás. Já era mais de 11 da noite quando o avião levantou vôo para Honolulu.

Sorriso cansado num vôo só nosso.

Foi a primeira vez na vida que viajei de “táxi aéreo” – e melhor, sem pagar um absurdo. Tínhamos o avião todo para a gente, e a aeromoça, vendo nosso cansaço fim de feira total, nem se deu ao trabalho de ficar falando procedimento de segurança, etc. Às favas o protocolo. Comentou logo é que queria era chegar em casa e descansar. O piloto dava risadas porque o vôo era praticamente privado. O clima era de fim de feira total.

20 minutos depois, pousávamos em Honolulu. O terminal onde a Island Air e outras low-cost pousam é o menorzinho que tem, praticamente uma rodoviária de aviões, escondida no canto da pista, quase em cima da highway. A aeromoça dispensou a escada tradicional (pra quê perder tempo montando algo só pra 2 passageiros com cara de sono?), descemos na pista usando a escada acoplada ao avião mesmo, e… mais um momento inusitado: os funcionários do aeroporto só estavam esperando nosso avião chegar para fechar o aeroporto para o dia. Andamos por um terminal praticamente fantasma, só um faxineiro varria a saída do banheiro. Mas ainda assim, tivemos que ir à esteira buscar nossa sacola de equipamento de mergulho – que era a única bagagem despachada do vôo. Assim que André pegou a sacola, andamos até a calçada, onde fiquei cuidando da nossa bagagem enquanto André corria até o estacionamento para pegar nosso carro e irmos para casa. Já passava da meia-noite há tempos.

Sem atropelamentos nem empurra-empurra para pegar nossa bagagem.

Enquanto André ia ao estacionamento, uma pick-up da segurança do aeroporto parou. Um senhor simpático perguntou: “Você está esperando o ônibus que liga o terminal? Porque essa hora ele não passa mais, não…” Achei a preocupação dele uma fofura. Falei que não se preocupasse, porque eu estava só esperando meu marido. O senhor foi embora com um rosto nitidamente aliviado: não ia precisar lidar com mais aquele pepino no fim de domingo dele. Minha cara claramente delatava o cansaço de tanta espera acumulada desde 6 horas da tarde.

Bastou que André encostasse o carro para o terminal apagar as luzes. Fim de festa total: o último funcionário trancou a cadeado o portão principal. Me senti naquelas noitadas sem fim, em que você ainda está no bar e os garçons já estão jogando balde d’água no chão, indiretamente mandando você embora.

Apesar do cansaço – aliás, acho que por causa dele – tive uma crise de risos. Dessas que você não consegue parar de rir, ver a situação com as lentes cômicas ligadas. Foi a primeira vez que tivemos o avião só pra gente, que nossa bagagem estava solitária numa esteira, que fomos os últimos a sair de um aeroporto, que eu vi um aeroporto literalmente fechar. Para fechar com chave de ouro e gás de riso o dia do meu aniversário.

Porque viajar também é se inundar de experiências inusitadas que contando ninguém acredita. E cronicar.

Tudo de bom humor sempre.

  • Fernando

    Ola Lucia, sou leitor antigo do seu blog, porém não comento, uma pela falta de tempo e outra relaxo meu mesmo, sinceras desculpas. Mas indo ao conteúdo do post, nem sei o motivo mas quando estava terminando de ler, eu ria sem parar, queria eu estar numa situação dessas, mesmo com o atraso, o cansaço, a experiência de ter um vôo só seu deve ter sido o máximo, inesquecível, gostaria de parabenizar você pelo excelente blog, tanto os belos textos que publica como pelas maravilhosas imagens, suas e do André das aventuras e passeios que vocês fazem, e relatam aqui no blog, onde há equilíbrio e harmonia entre a parte escrita e ilustrada, uma complementando a outra, parabéns e abraços a vocês.

  • Lena

    🙂 Que ótimo Lúcia! Esta foi a concretização da frase: “O ultimo que sair apaga a luz!” 🙂
    Bjks

  • Allan

    Que maratona!
    Não esqueça de incluir esse fato na sua biografia de aventureira. Como vocês ainda terão muita aventura pela frente, sugiro anotar em um caderninho para poder lembrar de tudo, daqui a cem anos. 🙂
    Beijocas e Feliz Natal pra vocês!

  • Claudia Beatriz

    hahaha. comédia total.. o bom é que rendeu um post e historia pra contar! 😉

  • Oi Fernando! Q alegria ouvir seu comentário! Obrigada pelas palavras e q ótimo q vc literalemnte viajou comigo, com crises de riso e tudo, hehehehehe! 😀
    Lena, literalmente! Apagamos as luzes! 😀
    Allan, eu já tenho um caderninho… mas ele é tão bagunçado, q acho q vou continuar contando no blog mesmo… hahahaha!
    Claudia, e não é?
    Beijão a todos!