Vi este livro numa vitrine de livraria. Já tinha visto o filme e pensei que o livro teria várias imagens que apareceram no filme – ledo engano. Quando folheei o dito e percebi que era um apanhado de textos relacionados ao mar, organizado por Jon Bowermaster, que não tinha quase foto nenhuma, decidi que comprar na versão Kindle era mais jogo. E li.

“Oceans” tecnicamente é escrito para complementar o filme da Disney que resenhei há uns meses aqui no blog. Imaginei também que comentaria detalhes das filmagens – outro ledo engano. Apenas no primeiro capítulo, quando o responsável pelo filme é entrevistado, a gente aprende um pouco sobre o filme homônimo. E ele confirma minha suspeita, quando diz:

“Oceans não é um documentário; é uma ópera da vida selvagem, e cada animal fez a sua parte, contribuindo com algumas notas para a partitura completa. […] O espectador deve sentir esta emoção. “Oceans” não teve a intenção de explicar padrões de comportamento ou dar informações sobre as espécies. Não foi programado para ensinar, mas para fazer a audiência sentir. […] Nós tivemos todo tipo de ajuda, mas os cientistas não ditaram como fazer certas coisas. A gente simplesmente seguiug os animais; os animais nos guiaram, meio que dizendo o quê filmar, o que não filmar e como nós deveríamos nos sentir.”

Agora, se você acha que, porque o livro não é o que eu esperava, daqui pra frente minha resenha será negativa… ledo engano seu. O fato de não se segurar no filme dá mais força ao livro, que eu apelidei carinhosamente de “MAR 101”. Porque é uma introdução às grandes questões sobre o mar que temos hoje em dia, sejam elas científicas, políticas, sociais, econômicas, artísticas… você escolhe o viés. Há capítulos para todo gosto – inclusive um escrito por um chef especialista em frutos do mar, que dá dicas de onde comprar peixes sem destruir (demais) os estoques dos oceanos. Não espere super-profundidade científica nos argumentos: é um livro, assim como o filme, para olhar, sentir o mar. É literalmente um mergulho na superfície.

(E se um ET aparecesse na minha frente hoje e me pedisse para explicar os oceanos, eu daria este livro de presente para ele ler.)

Nenhum capítulo é escrito em linguagem demasiado científica, pelo contrário: o público-alvo são todos nós, humanos com polegar opositor e telencéfalo desenvolvido. Basta vontade para lê-lo e você ‘tá dentro’. Um dos capítulos iniciais é escrito por “Her Deepness” Sylvia Earle, a oceanógrafa que quando fala, todos os apaixonados pelo mar escutam. Com a sensibilidade que lhe é peculiar, ela nos conta:

“Parado na praia e olhando para o mar, o menino diz: “Tem muuuuita água aí”. E o velho sábio oceanógrafo responde: “E isto é apenas o topo.”

E nos relembra:

Nós devemos tomar conta dos oceanos como se nossa vida dependesse deles – porque, na verdade, ela depende.”

 

Mas nem só de Sylvia Earle se sustenta o livro “Oceans“. Há dados interessantíssimos da interface política/ciência/ambiente trazidos pela diretora-mor do NOAA, a Agência Ambiental Americana que cuida das questões oceânicas e atmosféricas, que comenta:

“Embora eu seja uma cientista por formação, há muito tempo eu abandonei a busca pura e simples de conhecimento em prol de combinar minha experiência com a campanha de defesa [dos mares] e talvez um pouco de marketing social para conseguir avançar a causa maior da conservação. Nós simplesmente não temos mais tempo para esperar “consenso científico” em tudo antes de fazer algo perante o que está acontecendo com nosso planeta.” [grifo meu]

Há explicações sobre a ameaça atual aos golfinhos, aos tubarões, aos atuns, às tartarugas marinhas, aos recifes de corais, feita por estudiosos dos mesmos. Há análises recheadas de facetas sobre aquacultura, sobre sobrepesca. Há explicações sobre o processo de acidificação dos oceanos e sobre a fauna das profundezas. Há a história de como o Vórtex de Lixo do Pacífico foi descoberto e o que tem sido feito para gerenciá-lo. Há ponderações sobre o futuro dos mares na era das mudanças climáticas e da poluição desenfreada. Há também o engajamento hollywoodiano-ambiental de Leonardo Di Caprio, num capítulo curtíssimo cheio de frases fortes (ideal para vendas); e de Paul Watson, o controverso poderoso chefão do Sea Shepherd. Há o depoimento tocante do Presidente das Maldivas sobre o que deveríamos procurar como política adequada para o mar, cujas palavras que mais se destacaram para mim foram:

“Somente quando as pessoas começarem a pressionar seus líderes, quando políticos começarem a perder eleições por causa de questões ambientais, é que os mesmos políticos tratarão as mudanças climáticas com a seriedade merecida. […] Políticos raramente agem a não ser que seu eleitorado empurre-os a fazer algo. […] Culpar os outros por terem causado as mudanças climáticas não é necessariamente a melhor forma de solucionar este problema. O que foi feito, foi feito. Nós queremos focar no futuro, não no passado.”

Mas há também inúmeros capítulos com histórias pessoais de amor ao mar: pescadores, velejadores, surfistas, nadadores de longa distância. Há as curiosidades de criança da neta de Jacques Cousteau, e como seu avô a inspirou a ser oceanofílica. Há o que levou Pierce Brosnan, o (para mim eterno) James Bond, a se engajar pelas questões do mar. Há a inspiração para se mergulhar e descobrir esse enorme desconhecido azul em cada página, em cada linha. O livro termina aliás, com um convite providencial, típico da nossa realidade de quem está na chuva, ou melhor, na tempestade:

“Seu oceano. Você quer protegê-lo? Então você tem que se molhar.

 

MAR 101

Acho que está claro que eu recomendo a leitura deste livro… de preferência, sentindo uns respingos de água salgada enquanto lê. 🙂

Tudo de mar sempre.

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– Para viajar mais… selecionei algumas frases simples, quiçá até simplórias, mas que me emocionaram ou me fizerem parar, respirar e refletir:

“It struck me at that moment […] that I truly need the ocean. Not like one needs food or shelter, but more like one needs love.”

“We humans tend to live with an illusion of separateness, thinking that we are separate from each other as individuals and that we are separate nations, divided by oceans, all separate from nature. But the reality is that we are all united by our dependence on this planet, on this ocean.”

“If ‘more is better’ and that’s the only mantra we have, we’re doomed.”

“The plastic water bottle epitomizes the absurdity of our throwaway society. It takes 2 liters of water to manufacture a one-liter plastic bottle.”

“We need to give the ocean a rest.”

“For anyone who insists that the marine conservation situation isn’t really as bad as we might make it out to be, they probably haven’t been to the coast of Taiwan.”

Mitigation is really about avoiding the unmanageable and adaptation is about managing the unavoidable.” (ADOREI!)

“I believe one of the best ways to get a message out to the public and to influence decision makers is to use the power of celebrity and the media to deliver the message. My experience is that you can put the brightest scientist or the world’s greatest expert on any given subject in front of people and more often than not, the audience will get glassy-eyed and lose attention. But put a passionate celebrity in front of them delivering exactly the same message, someone the listeners believe they know and relate to, and they will pay attention.”

“The biggest threat of all? Human indifference. The ocean seems a remote place to many people, but it is the life-support system of the entire planet.”

“The world can certainly afford marine reserves. What it can’t afford is to be without them any longer.”

**Publicado também no Faça a sua parte.

  • Ana

    Adorei o post… e a primeira citação diz tudo o que eu penso sobre a minha relação com o mar!

  • @dra_luluzita

    nossa LU
    como sempre traduzindo o amor e respeito pela nossa casa, o oceano =)
    blubl blub blub …