Um dos grandes dilemas shakesperianos da humanidade viajante contemporânea tem sido “viajar ou não viajar para o México (e Caribe em geral) durante a temporada dos furacões, eis a questão”. Discussões acaloradas, repletas de frases feitas da CNN e falácias mórbidas, se avolumam cada vez que um Homo sapiens viajantis anuncia que enfrentará esse desafio tão “grandioso”, algo como se o fulano tivesse de repente acordado e decidido subir pelado o Everest e o K2 na mesma semana sem uso de oxigênio suplementar. Ou seja, quase uma sentença de morte. Afinal, um furacão vai passar ali naquele período exato das suas férias e ponto final.

(Parênteses: Claro que em geral não passa pela cabeça dos que se afligem de viajar para o Caribe neste período que pessoas – milhões, aliás – efetivamente morem na região, passem pela tal temporada de furacões todos os anos, e nem por isso vivam em eterno estado de medo. Nos furacões mais graves, claro que sofrem, perdem e muito, infelizmente, e cabe a nós voltar a visitá-los para que a economia do turismo se levante. Afinal, o furacão passa e destrói, a vida se reconstrói e seguimos em frente, até a próxima. Que não acontecem toda semana, esse é meu ponto. E quando as tempestades pesadas vêm, há previsões, há evacuações de emergência, há abrigos etc. Ninguém mais, na era dos satélites de monitoramento de clima e da internet, é pego no olho do furacão totalmente desprevinido. Se nada se faz para salvar vidas nessas tragédias, a culpa não é da meteorologia e sim da vontade política, como o Katrina bem mostrou. Lembrando ainda que os problemas dos furacões afetam muito mais os moradores da área que os turistas, cuja maior mobilidade tende a facilitar muito mais sua evacuação.)

De modo que, com toda avoação que me é peculiar, quando decidimos ir ao México ver os tubarões-baleia, nem me lembrei pra ser sincera que iríamos em plena temporada de furacões. Foi necessário que uma tempestade tropical se armasse nas Bahamas na semana em que estávamos lá para eu lembrar que, errr, tínhamos escolhido a tal época “errada” para visitar o Caribe. Mas, os tubarões-baleia aparentemente não estão nem aí para tal casualidade natural, e entre os tubarões e os furacões, prevaleceram os animais.

Mas devo dizer que, apesar do ótimo excesso de sol que predominou na viagem, pelo menos um dia teve um clima bem “bipolar”, digamos assim, variando de um extremo a outro em pouquíssimo tempo – e nos dando uma pequena amostragem do quão rápida pode ser a ciclagem da mamãe natureza.

(Parênteses: Eu não gosto de usar o termo bipolar de forma mundana, mas o tempo nesse dia específico teve tantos ups and downs e em tão pouco tempo, que o termo se torna incrivelmente o que melhor reflete a situação.)

Na manhã em que fomos ver os tubarões-baleia, saímos de Puerto Juarez em meio a um calor gostosinho e aconchegante, prelúdio de um belo dia de sol. No meio do caminho, choveu – pouco, mas choveu. Com os tubarões, bem offshore, o sol voltou a reinar (em ambos os sentidos, para mim). Na volta de barco, uma chuva torrencial molhou de novo todos que já haviam se secado.

México na temporada dos furacões

“Chuva? Que chuva?” [Sorriso de tubarão-baleia na cara.]

Meia hora depois, já parados em Isla Mujeres, a tempestade foi embora…

“Tchau, nuvem preta!”

…e em menos de 5 minutos o sol era escaldante de novo.

Aí voltamos pro nosso hotel em Cancún, o Krystal. Calor tropicalíssimo; vamos deixar nossas coisas no quarto e dar um mergulho na piscina para relaxar?

Meia hora depois, já de volta ao quarto, nem parecia que estávamos no mesmo lugar, porque a ventania fortíssima e a tempestade castigou a região. O que eu via da varanda do hotel era esse esfumaçado de chuva torrencial.

À noite, a rua principal de Cancún estava cheia de pontos alagados e Holbox, ali pertinho, teve diversos pontos de inundação.

No dia seguinte, entretanto, o clima deu fortes sinais de melhora – e nós fomos para Cozumel. Mas, ainda para nos lembrar que estávamos no período de furacões, depois de muito sol na chegada em Cozumel, veio uma dessas tempestades “tropicaos” que duram 15 minutos, e inundou a rua da praia. Mas, pelo menos, dessa vez, não pudemos sentir a tempestade por completo. Ganha uma mariola quem adivinhar onde eu me encontrava na hora do “chuvasco”. 😛

Tempestade? Nas minhas costas? Sério mesmo?

Depois disso, vale ressaltar, o sol brilhou incessantemente pelo resto das férias. Viajar ou não viajar? Bom-senso, és a solução.

Tudo de bom sempre.