OBS.: Se você me segue no twitter, talvez este relato seja repetitivo. Mas quero registrar aqui porque este blog é primordialmente meu diarinho, e no futuro esta informação será importante para meus próprios registros e memórias. Leia por sua própria conta e risco. 😛

******

Acordei esta manhã às 6 horas, com as sirenes de alarme das ilhas tocando. Estas sirenes são testadas toda 1a segunda-feira do mês, às 11 da manhã. A gente ouve e continua nossas atividades, porque sabe que é apenas um teste.

Mas ontem à noite, já tinha ouvido no jornal sobre o terremoto no Chile. O homem do tempo Guy Hagi já avisava que a probabilidade de tsunami existia para o Havaí. Ao ouvir as sirenes de manhã cedo, me dei conta que a coisa era séria. Mesmo.

Mapa tirado da National Geographic. O Havaí é aquele ponto vermelho-alaranjado no meio do Pacífico.

Lembrei que houve um alerta de tsunami quando houve o terremoto de Samoa ano passado, mas naquele dia as sirenes não tocaram. As sirenes agora indicavam um problema maior. Aí começou a correria. Como fazemos compras aos sábados normalmente, a casa estava meio depletada – então ir ao mercado era preciso. O dia mal tinha amanhecido. E eu sem tomar café.

Lembrei também que tinha um experimento monstruoso no lab, que precisava ser cuidado. Enquanto André foi pro Chinatown comprar verduras e legumes, eu fui pro lab, dar “comida” pras minhas células. O lab fica num prédio na costa. Estava pondo as luvas pra trabalhar quando a segurança apareceu e praticamente me expulsou do prédio: o campus está fechado. Lá se foi meu experimento.

Passamos então no Walmart, para finalizar as compras. O mercado estava menos cheio do que eu imaginava. Talvez porque arroz, bebidas, água e algumas comidas “de sobrevivência” já tinham acabado nas prateleiras. Voltamos pra casa. Finalmente fiz meu café e tomei. Cafeinócitos a salvo.

Felizmente moro no morro, bem no alto. De casa, percebi que vários barcos estavam no mar. Achei estranho, mas depois soube que houve um pedido da Defesa Civil havaiana para que os barcos fiquem no mar, e não nas marinas, onde caso o tsunami chegue, o dano pode ser maior. Faz sentido. Liguei pros meus estudantes pedindo pra eles ficarem em casa.

Vista da janela aqui de casa. Cada pontinho no mar é um barquinho.

Então na TV começaram a falar sobre as condições do mar, que no Taiti e na Ilhas Marquesas o tsunami já havia acontecido, enfim, um verdadeiro tsunami – de informações, entenda-se. À medida que o horário previsto pro tsunami começar a atingir as ilhas se aproximava, a apreensão no ar aumentava – e um silêncio generalizado parecido com o silêncio depois do 11/set. Dei uma entrevista para a Band News FM.

Mapa do NOAA de modelo de energia das ondas emitidas pelo terremoto do Chile. Tirei do Bad Astronomy.

Foi aí que André e eu, apaixonados pelo mar e por aventuras e com a expectativa de poucos efeitos em Oahu já comentada na TV, tomamos uma decisão de sopetão: ir para o Diamond Head Lookout, que fica num penhasco, para tentar assistir ao tsunami. Movidos por uma curiosidade marinha (e por que não, científica), de ver o mar numa situação tão atípica, pegamos o carro às 10:45 rumo ao local. Meu twitter fervilhava.

Lotação do mar na frente do Diamond Head. Muitos barcos e até umas baleias. 😀

A rodovia H1, que aos fins de semana está quase sempre engarrafada, não tinha quase carro algum. Fomos em menos de 15 minutos até o ponto onde queríamos ficar. Ao chegar lá, uma multidão se aglomerava no topo do penhasco, inclusive diversos carros de reportagem. Todos tiveram a mesma idéia e curiosidade, pelo visto.

No Diamond Head Lookout.

Arranjamos um lugar na mureta para olhar o mar. Nunca vi tanto navio e barco no mar como hoje, dava a impressão de uma mega-regata acontecendo, onde cargueiros também participavam. Duas baleias jubartes passavam. Uma família de turistas canadenses estava ao nosso lado, e pareciam meio preocupados com tanta “ação” no primeiro dia de férias deles – tiveram que evacuar do hotel em que estavam hospedados em Waikiki ainda de madrugada, e agora, em meio a todos ali, entre câmeras, twits, ligações a familiares, sol e sirenes, conseguiam ver baleias. É realmente muita informação para um recém-chegado que queria apenas sombra e água fresca.

Algumas pessoas literalmente subiram o paredão da cratera do Diamond Head para ver o mar revolto.

Às 11:05am, começaram os rumores de que a baía de Hilo estava com o recife de coral exposto, que os peixes estavam no “seco”. Um grupo de havaianos perto da gente ligava o tempo todo para a família em Hilo, com atualizações quase minuto a minuto do que acontecia – pelo visto o telefone deles não era da mesma empresa que o meu, que já estava baleiando há tempos. Um fulano ao meu lado começou a vender água mineral (parecia uma cena de engarrafamento do Rio, naquele momento), enquanto outro cara com um violão andava sozinho pela praia, indiferente a toda a confusão.

Violeiro solitário na praia momentos antes do tsunami.

Às 12:19, o mar começou a recuar. Em menos de 2 minutos, diversas áreas de recifes de coral ficaram aparentes na costa. Dava pra ver nitidamente que o mar estava mais baixo. Nos próximos minutos, porém, o mar começou a “crescer”. Confesso: para alguém que não lida com o mar sempre, parecia que nada mudava. Mas olhos mais acostumados logo detectaram o crescimento em volume das ondas e do quanto elas alcançavam na praia. O tsunami acontecia naquele exato momento.

Ficamos mais uns 15 minutos ali, vendo o mar quebrar com força na praia. O clima era tranquilo, as pessoas estavam bem calmas. Depois decidimos que era hora de voltar pra casa – já era quase uma da tarde. Chegando em casa, dei entrevista para o R7 (via Diego Maia) e pro Globo, pelo telefone.

E fui almoçar, que esta ação toda deu uma fome danada.

**************

Numa análise mais geral, preciso dizer que achei nesta manhã pra lá de atípica a preparação da Defesa Civil, da polícia e das autoridades havaianas muito boa. Às 7 da manhã, já se falava em retirar todos os homeless das praias do estado, evacuar os turistas de todos os hotéis costeiros, enfim, uma preocupação legítima com os mais desamparados de verdade – financeiramente, no caso dos sem-teto, ou porque acabaram de chegar num lugar diferente e não sabem pra onde correr, no caso dos turistas. As sirenes são um alerta excelente, mas, diferente dos moradores acostumados a ouvi-las todo mês, tenho certeza que muitos turistas não tinham a menor idéia do que estava se passando. Nesse ponto, a logística de evacuação com os hotéis e restaurantes das áreas de turismo foi muito boa.

Acampamento de sem-teto em uma das praias da costa oeste de Oahu.

Tsunami no Havaí

(Embora confesso, não deixo de achar interessante ler Carlton Cuse e Jorge Garcia no twitter contando sobre evacuações dos atores de Lost. Jorge Garcia mora em Lanikai, cuja praia vem sendo “devorada” pelo mar já há alguns anos, como pode ser visto na foto abaixo.)

Devo dizer que, se a princípio a reação toda do Havaí me pareceu “exagerada”, preciso recuar (como o mar num tsunami) e reconhecer que não se pode esquecer da história. Foi a destruição deixada por 2 tsunamis no passado em Hilo que levou à instalação, pioneira no mundo, das sirenes de alerta no Havaí, em todas as ilhas em meados da década de 40. E que, por mais que a mobilização depois do evento pareça um estardalhaço desnecessário, é esta evacuação que salva vidas, se o evento acontece mesmo. Portanto, não é exagero: é precaução real; é o governo fazendo o que é sua obrigação-mor: proteger seus cidadãos.

Hilo hoje em dia tem um dique de proteção para evitar (ou pelo menos minimizar os efeitos de) tragédias como a de 1939 e de 1960.

Outra interessante percepção: o quão o twitter foi vital para a propagação das notícias. Em especial, o twitter do Honolulu Advertiser (que ontem ironicamente anunciou que será comprado pelo outro jornal local, o Star Bulletin), que se manteve o tempo todo dando notícias e retweets relevantes e/ou interessantes para a população. O responsável por este twitter merece um prêmio sobre como usar uma rede social de maneira bacana.

No outro lado da balança, uma catástrofe natural sempre traz o melhor e o pior das pessoas. Não tenho reclamações, não ouvi nem li nada muito infame, até as piadinhas foram num pique razoável, sem stress. As pessoas aqui no Havaí estavam calmas e no twitter (pelo menos na minha timeline) a preocupação era, digamos, “normal”. Respondi a maioria das pessoas, tentando mostrar que para a gente tudo estava tranquilo, estávamos apenas numa manhã de sábado bem atípica. Acho que apenas um tweet me impressionou pela virulência, de uma pessoa que me segue mas que eu não conheço ao vivo e não sigo – então foi devidamente ignorado.

Mas o twitter também é palco de muitos boatos infundados. Logo de manhã, teve gente falando na possibilidade de ondas de 30 pés – gente, nem lá no Chile as ondas chegaram a esse tamanho. Então, nesse aspecto, mesmo que a “grande mídia” ainda fique meio perdida quando um acontecimento deste tamanho rola e milhares de pessoas reportam ao mesmo tempo – um tsunami de informações – ela ainda é a responsável por fazer sentido de todo esse tsunami, buscar as fontes mais seguras e reportar com precisão um pouco menos caótica que a população em geral, twittando sem parar. Nesta época de twitpics e livestream, um pouco de parcimônia jornalística não faz mal a ninguém.

Parcimônia esta que as primeiras reportagens que apareceram no Brasil parecem não ter demonstrado. Digo isto porque liguei de manhã logo cedo para casa para dar notícias aos meus pais, dizer que tudo estava bem, para não se preocuparem, etc. e minha mãe e minha tia estavam chorando por causa do que viram no jornal da TV. Sério, jornalistas, sensacionalismo tem limites. Ponham a mão na consciência um pouquinho antes de colocarem qualquer coisa no ar. Acho que isso deve ser ensinado nas faculdades de jornalismo, não?

Por fim, minha vida já é um “tsunami” de fatos bizarros. Agora mais essa: presenciei um tsunami ao vivo. E não sofri nada, felizmente. Passada toda essa confusão, é hora de olhar para quem realmente está sofrendo neste momento: o pessoal no Chile, no Haiti, onde houve muita destruição, onde a tragédia é real, as perdas são gigantescas e pessoas padecem de verdade. Onde não há espaço para “curiosidade marinha” como a nossa – onde a ação positiva é mais necessária e urgente no momento.

Que dias melhores venham para os que sofrem no Haiti e no Chile, vítimas das catástrofes naturais.