Cresci ouvindo a minha vó repetir incansavelmente a frase-título deste post. Bastava alguém ter um ataque nervoso, ficar estressado com algum problema ou começar a chorar de raiva, e lá vinha ela da cozinha com uma xícara de chá de camomila quentinho e adoçada com o carinho que só vó tem pra dar. Era sua maneira fofa de prestar ajuda. Saudades da vovó.

De qualquer forma, o conhecimento que minha vó reteve sobre as vantagens calmantes do chá de camomila foram herança de seus antepassados, que provavelmente sempre tomavam o chá (e o receitavam) em momentos estressantes. Conhecimento popular medicinal de uma erva que se propagou.

Mas aí eu, sua neta, virei cientista. E passou a ser cada vez mais incômodo para mim encarar o chá de camomila da vovó sem desconfiar que sua eficácia não era um simples efeito placebo – shame on me por tal ceticismo desmedido em época que mais valia o carinho da vovó que o efeito da camomila em si para acalmar as minhas aborrescências.

Ontem, entretanto, relembrei com carinho das xícaras de chá de camomila da vovó. Isso porque li no PsychCentral que finalmente um grupo de pesquisadores da unidade de Pesquisa em Depressão da Universidade da Pensilvânia resolveu testar o chá de camomila de maneira científica. Usaram o extrato da planta conhecida como camomila (cujo nome científico é Matricaria recutita) em pacientes que sofriam de forma leve a moderada de transtorno de ansiedade generalizado, uma patologia psiquiátrica caracterizada pelo nervosismo, ao ponto de interferir dramaticamente em suas atividades diárias. E o resultado foi a confirmação da sabedoria popular.

Usando uma escala psiquiátrica desenvolvida para diagnóstico de transtornos de ansiedade, os pesquisadores identificaram um grupo de pacientes para participarem do estudo. Não puderam participar pessoas com histórico de outras doenças psiquiátricas nem com outras “instabilidades” médicas (câncer e insuficiência renal, por exemplo). Os participantes foram monitorados fisiologicamente (exames de sangue, urina, batimento cardíaco, etc.) e submetidos a cada semana do estudo a 4 diferentes questionários/avaliações usadas comumente na clínica médica para indicar sintomas “estruturados” de ansiedade.

Depois de 8 semanas consecutivas, os pesquisadores perceberam uma redução da ansiedade nos pacientes que tomavam camomila em comparação com o grupo que tomou placebo (de verdade), em diversos dos parâmetros medidos. O trabalho criterioso de validação científica de uma planta medicinal foi publicado no Journal of Clinical Psychopharmacology.

Pra ser sincera, achei muito bacana o trabalho. Porque vai atrás da ciência por trás de um conhecimento popular antiguérrimo. Porque confirma as benesses de um medicamento natural – e se lembrarmos que a maioria do que é vendido como “remédio natural” não tem nenhuma validação científica, o estudo se torna mais interessante ainda. É aquela história: em vez de ficar só reclamando da medicina natural, dizendo que é pseudociência blablabla, o grupo foi lá e fez algo para acabar (ou começar de verdade…) com a discussão. Palmas.

De lambuja, o estudo também consolida o velho ditado que a minha vó repetia sempre, sentada na varanda lá de casa, tomando seu chazinho de camomila da noite pra dormir o sonho dos anjos: “quando o povo diz, ou foi ou é ou tá pra ser”.

Vovó sabia das coisas… 😉

Tudo de bom sempre.



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