Minha 3a viagem predileta de escrever está profundamente relacionada com a biologia – e, ironia das ironias, não é um animal marinho, pelo contrário. Mergulhado em fragmentos minúsculos de Mata Atlântica, está uma das maiores preciosidades faunísticas do Brasil e do mundo, o muriqui. Nossa breve visita a Caratinga, relatada em 27 de abril de 2007, foi ao mesmo tempo emocionante e triste. Escrever este post foi também assim, emocionante a cada linha, alegre de ver o quanto o animal é dócil, o quanto podemos aprender com ele; e triste, por saber que tão poucos restam e que o esforço de conservação para sua sobreviviencia precisa ser tão complexo que praticamente inviabiliza-o. Escrevi por necessidade de criar o alerta, com vontade de gritar pro mundo o quanto este animal é precioso, mas ao final do post escrito, sentada na cadeira em nosso apê, imersa em artigos sobre o muriqui, chorei.

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Fim de semana passado eu estava no meio da remanescente floresta Atlântica da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala – mais conhecida entre os biólogos como Estação Biológica de Caratinga. O que me levou até lá foi o interesse por um animal lindo, infelizmente a um pequeno passo de desaparecer da Terra (está na categoria “criticamente ameaçado de extinção” da lista vermelha do IUCN): o muriqui, ou macaco monocarvoeiro.

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Entrada da RPPN Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga (na realidade, em Piedade de Caratinga, cidade vizinha).

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O famoso e raro habitante daquela área.

O muriqui é o maior primata das Américas e é encontrado apenas no Brasil. Há duas espécies desse macaco: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) que vive em MG e ES e tem a cara rosada, e o muriqui-do-sul (Brachyteles aracnoides), presente em SP, RJ e PR, com a cara preta. É o muriqui-do-norte que está mais ameaçado: são pouco mais de 500 indivíduos ao total no mundo. Desses poucos, cerca de 250 deles vivem na reserva de Caratinga, que tem apenas 1000 hectares – um fragmento de mata atlântica em meio a pastos e fazendas de café. O muriqui é essencialmente arborícola: nasce, cresce, vive, alimenta-se e reproduz-se em cima das árvores. Além de movimentar-se muito nelas, é claro. Portanto, é a destruição da mata para pastagens e plantações a maior ameaça a sua sobrevivência, já que sem árvores grandes em cobertura contínua ele padece. E sinceramente, é muito triste pensar que um animal como o muriqui perecerá. A razão pelo qual isso é triste eu deixo pro Luciano Candisani, autor do livro “Muriqui” (2004), dizer:

“Os muriquis, em especial, têm surpreendido os primatologistas pelo comportamento peculiar, se comparado ao das outras espécies de macaco. Maiores mamíferos endêmicos do Brasil (tanto a fêmea quanto o macho chegam a medir 1.5m e pesar 15 kg na fase adulta), não brigam nem pelo domínio de um grupo, nem pela comida, nem pelo acasalamento. Ao contrário organizam-se com base na fraternidade, trocam abraços a todo momento e mantém-se unidos conforme uma espécie de hierarquia que é regida pelo afeto – coisa inusitada entre os briguentos primatas. Ademais, são as fêmeas adolescentes que tomam a iniciativa de largar seus bandos para ingressar em outros grupos.”

Esses macacos são os primatas mais pacíficos conhecidos pela ciência. Vivem numa sociedade em completa harmonia – e durante o período em que estivemos com eles na mata, pudemos ver isso claramente: a todo momento eles se abraçam, brincam, fazem cafuné no vizinho, preocupam-se uns com os outros. Não há competição: há cooperação intensa entre os muriquis. Um verdadeiro exemplo de convivência social aos primatas humanóides.

Entrando no fragmento de Mata Atlântica da RPPN de Caratinga.

Passamos um dia inteiro na mata seguindo os animais. Eles se movimentam bastante, usando o rabo como um quinto membro para se pendurar nos galhos, e nós o avistamos primeiro – com a ajuda do super-guia Jairo, é claro – no topo de um morro (haja perna para subir aqueles barrancos escorregadios…). Alimentavam-se da Mabea fistulifera, uma flor que produz um néctar que eles adoram e cuja densidade florestal é gigantesca no topo de um dos morros da reserva. A Mabea só floresce nessa época do ano, então nesse período, os muriquis visitam as árvores dela constantemente para o banquete efêmero da comida predileta. Local certo de vê-los.

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As Mabeas, alimento preferido pelos muriquis, na árvore.

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Detalhe da inflorescência (conjunto de flores), que contém o néctar açucarado que o animal tanto gosta.

Ficamos por horas com um grupo de 25 muriquis (10% de todos os indivíduos da reserva!) bem pertinho, observando seu comportamento, fotografando, dando risadas com suas brincadeiras, “xingando” alegremente toda vez que eles por brincadeira faziam xixi nas nossas cabeças, e em delírio completo por avistarmos tão amigável e pacato primata. Havia filhotes no bando, e esses são mais desengonçados, usam muitas vezes a mãe como ponte para passar de um galho para outro. Depois de alimentados, os muriquis se deslocaram para áreas mais baixas do morro, para uma sesta básica, e se encolheram em seus galhos. O mais interessante, no entanto, é que o trabalho científico em Caratinga foi/é tão intenso, que os pesquisadores e guias conhecem os muriquis pelo nome (os animais não são marcados ou anilhados): Guga, Fernanda, Nilo, Darlene… foram alguns dos que vimos. Essa nomenclatura veio da cabeça de Karen Strier, pesquisadora americana da Universidade de Wisconsin que dedicou 20 anos de sua vida aos muriquis, vivendo com eles e estudando-os ali, em Caratinga. Estudou tanto que passou a reconhecê-los individualmente, o que facilitou a análise das relações sociais e comportamento dentro dos grupos – Karen mapeou os laços de amizade de maneira precisa. Além de tê-los acostumados à presença humana: nenhum deles fugiu ao nos avistar por entre folhas. Os esforços de Karen, aliados ao dos primatologistas Célio Valle, Russel Mittermeier e Álvaro Aguirre, permitiram que os muriquis não fossem completamente extintos. Batalharam por anos para a criação da reserva – mesmo quando a pressão dos fazendeiros vizinhos para comercializar a madeira que ali restava era enorme. Hoje, alguns pesquisadores ainda se debruçam em questões básicas de comportamento e estratégias de preservação da espécie ali mesmo em Caratinga e em alguns outros lugares do Brasil, onde felizmente a espécie já foi avistada. A estação de Caratinga, pela sua população bem estudada e de maior número, recebe cientistas do mundo inteiro e a agência Conservação Internacional (filial brasileira da Conservation International) está envolvida diretamente na luta pela manutenção do muriqui. No período em que lá estivemos, conhecemos Fernanda, Luísa e Carla, pesquisadoras de doutorado que estão fazendo parte de sua coleta de dados ali. Convivem diariamente com o muriqui, sabem seus hábitos e personalidades, e apesar do trabalho árduo e do isolamento (a estação não tem telefone nem internet, e elas deslocam-se à vizinha cidade de Ipanema para comunicar-se com o mundo exterior), parecem amar estar na RPPN, em contato com animais tão raros e tão dóceis.

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Mas os esforços da Karen teriam sido em vão se, primeiramente, a fazenda não tivesse sido desde sempre mantida intacta. Feliciano Abdala, antigo dono das terras, também possuía outros alqueires na região, que transformou em áreas de plantação. Mas por uma visão ecoambiental privilegiada (e promessa no ato da compra), manteve uma área de mata generosa em suas terras, cerca de 80% da fazenda. Nessa área, hoje, vive o muriqui. Se Seu Feliciano tivesse desmatado tudo naquela época (como o fizeram seus vizinhos), provavelmente o muriqui estaria extinto. Seu Feliciano faleceu em 2000, e hoje a fazenda é cuidada por Ramiro, seu filho. Mas são ainda as palavras de seu Feliciano, lidas no livro do Candisani que citei acima, que ecoaram na minha cabeça por todo o tempo em que interagi com os macacos:

“Eu não tinha a menor idéia do valor e da utilidade científica que essa mata teria no futuro. Durante toda a minha infância, ouvia do meu pai que era preciso cuidar das matas porque o fim delas traria algo de muito trágico. Isso ficou gravado na minha memória. Uma coisa é certa: não podemos retirar da natureza aquilo que jamais poderemos devolver.

Seu Feliciano sabia no fundo que o relincho de um muriqui na mata é um valor que a gente realmente não devolve à natureza, muito menos esquece ou deixa fenecer.

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Tudo de muriqui sempre.

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Para viajar mais com a macacada…

– Há populações de muriquis ainda não completamente aferidas na Serra do Caparaó, na Serra do Brigadeiro e em Santa Maria de Jetibá (ES). A idéia da CI era fazer um corredor de mata atlântica, para que os diferentes grupos desse macaco pudessem se encontrar e misturar seu material genético. O corredor seria uma extensão floresteira que conectaria 4 grandes áreas já protegidas: o Parque Nacional do Rio Doce, a Serra do Caparaó, a Serra do Brigadeiro e a reserva de Caratinga. Em todas essas áreas, há relatos de visualizações de muriquis – em baixíssima quantidade, mas há. Para que isso ocorra, muito mais que logística científica, é necessário boa-vontade política, principalmente entre os fazendeiros da região – e é aí que o muriqui torce o rabo.

- Perguntei a uma das pesquisadoras sobre níveis de endogamia, e ela me respondeu de forma evasiva. Aparentemente, ainda não é alto para ameaçar a espécie (as fêmeas ainda acasalam bastante com machos de grupos diferentes), mas é difícil imaginar que um grupo tão pequeno consiga se manter geneticamente “intacto” numa área fragmentada.

– O governo federal, no ano retrasado, dedicou 1 milhão de reais para retirar o muriqui da lista mundial de animais ameaçados de extinção. Achei interessante essa informação, apesar de ingênua da parte do governo – como se apenas a boa vontade científica dos pesquisadores com suas bolsas fosse suficiente para que o muriqui se reproduzisse mais (e não mais áreas e recursos naturais para ele viver). Não é bom para a imagem internacional do Brasil que o muriqui se extinga, mas muito mais que dinheiro para pesquisa (que também é necessário), o governo faria melhor pela preservação da espécie se convencesse os fazendeiros ao redor da necessidade de reflorestamento. Ou talvez até se comprasse as terras adjacentes e reflorestasse. A esperança é a última que morre…

- A idéia da ONG Preserve Muriqui é transformar o animal num símbolo da preservação brasileira (uma “espécie-bandeira“), como o panda é para a China. Mantida pelos membros da família Abdala, conta com a colaboração de primatólogos e interessados na salvação do animal.

– Além de muriquis, a reserva de Caratinga possui também macacos bugios, macacos-prego e sagüis-da-cara-amarela. Vimos apenas o bugio e o sagüi – os pregos são de difícil interação, contou-nos o mateiro.

UPDATE: O IUCN retirou o muriqui-do-norte da lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo em 26 de outubro de 2007, ou seja, ele melhorou um pouquinho seu status – mas continua criticamente ameaçado de extinção.

  • ernesto

    Lucia
    Gostei da viagem, vou ver se consigo fazê-la;

  • http://luciamalla.com Lucia Malla

    Ernesto, prepare o fôlego pra subir os morros. Mas vale MUITO a pena. Pelo menos para biólogos e interessados em vida animal. :)