…e quem vem celebrar aqui na Sexta Sub é o mamífero símbolo do estado: a foca-monge havaiana.

A foto não é sub, eu sei. Mas é de um animal marinho que mergulha bastante, é endêmico do Havaí e extremamente ameaçado de extinção – pouco mais de 1000 sobraram. Ninguém melhor que a foca havaiana para introduzir minhas parcas considerações sobre essa data, tão representativa quanto celebrada quanto (ainda) controversa.

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A foto acima está exposta no mesmo museu de memorabilia que falei anteriormente. É da primeira página do jornal Honolulu Star Bulletin, no dia 21 de agosto de 1959, quando o Havaí foi oficialmente incorporado à federação americana como estado. Até então, o estado era um território, status que ganhou quando a monarquia se dissolveu em 1893.

A incorporação aos Estados Unidos não foi simples, é claro. Embora tranquila – não houve guerra alguma para tal feito – e fruto de uma votação democrática, um grupo de residentes ainda lutavam contra, tentando unir as ilhas para reconstruir o Reino do Havaí. (Na realidade, até hoje, há facções separatistas inconformadas com a anexação havaiana e que aspiram ao retorno dos herdeiros de Kamehameha ao poder.)

Um dos maiores problemas desde a incorporação do Havaí aos EUA é o dos nativos havaianos. Obviamente, eles estavam aqui primeiro, e logo depois da incorporação, houve uma clara separação da sociedade, com os havaianos sendo prejudicados em diversos níveis pelo poder americano continental que se infiltrou no arquipélago. Para diminuir o gap sócio-econômico entre os havaianos e os não-nativos, foi sugerida em 2005 a Lei Akaka, que basicamente oficializa os havaianos como um povo indígena dos EUA, com os mesmos direitos de minoria dos cherokees ou dos esquimós. Como toda lei, há os favoráveis e os oponentes. Os favoráveis acreditam que estes privilégios são necessários, já que os havaianos perderam tanto desde que os europeus e asiáticos para cá vieram e que os americanos passaram a reger as ilhas; os oponentes acham que a lei gera racismo no estado, já que ser havaiano aqui não é exatamente estar em menor número, pelo contrário (e aqui entra aquele velho chavão de que “minoria é só numérica”, esquecendo que uma minoria social não se conceitua exatamente com base em números, etc). O exercício de futurologia que deixo aqui é: e se o Havaí ainda fosse uma monarquia? Como será que a situação estaria hoje? Quais as diferenças e semelhanças poderíamos ver?

Enfim, divagações à parte, aproveitando as comemorações oficiais de 50 anos do estado, o governo realizará hoje uma convenção aberta à sociedade no Centro de Convenções de Honolulu, onde questões pertinentes à incorporação pretendem ser levantadas, além de proposições para o futuro. Que bons frutos saiam dessa oportunidade democrática de discussão.

Estátua do Rei Kamehameha I no centro de Honolulu.

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Desde o início de agosto, me propus a postar apenas sobre o Havaí em celebração aos 50 anos do estado. Minha intenção não foi falar do lugar-comum que todo mundo já sabe (surfe, hula, vulcões, colares de flores, etc.) e sim trazer um pouco de curiosidades e assuntos colaterais, que não são normalmente associados ao Havaí ou que são esquecidos frente aos temas havaianos chavões de sempre. Deixo aqui a lista dos temas dos posts anteriores deste mês especial, para futura referência de quem passar por aqui.

Humuhumunukunukuapua’a

Cervejas havaianas

‘Okina na língua havaiana

Mergulho com tubarões de Galápagos

Energia geotérmica

Na Pali Coast

Baía de Kealakekua

Terapia com golfinhos

Parque Nacional de Kaloko Honokohau

Estradas havaianas

O cardeal brasileiro que vive no Havaí

A partir de amanhã, voltarei à programação normal de viagens na maionese. 😛

Tudo de bom sempre.

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UPDATE: Um texto bem interessante do Paul Theroux no NYTimes sobre 50 anos de Havaí.

  • Noemia

    Olá Lucia, gostei muito desse texto a respeito do Hawai . Voce foi muito feliz em falar de problemas do Hawai, que não fosse o surf,os colares e outras coisas desse tipo. Começei a me interessar por esse país que deve ser o máximo, depois que conheci um cantor muito popular desse lugar. Vc já ouviu falar em Israel Kamakawiwo’ole? As musicas e a historia desse cantor me impressionaram. Será q vc tem algo mais que eu ainda não saiba sobre ele? (Ah, Tambem já editaram um livro da biografia dele, tem como vc conseguir esse livro pra mim?) Me desculpe a ousadia, mas vc é demais….bjs.