energia de dentro

Há algum tempo, o João me perguntou em um email sobre a existência de usinas de energia geotérmica aqui no Havaí. A pergunta faz todo sentido: com um vulcão como o Kilauea, ativo há mais de 20 anos e sem previsão certa para cessar sua atividade, utilizar de forma inteligente a energia que esse furor todo produz não pode ser uma idéia deixada de lado. Principalmente nos tempos de hoje, em que clamamos por um modo de gerar energia que seja menos poluente e com menor impacto negativo ao planeta.

A energia geotérmica é basicamente aquela que vem das profundezas da Terra. Nosso planeta possui em seu interior, no chamado core central, materiais originados do processo inicial de formação do planeta. Esses minerais estão concentrados em uma temperatura de quase 5,000 graus Celsius, há mais de 6000 quilômetros abaixo da superfície onde moramos. Como todos aprendemos nas aulas da 5a série, calor é uma forma de energia – então imaginem o que há de energia concentrada potencialmente utilizável num ambiente enorme que está a 5000 graus.

Só há um pequeno “probleminha” logístico para usar essa energia que está no interior da terra: como captá-la. Perfurar 6000 quilômetros ainda não é viável. Então fazemos o que nos é possível com a tecnologia que desenvolvemos: captar a energia geotérmica em pontos da crosta terrestre onde esse calor se aproxima mais da superfície. Esses locais são em geral vulcões, fontes hidrotermais e pontos no fundo do solo onde pedras se fundem sob ação da temperatura (mas que não chegam à superfície). Quando não utilizamos o calor dessas áreas, ele é simplesmente perdido para a atmosfera.

E aí que entra o Havaí.

O arquipélago havaiano está “sentado” em cima de um hotspot, uma área onde a atividade geotérmica se aproxima bastante da superfície. As ilhas se formaram pelo escorrer de resquícios minerais aflorados onde estão hoje os vulcões. À medida que a plataforma continental foi se movendo na direção nororeste (rumo ao Kamchatcka!), a lava que escorria foi se endurecendo, formou o solo das ilhas e o que vemos hoje no mapa.

Mas o hotspot permanece no mesmo ponto. Pela existência dele, o Kilauea está em atividade desde 1983, e a lava não para de escorrer um dia sequer desde então – ainda causa estragos. E causa também formação de terra nova, crescimento diário da ilha em alguns centímetros, e expõe sua capacidade geotérmica gigantesca.

…e a ilha só crescendo…

Uma capacidade ainda mal-aproveitada no Havaí, convenhamos. Com todo o potencial disponível, há apenas uma usina geotérmica nas ilhas, a Puna Geothermal Venture, na região de Puna, ao sul de Hilo, bem próxima ao Kilauea. Puna é uma pequena empreitada de caráter privado que retira energia a partir do vapor e da água quente da lava vulcânica. A usina de Puna tem capacidade de geração de 30 megawatts (Itaipu gera 92,000 gigawatts, a título de comparação). Isso corresponde a 31% da geração de energia renovável do estado e a 20% da energia consumida na Big Island, onde está instalada. A maior vantagem de Puna é sua contribuição nas emissões de carbono: praticamente zero. Além disso, 100% dos gases e fluidos geotérmicos que restam do processo são reinjetados na crosta, minimizando o resíduo final da geração de energia.

As fontes geotérmicas que afloram no parque Whakarewarewa, em Rotorua, Nova Zelândia.

Há melhor aproveitamento da energia geotérmica em outros lugares do mundo, como na Islândia, Itália, Filipinas e Nova Zelândia. Afinal, esta é uma opção potencialmente limpa, mesmo que ainda não tão eficiente – ela é renovável. Acho que um investimento mais encorpado nesse tipo de geração de energia trará mais benefícios que estragos ao nosso já tão maltratado planeta. Pondo na balança, é uma opção literalmente quente pro futuro.

Tudo de bom sempre.

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– Viajando mais na energia geotérmica…

1) Semana passada houve uma entrevista interessante sobre energia geotérmica no Havaí na Rádio Pública. O entrevistado foi o gerente da usina de Puna. Nesta reportagem, uma geral sobre a usina no seu aniversário de 15 anos.

2) Vale ressaltar que nem todas as usinas geotérmicas são não-poluentes como a havaiana. A retirada de fluidos e gases do centro da Terra pode descarregar na atmosfera quantidades aviltantes de resíduos tóxicos naturais. Portanto, investimento em usina geotérmica também prescreve investimento em tratamento adequado dos resíduos da extração e da pós-produção de energia, para minimizar a poluição e emissão de gases na atmosfera. Mas a usina não utiliza nenhum combustível fóssil para funcionar, e é aí que mora sua grande vantagem no sistema atual: independência do petróleo e da política que vem atachada a ele.

3) Um texto mais técnico sobre a renovabilidade e a sustentabilidade da produção de energia geotérmica. [Link em pdf]

4) Valeu, João, por instigar o post! 🙂

*Postado também no Faça a sua parte.

  • João Carlos

    Me sinto mais do que recompensado! Depois que eu mandei o email para você, assisti a um desses programas de TV (THC, se não me engano) que mencionava essa usina geotérmica, por extensão do uso do bagaço de cana-de-açúcar (o açúcar era o tema central do programa) nas termoelétricas. E, de quebra, algo sobre fotoelétricas.
    Aproveitando o caixote para deblaterar um pouco, é impressionante como os EUA estão correndo atrás do tempo perdido com o ranço texano de W. Bush Cia. Eu morro de inveja de quem tem um Chu como Ministro da Energia, enquanto nós temos um Lobão…

  • Lucia Malla

    João, os EUA estão correndo atrás, mesmo. Há alguns programas surgindo para incentivo de pesquisa, desenvolvimento e uso de energias alternativas. Ainda bem. 🙂

  • fernanda

    Nossa deve de ser um calor muito grande lá, não é mesmo?