Ainda continuando a conversa do post de ontem sobre conscientização ambiental (que a Aline comentou maravilhosamente em seu blog), me lembrei de um exemplo interessante da equação indivíduo + instituições + economia na solução de um problema ambiental – ou melhor dizendo, na minimização de um problema. O que me fez lembrar disso foi um pedaço do comentário do Dr. Cláudio:

“Mas como provocar uma resposta mais efetiva? Além de fazer doer no bolso dos resistentes, poderia também se criar um meio de ‘prêmio”, “bônus” para quem fizer a ‘coisa certa’.”

Então vamos ao exemplo: energia solar. Aqui no Havaí há um incentivo fiscal considerável para utilização de painéis solares como fonte de energia nas casas e lojas. Ao ponto de existirem conjuntos habitacionais populares com painéis no telhado – vi um outro dia perto de Chinatown. A população vem abraçando a energia solar com animação, e apesar do custo ainda elevado (vem caindo, de acordo com os , os incentivos fiscais (redução de imposto na forma de tax credits de até 35% e corte de taxas, basicamente) funcionam e as pessoas entendem o benefício geral a longo-prazo. Ou seja, o governo fez algo que, ao afetar de forma positiva o bol$o dos contribuintes, tornou a ação individual mais fácil de ser exercida. É um exemplo claro de como uma instituição pode ajudar na rotina do “faça a sua parte” ambiental de cada um. Mas vale também lembrar que houve neste caso pressão popular e econômica para tal mudança: o abusivo preço da energia elétrica no estado, o mais alto de todos nos EUA, gerado pelo aumento do preço do barril de petróleo. Money talks, people walk – ahead, sometimes. Towards the sun.

A partir deste ano, também uma lei entrou em vigor obrigando as novas casas construídas no Havaí a instalarem painéis solares para aquecimento de água. Dessa forma, chegará um momento no futuro em que as residências serão auto-suficientes para o aquecimento da água – ou pelo menos, boa parte delas. (Acho ainda recente para ter dados sobre a economia energética do estado por conta dessa medida, mas não duvido que fará uma diferença considerável para a ilha.) E o dinheiro gasto com conta de luz poderá ser relocado para resolver outros problemas – e para a economia do próprio estado. Que com essa crise, anda mesmo precisando.

Dado que o estado tem sol praticamente o ano inteiro (como boa parte do Brasil, aliás), faz muito sentido adotar essas medidas para melhorar a eficiência energética (pelo menos individual), vocês não acham? Acho um exemplo bacana de como unir governo e ação individual por um benefício comum – ao bolso e ao ambiente. Pode servir de exemplo para outros lugares do mundo, principalmente os mais ensolarados.

Tudo de sol sempre.

Sun

  • André

    Lúcia, entrei de gaiato na discussão, mas vou dar meu palpite. O problema de qualquer nova tecnologia é o custo inicial. Enquanto alguém não consegue produzir aquilo em larga escala ou não tem os incentivos pra botar aquilo no mercado, a tecnologia não engrena.
    Em específico para as novas tecnologias relacionadas a energia alternativa, o problema é que os empresários não investirão porque não há mercado com tamanho suficiente para investimento e porque estas novas tecnologias, no longo prazo, trarão retornos menores do que as fontes de energia atual (isto, do ponto de vista dos empresários).
    Aí é que entra pra mim o papel do governo. Se Obama decide que vai reduzir impostos das empresas que produzem painéis solares, ou melhor, se ele diz que colocará bilhões de US$ em subsídios a elas, veja quantas potenciais empresas aparecerão. Lógico que deve haver a contrapartida (por exemplo, estas empresas disponibilizarem o produto a custo máximo de X dólares), mas o caminho é por aí. O governo cria os incentivos onde eles não existem e a nova tecnologia de energia renovável segue adiante.
    P.S.: com a crise econômica atual, creio que os fundos de venture capital – aqueles utilizados pra financiar produtos inovadores, como, por exemplo, soluções criativas para economia de energia – tenham minguado a quantidade de crédito disponível para novos empreendimentos. Deste modo, o papel do governo fica ainda mais reforçado.
    Abraço,

  • João Carlos

    Me dá até tristeza quando eu leio sobre iniciativas como essa do Hawaii…
    É uma enorme diferença ter como Ministro da(s) (Minas e) Energia, um Steven Chu… Aqui, a gente tem Edson Lobão… (Deve ser mais do que suficiente para um país onde quem tem mais de R$ 50.000 em uma poupança é “capitalista”… 😥

  • aline

    Puxa. Eu fico empolgada com esses programas. Mas como eu disse na caixa de coments pra Madoka, eu acho que as multas e incentivos são medidas legais pra lidar com os cidadãos. Parece que funcionam mesmo e tal. No Brasil eu acho que os projetos de leis são praticamente todos voltados pro agronegócio, pra regulação de áreas protegidas, e todos acabam arquivados ou retificados. Os complexos urbanos e industriais, me parece, ficam à margem. A Marina Silva saiu do ministério 5 dias depois de um de seus maiores projetos ser boicotado, foi um absurdo.
    Cada país acaba delineando suas prioridades, sua maneira de pensar a questão ambiental.
    Vou pegar umas anotações sobre legislação ambiental no Brasil e vejo se vira um post, ou se vira um comentário maior.
    abraço

  • Catatau

    OI Lucia!
    O Bautista Vidal (um dos criadores do pro-alcool) sempre bate o pé em relação à questão do sol, e ainda manifestando que meios alternativos (como o pro-alcool) só não foram efetuados antes por questões políticas e econômicas.
    Aí poderíamos ver algo muito interessante: se não tivéssemos décadas de exploração de petróleo (e dos convencionais), será que a priori o preço dessa exploração seria mais viável do que o das outras energias? Acho muito difícil.
    E agora, quando tudo guina para os alternativos, mas segundo que critérios? É certo que acabarão barateando com o tempo, à medida em que os interesses políticos e econômicos, e também populares, gradativamente se direcionam a isso.
    A questão, sempre, é: a que preço (não econômico, mas ambiental)? É como dizer que no futuro todos usarão muito mais a bicicleta. Isso é certo. Mas, usando essa metáfora da bike, utilizaremos o modelo dos chineses, ou dos holandeses? 😉

  • Cláudio Costa

    Fico feliz por ter ‘animado’ a discussão, fornecendo mote para novo post. A questão do ‘incentivo’ para quem fizer a coisa certa é premissa básica para o processo educacional. Já existem muitos estudos demonstrando que castigo e multa são menos eficazes que reforço positivo na aquisição de novas habilidades ou abandono de práticas indesejáveis. Os governos erram quando utilizam apenas ameaça: veja-se o exemplo tipo “o ministério da saúde adverte”. Afinal, desde Freud se sabe que somos movidos pelo princípio do prazer (e o princípio da realidade vem para colocar ordem nas coisas).

  • Allan

    Lúcia,
    Acho que você tocou dois pontos cruciais: mexer no bolso da massa e criar leis que direcionem as medidas práticas.
    Sim, sou favorável à medida de cobrar mais de quem prefere dar de ombros e premiar quem se esforça, mesmo que pareça antipática. Quanto a criar leis que obriguem a uma prática ecológica, lembro que elas precisam ser fiscalizadas, mas costumam funcionar. A coleta seletiva é uma realidade somente parcial na Itália, pois a fiscalização não funciona como deveria. Vimos algumas situações em que o lixo acaba sendo misturado nas estruturas que deveriam reciclá-lo e vai tudo pro mesmo buraco. Em contrapartida, a lei anti-fumo acabou surtindo um efeito positivo e o número de ex-fumantes só aumenta (saia do bar, discoteca ou restaurante para fumar na neve a -15 ºC que eu quero ver). Mas a lei anti-fumo só funciona porque o dono do bar paga uma multa alta no caso de infração de algum cliente. Ou seja, mais que conscientizar a massa – que julgo necessário, sim – surte efeito a medida que pode sancionar economicamente a infração. Mas para isso precisamos ter administradores capazes e conscientes…

  • André, com a explicação q vc deu, fica mais clara ainda a importância da política governamental. A longo prazo, só o governo consegue esse tipo de mudança, em minha opinião. Principalmente nessa época de investimentos minguados.
    João, não fique triste. É um exemplo pra se inspirar – e inspirar nosso governo, quem sabe? 😉
    Aline, se tem algo q me é nebuloso é a legislação ambiental – pq é cheia de duplos sentidos, loopholes, etc. Vou aguardar seu post com carinho.
    Vc toca num outro ponto importante: os centros urbanos são “largados” na questão ambiental. Como se poluição atmosférica, por exemplo, não fosse um problema ambiental (e de saúde pública, de quebra…). É realmente uma percepção que falta ao governo em geral, e que precisa ser melhor encarada.
    Catatau, excelente contextualização a sua. Pq o petróleo talvez só seja “mais barato” pq é uma tecnologia mais antiga, que já tem toda uma “linha de produção” ajeitada e eficiente. Quando a energia solar, eólica, etc. chegará nesse mainstream? Será q ficará mais cara ainda q o petróleo? É uma verdadeira mudança de “paradigma” da sociedade, não?
    Dr. Claudio, mas, apesar do erro do governo, a campanha do cigarro funcionou. Concordo com vc q o melhor é o incentivo, mas há um ponto q as coisas ficam meio sem alternativas melhores (não é o caso, como o post bem mostra). Ou não?

  • Allan, seu comentário complementa o q fiz ao Dr. Claudio. E acrescenta um ponto: a fiscalização. De nada adianta ter uma lei se ela não é fiscalizada para funcionar. Por isso, mais uma vez, talvez a melhor alternativa seja esse tipo de incentivo. Por exemplo, vai q aqui no Havaí a lei que obriga as casas a terem painéis solares não é fiscalizada; será q as pessoas ainda vão colocá-los nas casas, pensando na economia a longo prazo? Uma boa questão.