Foi a Denise, sempre antenada, que me deixou esse link maravilhoso, com a lista das 50 blogueirAs de ciência imperdíveis em inglês. Em todos esses blogs, trata-se de ciência e das questões de gênero nela pertinentes; ou seja, as diferenças, os preconceitos e o valor de ser mulher na hora de fazer ciência.

A lista é ótima. Alguns blogs eu já conhecia, a maioria é novidade, e estou aos poucos adicionando os que gosto mais ao meu GReader. Como toda lista, abre espaço pra divergências deliciosas. Eu, por exemplo, senti falta ali de três mulheres que considero inspiradoras:

1) PhD Mom, cujo blog-diarinho é um retrato bem explícito das dificuldades das mulheres na ciência e o quanto o fato de ser mulher pode pesar nas muitas políticas departamentais e de financiamento;

2) Grrl Scientist, uma ornitóloga que, quando não está falando de aves ou mostrando fotos lindas em seu blog, mergulha fundo nas questões que envolvem o distúrbio bipolar, já que sente na pele muito do preconceito da sociedade com essas pessoas que não são nada malucas.

3) Miriam Goldstein, oceanógrafa que trabalha com os efeitos ecológicos do lixo particulado “invisível” gigante que está boiando no Pacífico entre o Havaí e a costa oeste dos EUA. Embora seu blog não comente muito sobre questões de gênero, seu exemplo e garra são inspiradores para as mulheres na ciência. Especialmente para mim, que adoro cheiro de água do mar. 🙂

Mas gostaria de aproveitar a data e fazer algumas colocações aqui mais gerais sobre mulheres na ciência.

Há algum tempo li um estudo que comentava que, se um artigo científico era enviado para os revisores em esquema duplo-cego – ou seja o revisor não sabia o nome dos autores do artigo – as chances de autores do sexo feminino terem suas idéias aceitas para publicação aumentavam. Na análise estatística feita pelo estudo, a representação feminina aumentava em 33% naquele jornal, o que se aproximava mais ao aumento visto no número de estudantes que se inscreviam nos programas de PhD daquele campo (37%). O jornal percebeu, dessa forma, que quando os revisores sabiam o nome dos autores do artigo a ser revisado, a representação feminina caía. Ou seja, um artigo que era bom o suficiente para ser publicado podia ser negado à publicação porque a autoria era de uma mulher.

O estudo ilustra um fato na ciência: as mulheres precisam ser muito mais excepcionais para conseguirem chegar nos mesmos cargos/resultados acadêmicos que os homens, pelo menos se nos basearmos nos indicadores que possuímos. Um estudo de 2007 mostrou algo similar mas não de forma duplo-cega, como feito no experimento acima, e sim analisando a carreira de 168 profissionais, homens e mulheres, por mais de 20 anos. Concluíram, analisando o número de citações e corrigindo pelas auto-citações, que enquanto os homens produziam artigos em maior quantidade (o que gera mais artigos de qualidade inferior), as mulheres produziam menos artigos, mas de melhor qualidade (conclusão que este outro artigo já esboçava em 1996). Dessa forma, julgar a carreira de um cientista baseado apenas na quantidade é incongruente, e o estudo sugeria então, um novo índice que englobasse a qualidade das publicações do autor ao valor de seu trabalho. Assim, as diferenças intrínsecas na forma como homens e mulheres encaram o trabalho acadêmico seriam relevadas e teríamos um parâmetro mais “neutro”.

Mas, mesmo com trabalhos de melhor qualidade, as mulheres continuam largando a ciência mais que os homens – ou melhor, a academia, passando a lidar com ciência de outras formas menos frustrantes. Porque são intimidadas em um ambiente em geral hostil a elas. Porque precisam trabalhar mais que os homens para ter o mesmo cargo. Porque precisam se esforçar mais que os homens para conseguirem os mesmos benefícios que eles conseguem mesmo produzindo trabalhos de menor qualidade.

Muitos blogs da lista que a Denise me passou parecem tratar exatamente desta questão: as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no ambiente acadêmico. Principalmente em áreas consideradas “masculinas” como as engenharias – mas nem de longe restritas a essas.

Aqui nos EUA, este é um assunto exaustivamente discutido, mas ainda não completamente solucionado. Uma consequência colateral prática da detecção destas “desigualdades” nos EUA foi, por exemplo, o aumento das atividades administrativas para as (poucas) mulheres no comando de departamentos acadêmicos. Na ânsia de ser “igualitário”, todas as comissões agora querem incluir mulheres. Mas como elas em geral ainda são em menor número nos departamentos, tendem a acumular proporcionalmente mais responsabilidades que os homens (vejo isso no departamento que trabalho). Ou seja, voltamos à estaca zero. É necessário aumentar o número de contratações de mulheres – e para isso, voltamos à necessidade de avaliar a qualidade das publicações no índice que calcula o valor de um profissional para a instituição.

Será que um dia esses obstáculos acadêmicos intrínsecos ao “ser mulher” desaparecerão? Confesso que sonho com esse dia, quando neurônios e competência serão os itens de real importância na carreira acadêmica e no sucesso científico de todos, sem exceção de gênero, raça ou qualquer outro elemento distrativo.

Estas são as questões que deixo para reflexão neste 08 de março, dia internacional da mulher.

Tudo de bom sempre.

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– Hoje vai rolar um debate sobre “homem, mulher e meio ambiente” lá no Faça a sua parte. Não perca! E entre na conversa, que parece que será proveitosa.

– Aproveito para deixar também (de novo) o link do vídeo da palestra da oceanógrafa Sylvia Earle, desta vez legendado em português pela Xará lá no blog dela. Tirem 18 minutos do dia de vocês para assistir, vale a pena. Um excelente exemplo de mulher que faz a sua parte pela divulgação científica de uma causa mais que necessária: os oceanos. Que ressoe a mensagem: sem o azul, não há o verde.