Mais uma vez Sergio Leo me põe na berlinda. Pior: no meio de uma discussão de família – departamento em que não se deve meter o cavaco alheio. Mas gente fina que ele é, decidi satisfazer sua curiosidade. Afinal, quer tirar comigo uma dúvida simples sobre a origem do ‘ukulele, aquele instrumento musical parecido com um cavaquinho que os havaianos tocam em seus luaus e encontros na praia. Então respondo tranquila – e espero imensamente que ninguém seja deserdado na família Leo por conta deste post. 😛

Disse Kid, primo do Sergio Leo:

“Quando estava na American Chamber, apareceu-me um empresário havaiano que queria exportar pamonhas que ele produzia, envolvidas em folha de bananeira e amarrada com tiras da folha. Disse-lhe que aquilo aqui não era novidade. Bom de papo, fomos almoçar e ele me falou da forte influência portuguesa na cultura havaiana: idioma, culinária, hábitos, etc. Entre outras coisas, contou-me que o ukekele, instrumento nacional deles, era uma evolução do cavaquinho que os portugueses levaram para o arquipélago. E disse ainda que o cavaquinho chegou lá depois de passar pelo Brasil. Portugas de uma leva de imigrantes que chegou ao Recife não gostaram do lugar e reemigraram para o Havaí! Levando o cavaco, naturalmente.”

Sinceramente, eu já tinha ouvido essa história, mas não me empolguei em saber se era verdade ou não. Agora, que a bola foi levantada e o Havaí é minha morada, resolvi investigar. Está aí minha resposta; espero que suficiente para tirar os primos do imbroglio.

A influência portuguesa na cultura havaiana é um fato: boa parte dos havaianos têm sobrenome português. Meu professor de havaiano era Keoki Faria – é comum encontrar pessoas com nome tipicamente havaiano (Kapua, Kaneolani, Lahela, Ka’ahumanu, entre outros) e sobrenome português (Carvalho, Pereira, Silva, Arruda, etc.). Fora os sobrenomes portugueses que foram com o tempo alterados ou anglicizados porque simplesmente os havaianos não conseguiam falar, mas que continuam por aqui, no estilo “parece-que-não-é-mas-é” português. Um pesadelo genealógico, provavelmente.

Entretanto, nem só nos nomes a influência portuguesa aparece. Muito comum aqui são as “malasadas”, que nada mais são que os nossos sonhos. Em qualquer padaria do Havaí, você come sonhos deliciosos como se estivesse no Brasil. Bastante comum também são o que os havaianos chamam de “Portuguese sausage”, que nada mais é que a conhecida linguiça portuguesa temperada; ou o Vinha D’alhos, escrito assim mesmo nos restaurantes mais visitados de Waikiki.

Letreiro luminoso de uma padaria em Kapahulu, bairro de Honolulu. Bem que eles tentaram escrever em português, salpicando acentos para todos os lados…

Entretanto, diferente do Brasil, os portugueses que vieram para cá eram trabalhadores braçais e foram empregados nas plantações de cana-de-açúcar da ilha (e não senhores de engenho, como no Brasil). A maioria deles chegou no Havaí em navios de bandeira britânica na virada do século XIX-XX. Não eram escravos, mas eram serviçais, posição bem diferente dos “dominadores” que ocuparam o Brasil, que chegaram em suas próprias caravelas de “reis do mar” três séculos antes. Foi a decadência do império português que “empurrou” os mais pobres do país a migrarem. Entretanto, por serem europeus, os portugueses que chegavam ao Havaí eram tratados diferentes: tinham uma posição mais confortável na sociedade como trabalhadores que os asiáticos, por exemplo. Tinham direito a casa, 1 acre de terra e foi dada a eles a oportunidade de obter a cidadania local se quisessem – um “privilégio” negado aos asiáticos em geral que também estavam aqui para trabalhar em plantações.

Além disso, a maioria dos portugueses que fixaram residência no Havaí vieram das áreas ilhéus de Portugal: Madeira e Açores, locais de clima muito parecido com o havaiano. Poucos portugueses vieram de Lisboa ou do Porto, diretamente. Pelo registro histórico que achei na web, as videiras da ilha de Madeira na virada do século foram infestadas por um fungo que destruiu as plantações e, consequentemente, a economia local, o que levou os madeirenses a quererem sair de lá em busca de um futuro melhor.

Sergio Leo deve estar se perguntando: “mas… e o ‘ukulele?”

De acordo com o ‘Ukulele Guild of Hawai’i, o primeiro instrumento, uma “braguinha” (típica da ilha de Madeira) chegou ao Havaí em 1879 a bordo do navio Ravenscrag, que veio direto de Madeira. Duas semanas depois de chegarem, o jornal local reportava que “Madeirenses recém-chegados aqui têm encantado a população com concertos noturnos de rua, (…) com uma música doce, feita num instrumento que é uma mistura de violão com banjo”. Manuel Nunes, José do Espírito Santo e Augusto Dias, marceneiros e músicos que estavam no Ravenscrag, resolveram então começar a construir o instrumento utilizando a madeira disponível nas ilhas na época, a koa, e comercializá-lo. A koa dava ao instrumento uma sonoridade peculiar e aos poucos o instrumento foi se “modificando” até chegar ao que é hoje. Os três portugueses são considerados os pais do ‘ukulele.

O som do ‘ukulele encantou o rei havaiano Kalakaua, que requisitava concertos com frequência aos seus súditos. Um dos assistentes do rei tocava o tal “violão português” de maneira muito ágil, e como seu apelido perante o rei era ‘Ukulele (que significa “pulga saltitante” em havaiano), terminou batizando sem querer o instrumento.

Hoje, o instrumento já se popularizou como “identidade havaiana”, sempre acompanha apresentações de hula (esta sim, uma dança nativa havaiana), em geral na variante ‘ukulele elétrico. É sem dúvida a maior contribuição portuguesa à cultura das ilhas do Pacífico.

A história do ukulele

‘Ukulele elétrico

Portanto, de acordo com a história que li no site do ‘Ukulele Guild (e apoiada por outros links deste post), não houve ligação alguma com o Brasil na história do ‘ukulele. Tanto o cavaquinho quanto o ‘ukulele beberam na fonte portuguesa para serem inventados, mas não dependeram um do outro para aparecer. São instrumentos análogos, para usar um jargão biológico.

Espero ter respondido a questão. Agora, Sergio, pode tirar a mão do pescoço do Kid, senão você sufoca o moço. 😀

Tudo de bom sempre.

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P.S.: O ‘okina ( ‘ ) é uma letra do alfabeto havaiano, com uma sonoridade típica. A palavra ‘ukulele (fala-se ukuLÊle) tem portanto 8 letras, começando com um ‘okina. Assim como Hawai’i tem um ‘okina entre os dois “i”s. Esta informação foi um oferecimento especial de “curiosidades do nosso vasto mundo by Lucia Malla”. 😛

  • aiaiai

    Bom, agora, depois do post do sleo e do seu, eu sei tudo sobre cavacos e ´ukulele. Até mais do que gostaria…mas foi um bom começo de domingo. Tudo de bom pro cê ai no Hawai´i. (reparou que adorei saber da letra okina! kkkkk)

  • Marcus

    Com esse “serviço” tão bem feito, espero ter em breve alguma dúvida sobre o Havaí, para me socorrer de você… :^D

  • Nat

    Acho que a única conclusão que todos tiramos desse, do post do Serginho e dos comentários do kid é que o Paul realmente manda muito mal no ukulele e, provavelmente, também no seu instrumento-parente, o cavaquinho hehehehe

  • sleo

    Vai para a revista semanal lá do Sítio, Lucia, você sempre supera as expectativas! (-;
    Só uma correção também genealógica: os Leo são o ramo materno da família (onde meu avô Miguel Leo, aliás, tocava cavaquinho); esses que estão discutindo são o ramo paterno, os Almeida Pereira, os Almeida Peixoto, os Queiróz Mattoso. Como dá para intuir, tudo com o mais puro e luso sangue azul. Azul de metileno, como dizia minha mãe.

  • Leila

    Lúcia, aqui em Sacramento também tem muito descendente de açoreanos. A mulher do meu cunhado é neta, sobrenome Fernandes. Mas a influência deles na culinária da região é mínima, a não ser por uns dois ou 3 restaurantes num raio de 100 milhas. No entanto eles têm um clube e também uma igreja onde rolam festas típicas como a “matança” (onde os pratos são porco, linguiça, sopa de couve, etc).

  • Alline

    Sergio Leo, eu conheço Queiroz Mattoso lá em Quissamã, Campos, aquela região ali?
    Lá tem tb os Almeida Cunha…
    Será vc da mesma familia?
    Óia eu aqui no blog alheio tentando descobrir conhecidos…hahahaha.
    Lúcia, lá na Ilha de Páscoa eles tb tocavam ukulele! Vi um espetáculo lindíssimo lá, com música e dança.
    Beijocas

  • Nat

    Alline, vc é irmã da Louise? Se vc estiver falando da Renata e do Vicente, sim, eles são parentes meus e do Serginho…

  • aiaiai, valeu! Excelente semana pra vc tb! 🙂
    Marcus, manda ver! Se eu souber, respondo; se não souber… passo! 😛
    Nat, concordo em gênero, número e grau! 😀
    Sergio Leo, fuça mais q quem sabe não aparece um membro longínquo da família q resolveu se havaianizar… pode ter um primo seu andando por Honolulu, já pensou? 😛
    Nossa, Leila, interessante isso, hem? Será q eles chegaram aí depois do Havaí ou antes? Migraram daqui ou vieram de Portugal direto pra California?
    Alline, acho q esse ‘ukulele da ilha de Peascoa foi “importado” daqui…
    Beijos a todos!

  • Cynara

    Lúcia eu adoro vir aqui…sempre aprendo.Um beijo daqui de Manaus.

  • Gilmar

    Li toda materia, e gostaria de saber se voce sabe mais a respeito desse instrumento, tais como afinação e o comprimento da escala??

    • luciamalla

      não sei mesmo, Gilmar…

  • Harrison Muzzy

    Sensacional a explanação sobre o ‘Ukulele. Estive na Leonard’s Bakery em Honolulu e provei as malasadas. São de fato o nosso “sonho” ainda que achei muito gordurosa. Detalhes sobre a Leonard’s. Lá encontramos pão doce daqueles de “padarias de portuga” do Rio. Noutro dia, vendo um episódio da série “Five-0” (Havaí 5-0) a personagem Kono Kalakaua recomendou as malasadas da Leonard’s.. hehe ! Abraço, Harrison Muzzy.

    • Harrison, o Hawaii 5-0 sempre mostra essas peculiaridades do Havaí. É que muita coisa, pra quem não conhece, passa desapercebido, mas sempre tem uma referência interessante. E as malasadas do Leonard’s… merecem estar no show, né? Nota 10 total. 😀