A frase-título deste post não é minha e também não foi dita por um ecochato qualquer. Foi dita por Sir Nicholas Stern, economista consultor do HSBC e autor do imprescindível Relatório Stern, publicado em 2006. O relatório Stern mapeou os impactos econômicos das mudanças climáticas pelo mundo. Infelizmente, o aquecimento global é um fato do nosso tempo: a temperatura do planeta já subiu 0.7ºC e inevitavelmente subirá mais 1ºC, mesmo que paremos agora de emitir todo e qualquer CO2 (tarefa impossível, como sabemos). Da aceitação dessa realidade inevitável, uma série de problemas em cascata pipocam para nossa vida atual e futura, e a dos demais seres que também habitam este planeta.

(Parênteses: a mídia gosta de falar em “aquecimento global”, mas eu prefiro falar em “mudanças climáticas”. Ambos os termos são usados para o mesmo fenômeno, mas aquecimento pode confundir o leigo a achar que o planeta inteiro irá se aquecer de maneira uniforme, o que não é verdade. Tecnicamente, haverá um aquecimento geral, mas prevê-se que algumas regiões específicas do planeta sofrerão invernos mais turbulentos. Então o termo “mudanças climáticas” se encaixa melhor no atual transtorno bipolar do clima. Vale ressaltar que, entretanto, usar “aquecimento global” é um termo mais massificado pela mídia geral, e por isso as pessoas estão mais acostumadas a ele. O que importa, no fim das contas, é reverberar a informação, independente de que termo você prefira.)

Pensemos por exemplo na fome. Milhões passam fome no planeta e é um problema antigo complexo, fruto de um desequilíbrio sócio-econômico repleto de causas diferentes, mas que a priori independe do aquecimento global. Precisamos ajudar os que têm fome agora? Sim, sem dúvida. Mas se não fizermos nada pelo clima hoje, o número de famintos tende a se multiplicar em níveis extraordinários, como consequência das mudanças climáticas, tornando o problema da fome como um todo mais complexo ainda de ser solucionado. As previsões são de que os mais afetados num primeiro momento serão aqueles que moram em regiões mais sujeitas às mudancas climáticas e que gerarão o maior número de refugiados ambientais se nada for feito: África, Sudeste Asiático e ilhas do Pacífico. Que já são lugares onde há muita gente passando fome. Portanto, para pensar em soluções para a fome hoje e como saná-la pra sempre, é fundamental encaixar o aquecimento global na equação.

E como a fome, outros tantos problemas, como perda de biodiversidade, miséria, crescimento econômico etc., aparentemente desconexos do clima, serão exacerbados pelas mudanças de temperatura que estão por vir (algumas já chegando). Por isso é fundamental que daqui pra frente, em TODOS os aspectos de política, economia, sociedade e tomada de decisão que formos analisar pro futuro, pensemos em mudanças climáticas. Foi isto pelo menos que o evento “Mudanças climáticas globais” de 6a e 2a passadas na sede da FAPESP em São Paulo enfatizou.

A probabilidade de aumento da temperatura foi mostrada de forma otimista por Sir Stern, que falou em economiquês, é claro, a única língua que mexe nos bolsos dos homens de poder para que se mobilizem e façam algo de concreto com relação a um problema. Em sua palestra “Towards a global deal on climate change”, Stern apresentou a seguinte tabela de fácil entendimento:

A porcentagem indica o risco de ocorrer mudanças climáticas graves com os níveis de CO2 atmosféricos indicados no eixo Y. Atualmente temos 384 ppm (and counting…). 1ºC de aumento de temperatura já vai acontecer de qualquer forma (100% de probabilidade), por isso não se mostra na tabela. Um dos debatedores argumentou que essas probabilidades são muito otimistas (“muito difícil manter abaixo de 500 ppm na atual conjuntura”, foi o que disse), porque não levam em consideração o metano liberado no permafrost que se derrete nem o limite de absorção de CO2 pelos oceanos. Indeed.

O risco que corremos como espécie se deixarmos o aquecimento global de lado e/ou fingirmos esquecê-lo (e continuar entupindo a atmosfera de CO2) é muito grande. Fazer algo para mudar esse perfil, mesmo que nos custe uma porcentagem do PIB, é como comprar uma apólice de seguro: nos garante um futuro menos perturbado, um pouco mais tranquilo. A gente precisa diminuir as emissões de CO2 já para diminuir a probabilidade destes eventos de risco acontecerem.

Foi essa a mensagem central que Sir Nicholas Stern deixou em São Paulo anteontem. Seus cálculos sugerem que em média perderíamos 1 a 2% do PIB se tomarmos uma atitude agora com relação às emissões de CO2, nem que seja pelo menos estabilizá-las. Há dados mais pessimistas (que os cientistas acreditam mais realistas) que falam em perdas de 5-20% do PIB médio das nações, mostrando que o prejuízo econômico pode ser bem maior – dependerá das interrelações complexas do sistema e como a natureza responde a tudo. Mas um fato é certo: maior ainda será a perda no PIB se nada for feito. Essa é uma das poucas certezas deixadas na palestra: é preciso agir agora.

Mudança climática

Não fazendo nada (ou fazendo muito pouco, como estamos agora), o mundo “paga” em média 2 trilhões de dólares por ano, na forma de investimentos perdidos. A ação ideal seria de um acordo global que já indique limites de emissão para o mundo todo até 2015, estreitando os números de emissões até 2030. Por Stern, se não houver pelo menos um corte geral de 50% das emissões até 2050 com um comprometimento dos países mais ricos em cortar 80% de suas emissões, o caos econômico-social-ambiental será instaurado. Seria ideal que os países se comprometessem com tal acordo – essa será a sugestão que alguns governos preparam para a Conferência Mundial de Negócios sob Mudanças Climáticas, que acontecerá em maio de 2009 em Copenhagen.

A idéia é termos uma média per capita de 2 toneladas de emissão de CO2/ano. Os dados usados na palestra parecem ter sido os de 2002, em que o Brasil tem 1.9, a Europa 10 a 12 toneladas, e os EUA 20 toneladas de CO2 per capita. (Dados mais recentes publicados pela Union of Concerned Scientists mostram um painel um pouco diferente.) A baixa emissão brasileira, entretanto, não nos abstém de encarar o problema: é daqui que sai o grosso das queimadas (Amazônia e cerrado basicamente) do mundo. E o número é per capita, lembremos bem: quanto maior a população, mais diluído o valor. (O que só aumenta ainda mais o problema nos EUA, por outro lado.)

Em sua palestra no evento da FAPESP, Martin Parry, antigo co-presidente do IPCC e um dos agraciados com o prêmio Nobel, brilhantemente colocou questões científicas e reforçou esperanças ao falar do grande poder de adaptação humana. Devemos encarar a realidade aquecida e nos comprometer com os objetivos a curto e médio prazo para evitar uma recessão econômico-ambiental generalizada. O professor Vicente Ramos trouxe informações positivas sobre como a Argentina está lidando com alguma das mudanças climáticas já verificáveis em seu território – e o quanto da economia se movimentou com as soluções encontradas. Stern finalizou segunda-feira com a excelente análise sobre os impactos econômicos mais visíveis das mudanças climáticas.

Nas 3 palestras, confesso que me impressionei com a clareza dos fatos apresentados – sim, o mundo vai mudar, e pra bem pior se não fizermos nada – e principalmente com a constatação do quanto as pessoas estão inertes ao problema. Em estado de negação mesmo, no estilo mais freudiano da coisa. A humanidade parece que entrou numa bolha e finge não escutar o que milhares de cientistas já estão vendo – e outros milhões de pessoas em locais desafortunados já estão sentindo na pele. Mas para a maior parte das pessoas, a solução é colocar os óculos cor-de-rosa e continuar queimando seu combustível sem stress. Não sei vocês, mas para mim a pior realidade na vida é mil vezes melhor que viver na ilusão. O mundo dói, mas prefiro tentar achar um remédio que ficar sentindo dor. A realidade, para mim, conclama a todos para refletirem sobre suas ações, a descobrirem formas de pressionar por uma melhora política ambiental hoje e no futuro, e para pelo menos passarem os olhos no último relatório do IPCC, disponível online. A participarem desse momento crucial de nossa história ambiental.

As certezas que ouvi da boca de tão aclamados entendedores do assunto foram marcantes. Martin Parry, por exemplo, que liderou o grupo II de trabalho do IPCC (responsável pelas questões de adaptações possíveis ao problema) mostrou uma tabela que reproduzo aqui (em letras maiores, pode ser encontrada no site do IPCC):

Todos as previsões mostradas na tabela acima são fundamentadas por dados científicos (os numerinhos sobrescritos após cada frase são referências para artigos científicos citados no relatório 2007 do IPCC). Detalhe: cada problema foi analisado apenas sobre o efeito da temperatura. O que isso quer dizer é que por exemplo, prevê-se que os recifes de corais serão esbranquiçados a partir de 2ºC de aumento da temperatura global, e que tal situação pode levar ao colapso do ecossistema marinho. Mas o que isso significa para as populações humanas que dependem de recifes de corais para sobreviver? Provavelmente entrarão em crise, e aparecerão nos dados de pobreza e fome, quiçá de refugiados ambientais. Falta olhar portanto para a tabela de forma integrada. O que torna tudo mais assustador ainda.

Mas também foi revelado um grau de otimismo apaziguador, principalmente no aspecto tecnológico e de investimento. José Goldemberg, secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo, mostrou um gráfico que deve levantar os ânimos mercadológicos (ele não disse na palestra de onde tirou esses dados):

Sendo os números absolutos: petróleo = 1; carvão = 4; hidroelétrica = 3; eólica = 61; etanol = 188; fotovoltaica = 754.

Mesmo sem saber se são por ano, se são do Brasil ou do mundo, dá pra perceber que as fontes renováveis limpas têm uma capacidade de gerar empregos muito maior que as fontes não-renováveis. Não só isso: o potencial de crescimento e geração dos chamados “empregos verdes”, ou seja, aqueles que envolvem direta ou indiretamente eficiência energética, é muito promissor. Setores como tecnologia, agricultura sustentável, indústria e administração são os mais vislumbrados.

Para mim, a mensagem é clara: cortar as emissões de CO2 e gases de efeito estufa nos permitirá não só evitar grandes catástrofes, como um mundo ambientalmente mais limpo pode gerar mais empregos – o que alivia os efeitos da recessão. É pelo viés verde, valorizando a reciclagem, diminuindo o desperdício, usando energia limpa e cortando emissões de CO2, que acredito no crescimento econômico futuro. A prosperidade é possível – ainda. Basta, como disse Stern, “ser claro e transparente” ao divulgar os dados e a magnitude real do problema climático que enfrentamos. Vivenciaremos a 3a revolução industrial que já se plota para a história: a Revolução Verde.

O planeta é a nossa casa, a única que temos de verdade. Não percamos a oportunidade de arrumá-la, limpá-la e deixá-la em condições decentes para receber as gerações futuras.

Tudo de verde sempre.

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– Esse post sai hoje, 05 de novembro de 2008, dia histórico para o vencedor da eleição mais esperada dos últimos tempos, em homenagem às minhas próprias esperanças por um futuro melhor e mais verde, sempre, materializadas na forma da escolha de Barack Obama como presidente dos EUA. Mesmo quando todos apontam o pessimismo, são dias como hoje, cheios de realidade otimista, que me reforçam a certeza de que podemos conhecer dias melhores, menos poluídos. Basta nos unirmos e fazermos a nossa parte como seres humanos, cada um a seu jeito, mas com um objetivo em comum: a manutenção do ambiente saudável. Boa sorte, Obama!