Se um dia você for ao Havaí, perceberá que a frase do título do post talvez seja, depois de “Aloha” e “Mahalo“, a mais fácil de ser vista pelas ruas da cidade. Está em adesivos de carro, camisetas, cartazes, na maioria dos lugares onde os havaianos locais (os kama’ainas) frequentam. No início, achei até que era uma marca de alguma coisa – ignorância completa da história heróica por trás de tal afirmação.

E quando se fala a palavra “Havaí” para qualquer ser humano do planeta, um pensamento logo cruza a cabeça de todos: surfe.

Faz todo sentido: as ilhas havaianas são a meca do surfe mundial, com inúmeras praias onde os corajosos podem desfrutar ondas gigantes, pra lá de radicais. Além do mais, o surfe nasceu ali, nessas mesmas praias que hoje são palco dos grandes campeonatos mundiais: surfe é parte fundamental da tradição havaiana.

Pois a frase “Eddie would go” está, como não poderia deixar de ser, relacionada ao surfe. Porque – hoje sei – não dá pra falar de surfe no Havaí sem citar o nome de Eddie Aikau.

Eddie é considerado o maior surfista de todos os tempos. E isso, no Havaí, não é pouco. Junto com Duke Kahanamoku e Israel Kamakawiwo’ole (ou simplesmente Iz), Eddie é um dos representantes roots da cultura e dos valores havaianos. Um verdadeiro mito do Pacífico.

Sua vida foi deliciosamente contada no livro “Eddie would go”, de Stuart Holmes Coleman, que tive o prazer de ler há alguns meses. É um livro não só biográfico, mas também histórico: conta a saga inicial do surfe no cenário mundial, como e quando ele ganhou outras praias além das havaianas, e o papel crucial que Eddie Aikau e sua turma tiveram para tal feito. Aliás, em muitos momentos, a história do surfe se mistura à de Eddie e temos a sensação de que sem ele o esporte não seria o que é hoje.

Eddie Would Go

Eddie Aikau em seu posto de salva-vidas em Waimea Bay, onde ele reinava único. Foto do Honolulu Advertiser escaneada do livro de Stuart Coleman.

Eddie era um homem simples, com pouca educação formal, e na época o salva-vidas de Waimea Bay, um dos points mais radicais de surfe no mundo. Reconhecido na ilha por sua diplomacia inata para lidar com querelas do surfe, destacava-se dos demais pelas poucas palavras e múltiplos gestos de amizade. Tentava apaziguar todas as confusões armadas pelos surfistas de outras bandas que chegavam ao Hawaii (australianos, californianos e sul-africanos, principalmente). Toda vez que uma briga grande se formava, era Eddie Aikau o convocado para conversar com os egos envolvidos. Isso, em tempos de ódio aos haoles, era tarefa árdua, que ele desempenhava com primor exemplar.

Mas o que tirou Eddie Aikau da condição de simples homem para a de herói foi um evento trágico, como não poderia deixar de ser. É fascinante nesse ponto como o livro é conduzido: a introdução pincela em grossas linhas essa tragédia. Aí no primeiro capítulo voltamos no tempo e começamos a entender a vida e a perspectiva do garoto Eddie, que amava o mar e sua raiz havaiana acima de qualquer outra coisa. Quando ao final do livro a tragédia é recontada, a leitura é completamente diferente, porque compreendemos agora o homem atrás do mito – e isso arranca lágrimas, confesso.

Waimea Bay, a “casa” de Eddie no North Shore havaiano.

A tragédia foi um acidente no mar, local que Eddie considerava sua casa. Um esforço antropológico, científico e político queria mostrar que os polinésios há centenas de anos conseguiram chegar às ilhas havaianas não por acaso, mas por conhecimento detalhado da navegação no Pacífico. Isso sempre fora uma teoria até então, mas chegara o momento em que se queria provar essa hipótese. Começou então a construção do Hokule’a, uma típica canoa de navegação polinésia. A primeira viagem feita em 1976 conseguiu chegar sã e salva no Taiti, usando apenas instrumentos rudimentares e reproduzindo as condições dos antigos donos do Pacífico. Entretanto, havia um barco de apoio, que viajou com eles sem dar palpites – era o Hokule’a quem decidia a rota e, a não ser que errassem por muito, o barco de apoio levantaria a voz. Após uma viagem cheia de brigas internas mas bem sucedida em seu objetivo final, decidiu-se que se provaria de uma vez por todas a rota dos polinésios da forma mais roots possível: dessa vez o Hokulea viajaria sem o barco de apoio. Eddie foi então convidado para essa segunda jornada. O Hokulea saiu pro mar então pela 2ª vez no dia 17 de março de 1978 do píer de Honolulu e 5 horas depois, na passagem do canal próximo à ilha de Molokai, a canoa virou devido a uma tempestade e os tripulantes perderam controle total da situação. Sem rádio para pedir ajuda, muitas horas depois de nenhum sinal de avião ou navio por perto, Eddie corajosamente pegou sua prancha de surfe e se dispôs a nadar até a ilha de Lanai, que ele supostamente achava estar próxima. Desapareceu no mar, e seu corpo nunca foi encontrado – o restante da tripulação foi salvo depois que um avião de passageiros percebeu o pedido de SOS vindo do mar e passou sua localização ao resgate havaiano. Mas ali, naquele acidente, nasceu o mito Eddie Aikau.

Porque ele não desistiu de ajudar seus companheiros e mostrou a coragem que o povo havaiano até hoje venera com relação ao mar. De modo que, nos anos subsequentes, além de inúmeras homenagens pela ilha, um campeonato de surfe foi montado em Waimea Bay pela Quiksilver e se chama “Quiksilver Big Wave Invitational In Memory of Eddie Aikau“. Nesse campeonato, somente os melhores surfistas do planeta são convidados a participar e as condições das ondas na baía chegam a níveis insanos para que o torneio seja realizado – é aventura radical para pouquíssimos enfrentar aqueles paredões de água.

E aí, no campeonato Eddie Aikau de 1986, as ondas estavam impossíveis de serem surfadas para qualquer pessoa. Os organizadores debatiam se o campeonato deveria ou não ser cancelado, porque o mar urrava desastre, se seria seguro que os surfistas fossem para a água naquelas condições. Foi quando Mark Foo, um dos especialistas em surfe de ondas gigantes, disse para um cameraman que estava por ali: “Eddie would go”. A frase ficou e virou símbolo de uma tradição e de uma tribo. O exemplo da coragem de um havaiano sobre o mar pelo qual dedicou sua vida e a jogou nele. Eddie went to the sea and became a Hawaiian legend.

Tudo de surfe sempre.


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Para viajar mais…

– Os herdeiros de Eddie Aikau recentemente arrumaram confusão no North Shore havaiano por questões de uso da imagem.

– Um post do Alohapaziada sobre a “gang” que queria profissionalizar o surfe em 1974, história que é contada detalhadamente no livro de Stuart.

– Dá pra ler (e ver) todo o surf report de Waimea Bay nesse link aqui, atualizado diariamente.

Postado em 09/09/2008 por em Havaí, Livros, Oahu, Surfe
  • Lou

    Desculpe, mas o comentário é sobre o seu post do dia 5. Estou morando no Amazonas há 8 anos e ainda não entendo como pode a vida na região ser tão diferente: a da capital e a do interior mais próximo (que dirá dos distantes) a ela.
    Todos os seus posts são ótimos. Um abraço.

  • Tiago

    Oi Lucia, gostei muito do post. Só uma observação sobre a ironia das coisas: o mesmo Mark Foo, que construiu essa frase clássica, morreu 8 anos depois em Mavericks, considerada a “Waimea californiana”. Um adesivo de “Mark Foo would go” talvez fosse uma homenagem bacana por lá. Um abraço!

  • Leila

    Essa história é muito interessante mesmo, eu tinha lido sobre as circunstâncias da morte dele há um tempo atrás. Daria um filme.
    Ah, você recebeu o meu e-mail há um tempo atrás?
    bjs

  • Lou, obrigada de coração. 🙂
    Tiago, não sabia dessa história do Foo, não! Aliás, incrível essa ironia da vida. Mark Foo would go as well.
    Leila, não recebi email seu… Te enviei um comentário há um tempo já, vc recebeu?
    Beijos aos 3.

  • cristian

    Ótimo texto,aprendi um pouco sobre a historia de Eddie Aikau,tava procurando info sobre o campeonato da quick e me deparei com seu super texto cara,valeu.